Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A AVASSALADORA PRESENÇA DO MAL

Escritor australiano, Morris West é dos maiores sucessos de crítica e público do século passado. Vários de seus livros alcançaram tiragens impressionantes e “As sandálias do pescador” vendeu mais de 60 milhões de exemplares, número impensável no Brasil. Suas memórias,- “Do Alto da Montanha” (Record – Rio – 6ª. ed. – 2003) - conquistaram posição destacada num gênero sem muitos leitores entre nós. Elas retratam um homem de fé católica, ex-seminarista, sempre ligado à Igreja e preocupado com os mistérios de Deus. E suas memórias, no correr de quase todo o livro, circulam em torno dessas questões transcendentais. Sendo assim, é um homem otimista, cheio de certezas e esperanças a respeito da vida futura.

Às vezes, porém, espraiando o olhar pelo mundo, ele vacila e questiona. “Quanto mais penso a respeito dessas coisas, mais assustado fico pela crua realidade, o mistério obscuro e repetitivo da maldade no mundo. Nada aprendemos com o holocausto, o genocídio em Kampuchea, com as longas e sangrentas agonias da guerra no Oriente Médio. Por que é assim? Por que nós, criaturas racionais, agimos tão perversamente, tão destrutivamente? O que produz essa monstruosidade? O que a mantém viva e se reproduzindo?” – indaga ele (pág. 124). Examina em seguida a questão da tortura que campeia por esse mundo e para a qual a imensa maioria das pessoas se limita a encolher os ombros. “Ela é planejada por seres inteligentes para chegar à total degradação de uma pessoa humana, o aniquilamento da vontade e da dignidade mediante o exercício da crueldade baseado na suprema indiferença e na ilusória onipotência” (pág. 125). Ficou deveras chocado quando um industrial brasileiro não apenas justificou os “esquadrões da morte” como informou que ele e seus colegas financiavam essas atividades (pág. 134). Claro que se tratava de um cidadão prestante, modelo de virtudes, assíduo frequentador de cultos e generoso colaborador de entidades sociais. Diante disso tudo, conclui o memorialista: “Fui forçado a concluir – embora com relutância – que o homem é um animal enlouquecido, dedicado, por um quase universal impulso para a morte, à sua própria destruição” (pág. 138).

Creio que Morris West não conhece a “teoria” de Monteiro Lobato. Segundo ela, o ser mais elevado criado por Deus foi o macaco. Ele vivia feliz e livre, despreocupado e alegre, pulando de galho em galho. Até que um deles, errando o cipó, caiu com a cabeça numa pedra e nela se desenvolveu um estranho tumor – o cérebro humano. Seus infelizes descendentes começaram a nascer com cérebros e deu no que deu. Enquanto isso Deus, com seu imenso “sense of humour” deixou as coisas correrem para ver o que aconteceria. Com certeza está estarrecido mas entende que ainda não chegou o momento das providências. 

Escrito por Enéas Athanázio, 07/10/2019 às 14h16 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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A AVASSALADORA PRESENÇA DO MAL

Escritor australiano, Morris West é dos maiores sucessos de crítica e público do século passado. Vários de seus livros alcançaram tiragens impressionantes e “As sandálias do pescador” vendeu mais de 60 milhões de exemplares, número impensável no Brasil. Suas memórias,- “Do Alto da Montanha” (Record – Rio – 6ª. ed. – 2003) - conquistaram posição destacada num gênero sem muitos leitores entre nós. Elas retratam um homem de fé católica, ex-seminarista, sempre ligado à Igreja e preocupado com os mistérios de Deus. E suas memórias, no correr de quase todo o livro, circulam em torno dessas questões transcendentais. Sendo assim, é um homem otimista, cheio de certezas e esperanças a respeito da vida futura.

Às vezes, porém, espraiando o olhar pelo mundo, ele vacila e questiona. “Quanto mais penso a respeito dessas coisas, mais assustado fico pela crua realidade, o mistério obscuro e repetitivo da maldade no mundo. Nada aprendemos com o holocausto, o genocídio em Kampuchea, com as longas e sangrentas agonias da guerra no Oriente Médio. Por que é assim? Por que nós, criaturas racionais, agimos tão perversamente, tão destrutivamente? O que produz essa monstruosidade? O que a mantém viva e se reproduzindo?” – indaga ele (pág. 124). Examina em seguida a questão da tortura que campeia por esse mundo e para a qual a imensa maioria das pessoas se limita a encolher os ombros. “Ela é planejada por seres inteligentes para chegar à total degradação de uma pessoa humana, o aniquilamento da vontade e da dignidade mediante o exercício da crueldade baseado na suprema indiferença e na ilusória onipotência” (pág. 125). Ficou deveras chocado quando um industrial brasileiro não apenas justificou os “esquadrões da morte” como informou que ele e seus colegas financiavam essas atividades (pág. 134). Claro que se tratava de um cidadão prestante, modelo de virtudes, assíduo frequentador de cultos e generoso colaborador de entidades sociais. Diante disso tudo, conclui o memorialista: “Fui forçado a concluir – embora com relutância – que o homem é um animal enlouquecido, dedicado, por um quase universal impulso para a morte, à sua própria destruição” (pág. 138).

Creio que Morris West não conhece a “teoria” de Monteiro Lobato. Segundo ela, o ser mais elevado criado por Deus foi o macaco. Ele vivia feliz e livre, despreocupado e alegre, pulando de galho em galho. Até que um deles, errando o cipó, caiu com a cabeça numa pedra e nela se desenvolveu um estranho tumor – o cérebro humano. Seus infelizes descendentes começaram a nascer com cérebros e deu no que deu. Enquanto isso Deus, com seu imenso “sense of humour” deixou as coisas correrem para ver o que aconteceria. Com certeza está estarrecido mas entende que ainda não chegou o momento das providências. 

Escrito por Enéas Athanázio, 07/10/2019 às 14h16 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.