Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

JORGE AMADO EM CORPO INTEIRO

Jorge Amado foi dos poucos brasileiros que viveu na plenitude a vida do escritor. Foi profissional das letras e delas tirou o sustento. Nunca quis escrever memórias ou autobiografia. Em sua obra, o livro que mais se aproxima do gênero é “Navegação de Cabotagem”, repertório de recordações de pessoas, lugares e fatos, embora sem a ordem e o método costumeiros. Relatou muito de sua vida em entrevistas mas isso nunca foi organizado e publicado em conjunto. É curioso notar que só teve um biógrafo em vida, Miécio Tati, mas parece que o livro não mereceu boa aceitação e foi pouco comentado.

Agora, porém, surge uma biografia para valer, compensando a ausência de outras. Trata-se de “Jorge Amado – Uma biografia”, de autoria de Josélia Aguiar (Todavia Editora – S. Paulo – 2018 – 635 págs.). Baiana de Salvador, radicada em São Paulo, a autora é jornalista e historiadora. Foi correspondente da “Folha de S. Paulo” em Londres, editora da revista “Entrelinhas” e curadora da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Dedicou nada menos que sete anos à confecção desta obra.

A narrativa tem início nos dias do menino grapiúna correndo solto no meio cacaueiro da Bahia, convivendo com as pessoas e absorvendo a cultura local. Depois, os duros tempos do internato, de onde foge e vai se abrigar na casa do avô, fazendo longa caminhada a pé e sozinho. Acontece a primeira paixão, ardente e arrebatada, mas que acaba em nada. A mudança para o Rio de Janeiro para estudar Direito, entregando-se a intensa militância literária, escrevendo para os jornais, e exercendo grande atividade política. Nesse período faz amplo relacionamento com numerosas pessoas com as quais se cruzará em muitas outras oportunidades.

Com o lançamento do primeiro romance, “País de Carnaval”, tem início a carreira literária. Embora o autor fosse muito jovem e com pouca experiência, o livro desperta a atenção da crítica e agrada aos leitores. A partir daí, não cessa de escrever e publicar. Com o passar dos anos sua obra vai se aprimorando, é muito lida e ele se transforma no escritor mais célebre do país. Viaja muito, conquista prêmios e distinções, seus livros são traduzidos para 49 idiomas. É dos raros brasileiros que enriquece com a literatura.

A militância política não cessa e as perseguições acontecem em vários períodos de nossa confusa vida institucional. Eleito Deputado Federal por São Paulo, tem o mandato cassado em 1948 por decisão da Justiça Eleitoral, em pleno regime democrático e na vigência da Constituição de 1946. Têm início os diversos exílios a que é forçado. Esconde-se em Estância, no interior de Sergipe, onde fica em paz e muito escreve. Mais tarde iria para a Argentina, o Uruguai e Paris, sendo expulso da França por pressão do governo brasileiro, e para Dobris, na antiga Tchecoslováquia. Lá, ele e a esposa Zélia vivem por longo tempo e nasce a filha Paloma. Regressando ao país, vai se afastando da militância política, ingressa na Academia Brasileira de Letras e se muda para Salvador, passando a viver na célebre Casa do Rio Vermelho, à rua Alagoinhas 33. Conhecido em todo o mundo, vive cercado pelos amigos, seus romances são adaptados para o cinema, o teatro e a televisão, e continua viajando. Como diz a biógrafa é ali, na Bahia, que se dá o outono do patriarca.

O pensamento do escritor e suas variações no correr do tempo sobre temas cruciais é abordado pela autora com clareza e segurança, sempre com base em sólidas fontes. Jorge Amado jamais abdicou de suas convicções políticas e formou sempre com as correntes progressistas.

Assim foi, em largas pinceladas, a rica existência de Jorge Amado. A autora esmiúça todas as fases da vida do escritor com impressionante quantidade de detalhes e informações. Para isso se valeu de imensa bibliografia, consultando livros, revistas e jornais velhos, arquivos e documentos, sem falar nas incontáveis entrevistas que realizou e nas constantes releituras da obra do próprio biografado. Rico álbum de fotografias enriquece ainda mais a obra.

Os admiradores do escritor baiano podem ter agora um retrato em corpo inteiro de Jorge Amado e a resposta para todas suas indagações.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/12/2019 às 10h11 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Jorge Amado foi dos poucos brasileiros que viveu na plenitude a vida do escritor. Foi profissional das letras e delas tirou o sustento. Nunca quis escrever memórias ou autobiografia. Em sua obra, o livro que mais se aproxima do gênero é “Navegação de Cabotagem”, repertório de recordações de pessoas, lugares e fatos, embora sem a ordem e o método costumeiros. Relatou muito de sua vida em entrevistas mas isso nunca foi organizado e publicado em conjunto. É curioso notar que só teve um biógrafo em vida, Miécio Tati, mas parece que o livro não mereceu boa aceitação e foi pouco comentado.

Agora, porém, surge uma biografia para valer, compensando a ausência de outras. Trata-se de “Jorge Amado – Uma biografia”, de autoria de Josélia Aguiar (Todavia Editora – S. Paulo – 2018 – 635 págs.). Baiana de Salvador, radicada em São Paulo, a autora é jornalista e historiadora. Foi correspondente da “Folha de S. Paulo” em Londres, editora da revista “Entrelinhas” e curadora da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Dedicou nada menos que sete anos à confecção desta obra.

A narrativa tem início nos dias do menino grapiúna correndo solto no meio cacaueiro da Bahia, convivendo com as pessoas e absorvendo a cultura local. Depois, os duros tempos do internato, de onde foge e vai se abrigar na casa do avô, fazendo longa caminhada a pé e sozinho. Acontece a primeira paixão, ardente e arrebatada, mas que acaba em nada. A mudança para o Rio de Janeiro para estudar Direito, entregando-se a intensa militância literária, escrevendo para os jornais, e exercendo grande atividade política. Nesse período faz amplo relacionamento com numerosas pessoas com as quais se cruzará em muitas outras oportunidades.

Com o lançamento do primeiro romance, “País de Carnaval”, tem início a carreira literária. Embora o autor fosse muito jovem e com pouca experiência, o livro desperta a atenção da crítica e agrada aos leitores. A partir daí, não cessa de escrever e publicar. Com o passar dos anos sua obra vai se aprimorando, é muito lida e ele se transforma no escritor mais célebre do país. Viaja muito, conquista prêmios e distinções, seus livros são traduzidos para 49 idiomas. É dos raros brasileiros que enriquece com a literatura.

A militância política não cessa e as perseguições acontecem em vários períodos de nossa confusa vida institucional. Eleito Deputado Federal por São Paulo, tem o mandato cassado em 1948 por decisão da Justiça Eleitoral, em pleno regime democrático e na vigência da Constituição de 1946. Têm início os diversos exílios a que é forçado. Esconde-se em Estância, no interior de Sergipe, onde fica em paz e muito escreve. Mais tarde iria para a Argentina, o Uruguai e Paris, sendo expulso da França por pressão do governo brasileiro, e para Dobris, na antiga Tchecoslováquia. Lá, ele e a esposa Zélia vivem por longo tempo e nasce a filha Paloma. Regressando ao país, vai se afastando da militância política, ingressa na Academia Brasileira de Letras e se muda para Salvador, passando a viver na célebre Casa do Rio Vermelho, à rua Alagoinhas 33. Conhecido em todo o mundo, vive cercado pelos amigos, seus romances são adaptados para o cinema, o teatro e a televisão, e continua viajando. Como diz a biógrafa é ali, na Bahia, que se dá o outono do patriarca.

O pensamento do escritor e suas variações no correr do tempo sobre temas cruciais é abordado pela autora com clareza e segurança, sempre com base em sólidas fontes. Jorge Amado jamais abdicou de suas convicções políticas e formou sempre com as correntes progressistas.

Assim foi, em largas pinceladas, a rica existência de Jorge Amado. A autora esmiúça todas as fases da vida do escritor com impressionante quantidade de detalhes e informações. Para isso se valeu de imensa bibliografia, consultando livros, revistas e jornais velhos, arquivos e documentos, sem falar nas incontáveis entrevistas que realizou e nas constantes releituras da obra do próprio biografado. Rico álbum de fotografias enriquece ainda mais a obra.

Os admiradores do escritor baiano podem ter agora um retrato em corpo inteiro de Jorge Amado e a resposta para todas suas indagações.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/12/2019 às 10h11 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.