Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

VARIADAS (2) - OBRAS COMPLETAS

O diplomata, escritor e linguista William Agel de Mello está publicando suas Obras Completas. Distribuídas em oito encorpados volumes, ela contém os trabalhos de ficção, tradução, ensaios, monografias e artigos, fortuna crítica, orientação sobre teses e o dicionário geral das línguas românicas, além de um apêndice sobre o idioma panlatino a respeito do qual já escrevi nesta coluna.

Como se vê, os temas a que se dedicou o autor são amplos, variando desde obras ficcionais de fôlego, como o romance “Epopeia dos Sertões”, obra que vem merecendo sucessivas análises de renomados críticos, até a tradução de toda a obra poética do poeta espanhol Federico Garcia Lorca e a elaboração de um conjunto de dicionários único da literatura mundial a respeito das línguas românicas, ou seja, derivadas do latim, e o significado dos vocábulos em português. É um trabalho monumental, nunca antes realizado e, pelo que me consta, nem sequer tentado, englobando nada menos que 38 dicionários individuais. Os idiomas dicionarizados vão desde os mais conhecidos, como francês, italiano e espanhol até sardo, mirandês, catalão aragonês e outros. É espantoso o espectro de fontes estudadas para obter semelhante resultando, envolvendo-se com milhões de palavras, muitas delas parecidas mas com significados diversos. E então pesquisando a origem de cada uma e seu real significado para buscar sua correspondente em português. Trabalho que exige uma dedicação fora do comum e um amplo conhecimento das normas linguísticas, em especial das línguas latinas, sob pena de se perder num emaranhado inextrincável. Graças ao esforço de um homem numa tarefa que, a rigor, exigiria a dedicação de muitos, William Agel de Mello enriqueceu sobremaneira a própria língua portuguesa, colocando-a ao alcance de falantes de muitas outras. Não é por acaso que ele vem merecendo as homenagens dos maiores linguistas brasileiros.

Para completar, ele é um excelente ensaísta, tendo produzido trabalhos sobre a Tanzânia, a Namíbia, a África do Sul e outros e nos quais transparece sua vasta experiência diplomática em países onde serviu ao longo da carreira. Por fim, em longo trabalho de doutrinação, ele prega a criação do idioma panlatino, uma nova língua derivada de todas as outras originárias do latim e que poderia se transformar na linguagem geral dos latino-americanos. Guimarães Rosa, numa frase profética, afirmou que essa campanha lhe daria reconhecimento sem igual.

Está de parabéns William Agel de Mello ao ver materializada em oito belos volumes a ampla produção intelectual de toda uma vida. O patrimônio cultural brasileiro também sai enriquecido. Espero que as Obras Completas tenham. a acolhida que merecem.

UM MARCO NO JORNALISMO CULTURAL

Sou associado da União Brasileira de Escritores (UBE) desde 1980. Foi nos eventos lá realizados que conheci Rosani Abou Adal. Desde que me lembro, ela já andava às voltas com a publicação de “Linguagem Viva.” Agora ela nos informa que o jornal está completando 30 anos de circulação. É surpreendente que tanto tempo tenha passado mas é um fato que merece comemoração num país onde veículos de divulgação cultural costumam morrer do mal do sexto número. Nessas três décadas, imagino o quanto de esforço e dedicação foram exigidos para que o jornal estivesse sempre nas mãos dos leitores e divulgando as coisas da cultura. Mas a luta foi compensadora, o “Linguagem Viva” não apenas sobreviveu como se ampliou e melhorou, tornando-se uma das publicações do gênero mais conhecidas do país. Por tudo isso, vão daqui as minhas efusivas felicitações à Rosani e seus colaboradores, com meus votos de longa vida ao jornal e a todos que o fazem. Tenho a satisfação de dizer que sou dos mais antigos colaboradores e as publicações nele feitas muito contribuíram para divulgar o meu trabalho.

60 EDIÇÕES

A Academia Norte-Rio-Grandense de Letras está publicando o sexagésimo número de sua revista. É uma publicação esmerada e sempre com excelente conteúdo. Tem na direção o escritor Manoel Onofre Jr.e como editor Thiago Gonzaga, estampando trabalhos variados, em prosa e verso. A Academia é, sem favor, uma das mais ativas entidades do gênero e o Rio Grande do Norte vive um surto de intensa movimentação cultural e literária, sendo hoje o líder no setor na região nordestina. A Academia foi fundada em 1936 por um grupo de intelectuais, tendo à frente Luís da Câmara Cascudo, figura onipresente na vida cultural potiguar. Seus objetivos eram a cultura da língua, da literatura, das ciências e artes, notadamente da história, sociologia, folclore, crítica, poesia, ficção e comunicações sociais. Como acompanho há muitos anos as ações da entidade, posso afirmar que a Academia tem cumprido à risca as propostas de sua criação. Tanto ela como sua revista estão de parabéns.

Escrito por Enéas Athanázio, 28/10/2019 às 11h44 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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O diplomata, escritor e linguista William Agel de Mello está publicando suas Obras Completas. Distribuídas em oito encorpados volumes, ela contém os trabalhos de ficção, tradução, ensaios, monografias e artigos, fortuna crítica, orientação sobre teses e o dicionário geral das línguas românicas, além de um apêndice sobre o idioma panlatino a respeito do qual já escrevi nesta coluna.

Como se vê, os temas a que se dedicou o autor são amplos, variando desde obras ficcionais de fôlego, como o romance “Epopeia dos Sertões”, obra que vem merecendo sucessivas análises de renomados críticos, até a tradução de toda a obra poética do poeta espanhol Federico Garcia Lorca e a elaboração de um conjunto de dicionários único da literatura mundial a respeito das línguas românicas, ou seja, derivadas do latim, e o significado dos vocábulos em português. É um trabalho monumental, nunca antes realizado e, pelo que me consta, nem sequer tentado, englobando nada menos que 38 dicionários individuais. Os idiomas dicionarizados vão desde os mais conhecidos, como francês, italiano e espanhol até sardo, mirandês, catalão aragonês e outros. É espantoso o espectro de fontes estudadas para obter semelhante resultando, envolvendo-se com milhões de palavras, muitas delas parecidas mas com significados diversos. E então pesquisando a origem de cada uma e seu real significado para buscar sua correspondente em português. Trabalho que exige uma dedicação fora do comum e um amplo conhecimento das normas linguísticas, em especial das línguas latinas, sob pena de se perder num emaranhado inextrincável. Graças ao esforço de um homem numa tarefa que, a rigor, exigiria a dedicação de muitos, William Agel de Mello enriqueceu sobremaneira a própria língua portuguesa, colocando-a ao alcance de falantes de muitas outras. Não é por acaso que ele vem merecendo as homenagens dos maiores linguistas brasileiros.

Para completar, ele é um excelente ensaísta, tendo produzido trabalhos sobre a Tanzânia, a Namíbia, a África do Sul e outros e nos quais transparece sua vasta experiência diplomática em países onde serviu ao longo da carreira. Por fim, em longo trabalho de doutrinação, ele prega a criação do idioma panlatino, uma nova língua derivada de todas as outras originárias do latim e que poderia se transformar na linguagem geral dos latino-americanos. Guimarães Rosa, numa frase profética, afirmou que essa campanha lhe daria reconhecimento sem igual.

Está de parabéns William Agel de Mello ao ver materializada em oito belos volumes a ampla produção intelectual de toda uma vida. O patrimônio cultural brasileiro também sai enriquecido. Espero que as Obras Completas tenham. a acolhida que merecem.

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Sou associado da União Brasileira de Escritores (UBE) desde 1980. Foi nos eventos lá realizados que conheci Rosani Abou Adal. Desde que me lembro, ela já andava às voltas com a publicação de “Linguagem Viva.” Agora ela nos informa que o jornal está completando 30 anos de circulação. É surpreendente que tanto tempo tenha passado mas é um fato que merece comemoração num país onde veículos de divulgação cultural costumam morrer do mal do sexto número. Nessas três décadas, imagino o quanto de esforço e dedicação foram exigidos para que o jornal estivesse sempre nas mãos dos leitores e divulgando as coisas da cultura. Mas a luta foi compensadora, o “Linguagem Viva” não apenas sobreviveu como se ampliou e melhorou, tornando-se uma das publicações do gênero mais conhecidas do país. Por tudo isso, vão daqui as minhas efusivas felicitações à Rosani e seus colaboradores, com meus votos de longa vida ao jornal e a todos que o fazem. Tenho a satisfação de dizer que sou dos mais antigos colaboradores e as publicações nele feitas muito contribuíram para divulgar o meu trabalho.

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A Academia Norte-Rio-Grandense de Letras está publicando o sexagésimo número de sua revista. É uma publicação esmerada e sempre com excelente conteúdo. Tem na direção o escritor Manoel Onofre Jr.e como editor Thiago Gonzaga, estampando trabalhos variados, em prosa e verso. A Academia é, sem favor, uma das mais ativas entidades do gênero e o Rio Grande do Norte vive um surto de intensa movimentação cultural e literária, sendo hoje o líder no setor na região nordestina. A Academia foi fundada em 1936 por um grupo de intelectuais, tendo à frente Luís da Câmara Cascudo, figura onipresente na vida cultural potiguar. Seus objetivos eram a cultura da língua, da literatura, das ciências e artes, notadamente da história, sociologia, folclore, crítica, poesia, ficção e comunicações sociais. Como acompanho há muitos anos as ações da entidade, posso afirmar que a Academia tem cumprido à risca as propostas de sua criação. Tanto ela como sua revista estão de parabéns.

Escrito por Enéas Athanázio, 28/10/2019 às 11h44 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.