Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

A ARTE DE FAZER FRASES

O ser humano, ao longo da existência, vai fazendo frases e mais frases, a menos que seja mudo. Fazê-las é uma arte e muitas delas ficaram registradas na História, ao passo que outras tantas revelam pobreza de espírito ou falta de imaginação. Alguns frasistas se tornaram célebres graças ao talento para esculpir em poucas palavras uma situação ou traçar a caricatura de certos personagens. São os que o povo rotula de bocas malditas, bocas do inferno etc., temidos e evitados.

Desde priscas eras as frases ecoam pelos tempos, sempre lembradas e repetidas. Júlio César e sua “alea jacta est”, ao cruzar o Rubicon proibido, não apenas são lembrados como se tornaram justificativas para graves decisões. Outros, mais recentes, nunca são esquecidos. “Governar é abrir estradas”, proclamava Washington Luís, sem perceber que abria caminho para Vargas e seus seguidores. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, gritavam os udenistas, até que deixaram de ser vigiados e acabaram com a liberdade. “Um país se faz com homens e livros”, escreveu Monteiro Lobato, numa frase sempre repetida, muitas vezes de forma errada. Guimarães Rosa, frasista incomparável, fez inúmeras, duas delas merecendo lembrança: “Toda saudade é uma espécie de velhice” e “Viver é um descuido prosseguido.” Nelson Rodrigues indignou as mulheres ao afirmar que “só as normais gostam de apanhar.” O inesquecível Barão de Itararé, por sua vez, afirmava que “entre o céu e a terra existe muito mais que os aviões de carreira.” Stanislaw Ponte Preta batizou a televisão para sempre: máquina de fazer doidos. Jânio Quadros, justificando-se por ter desinfetado a poltrona onde o açodado FHC, candidato por ele derrotado, havia sentado: Fi-lo porque qui-lo! E o magistrado de dantes, refutando argumentos da parte: Tudo são logomaquias de uma inextrincável fraseologia metafísica.” Não se esqueça também do ex-senador Jaison Barreto ao definir a política atual como “uma suruba partidária.” A lista seria interminável.

Mas existem outras frases, dessas sem dono, que surgem não se sabe de onde e passam a circular com freqüência sem que as pessoas percebam o quanto são feias, desagradáveis e ocas de conteúdo. E o mais interessante é que quase sempre são repetidas como demonstração de modernidade ou elegância. Alguns exemplos que me ocorrem: fazemos oposição com a cabeça e não com o fígado (imaginem se fosse com o fígado!); estamos trabalhando em cima de (não seria melhor trabalhar em baixo, com proteção?); a nível de Brasil; nós, enquanto brasileiros; um beijo em seu coração (Argh!); bom dia, flor do dia!; manjar dos deuses; programa de índio; linda de morrer; o Brasil precisa de um choque disto ou daquilo; com certeza etc. etc.

São frases que nada dizem mas que se tornaram comuns pela força da repetição. Empobrecem e enfeiam a linguagem. Mas lutar contra elas - para repetir outra frase - é dar murro em ponta de faca.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/09/2019 às 11h24 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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A ARTE DE FAZER FRASES

O ser humano, ao longo da existência, vai fazendo frases e mais frases, a menos que seja mudo. Fazê-las é uma arte e muitas delas ficaram registradas na História, ao passo que outras tantas revelam pobreza de espírito ou falta de imaginação. Alguns frasistas se tornaram célebres graças ao talento para esculpir em poucas palavras uma situação ou traçar a caricatura de certos personagens. São os que o povo rotula de bocas malditas, bocas do inferno etc., temidos e evitados.

Desde priscas eras as frases ecoam pelos tempos, sempre lembradas e repetidas. Júlio César e sua “alea jacta est”, ao cruzar o Rubicon proibido, não apenas são lembrados como se tornaram justificativas para graves decisões. Outros, mais recentes, nunca são esquecidos. “Governar é abrir estradas”, proclamava Washington Luís, sem perceber que abria caminho para Vargas e seus seguidores. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, gritavam os udenistas, até que deixaram de ser vigiados e acabaram com a liberdade. “Um país se faz com homens e livros”, escreveu Monteiro Lobato, numa frase sempre repetida, muitas vezes de forma errada. Guimarães Rosa, frasista incomparável, fez inúmeras, duas delas merecendo lembrança: “Toda saudade é uma espécie de velhice” e “Viver é um descuido prosseguido.” Nelson Rodrigues indignou as mulheres ao afirmar que “só as normais gostam de apanhar.” O inesquecível Barão de Itararé, por sua vez, afirmava que “entre o céu e a terra existe muito mais que os aviões de carreira.” Stanislaw Ponte Preta batizou a televisão para sempre: máquina de fazer doidos. Jânio Quadros, justificando-se por ter desinfetado a poltrona onde o açodado FHC, candidato por ele derrotado, havia sentado: Fi-lo porque qui-lo! E o magistrado de dantes, refutando argumentos da parte: Tudo são logomaquias de uma inextrincável fraseologia metafísica.” Não se esqueça também do ex-senador Jaison Barreto ao definir a política atual como “uma suruba partidária.” A lista seria interminável.

Mas existem outras frases, dessas sem dono, que surgem não se sabe de onde e passam a circular com freqüência sem que as pessoas percebam o quanto são feias, desagradáveis e ocas de conteúdo. E o mais interessante é que quase sempre são repetidas como demonstração de modernidade ou elegância. Alguns exemplos que me ocorrem: fazemos oposição com a cabeça e não com o fígado (imaginem se fosse com o fígado!); estamos trabalhando em cima de (não seria melhor trabalhar em baixo, com proteção?); a nível de Brasil; nós, enquanto brasileiros; um beijo em seu coração (Argh!); bom dia, flor do dia!; manjar dos deuses; programa de índio; linda de morrer; o Brasil precisa de um choque disto ou daquilo; com certeza etc. etc.

São frases que nada dizem mas que se tornaram comuns pela força da repetição. Empobrecem e enfeiam a linguagem. Mas lutar contra elas - para repetir outra frase - é dar murro em ponta de faca.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/09/2019 às 11h24 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.