Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

A SOLIDÃO NA MULTIDÃO

Não deixa de ser curioso que a moradora da maior cidade do país, convivendo com multidões, publique um livro de poesias enfatizando a solidão. A jornalista e poeta Rosani Abou Adal, editora do jornal cultural “Linguagem Viva”, de São Paulo, publicou o livro “Manchetes em Versos” que se abre abordando justamente a solidão. Seus textos curtos, semelhando manchetes, refletem com precisão o sentimento que vai na alma da poeta: toda aquela gente que se movimenta, povoa as ruas e praças, os prédios e tudo mais não consegue afastar a solidão paradoxal que vive naquele meio tão agitado. “Palavras mudas/presas na garganta” indicariam o desejo impossível de gritar? “Mulher a beber/as próprias palavras/ na mesa de um bar” e Mulher a amar/os fragmentos/de sua imagem” refletem com precisão o sentimento de solidão e transmitem melancolia e tristeza. Mas a poeta prossegue:

“Deitar na cama/com homem invisível/sem sonhos/sem sono” e “Beijo calado/sem gosto” acentuam aquele sentimento. Já “Homem a dialogar/com seu fantasma” retrata a figura ruminando suas ideias sem que ninguém saiba porque o interlocutor é um fantasma. Talvez ele domine o ímpeto de “Falar e gritar/ninguém para codificar/ a linguagem” porque ninguém está disposto a ouvi-lo, mesmo na multidão.
A poesia de Rosani também vai pelo social em palavras agudas e contundentes, “Crianças raquíticas/comem o resto/da comida dos porcos”, registra ela. Não há “Ninguém para/dividir a fome”, “Nenhum amigo/ para dividir/a dor e o pão” enquanto “Lagostas regadas/de espumante francês/nas mesas dos três poderes,/a fome devastando sonhos/nos pratos da periferia”.


Mas há muito mais. Cada mini-poema é para ser lido com calma e meditado. Neles há muito de vida e sentimento. É um livro que merece atenção.


GÊNESE

 

“Gênese de um contador de estórias” (Editora Areia – Joinville – 2019) é uma coletânea de crônicas de Carlos Adauto Vieira, nosso cronista – mor, também conhecido como Charles d’Olénger ou Charlot. Edição primorosa, com capa muito expressiva, reúne cerca de 25 textos escolhidos, começando com um protesto de gratidão do autor para os que o apoiaram e divulgaram na carreira literária. Página carregada de sentimento e revelando gratidão, sentimento cada vez mais raro e quase nunca revelado em público.


Na crônica que dá título ao livro o autor rememora sua iniciação em Joinville, como escritor e advogado, cidade que ama e conhece como poucos, inclusive sua história. Escreve para os jornais, em especial para “A Notícia”, no qual mantém uma coluna. Nos tempos de ditadura é proibido de publicar com o próprio nome e então adota pseudônimos para continuar saindo. Creio, porém, que os leitores o identificavam pelo estilo e pelo tom leve e agradável, permeado de humor. Advoga com entusiasmo e sem cessar, sendo hoje o decano dos profissionais da comarca. Ferrenho adversário da ditadura, não tardou a cair sob os olhos dos “dedos-duros” e sofreu prisões em 1964, 1965 e 1967, quando foi submetido a interrogatórios e a IPMs que, acredito eu, deram em nada porque não existiam provas contra ele. Esses incidentes grotescos, propiciados pelo regime de força, inspiraram crônicas e “causos” que não se cansa de contar. Entre eles, o de um cidadão que apoiava a ditadura e evitava contatos com os adversários. Ao sair da prisão, Adauto o encontrou e lhe disse que, sob a ameaça de armas, foi forçado a delatar os demais oponentes da ditadura. O primeiro nome que lhe ocorreu, afirmou ele, foi justamente o do ferrenho defensor da ditadura. O homem ficou desesperado e dali em diante quebrava esquinas para não se encontrar com o cronista. Mas tudo isso ficou no passado e a cidade reconheceu nele um benfeitor, homenageando-o de várias formas, inclusive dando seu nome a uma ponte – a Passarela Charlot. Por feliz coincidência, ela liga o setor forense com o centro cultural da cidade, os dois campos em que ele tanto tem atuado.


As crônicas de Adauto são sempre uma agradável leitura e revelam um homem antenado nos acontecimentos ao seu redor, captando com precisão os temas cronicáveis e transformando-os em peças literárias.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/04/2020 às 13h06 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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A SOLIDÃO NA MULTIDÃO

Não deixa de ser curioso que a moradora da maior cidade do país, convivendo com multidões, publique um livro de poesias enfatizando a solidão. A jornalista e poeta Rosani Abou Adal, editora do jornal cultural “Linguagem Viva”, de São Paulo, publicou o livro “Manchetes em Versos” que se abre abordando justamente a solidão. Seus textos curtos, semelhando manchetes, refletem com precisão o sentimento que vai na alma da poeta: toda aquela gente que se movimenta, povoa as ruas e praças, os prédios e tudo mais não consegue afastar a solidão paradoxal que vive naquele meio tão agitado. “Palavras mudas/presas na garganta” indicariam o desejo impossível de gritar? “Mulher a beber/as próprias palavras/ na mesa de um bar” e Mulher a amar/os fragmentos/de sua imagem” refletem com precisão o sentimento de solidão e transmitem melancolia e tristeza. Mas a poeta prossegue:

“Deitar na cama/com homem invisível/sem sonhos/sem sono” e “Beijo calado/sem gosto” acentuam aquele sentimento. Já “Homem a dialogar/com seu fantasma” retrata a figura ruminando suas ideias sem que ninguém saiba porque o interlocutor é um fantasma. Talvez ele domine o ímpeto de “Falar e gritar/ninguém para codificar/ a linguagem” porque ninguém está disposto a ouvi-lo, mesmo na multidão.
A poesia de Rosani também vai pelo social em palavras agudas e contundentes, “Crianças raquíticas/comem o resto/da comida dos porcos”, registra ela. Não há “Ninguém para/dividir a fome”, “Nenhum amigo/ para dividir/a dor e o pão” enquanto “Lagostas regadas/de espumante francês/nas mesas dos três poderes,/a fome devastando sonhos/nos pratos da periferia”.


Mas há muito mais. Cada mini-poema é para ser lido com calma e meditado. Neles há muito de vida e sentimento. É um livro que merece atenção.


GÊNESE

 

“Gênese de um contador de estórias” (Editora Areia – Joinville – 2019) é uma coletânea de crônicas de Carlos Adauto Vieira, nosso cronista – mor, também conhecido como Charles d’Olénger ou Charlot. Edição primorosa, com capa muito expressiva, reúne cerca de 25 textos escolhidos, começando com um protesto de gratidão do autor para os que o apoiaram e divulgaram na carreira literária. Página carregada de sentimento e revelando gratidão, sentimento cada vez mais raro e quase nunca revelado em público.


Na crônica que dá título ao livro o autor rememora sua iniciação em Joinville, como escritor e advogado, cidade que ama e conhece como poucos, inclusive sua história. Escreve para os jornais, em especial para “A Notícia”, no qual mantém uma coluna. Nos tempos de ditadura é proibido de publicar com o próprio nome e então adota pseudônimos para continuar saindo. Creio, porém, que os leitores o identificavam pelo estilo e pelo tom leve e agradável, permeado de humor. Advoga com entusiasmo e sem cessar, sendo hoje o decano dos profissionais da comarca. Ferrenho adversário da ditadura, não tardou a cair sob os olhos dos “dedos-duros” e sofreu prisões em 1964, 1965 e 1967, quando foi submetido a interrogatórios e a IPMs que, acredito eu, deram em nada porque não existiam provas contra ele. Esses incidentes grotescos, propiciados pelo regime de força, inspiraram crônicas e “causos” que não se cansa de contar. Entre eles, o de um cidadão que apoiava a ditadura e evitava contatos com os adversários. Ao sair da prisão, Adauto o encontrou e lhe disse que, sob a ameaça de armas, foi forçado a delatar os demais oponentes da ditadura. O primeiro nome que lhe ocorreu, afirmou ele, foi justamente o do ferrenho defensor da ditadura. O homem ficou desesperado e dali em diante quebrava esquinas para não se encontrar com o cronista. Mas tudo isso ficou no passado e a cidade reconheceu nele um benfeitor, homenageando-o de várias formas, inclusive dando seu nome a uma ponte – a Passarela Charlot. Por feliz coincidência, ela liga o setor forense com o centro cultural da cidade, os dois campos em que ele tanto tem atuado.


As crônicas de Adauto são sempre uma agradável leitura e revelam um homem antenado nos acontecimentos ao seu redor, captando com precisão os temas cronicáveis e transformando-os em peças literárias.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/04/2020 às 13h06 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.