Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

PARIS É UMA FESTA

A chamada geração perdida foi constituída por um grupo de escritores norte-americanos que se expatriou em Paris em busca de melhor clima intelectual que no conservadorismo dos Estados Unidos. Entre os componentes do grupo estavam Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, For Madox Ford e mais alguns aderentes, entre os quais Ezra Pound e James Joyce. Na maioria jovens, lutavam com todas as forças para produzir e conquistar um lugar ao sol. A consagração na capital francesa garantia projeção mundial no campo das letras.

Ernest Hemingway (1899/1961) foi um dos mais ativos e lutadores do grupo. Nessa época vivia em Paris, em companhia da primeira esposa, Hadley Richardson, e do primeiro filho, ainda criança, Bumby. O casal era muito pobre, residia num pequeno apartamento sobre uma serraria, situado em bairro dos mais modestos. Decidido a viver apenas de literatura, Hemingway abandonou o jornalismo que lhe pagava bem pelos despachos, permitindo suprir as necessidades mais prementes. Não conseguia vender seus contos, exceto um ou outro, sempre devolvidos pelas publicações a que enviava. Mas, com o apoio da mulher, persistia no propósito de viver da literatura e o tempo mostraria que estava certo. Com a publicação do primeiro romance, “O sol também se levanta”, granjeou a extraordinária fama que o acompanharia por toda a vida e o levaria inclusive a merecer o Prêmio Nobel de Literatura. Tornou-se um homem rico, o que lhe permitiu viver com intensidade a vida do escritor, viajando, acompanhando as touradas na Espanha, realizando safáris na África, navegando em sua lancha Pilar e visitando lugares e países.

O período vivido em Paris inspirou-lhe um de seus mais deliciosos livros, “Paris é uma festa”, publicado em edição póstuma. Nele, o escritor rememora, de maneira leve e agradável, esse tempo duro mas romântico de sua vida. Relata a extrema dedicação com que se entregava ao trabalho literário. “Depois de escrever um conto sentia-me sempre vazio, e, simultaneamente, triste e feliz, como se tivesse acabado de me entregar ao amor físico. Estava convicto de que o conto que acabara de escrever era muito bom, embora não soubesse o quanto, até lê-lo de ponta a ponta no dia seguinte” – escreveu.
Em páginas de rara beleza, evoca a amizade com Gertrude Stein e como ela se esvaiu de maneira estranha e silenciosa. Stein era uma matrona poderosa, ao mesmo tempo admirada e temida, que tinha relações com todo o meio cultural e recebia em sua morada todos os figurões franceses. Seu apartamento parecia autêntico museu, ostentando obras de arte dos grandes mestres da época e do passado. Tomou-se de intensa simpatia por Hemingway, em quem adivinhava imenso talento, sentindo-se no direito de dizer-lhe com total franqueza o que pensava de seus escritos. Também não escondia suas opiniões sobre outros autores, fossem ou não consagrados, e não admitia discussões a respeito. Fica a impressão, talvez ilusória, de que Hemingway gostava mais do apartamento-museu que de sua habitante. Foi Gertrude Stein quem vulgarizou a expressão geração perdida, ouvida de um mecânico.

Outra figura evocada com carinho é Sylvia Beach, proprietária da livraria-biblioteca “Shakespeare and Company”, a quem ficou devendo inúmeros favores que jamais esqueceu. Local de encontros de escritores e artistas, alugava e emprestava livros, e lá costumavam acontecer grandes debates sobre a vida cultural parisiense. Entre seus frequentadores mais ilustres estavam James Joyce e Ezra Pound. Hemingway se tornou “habitué.”

Os moradores, pequenos comerciantes, frequentadores e pescadores das margens do Sena são evocados com evidente saudade. Hemingway nutria imensa simpatia por aquelas pessoas simples a quem chamava gente do Sena. Recordava-se até mesmo de livros de segunda mão adquiridos dos “bouqunists” que os vendiam naquela região da cidade e das refeições feitas em modestos restaurantes populares e baratos. Gostava de trocar pernas ao longo do cais, ouvindo as conversas das pessoas e o marulhar das águas. Reteve na memória detalhes das ruas, da arquitetura e da vida naqueles locais. Às vezes fazia essas caminhadas tomado de grande forme, não sei se real ou imaginária.

A amizade do memorialista com F. Scott Fitzgerald toma extensa parte do livro. Muitos acontecimentos vividos pelos dois são recordados, restando a triste conclusão de que o talentoso autor de “O Grande Gatsby” caminhou para uma morte precoce vítima de insuperável alcoolismo. As discussões de ambos sobre literatura constituem grandes ensinamentos, entre elas a “teoria” de escrita gorda e magra. A primeira é a escrita enxundiosa, rebuscada, envolta em palavrório inútil e desnecessário. A outra é a escrita limpa, precisa, buscando a palavra exata, o “le mot just” dos clássicos franceses.

Os cafés parisienses, as corridas de cavalos e de bicicletas, as lutas e box, as fugas para as estações de esqui e outras viagens, quando tinham algum dinheiro, são recordadas com intensidade de detalhes, indicando quão marcantes foram. E muito mais desses anos benéficos surge nestas páginas maravilhosas. Até que entra em cena uma nova personagem, Pauline Pfiffer, jovem e linda, e o Destino traça novos rumos para a vida do escritor.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/05/2020 às 14h01 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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A chamada geração perdida foi constituída por um grupo de escritores norte-americanos que se expatriou em Paris em busca de melhor clima intelectual que no conservadorismo dos Estados Unidos. Entre os componentes do grupo estavam Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, For Madox Ford e mais alguns aderentes, entre os quais Ezra Pound e James Joyce. Na maioria jovens, lutavam com todas as forças para produzir e conquistar um lugar ao sol. A consagração na capital francesa garantia projeção mundial no campo das letras.

Ernest Hemingway (1899/1961) foi um dos mais ativos e lutadores do grupo. Nessa época vivia em Paris, em companhia da primeira esposa, Hadley Richardson, e do primeiro filho, ainda criança, Bumby. O casal era muito pobre, residia num pequeno apartamento sobre uma serraria, situado em bairro dos mais modestos. Decidido a viver apenas de literatura, Hemingway abandonou o jornalismo que lhe pagava bem pelos despachos, permitindo suprir as necessidades mais prementes. Não conseguia vender seus contos, exceto um ou outro, sempre devolvidos pelas publicações a que enviava. Mas, com o apoio da mulher, persistia no propósito de viver da literatura e o tempo mostraria que estava certo. Com a publicação do primeiro romance, “O sol também se levanta”, granjeou a extraordinária fama que o acompanharia por toda a vida e o levaria inclusive a merecer o Prêmio Nobel de Literatura. Tornou-se um homem rico, o que lhe permitiu viver com intensidade a vida do escritor, viajando, acompanhando as touradas na Espanha, realizando safáris na África, navegando em sua lancha Pilar e visitando lugares e países.

O período vivido em Paris inspirou-lhe um de seus mais deliciosos livros, “Paris é uma festa”, publicado em edição póstuma. Nele, o escritor rememora, de maneira leve e agradável, esse tempo duro mas romântico de sua vida. Relata a extrema dedicação com que se entregava ao trabalho literário. “Depois de escrever um conto sentia-me sempre vazio, e, simultaneamente, triste e feliz, como se tivesse acabado de me entregar ao amor físico. Estava convicto de que o conto que acabara de escrever era muito bom, embora não soubesse o quanto, até lê-lo de ponta a ponta no dia seguinte” – escreveu.
Em páginas de rara beleza, evoca a amizade com Gertrude Stein e como ela se esvaiu de maneira estranha e silenciosa. Stein era uma matrona poderosa, ao mesmo tempo admirada e temida, que tinha relações com todo o meio cultural e recebia em sua morada todos os figurões franceses. Seu apartamento parecia autêntico museu, ostentando obras de arte dos grandes mestres da época e do passado. Tomou-se de intensa simpatia por Hemingway, em quem adivinhava imenso talento, sentindo-se no direito de dizer-lhe com total franqueza o que pensava de seus escritos. Também não escondia suas opiniões sobre outros autores, fossem ou não consagrados, e não admitia discussões a respeito. Fica a impressão, talvez ilusória, de que Hemingway gostava mais do apartamento-museu que de sua habitante. Foi Gertrude Stein quem vulgarizou a expressão geração perdida, ouvida de um mecânico.

Outra figura evocada com carinho é Sylvia Beach, proprietária da livraria-biblioteca “Shakespeare and Company”, a quem ficou devendo inúmeros favores que jamais esqueceu. Local de encontros de escritores e artistas, alugava e emprestava livros, e lá costumavam acontecer grandes debates sobre a vida cultural parisiense. Entre seus frequentadores mais ilustres estavam James Joyce e Ezra Pound. Hemingway se tornou “habitué.”

Os moradores, pequenos comerciantes, frequentadores e pescadores das margens do Sena são evocados com evidente saudade. Hemingway nutria imensa simpatia por aquelas pessoas simples a quem chamava gente do Sena. Recordava-se até mesmo de livros de segunda mão adquiridos dos “bouqunists” que os vendiam naquela região da cidade e das refeições feitas em modestos restaurantes populares e baratos. Gostava de trocar pernas ao longo do cais, ouvindo as conversas das pessoas e o marulhar das águas. Reteve na memória detalhes das ruas, da arquitetura e da vida naqueles locais. Às vezes fazia essas caminhadas tomado de grande forme, não sei se real ou imaginária.

A amizade do memorialista com F. Scott Fitzgerald toma extensa parte do livro. Muitos acontecimentos vividos pelos dois são recordados, restando a triste conclusão de que o talentoso autor de “O Grande Gatsby” caminhou para uma morte precoce vítima de insuperável alcoolismo. As discussões de ambos sobre literatura constituem grandes ensinamentos, entre elas a “teoria” de escrita gorda e magra. A primeira é a escrita enxundiosa, rebuscada, envolta em palavrório inútil e desnecessário. A outra é a escrita limpa, precisa, buscando a palavra exata, o “le mot just” dos clássicos franceses.

Os cafés parisienses, as corridas de cavalos e de bicicletas, as lutas e box, as fugas para as estações de esqui e outras viagens, quando tinham algum dinheiro, são recordadas com intensidade de detalhes, indicando quão marcantes foram. E muito mais desses anos benéficos surge nestas páginas maravilhosas. Até que entra em cena uma nova personagem, Pauline Pfiffer, jovem e linda, e o Destino traça novos rumos para a vida do escritor.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/05/2020 às 14h01 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.