Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

COM CERTEZA!

A linguagem falada na televisão brasileira está cada vez pior e mais pobre. Os erros, as repetições, os lugares-comuns e certos cacoetes são de uma frequência insuportável. Procurando ser coloquiais, alguns apresentadores simplificam as coisas como se falassem na rua e eliminam os RR: mostrá, dizê, fazê, andá... Sem falar nos pra, pro, tá, tô...Outros parecem achar bonito intercalar um aí nas frases: “O incêndio  aí  de grandes proporções  aí  já devorou  aí  vários hectares de matas... “ E existem aqueles que se julgam donos da verdade e não se cansam de repetir: a grande verdade é que... É claro que a grande verdade é a deles. Outros estão sempre certos, tanto que repetem a torto e a direito: Com certeza! Com certeza! E o pior é que isso se espalhou e todo mundo agora se julga com certeza...

Outras expressões que agridem os ouvidos de tão surradas são atualizar, atualizando, atualização etc. Com um mínimo de imaginação poderiam dizer de outra forma. Seria pedir muito? 
Vivenciar é outro verbo que teve a má sorte de virar modismo. Ninguém mais vive, vivencia; ninguém viveu, vivenciou; vida não é mais vida, é vivência. E o curioso é que parecem imaginar que isso é elegante, prova de erudição, dá status.
Observar a evolução dos acontecimentos, a conferir, né, isso daí, conta pra nós, tipo, por conta de, cadê você, diferenciado, tem mais isso e mais aquilo são outras vítimas constantes.
 
                                 São verdadeiras aulas de deseducação.
Por sorte, parece que trabalhar em cima de, a nível de e gratificante estão caindo em desuso. Uf!
A quantidade de anúncios nos intervalos da programação também é intolerável e cada vez aumenta mais. A gente chega a esquecer do que estava assistindo. É um abuso. Por sorte existe uma teclazinha com a palavra mute que nos liberta dessa chateação.
Com certeza!
E nada indica que vá melhorar.
Com certeza!
________________________
O Rio Guandu, do Rio de Janeiro, depois de anos de ostracismo, voltou ao noticiário pela má qualidade da água usada para consumo humano. Nos tempos da ditadura, durante o governo biônico de Carlos Lacerda, no extinto Estado da Guanabara, surgiu a acusação de que mendigos que infestavam o centro da cidade foram eliminados e tiveram seus corpos lançados no simpático curso dágua. Eram dias de censura mas alguns jornais e emissoras de rádio chegaram a noticiar que, de fato, cadáveres foram encontrados  no rio. Esses fatos nunca foram investigados e permanecem até hoje como mais um dos tantos esqueletos guardados nos armários da ditadura.
Com certeza!
_________________________
O presidente Bolsonaro declarou num dias destes que os esquerdistas não podem ser tratados como pessoas normais. Fiquei pensando qual seria o verdadeiro sentido dessa declaração. Estaria ele dando aval para que os esquerdistas sejam humilhados, ofendidos, agredidos ou até mesmo mortos? Foi uma declaração das mais infelizes cujas consequências poderão ser trágicas, além de revelar profunda intolerância.
Com certeza!
Escrito por Enéas Athanázio, 26/02/2020 às 16h53 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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A linguagem falada na televisão brasileira está cada vez pior e mais pobre. Os erros, as repetições, os lugares-comuns e certos cacoetes são de uma frequência insuportável. Procurando ser coloquiais, alguns apresentadores simplificam as coisas como se falassem na rua e eliminam os RR: mostrá, dizê, fazê, andá... Sem falar nos pra, pro, tá, tô...Outros parecem achar bonito intercalar um aí nas frases: “O incêndio  aí  de grandes proporções  aí  já devorou  aí  vários hectares de matas... “ E existem aqueles que se julgam donos da verdade e não se cansam de repetir: a grande verdade é que... É claro que a grande verdade é a deles. Outros estão sempre certos, tanto que repetem a torto e a direito: Com certeza! Com certeza! E o pior é que isso se espalhou e todo mundo agora se julga com certeza...

Outras expressões que agridem os ouvidos de tão surradas são atualizar, atualizando, atualização etc. Com um mínimo de imaginação poderiam dizer de outra forma. Seria pedir muito? 
Vivenciar é outro verbo que teve a má sorte de virar modismo. Ninguém mais vive, vivencia; ninguém viveu, vivenciou; vida não é mais vida, é vivência. E o curioso é que parecem imaginar que isso é elegante, prova de erudição, dá status.
Observar a evolução dos acontecimentos, a conferir, né, isso daí, conta pra nós, tipo, por conta de, cadê você, diferenciado, tem mais isso e mais aquilo são outras vítimas constantes.
 
                                 São verdadeiras aulas de deseducação.
Por sorte, parece que trabalhar em cima de, a nível de e gratificante estão caindo em desuso. Uf!
A quantidade de anúncios nos intervalos da programação também é intolerável e cada vez aumenta mais. A gente chega a esquecer do que estava assistindo. É um abuso. Por sorte existe uma teclazinha com a palavra mute que nos liberta dessa chateação.
Com certeza!
E nada indica que vá melhorar.
Com certeza!
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O Rio Guandu, do Rio de Janeiro, depois de anos de ostracismo, voltou ao noticiário pela má qualidade da água usada para consumo humano. Nos tempos da ditadura, durante o governo biônico de Carlos Lacerda, no extinto Estado da Guanabara, surgiu a acusação de que mendigos que infestavam o centro da cidade foram eliminados e tiveram seus corpos lançados no simpático curso dágua. Eram dias de censura mas alguns jornais e emissoras de rádio chegaram a noticiar que, de fato, cadáveres foram encontrados  no rio. Esses fatos nunca foram investigados e permanecem até hoje como mais um dos tantos esqueletos guardados nos armários da ditadura.
Com certeza!
_________________________
O presidente Bolsonaro declarou num dias destes que os esquerdistas não podem ser tratados como pessoas normais. Fiquei pensando qual seria o verdadeiro sentido dessa declaração. Estaria ele dando aval para que os esquerdistas sejam humilhados, ofendidos, agredidos ou até mesmo mortos? Foi uma declaração das mais infelizes cujas consequências poderão ser trágicas, além de revelar profunda intolerância.
Com certeza!
Escrito por Enéas Athanázio, 26/02/2020 às 16h53 | e.atha@terra.com.br



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