Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

LAMPIÃO ANO A ANO

O cangaço foi um fenômeno típico do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Forma de banditismo organizado, vicejou por um século, atingindo todos os Estados nordestinos. Teve como aliados os grandes espaços abertos, a ausência de cercas e estradas, a população rarefeita e a omissão do Estado. Donos de extraordinária coragem, astutos e cruéis, os cangaceiros formavam grupos poderosos e bem armados, invadiam vilas, pequenas cidades, fazendas e sítios isolados saqueando as propriedades e levando tudo que tivesse valor. Nessas incursões nada respeitavam e eliminavam quem se atrevesse a dificultar suas ações.

Lampião e Maria Bonita (Reprodução)

Muitos foram os bandos de cangaceiros que se tornaram famosos e entraram para a história. Nenhum, porém, alcançou a notoriedade nacional e até internacional como o grupo comandado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1897/1898-1938). As façanhas do cangaceiro nascido em Serra Talhada, Estado de Pernambuco, correram o país e ocuparam grandes espaços da imprensa, inclusive de outros países, durante os vinte anos que durou sua carreira. Sua vida e suas ações, incluindo renhidos combates com as volantes policiais, fugas espetaculares, invasões arrojadas, atos de grande generosidade e de extrema crueldade, os misteriosos esconderijos onde se refugiava sempre despertaram a curiosidade de estudiosos do cangaço e da movimentada existência do cangaceiro. Em consequência, surgiu a respeito do tema uma imensa bibliografia que não cessa de crescer. Entre os livros mais interessantes que tenho encontrado está “A Misteriosa Vida de Lampião”, de autoria de Cicinato Ferreira Neto (Premius Editora – Fortaleza – 2010) e que acabo de ler com grande interesse.

Neste livro o autor faz uma abordagem diferente. Dedica um capítulo a cada ano de atividade de Lampião, cerca de vinte, registrando mês a mês as tropelias que praticou e outros eventos acontecidos com ele e seu grupo. Para tanto consultou imensa quantidade de obras, comparando, sopesando, jornais e revistas, literatura de cordel, mensagens e relatórios oficiais, sites e depoimentos. Trabalho hercúleo e que revela um pesquisador exigente. O livro também é rico em fotografias.

A narrativa tem início com o nascimento de Virgulino, em Vila Bela, atual Serra Talhada, sua infância na companhia dos pais lavradores e, pouco depois, suas atividades como almocreve. Surgem então as primeiras desavenças da família com os vizinhos, forçando inclusive a mudança dos Ferreira. Ainda jovem, Virgulino ingressa no bando do famoso cangaceiro Sinhô Pereira. Dizia ele que assim agia para vingar a morte do pai, assassinado pela polícia, fato muito controvertido. Quando Sinhô Pereira decide abandonar o cangaço e se exilar em local desconhecido, Lampião é designado como seu sucessor e assume o comando do grupo. Desde o início se revela um chefe competente, carismático, inteligente e grande estrategista, além de dono de uma coragem fora do comum. Seu bando prospera, chegando a contar com 100 integrantes, é temido em todo o Nordeste. Enfrenta as volantes em violentos combates, desafia os governos e, segundo comentários, chegou a enviar uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado, ficando ele como dono e senhor do sertão. As invasões e saques são lucrativas e o grupo enriquece. Lampião é vítima de ferimentos, o mesmo acontecendo com sua companheira Maria Bonita. A mobilidade do grupo é fantástica, confundindo as inúmeras volantes policiais que o perseguiam. Suas atividades vão do Rio Grande do Norte à Bahia.

Com o passar do tempo, gera-se um mito em torno do cangaceiro. Para uns é generoso, protetor dos pobres, justiceiro, um Robin Hood das caatingas; para outros é um assassino frio e cruel, capaz das maiores atrocidades, vingativo e ladrão. É considerado invencível e indestrutível, tendo o corpo fechado. Oito vezes sua morte foi anunciada com estardalhaço, mas logo depois ele reaparecia em local inesperado e com toda a força. Os governos estaduais se exasperavam e exigiam que suas forças policiais exterminassem o bando de uma vez por todas. Estas, por sua vez, cometiam toda sorte de arbitrariedades contra aqueles que consideravam coiteiros ou colaboradores de Lampião. O Governo Vargas, depois de 1930, pressionava os interventores estaduais, considerando o cangaço uma vergonha nacional.

Os dados a respeito de Lampião são assustadores. Segundo estimativas, ele matou mais de 1000 pessoas, incendiou mais de 500 propriedades e matou mais de 5000 reses de seus inimigos. Participou de mais de 200 combates com a polícia e violentou mais de 200 mulheres. São informações imprecisas mas devem ter fundamento, considerando-se a violência inaudita com que praticava as invasões e os saques, além do longo período de tempo que durou sua carreira. Existem inúmeros relatos de crimes bárbaros envolvendo o cangaceiro e seu grupo.

Mas tudo tem um fim. No dia 28 de julho de 1938, cercado pela tropa do tenente João Bezerra, no local denominado Grota do Angico, em Sergipe, o grupo de Lampião foi atacado de surpresa e de madrugada. Foram mortos o próprio Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros. Os restantes conseguiram fugir, o que muito me surpreende, uma vez que visitei o lugar em uma de minhas viagens e constatei que só havia uma saída pela qual a volante se aproximou. É um lugar feio, pedregoso, acanhado e com escassa vegetação. Lampião teria sido advertido sobre o perigo que rondava aquele acampamento. A morte de Lampião é apontada como o fim do cangaço. Seu sucessor, Corisco, sobreviveu por mais dois anos e se entregou a inaudita violência para vingar a morte do chefe.

O livro de Cicinato Ferreira Neto é ilustrativo e bem fundamentado. É pena que o uso da crase seja feito de forma equivocada do começo ao fim. Quanto ao título, ele me parece impróprio porque o autor desvendou a vida do cangaceiro mês a mês, não havendo para ele e para nós leitores qualquer mistério.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/01/2020 às 12h18 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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LAMPIÃO ANO A ANO

O cangaço foi um fenômeno típico do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Forma de banditismo organizado, vicejou por um século, atingindo todos os Estados nordestinos. Teve como aliados os grandes espaços abertos, a ausência de cercas e estradas, a população rarefeita e a omissão do Estado. Donos de extraordinária coragem, astutos e cruéis, os cangaceiros formavam grupos poderosos e bem armados, invadiam vilas, pequenas cidades, fazendas e sítios isolados saqueando as propriedades e levando tudo que tivesse valor. Nessas incursões nada respeitavam e eliminavam quem se atrevesse a dificultar suas ações.

Lampião e Maria Bonita (Reprodução)

Muitos foram os bandos de cangaceiros que se tornaram famosos e entraram para a história. Nenhum, porém, alcançou a notoriedade nacional e até internacional como o grupo comandado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1897/1898-1938). As façanhas do cangaceiro nascido em Serra Talhada, Estado de Pernambuco, correram o país e ocuparam grandes espaços da imprensa, inclusive de outros países, durante os vinte anos que durou sua carreira. Sua vida e suas ações, incluindo renhidos combates com as volantes policiais, fugas espetaculares, invasões arrojadas, atos de grande generosidade e de extrema crueldade, os misteriosos esconderijos onde se refugiava sempre despertaram a curiosidade de estudiosos do cangaço e da movimentada existência do cangaceiro. Em consequência, surgiu a respeito do tema uma imensa bibliografia que não cessa de crescer. Entre os livros mais interessantes que tenho encontrado está “A Misteriosa Vida de Lampião”, de autoria de Cicinato Ferreira Neto (Premius Editora – Fortaleza – 2010) e que acabo de ler com grande interesse.

Neste livro o autor faz uma abordagem diferente. Dedica um capítulo a cada ano de atividade de Lampião, cerca de vinte, registrando mês a mês as tropelias que praticou e outros eventos acontecidos com ele e seu grupo. Para tanto consultou imensa quantidade de obras, comparando, sopesando, jornais e revistas, literatura de cordel, mensagens e relatórios oficiais, sites e depoimentos. Trabalho hercúleo e que revela um pesquisador exigente. O livro também é rico em fotografias.

A narrativa tem início com o nascimento de Virgulino, em Vila Bela, atual Serra Talhada, sua infância na companhia dos pais lavradores e, pouco depois, suas atividades como almocreve. Surgem então as primeiras desavenças da família com os vizinhos, forçando inclusive a mudança dos Ferreira. Ainda jovem, Virgulino ingressa no bando do famoso cangaceiro Sinhô Pereira. Dizia ele que assim agia para vingar a morte do pai, assassinado pela polícia, fato muito controvertido. Quando Sinhô Pereira decide abandonar o cangaço e se exilar em local desconhecido, Lampião é designado como seu sucessor e assume o comando do grupo. Desde o início se revela um chefe competente, carismático, inteligente e grande estrategista, além de dono de uma coragem fora do comum. Seu bando prospera, chegando a contar com 100 integrantes, é temido em todo o Nordeste. Enfrenta as volantes em violentos combates, desafia os governos e, segundo comentários, chegou a enviar uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado, ficando ele como dono e senhor do sertão. As invasões e saques são lucrativas e o grupo enriquece. Lampião é vítima de ferimentos, o mesmo acontecendo com sua companheira Maria Bonita. A mobilidade do grupo é fantástica, confundindo as inúmeras volantes policiais que o perseguiam. Suas atividades vão do Rio Grande do Norte à Bahia.

Com o passar do tempo, gera-se um mito em torno do cangaceiro. Para uns é generoso, protetor dos pobres, justiceiro, um Robin Hood das caatingas; para outros é um assassino frio e cruel, capaz das maiores atrocidades, vingativo e ladrão. É considerado invencível e indestrutível, tendo o corpo fechado. Oito vezes sua morte foi anunciada com estardalhaço, mas logo depois ele reaparecia em local inesperado e com toda a força. Os governos estaduais se exasperavam e exigiam que suas forças policiais exterminassem o bando de uma vez por todas. Estas, por sua vez, cometiam toda sorte de arbitrariedades contra aqueles que consideravam coiteiros ou colaboradores de Lampião. O Governo Vargas, depois de 1930, pressionava os interventores estaduais, considerando o cangaço uma vergonha nacional.

Os dados a respeito de Lampião são assustadores. Segundo estimativas, ele matou mais de 1000 pessoas, incendiou mais de 500 propriedades e matou mais de 5000 reses de seus inimigos. Participou de mais de 200 combates com a polícia e violentou mais de 200 mulheres. São informações imprecisas mas devem ter fundamento, considerando-se a violência inaudita com que praticava as invasões e os saques, além do longo período de tempo que durou sua carreira. Existem inúmeros relatos de crimes bárbaros envolvendo o cangaceiro e seu grupo.

Mas tudo tem um fim. No dia 28 de julho de 1938, cercado pela tropa do tenente João Bezerra, no local denominado Grota do Angico, em Sergipe, o grupo de Lampião foi atacado de surpresa e de madrugada. Foram mortos o próprio Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros. Os restantes conseguiram fugir, o que muito me surpreende, uma vez que visitei o lugar em uma de minhas viagens e constatei que só havia uma saída pela qual a volante se aproximou. É um lugar feio, pedregoso, acanhado e com escassa vegetação. Lampião teria sido advertido sobre o perigo que rondava aquele acampamento. A morte de Lampião é apontada como o fim do cangaço. Seu sucessor, Corisco, sobreviveu por mais dois anos e se entregou a inaudita violência para vingar a morte do chefe.

O livro de Cicinato Ferreira Neto é ilustrativo e bem fundamentado. É pena que o uso da crase seja feito de forma equivocada do começo ao fim. Quanto ao título, ele me parece impróprio porque o autor desvendou a vida do cangaceiro mês a mês, não havendo para ele e para nós leitores qualquer mistério.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/01/2020 às 12h18 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.