Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

ESPANTO

O poeta Mário Quintana se dizia espantado quando relia o que havia escrito. Tratava-se, é claro, de uma “boutade”, uma vez que tudo que ele escreveu merece ser lido e relido. Eu me espanto com outras coisas, entre elas as declarações de alguns membros do atual governo. Algumas são assustadoras.

Não faz muitos dias, um cidadão indicado para algum cargo declarou através da televisão que índio não gosta de trabalhar. É uma declaração preconceituosa e falsa, evidenciando que ele nunca leu e nada sabe sobre índios. Uma declaração como essa fomenta o preconceito e contribui para alimentar a triste divisão que existe hoje na sociedade brasileira. O Brasil está tomado de preconceitos, muitas vezes carregados de ódio, contra negros, nordestinos, judeus, índios, moradores de rua, idosos, pobres e outros mais. Aquele brasileiro cordial de que falava Sérgio Buarque de Holanda não existe mais.

Darcy Ribeiro escreveu muito a respeito do trabalho indígena, tendo inclusive vivido no meio deles e acompanhado seu cotidiano. “Diários Índios” é um livro que merece ser lido por todo brasileiro. Outro que merece atenção, ainda mais específico, é “Trabalho Índio em Terras de Vera ou Santa Cruz do Brasil”, de autoria de José Martins Catharino. É um trabalho imenso, com 630 páginas, fundamentado numa bibliografia impressionante. Seu autor é um dos pioneiros nos estudos do Direito do Trabalho Rural, na época em que vigorou o respectivo estatuto. Neste livro ele surpreende, com base em rigorosas fontes, os indígenas brasileiros na época do descobrimento e examina o que aconteceu em seguida. Mostra o terrível e trágico equívoco dos europeus quando “atribuíram ao índio o defeito de não ser trabalhador.” É que, para eles, trabalho implicava em sedentarismo, horário, métodos, chefia etc., enquanto os índios sempre trabalharam – e muito! – mas de outra forma. Enquanto os europeus trabalhavam pela propriedade, para o mercado, pelo lucro e pela poupança, os índios não visavam nada disso. Aliás, Darcy Ribeiro observou que os índios não entendiam muito bem quando ele reservava comida para o dia seguinte; tratavam de comer enquanto tinham. A ideia de poupança era-lhes estranha.

O Prof. José Martins Catharino, no livro acima referido, expõe as variadas áreas de trabalho indígena: trabalho necessário à sobrevivência (caçador e coletor), trabalho culinário (alimentação), trabalho útil (construção de moradas e abrigos, confecção de vestuário e vasilhame), trabalho voluptuário (adornos, pintura do corpo, enfeites), trabalho para elaborar bebidas, chás e fumo, trabalho musical (confecção de flautas, apitos, outros instrumentos, aprendizado de cantos), trabalho desportivo (treinamento para aloites) e trabalho locomotor (confecção de jangadas, canoas e remos), além de inúmeros outros afazeres, como a confecção dos próprios instrumentos. Diante disso, conclui o mestre, o trabalho indígena não foi apenas constante mas árduo, ainda mais que não dispunham de tecnologia avançada. Portanto, a invasão branca provocou autêntica “desculturação indígena”, desorganizando a cultura local autêntica e conduzindo à sua destruição. Como enfatizou Luiz Luna, em seu clássico livro “Resistência do Índio à Dominação no Brasil”, a descoberta aconteceu no momento histórico crucial em que o índio evoluía da fase caçadora/coletora para a agricultura. O progresso acontecia de maneira normal tal como aconteceu com todos os demais povos.

Por tudo isso, o conhecimento de rudimentos de indigenismo é indispensável para evitar afirmações infelizes nestes tempos bicudos que vivemos.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/02/2020 às 12h40 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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O poeta Mário Quintana se dizia espantado quando relia o que havia escrito. Tratava-se, é claro, de uma “boutade”, uma vez que tudo que ele escreveu merece ser lido e relido. Eu me espanto com outras coisas, entre elas as declarações de alguns membros do atual governo. Algumas são assustadoras.

Não faz muitos dias, um cidadão indicado para algum cargo declarou através da televisão que índio não gosta de trabalhar. É uma declaração preconceituosa e falsa, evidenciando que ele nunca leu e nada sabe sobre índios. Uma declaração como essa fomenta o preconceito e contribui para alimentar a triste divisão que existe hoje na sociedade brasileira. O Brasil está tomado de preconceitos, muitas vezes carregados de ódio, contra negros, nordestinos, judeus, índios, moradores de rua, idosos, pobres e outros mais. Aquele brasileiro cordial de que falava Sérgio Buarque de Holanda não existe mais.

Darcy Ribeiro escreveu muito a respeito do trabalho indígena, tendo inclusive vivido no meio deles e acompanhado seu cotidiano. “Diários Índios” é um livro que merece ser lido por todo brasileiro. Outro que merece atenção, ainda mais específico, é “Trabalho Índio em Terras de Vera ou Santa Cruz do Brasil”, de autoria de José Martins Catharino. É um trabalho imenso, com 630 páginas, fundamentado numa bibliografia impressionante. Seu autor é um dos pioneiros nos estudos do Direito do Trabalho Rural, na época em que vigorou o respectivo estatuto. Neste livro ele surpreende, com base em rigorosas fontes, os indígenas brasileiros na época do descobrimento e examina o que aconteceu em seguida. Mostra o terrível e trágico equívoco dos europeus quando “atribuíram ao índio o defeito de não ser trabalhador.” É que, para eles, trabalho implicava em sedentarismo, horário, métodos, chefia etc., enquanto os índios sempre trabalharam – e muito! – mas de outra forma. Enquanto os europeus trabalhavam pela propriedade, para o mercado, pelo lucro e pela poupança, os índios não visavam nada disso. Aliás, Darcy Ribeiro observou que os índios não entendiam muito bem quando ele reservava comida para o dia seguinte; tratavam de comer enquanto tinham. A ideia de poupança era-lhes estranha.

O Prof. José Martins Catharino, no livro acima referido, expõe as variadas áreas de trabalho indígena: trabalho necessário à sobrevivência (caçador e coletor), trabalho culinário (alimentação), trabalho útil (construção de moradas e abrigos, confecção de vestuário e vasilhame), trabalho voluptuário (adornos, pintura do corpo, enfeites), trabalho para elaborar bebidas, chás e fumo, trabalho musical (confecção de flautas, apitos, outros instrumentos, aprendizado de cantos), trabalho desportivo (treinamento para aloites) e trabalho locomotor (confecção de jangadas, canoas e remos), além de inúmeros outros afazeres, como a confecção dos próprios instrumentos. Diante disso, conclui o mestre, o trabalho indígena não foi apenas constante mas árduo, ainda mais que não dispunham de tecnologia avançada. Portanto, a invasão branca provocou autêntica “desculturação indígena”, desorganizando a cultura local autêntica e conduzindo à sua destruição. Como enfatizou Luiz Luna, em seu clássico livro “Resistência do Índio à Dominação no Brasil”, a descoberta aconteceu no momento histórico crucial em que o índio evoluía da fase caçadora/coletora para a agricultura. O progresso acontecia de maneira normal tal como aconteceu com todos os demais povos.

Por tudo isso, o conhecimento de rudimentos de indigenismo é indispensável para evitar afirmações infelizes nestes tempos bicudos que vivemos.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/02/2020 às 12h40 | e.atha@terra.com.br



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