Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

Sobre a China

Xangai, a maior cidade chinesa

Com o surgimento da pandemia do coronavírus várias “teorias conspiratórias”, inspiradas no ódio dos dias que vivemos, circularam sobre a China, as mais graves delas insinuando que o país fomentou a disseminação do vírus com o objetivo de vender produtos e medicamentos e até que criou em laboratório a doença. Os Estados Unidos criaram a expressão “vírus chinês”, uma evidente insinuação que hoje corre o mundo. No passar dos dias, porém, ficou evidente o esforço hercúleo feito pela China para conter a doença e defender seu povo. É claro que esse fato não serviu para calar as bocas e apaziguar as consciências, mas a mídia não deixou dúvida.

A China é vítima de todas as acusações, tanto por ser socialista como por ser desconhecida. No Brasil as pessoas em geral pouco ou nada sabem a respeito dela e muitas afirmações falsas circulam como se fossem indiscutíveis verdades. Entre elas, é comum ouvir-se que os trabalhadores chineses recebem salários miseráveis ou salários de fome. Ora, informações de fonte segura e isenta afirmam que o salário médio deles é bastante superior ao dos brasileiros e tem maior poder de compra porque não convivem com a praga chamada inflação. Mas isso adquiriu foro de verdade indiscutível e não há quem possa alterar esse entendimento. Também são muito criticados os hábitos alimentares chineses. Esses costumes variam nas diversas regiões do globo e aquilo que parece estranho para uns é comum para outros. Os jegues do nosso Nordeste estavam sendo exportados para países asiáticos e lá se transformavam em carne moída para consumo humano. Outros povos consomem a carne de cavalos e os franceses fazem sopas com ninhos de andorinhas. Não obstante, os franceses são o povo mais sofisticado do mundo. A escritora brasileira Betty Milan muito escreveu sobre a culinária francesa e lembrou que à tarde muitas pessoas são vistas em Paris com sua “baguette” (pão alongado) debaixo do sovaco.

Rana Mitter, estudioso das coisas chinesas (sinólogo) e professor da Oxford University, escreveu um livro admirável sobre aquele país e que deveria ser lido porque o conhecimento é a melhor arma contra o preconceito e as falsas concepções. Trata-se de “China Moderna”, publicado entre nós pela L&PM Pocket (Porto Alegre – 2011). Ele desvenda um extenso panorama da China, suas história, cultura, economia e modus vivendi de seu povo. Tudo muito bem fundamentado e documentado, de forma isenta e distanciada.

Para bem entender a poderosa China de hoje, o autor se aprofunda na sua longa e complexa história. Revela um país dividido entre os poderes regionais que lutavam entre si e pareciam destituídos de um sentimento nacional. Governado por dinastias autoritárias e discricionárias, enfrentava com dificuldade a fome e a miséria. Durante o governo de Chiang Kaichek, auto-intitulado nacionalista, houve até mesmo a venda e o aluguel de partes do território nacional a potências estrangeiras. E elas exploraram essas concessões da forma mais livre e predatória possível, em tudo semelhando o colonialismo ocidental na América, na África e na Ásia. Tudo indica que foi a Longa Marcha de Mao Tsé Tung que fixou na população o sentimento de nação, mas no governo dele o país se isolou do mundo, daí derivando muitas das fantasias e invencionices que cercam a China. Mas depois veio a abertura para o mundo e a busca do equilíbrio entre o interesse nacional e a integração no panorama mundial. Em pouco mais de oitenta anos a China deixou de ser um país dividido, desorganizado e miserável para se tornar a segunda potência mundial. É claro que esse gigante realizador e decidido assusta as chamadas grandes potências, temerosas de perder sua hegemonia. Como registra a história, da mesma forma que com as pessoas os países crescem, chegam ao apogeu, envelhecem e morrem.

Impregnada desde séculos pelo pensamento de Confúcio, a sociedade chinesa entendeu que necessitava ingressar na modernidade. Sun Yatsen teve importante papel como figura devotada a uma China republicana e moderna. Travou-se tremenda luta para desvencilhar o país dos contratos ruinosos assinados com outras potências e um grande esforço para se livrar dos estrangeiros que dominavam pontos estratégicos da economia. O país chegou a sofrer uma guerra por tentar limitar a venda e a exportação do ópio. Foi invadido pelo Japão, numa guerra catastrófica, da qual só se livrou com a derrota do Eixo, na II Guerra Mundial, em 1945. Foram penosos e sofridos os caminhos do povo chinês até chegar ao atual status.

Assim como as grandes potências temem os países emergentes acontece na sociedade humana. As classes privilegiadas temem a ascensão dos mais pobres porque isso constitui uma ameaça às suas benesses. Aparece então o ódio como reação, o chamado ódio de classe, mais visível que nunca no mundo e no Brasil de hoje, embora sempre camuflado pelas formas mais sofisticadas. O ódio ideológico só faz agravar esse quadro. É por isso que a leitura é indispensável, espantando fantasmas que infestam as cabeças de muita gente.

Muitas pessoas alimentam a esperança de que da pandemia emergirá um mundo melhor, mais humano, fraterno e cordial. Mas não é o que se vê nas redes sociais, antes pelo contrário. O que se vê é mais ódio, intolerância, fanatismo e violência verbal nas ofensas e xingamentos. Nada indica que o homo homini lupus de Thomas Hobbes esteja perdendo a atualidade. E tudo muito mal escrito. É de dar medo! 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/05/2020 às 10h25 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Por Enéas Athanázio

Sobre a China

Xangai, a maior cidade chinesa

Com o surgimento da pandemia do coronavírus várias “teorias conspiratórias”, inspiradas no ódio dos dias que vivemos, circularam sobre a China, as mais graves delas insinuando que o país fomentou a disseminação do vírus com o objetivo de vender produtos e medicamentos e até que criou em laboratório a doença. Os Estados Unidos criaram a expressão “vírus chinês”, uma evidente insinuação que hoje corre o mundo. No passar dos dias, porém, ficou evidente o esforço hercúleo feito pela China para conter a doença e defender seu povo. É claro que esse fato não serviu para calar as bocas e apaziguar as consciências, mas a mídia não deixou dúvida.

A China é vítima de todas as acusações, tanto por ser socialista como por ser desconhecida. No Brasil as pessoas em geral pouco ou nada sabem a respeito dela e muitas afirmações falsas circulam como se fossem indiscutíveis verdades. Entre elas, é comum ouvir-se que os trabalhadores chineses recebem salários miseráveis ou salários de fome. Ora, informações de fonte segura e isenta afirmam que o salário médio deles é bastante superior ao dos brasileiros e tem maior poder de compra porque não convivem com a praga chamada inflação. Mas isso adquiriu foro de verdade indiscutível e não há quem possa alterar esse entendimento. Também são muito criticados os hábitos alimentares chineses. Esses costumes variam nas diversas regiões do globo e aquilo que parece estranho para uns é comum para outros. Os jegues do nosso Nordeste estavam sendo exportados para países asiáticos e lá se transformavam em carne moída para consumo humano. Outros povos consomem a carne de cavalos e os franceses fazem sopas com ninhos de andorinhas. Não obstante, os franceses são o povo mais sofisticado do mundo. A escritora brasileira Betty Milan muito escreveu sobre a culinária francesa e lembrou que à tarde muitas pessoas são vistas em Paris com sua “baguette” (pão alongado) debaixo do sovaco.

Rana Mitter, estudioso das coisas chinesas (sinólogo) e professor da Oxford University, escreveu um livro admirável sobre aquele país e que deveria ser lido porque o conhecimento é a melhor arma contra o preconceito e as falsas concepções. Trata-se de “China Moderna”, publicado entre nós pela L&PM Pocket (Porto Alegre – 2011). Ele desvenda um extenso panorama da China, suas história, cultura, economia e modus vivendi de seu povo. Tudo muito bem fundamentado e documentado, de forma isenta e distanciada.

Para bem entender a poderosa China de hoje, o autor se aprofunda na sua longa e complexa história. Revela um país dividido entre os poderes regionais que lutavam entre si e pareciam destituídos de um sentimento nacional. Governado por dinastias autoritárias e discricionárias, enfrentava com dificuldade a fome e a miséria. Durante o governo de Chiang Kaichek, auto-intitulado nacionalista, houve até mesmo a venda e o aluguel de partes do território nacional a potências estrangeiras. E elas exploraram essas concessões da forma mais livre e predatória possível, em tudo semelhando o colonialismo ocidental na América, na África e na Ásia. Tudo indica que foi a Longa Marcha de Mao Tsé Tung que fixou na população o sentimento de nação, mas no governo dele o país se isolou do mundo, daí derivando muitas das fantasias e invencionices que cercam a China. Mas depois veio a abertura para o mundo e a busca do equilíbrio entre o interesse nacional e a integração no panorama mundial. Em pouco mais de oitenta anos a China deixou de ser um país dividido, desorganizado e miserável para se tornar a segunda potência mundial. É claro que esse gigante realizador e decidido assusta as chamadas grandes potências, temerosas de perder sua hegemonia. Como registra a história, da mesma forma que com as pessoas os países crescem, chegam ao apogeu, envelhecem e morrem.

Impregnada desde séculos pelo pensamento de Confúcio, a sociedade chinesa entendeu que necessitava ingressar na modernidade. Sun Yatsen teve importante papel como figura devotada a uma China republicana e moderna. Travou-se tremenda luta para desvencilhar o país dos contratos ruinosos assinados com outras potências e um grande esforço para se livrar dos estrangeiros que dominavam pontos estratégicos da economia. O país chegou a sofrer uma guerra por tentar limitar a venda e a exportação do ópio. Foi invadido pelo Japão, numa guerra catastrófica, da qual só se livrou com a derrota do Eixo, na II Guerra Mundial, em 1945. Foram penosos e sofridos os caminhos do povo chinês até chegar ao atual status.

Assim como as grandes potências temem os países emergentes acontece na sociedade humana. As classes privilegiadas temem a ascensão dos mais pobres porque isso constitui uma ameaça às suas benesses. Aparece então o ódio como reação, o chamado ódio de classe, mais visível que nunca no mundo e no Brasil de hoje, embora sempre camuflado pelas formas mais sofisticadas. O ódio ideológico só faz agravar esse quadro. É por isso que a leitura é indispensável, espantando fantasmas que infestam as cabeças de muita gente.

Muitas pessoas alimentam a esperança de que da pandemia emergirá um mundo melhor, mais humano, fraterno e cordial. Mas não é o que se vê nas redes sociais, antes pelo contrário. O que se vê é mais ódio, intolerância, fanatismo e violência verbal nas ofensas e xingamentos. Nada indica que o homo homini lupus de Thomas Hobbes esteja perdendo a atualidade. E tudo muito mal escrito. É de dar medo! 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/05/2020 às 10h25 | e.atha@terra.com.br



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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.