Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

GUERREIRO DO POVO

 Ao terminar a leitura dos originais de “Lobato Letrador”, de Zoler Zoler, tive que respirar fundo. Leitor de Monteiro Lobato de longa data, devo reconhecer que jamais encontrei tão volumosa massa de informações e análises a respeito dele e sua obra como nestas compactas páginas (mais de 700).

Misto de biografia e ensaio, sem ser uma coisa ou outra, o livro é um enfoque sui generis de Lobato, sua obra e sua ação. Todas as fases de sua existência são evocadas, sempre lastreadas nos próprios textos da obra ou em sólidas fontes de informação, revelando preocupação com as datas e lugares para bem contextualizar os acontecimentos. Mostra o empenho do escritor na busca de uma expressão própria, individual e única, um estilo pessoal e inigualável. Revela a dedicação com que realizou a chamada obra adulta, procurando a linguagem que falasse ao leitor e o prendesse na leitura. E, mais tarde, ao perceber a penetração de sua literatura infantil, optar por ela, lamentando não ter escrito mais para as crianças.

O livro não se contenta em examinar a obra literária e o pensamento de Monteiro Lobato, o que já não seria pouco. Vai além. Comenta toda sua incansável atividade nos mais variados campos de ação. Evoca o Lobato escritor, fazendeiro-empreendedor, Promotor Público e advogado, jornalista, criador da literatura infantil brasileira, editor e fundador da indústria livreira, combatente pelo ferro e pelo petróleo, propagandista, tradutor, incentivador atuante de memoráveis campanhas em favor das florestas, do saneamento, das estradas, da difusão do livro e outras tantas. Enfim, um homem público sem cargos – como afirmou Edgard Cavalheiro.

As antecipações e premonições de Lobato, apontadas no correr do livro, são impressionantes. Sem conhecer Pedagogia, ele se adiantou a seus métodos mais modernos, tais como os pregava a Escola Nova, de Anísio Teixeira; sem conhecer Semiótica, intuiu suas lições, inclusive nos aspectos mais avançados, como o do sabor, ao imaginar o livro comestível, o livro-pão, que seria devorado após a leitura e poderia entrar tanto na casa do sábio como na do analfabeto. Para completar, foi precursor do Letramento, muito tempo antes do surgimento da própria palavra com tal sentido por volta de 1980. A centelha do gênio permitiu que seu olhar invadisse o futuro.

Acima de tudo, porém, a autora mostra que Lobato foi um educador, um professor, um letrador, e que sua preocupação permanente foi a de educar o seu povo. Em certa fase, depois de visitar uma escola, chegou a pensar que sua verdadeira vocação seria a de professor. Em suas iniciativas editoriais, muitas delas arriscadas para a época, avultava sempre o desejo de educar. Inundar o país de livros, interessar as pessoas pela leitura, empurrar o livro goela abaixo, como as mães faziam ao dar óleo de rícino às suas crianças. Porque – dizia ele – o livro faz homens e um país se faz com homens e livros. Para isso, mesmo escandalizando os mais conservadores, anunciava seus livros através dos jornais e usava táticas de “merchandising” então inusitadas, obtendo resultados impressionantes. Tratou de colocar seus livros diante dos olhos do leitor, em toda parte, fosse nas livrarias e nos açougues, nas vendas e nos verdureiros.

Como letrador, criou o método pessoal de ensinar brincando, de aprender sem esforço, de transmitir provocando a imaginação e a fantasia e de estudar sem sentir, e assim induzindo a criança à leitura. Graças a isso, sua literatura para crianças ganhou o país e o mundo. Condenava o horror dos livros escolares secos e áridos em que os alunos se viam obrigados a decorar nomes e datas que pouco diziam e pregava uma renovação que deixasse de lado o ultrapassado método da “decoreba” para o qual saber “era ter na ponta da língua.” Em conclusão, Lobato revolucionou o ensino sem entrar em sala de aula, como professor, salvo nas conferências em prol de suas campanhas, e que realizava com grande timidez. Como se não bastasse, inspirou nas crianças o espírito democrático através do ambiente libertário do Sítio do Picapau Amarelo, presidido por uma mulher sábia e iluminada, num exemplo inédito de valorização da mulher.

Para compor esse livro monumental, a autora examinou tudo que existe sobre Lobato em livros, teses, ensaios, revistas, jornais e na Internet. A bibliografia estudada é impressionante e creio que nada escapou. Mesmo trabalhos publicados em periódicos de pouco alcance ou por editoras regionais foram examinados e todos os  autores identificados em breves currículos.

A leitura do livro vale como informação e recapitulação. Nele Lobato aparece por inteiro. Trata-se, enfim, de um livro para morar, como ele desejava que fossem os verdadeiros livros. Com ele, a autora traz uma contribuição sem precedentes aos estudos lobatianos.

Em quatro alentados volumes, publicados por Tagore Editora/Tupy Publishing, de Brasília, o livro foi lançado nos primeiros dias de 2019, ano em que a obra de Lobato caiu em domínio público.

(Prefácio ao livro “Lobato Letrador”, de Zoler Zoler, em quatro volumes, aqui publicado em homenagem à Autora, falecida no dia 20 de setembro, em Brasília. Arquiteta, professora universitária, artista plástica e escritora, foi profunda conhecedora da vida e da obra de Monteiro Lobato. Ainda moça, seu desaparecimento precoce consternou o meio literário).

Escrito por Enéas Athanázio, 21/10/2019 às 10h08 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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 Ao terminar a leitura dos originais de “Lobato Letrador”, de Zoler Zoler, tive que respirar fundo. Leitor de Monteiro Lobato de longa data, devo reconhecer que jamais encontrei tão volumosa massa de informações e análises a respeito dele e sua obra como nestas compactas páginas (mais de 700).

Misto de biografia e ensaio, sem ser uma coisa ou outra, o livro é um enfoque sui generis de Lobato, sua obra e sua ação. Todas as fases de sua existência são evocadas, sempre lastreadas nos próprios textos da obra ou em sólidas fontes de informação, revelando preocupação com as datas e lugares para bem contextualizar os acontecimentos. Mostra o empenho do escritor na busca de uma expressão própria, individual e única, um estilo pessoal e inigualável. Revela a dedicação com que realizou a chamada obra adulta, procurando a linguagem que falasse ao leitor e o prendesse na leitura. E, mais tarde, ao perceber a penetração de sua literatura infantil, optar por ela, lamentando não ter escrito mais para as crianças.

O livro não se contenta em examinar a obra literária e o pensamento de Monteiro Lobato, o que já não seria pouco. Vai além. Comenta toda sua incansável atividade nos mais variados campos de ação. Evoca o Lobato escritor, fazendeiro-empreendedor, Promotor Público e advogado, jornalista, criador da literatura infantil brasileira, editor e fundador da indústria livreira, combatente pelo ferro e pelo petróleo, propagandista, tradutor, incentivador atuante de memoráveis campanhas em favor das florestas, do saneamento, das estradas, da difusão do livro e outras tantas. Enfim, um homem público sem cargos – como afirmou Edgard Cavalheiro.

As antecipações e premonições de Lobato, apontadas no correr do livro, são impressionantes. Sem conhecer Pedagogia, ele se adiantou a seus métodos mais modernos, tais como os pregava a Escola Nova, de Anísio Teixeira; sem conhecer Semiótica, intuiu suas lições, inclusive nos aspectos mais avançados, como o do sabor, ao imaginar o livro comestível, o livro-pão, que seria devorado após a leitura e poderia entrar tanto na casa do sábio como na do analfabeto. Para completar, foi precursor do Letramento, muito tempo antes do surgimento da própria palavra com tal sentido por volta de 1980. A centelha do gênio permitiu que seu olhar invadisse o futuro.

Acima de tudo, porém, a autora mostra que Lobato foi um educador, um professor, um letrador, e que sua preocupação permanente foi a de educar o seu povo. Em certa fase, depois de visitar uma escola, chegou a pensar que sua verdadeira vocação seria a de professor. Em suas iniciativas editoriais, muitas delas arriscadas para a época, avultava sempre o desejo de educar. Inundar o país de livros, interessar as pessoas pela leitura, empurrar o livro goela abaixo, como as mães faziam ao dar óleo de rícino às suas crianças. Porque – dizia ele – o livro faz homens e um país se faz com homens e livros. Para isso, mesmo escandalizando os mais conservadores, anunciava seus livros através dos jornais e usava táticas de “merchandising” então inusitadas, obtendo resultados impressionantes. Tratou de colocar seus livros diante dos olhos do leitor, em toda parte, fosse nas livrarias e nos açougues, nas vendas e nos verdureiros.

Como letrador, criou o método pessoal de ensinar brincando, de aprender sem esforço, de transmitir provocando a imaginação e a fantasia e de estudar sem sentir, e assim induzindo a criança à leitura. Graças a isso, sua literatura para crianças ganhou o país e o mundo. Condenava o horror dos livros escolares secos e áridos em que os alunos se viam obrigados a decorar nomes e datas que pouco diziam e pregava uma renovação que deixasse de lado o ultrapassado método da “decoreba” para o qual saber “era ter na ponta da língua.” Em conclusão, Lobato revolucionou o ensino sem entrar em sala de aula, como professor, salvo nas conferências em prol de suas campanhas, e que realizava com grande timidez. Como se não bastasse, inspirou nas crianças o espírito democrático através do ambiente libertário do Sítio do Picapau Amarelo, presidido por uma mulher sábia e iluminada, num exemplo inédito de valorização da mulher.

Para compor esse livro monumental, a autora examinou tudo que existe sobre Lobato em livros, teses, ensaios, revistas, jornais e na Internet. A bibliografia estudada é impressionante e creio que nada escapou. Mesmo trabalhos publicados em periódicos de pouco alcance ou por editoras regionais foram examinados e todos os  autores identificados em breves currículos.

A leitura do livro vale como informação e recapitulação. Nele Lobato aparece por inteiro. Trata-se, enfim, de um livro para morar, como ele desejava que fossem os verdadeiros livros. Com ele, a autora traz uma contribuição sem precedentes aos estudos lobatianos.

Em quatro alentados volumes, publicados por Tagore Editora/Tupy Publishing, de Brasília, o livro foi lançado nos primeiros dias de 2019, ano em que a obra de Lobato caiu em domínio público.

(Prefácio ao livro “Lobato Letrador”, de Zoler Zoler, em quatro volumes, aqui publicado em homenagem à Autora, falecida no dia 20 de setembro, em Brasília. Arquiteta, professora universitária, artista plástica e escritora, foi profunda conhecedora da vida e da obra de Monteiro Lobato. Ainda moça, seu desaparecimento precoce consternou o meio literário).

Escrito por Enéas Athanázio, 21/10/2019 às 10h08 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.