Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

AS DISTOPIAS VENCERAM?

Ensina a história que desde muito tempo as pessoas argutas começaram a perceber as falhas da sociedade humana. Depois de séculos e séculos de existência a sociedade não conseguiu sequer solucionar seus problemas básicos, como alimentação e moradia para todos, educação e assistência à saúde, proteção e segurança. Surgiram então os pensadores que imaginaram uma sociedade mais perfeita na qual todas as pessoas teriam os mesmos direitos e garantias. Eram os chamados utopistas, como Platão, Tommaso Campanella, Saint-Simon, Thomas Morus, Bakunin, Kropotkin e outros tantos. Até mesmo no Brasil ocorreram experiências utopistas, como a Colônia Cecília, no Paraná, liderada pelo Dr. Giovanni Rossi, o Falanstério do Saí, em São Francisco do Sul, e o Caldeirão, no Ceará, liderado pelo beato José Lourenço. Essas propostas reformistas jamais foram aceitas e seus autores quase sempre sofreram severas perseguições. O Caldeirão foi destruído a ferro e fogo.

O evolver dos tempos mostrou que a sociedade nunca quis mudanças profundas, preferindo tentar soluções que a experiência revelou infrutíferas. Surgiram aos poucos os pensadores antiútopistas, pregando em sentido oposto, ou seja, as distopias. Os livros “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, ficaram como exemplos emblemáticos das distopias. Neles há um estado imaginário em que as pessoas vivem em condições de extrema opressão, desespero ou privação. O Estado onipresente esmaga o indivíduo. Ditaduras instaladas em várias partes do globo estiveram bem próximas da concretização desse estado de coisas.

No mundo de hoje as ideias extremistas e autoritárias se ampliam com rapidez, inclusive em países que experimentaram na própria carne as consequências práticas desse pensamento. Os princípios democráticos vão sendo minados, pouco a pouco, eliminando os canais de comunicação entre o povo e o governo. Enquanto no passado isso se fazia pela força das armas, agora vai sendo realizado de forma sutil e com aparente legalidade, centralizando no governo poderes discricionários que permitem a prática de atos cada vez mais agressivos contra as normas democráticas. A triste impressão que fica é de que as distopias venceram e o mundo democrático está em vias de extinção.

O livro “A Nova Ordem”, de Bernardo Kucinski, lançado pela Companhia das Letras (S. Paulo – 2019) é de arrepiar. Nele, um Brasil fictício passa pela formação de uma nova ordem de viés autoritário. O regime luta contra utopistas, aqueles com viés crítico, encarcerando professores e fechando universidades. A nova ordem é obedecer, submeter-se, não pensar, não discutir. Exige-se que as pessoas tenham almas de escravos. É o império do sim senhor, senhor sim.

O consumo de literatura distópica é impressionante, tal como acontece na realidade dos dias atuais, catequizando as mentes das pessoas para o pensamento único. E quem discorda? É subversivo e contrário aos interesses da nova ordem. Tudo pode acontecer com elas.

Para quem viveu e acompanhou no dia-a-dia os vinte e um anos de ditadura, a hipótese é veneno mortal. 

Escrito por Enéas Athanázio, 02/03/2020 às 11h30 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Por Enéas Athanázio

AS DISTOPIAS VENCERAM?

Ensina a história que desde muito tempo as pessoas argutas começaram a perceber as falhas da sociedade humana. Depois de séculos e séculos de existência a sociedade não conseguiu sequer solucionar seus problemas básicos, como alimentação e moradia para todos, educação e assistência à saúde, proteção e segurança. Surgiram então os pensadores que imaginaram uma sociedade mais perfeita na qual todas as pessoas teriam os mesmos direitos e garantias. Eram os chamados utopistas, como Platão, Tommaso Campanella, Saint-Simon, Thomas Morus, Bakunin, Kropotkin e outros tantos. Até mesmo no Brasil ocorreram experiências utopistas, como a Colônia Cecília, no Paraná, liderada pelo Dr. Giovanni Rossi, o Falanstério do Saí, em São Francisco do Sul, e o Caldeirão, no Ceará, liderado pelo beato José Lourenço. Essas propostas reformistas jamais foram aceitas e seus autores quase sempre sofreram severas perseguições. O Caldeirão foi destruído a ferro e fogo.

O evolver dos tempos mostrou que a sociedade nunca quis mudanças profundas, preferindo tentar soluções que a experiência revelou infrutíferas. Surgiram aos poucos os pensadores antiútopistas, pregando em sentido oposto, ou seja, as distopias. Os livros “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, ficaram como exemplos emblemáticos das distopias. Neles há um estado imaginário em que as pessoas vivem em condições de extrema opressão, desespero ou privação. O Estado onipresente esmaga o indivíduo. Ditaduras instaladas em várias partes do globo estiveram bem próximas da concretização desse estado de coisas.

No mundo de hoje as ideias extremistas e autoritárias se ampliam com rapidez, inclusive em países que experimentaram na própria carne as consequências práticas desse pensamento. Os princípios democráticos vão sendo minados, pouco a pouco, eliminando os canais de comunicação entre o povo e o governo. Enquanto no passado isso se fazia pela força das armas, agora vai sendo realizado de forma sutil e com aparente legalidade, centralizando no governo poderes discricionários que permitem a prática de atos cada vez mais agressivos contra as normas democráticas. A triste impressão que fica é de que as distopias venceram e o mundo democrático está em vias de extinção.

O livro “A Nova Ordem”, de Bernardo Kucinski, lançado pela Companhia das Letras (S. Paulo – 2019) é de arrepiar. Nele, um Brasil fictício passa pela formação de uma nova ordem de viés autoritário. O regime luta contra utopistas, aqueles com viés crítico, encarcerando professores e fechando universidades. A nova ordem é obedecer, submeter-se, não pensar, não discutir. Exige-se que as pessoas tenham almas de escravos. É o império do sim senhor, senhor sim.

O consumo de literatura distópica é impressionante, tal como acontece na realidade dos dias atuais, catequizando as mentes das pessoas para o pensamento único. E quem discorda? É subversivo e contrário aos interesses da nova ordem. Tudo pode acontecer com elas.

Para quem viveu e acompanhou no dia-a-dia os vinte e um anos de ditadura, a hipótese é veneno mortal. 

Escrito por Enéas Athanázio, 02/03/2020 às 11h30 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.