Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

CAMÕES NA RUA

A Thesaurus Editora, de Brasília, publicou um pequeno livro que é uma obra-prima na forma e no conteúdo. Trata-se da antologia “Camões na Rua”, contendo uma seleção da obra do grande poeta português Luís Vaz de Camões (1524/1580) e, pelo que me parece, integrante de uma série que contempla também outros autores. Organizada pelo poeta Anderson Braga Horta e contando com uma introdução do editor Victor Alegria, tem o formato de pocket book e excelente feição gráfica.

O ensaio/prefácio de autoria do organizador é modelar e nele fica evidente o seu domínio sobre a arte poética, seus segredos e a história da literatura portuguesa. Em dez páginas, Braga Horta esbanja conhecimento a respeito da vida e da obra do vate português, considerado o fixador de nossa língua. Assinala que Camões, “grande amoroso e gente de guerra”, teve uma vida aventurosa e sofrida, lutou na África e na Ásia, perdeu uma vista em combate, foi preso por diversas vezes e a mulher amada pereceu em naufrágio. Numa das celas em que ficou recluso teria composto “Os Lusíadas.” Enfatiza que “Camões não inventou a língua portuguesa” mas é pacífico “que lhe deu esplendor e matizes novos e como que a normatizou num corpus coeso e moderno.” A língua e a poesia de Camões, adverte com toda razão, “constituem uma força de coesão” que nos protege das “forças de dispersão” deste mundo populoso e tecnológico.

“Hoje o que nos preocupa – escreve Braga Horta – são os germes de dissolução, que tendem a pulverizar o ordenamento fora do qual o pensar pode tornar-se uma falácia, o belo uma coisa irreal, ininteligível ou piegas, o ético não mais que pruridos igualmente sentimentais, a nos afastarem das materialidades grosseiras que são a menina dos olhos dos deslumbrados com o que qualquer moeda pode adquirir. Temos de recorrer a Camões e os outros clássicos das literaturas lusófragas, ao invés de sepultá-los com pretextos de modernidade...”

Palavras sábias, merecedoras de muita atenção.

Preocupado com a má qualidade da língua falada nos dias atuais, o editor Victor Alegria afirma com razão “que praticamente há duas décadas há um profundo desprezo para melhorar o incentivo à língua bem falada.” Anota que as pessoas em geral e os jovens em particular não dominam mais que duas centenas de palavras, fato que é deveras assustador. Comenta a ausência de diálogo nas reuniões familiares e o isolamento cada vez maior das pessoas. Suas palavras são um atestado eloquente de preocupação com a realidade nacional, um hino de brasilidade partido de um português mais nacionalista e patriota que muitíssimos brasileiros natos. Victor Alegria, que não conheço em pessoa, já se faz credor de minha admiração.

Não preciso dizer que mergulhei na poesia de Camões depois de bom tempo. E nela reencontrei textos que, de tanto ler, acabei decorando. Entre os sonetos deparei com aquele que meu pai estava sempre a declamar: “Sete anos de pastor Jacó servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, / E a ela só por prêmio pretendia...” A desilusão e o conformismo de Jacó diante dos enganos de Labão são comoventes. E quem não se recorda de “Alma minha gentil, que te partiste/ Tão cedo desta vida descontente,/ Repousa lá no Céu eternamente/ E viva eu cá na terra sempre triste...” É de arrepiar! Outro, marcante e inesquecível: “Amor é fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói e não se sente:/ É um contentamento descontente;/ É dor que desatina sem doer...”

E “Os Lusíadas”? Sempre que os leio tenho a sensação de marchar, tão perfeita é a cadência das rimas:

“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana.
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana...”

Meus parabéns ao organizador e ao editor por trazerem Camões para a rua, colocando-o nas mãos dos leitores. Uma homenagem justa e merecida.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/02/2020 às 11h29 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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CAMÕES NA RUA

A Thesaurus Editora, de Brasília, publicou um pequeno livro que é uma obra-prima na forma e no conteúdo. Trata-se da antologia “Camões na Rua”, contendo uma seleção da obra do grande poeta português Luís Vaz de Camões (1524/1580) e, pelo que me parece, integrante de uma série que contempla também outros autores. Organizada pelo poeta Anderson Braga Horta e contando com uma introdução do editor Victor Alegria, tem o formato de pocket book e excelente feição gráfica.

O ensaio/prefácio de autoria do organizador é modelar e nele fica evidente o seu domínio sobre a arte poética, seus segredos e a história da literatura portuguesa. Em dez páginas, Braga Horta esbanja conhecimento a respeito da vida e da obra do vate português, considerado o fixador de nossa língua. Assinala que Camões, “grande amoroso e gente de guerra”, teve uma vida aventurosa e sofrida, lutou na África e na Ásia, perdeu uma vista em combate, foi preso por diversas vezes e a mulher amada pereceu em naufrágio. Numa das celas em que ficou recluso teria composto “Os Lusíadas.” Enfatiza que “Camões não inventou a língua portuguesa” mas é pacífico “que lhe deu esplendor e matizes novos e como que a normatizou num corpus coeso e moderno.” A língua e a poesia de Camões, adverte com toda razão, “constituem uma força de coesão” que nos protege das “forças de dispersão” deste mundo populoso e tecnológico.

“Hoje o que nos preocupa – escreve Braga Horta – são os germes de dissolução, que tendem a pulverizar o ordenamento fora do qual o pensar pode tornar-se uma falácia, o belo uma coisa irreal, ininteligível ou piegas, o ético não mais que pruridos igualmente sentimentais, a nos afastarem das materialidades grosseiras que são a menina dos olhos dos deslumbrados com o que qualquer moeda pode adquirir. Temos de recorrer a Camões e os outros clássicos das literaturas lusófragas, ao invés de sepultá-los com pretextos de modernidade...”

Palavras sábias, merecedoras de muita atenção.

Preocupado com a má qualidade da língua falada nos dias atuais, o editor Victor Alegria afirma com razão “que praticamente há duas décadas há um profundo desprezo para melhorar o incentivo à língua bem falada.” Anota que as pessoas em geral e os jovens em particular não dominam mais que duas centenas de palavras, fato que é deveras assustador. Comenta a ausência de diálogo nas reuniões familiares e o isolamento cada vez maior das pessoas. Suas palavras são um atestado eloquente de preocupação com a realidade nacional, um hino de brasilidade partido de um português mais nacionalista e patriota que muitíssimos brasileiros natos. Victor Alegria, que não conheço em pessoa, já se faz credor de minha admiração.

Não preciso dizer que mergulhei na poesia de Camões depois de bom tempo. E nela reencontrei textos que, de tanto ler, acabei decorando. Entre os sonetos deparei com aquele que meu pai estava sempre a declamar: “Sete anos de pastor Jacó servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, / E a ela só por prêmio pretendia...” A desilusão e o conformismo de Jacó diante dos enganos de Labão são comoventes. E quem não se recorda de “Alma minha gentil, que te partiste/ Tão cedo desta vida descontente,/ Repousa lá no Céu eternamente/ E viva eu cá na terra sempre triste...” É de arrepiar! Outro, marcante e inesquecível: “Amor é fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói e não se sente:/ É um contentamento descontente;/ É dor que desatina sem doer...”

E “Os Lusíadas”? Sempre que os leio tenho a sensação de marchar, tão perfeita é a cadência das rimas:

“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana.
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana...”

Meus parabéns ao organizador e ao editor por trazerem Camões para a rua, colocando-o nas mãos dos leitores. Uma homenagem justa e merecida.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/02/2020 às 11h29 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.