Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS

Foto Marcos Oliveira / Agência Senado

O edifício do Congresso Nacional, em Brasília, amanheceu com as palavras “Holocausto nunca mais” em letras fosforescentes. Uma iniciativa muito oportuna no momento em que o antissemitismo cresce em todo o mundo e no Brasil. O Holocausto é uma das maiores feridas da história mundial, nunca cicatrizada, e por isso precisa ser lembrado sempre para que jamais se repita.

Existe imensa bibliografia sobre o assunto e que não cessa de crescer, o que é muito positivo. O conhecimento é a melhor arma contra os preconceitos. Entre os livros mais recentes sobre o Holocausto está “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do escritor e jornalista Jeremy Bronfield que, depois de se tornar um best-seller mundial, foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva (Rio – 2019). O livro reconstitui uma história comovente unindo pai e filho na terrível luta diária pela sobrevivência e que merece mais que um comentário. Aqui, no entanto, desejo me ater apenas aos primórdios do relato, no período que antecedeu à prisão de ambos pelas forças nazistas de ocupação na Áustria. Em outra ocasião voltarei ao livro.

Gustav Kleinmann era um habilidoso artesão que vivia em Viena em companhia da esposa, Tini, e dos filhos, Fritz, Kurt, Edith e Herta. Embora fosse judeu, não era ortodoxo, e se considerava um perfeito austríaco. Havia lutado pela pátria na I Guerra Mundial como soldado, sofreu graves ferimentos e foi condecorado por bravura. Embora levassem vida modesta, nada perturbava a família. Mantinha boas relações com a vizinhança e o viver era tranquilo.

A ascensão de Hitler na Alemanha projeta uma sombra sobre a Áustria. Ele jamais escondeu o desejo de anexar o país onde havia nascido e seus adeptos iniciam uma intensa pregação nesse sentido. As opiniões se dividem e manifestações pró e contra se repetem, algumas com violência. O chanceler austríaco, Schuschingg, designa um plebiscito para decidir a questão. Irado, Hitler esbraveja no seu estilo tonitruante e exige o cancelamento da votação, prevendo uma derrota, mas o chanceler não se curva e acaba afastado do cargo. O plebiscito é realizado com evidente manipulação dos resultados e os favoráveis à anexação vencem com larga margem. Hitler anexa a Áustria à Alemanha, dando início à escalada de ocupações que levariam à II Guerra Mundial. Era o Anschluss e o país estava anexado, sem soberania e sem governo próprio. Um títere, dessas figuras abjetas que sempre surgem nessas ocasiões, assume um governo de fachada. Hitler em pessoa visita a Áustria para comemorar e desfila sob aplausos apoteóticos. O povo saudava seu futuro carrasco, o mesmo que o faria derramar lágrimas de sangue.

Um clima de ódio e intolerância toma conta do país. O fanatismo nazista explode em toda parte e a violência aterroriza as pessoas. Conhecidos de ontem que saudavam os Kleinmann com um sorriso nos lábios agora se revelavam inimigos mortais. Uma das filhas é injuriada e humilhada na rua por um colega de escola. Os filhos homens são ofendidos e forçados a quebrar esquinas para se livrarem dos ataques. Passeatas nazistas acontecem a todo momento com os manifestantes gritando insultos contra os judeus e os católicos. A situação se torna insuportável e o clima irrespirável. Gustav é forçado a encerrar as atividades e sua oficina é fechada. Os filhos não podem mais frequentar a escola. As restrições contra os judeus são cada vez mais severas. Até que a família é denunciada pelos vizinhos, antes amigos, e Gustav e Fritz são presos, conduzidos a uma delegacia e depois para Buchenwald, o temido campo de concentração. Aí tem início o calvário a que pai e filho serão submetidos e que o autor do livro relata em pormenores e com base em fundados elementos de prova. Como ele diz, os fatos são tão terríveis que preferiria que não fossem verdadeiros.

Os acontecimentos da Áustria são um exemplo aos que semeiam o ódio e a intolerância e pregam a ditadura. Em regime democrático o Holocausto não teria acontecido. O mundo vive tempos autoritários e discriminatórios capitaneado por Trump nos Estados Unidos e Macron na França, imitados por outros esbirros de menor porte. Mas é preciso resistir porque só na democracia o ser humano pode viver com dignidade. Ditadura só serve para quem tem alma de escravo.

E agora, Moro? O senhor a quem você tanto serviu o descartou como algo desnecessário e o classificou de mentiroso e chantagista. A mestra vida me ensinou que sempre que Promotores e Magistrados se envolvem com políticos acabam mal.

Como diria Camões, o Brasil vive um período de apagada e vil tristeza. 

Escrito por Enéas Athanázio, 01/06/2020 às 18h17 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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O edifício do Congresso Nacional, em Brasília, amanheceu com as palavras “Holocausto nunca mais” em letras fosforescentes. Uma iniciativa muito oportuna no momento em que o antissemitismo cresce em todo o mundo e no Brasil. O Holocausto é uma das maiores feridas da história mundial, nunca cicatrizada, e por isso precisa ser lembrado sempre para que jamais se repita.

Existe imensa bibliografia sobre o assunto e que não cessa de crescer, o que é muito positivo. O conhecimento é a melhor arma contra os preconceitos. Entre os livros mais recentes sobre o Holocausto está “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do escritor e jornalista Jeremy Bronfield que, depois de se tornar um best-seller mundial, foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva (Rio – 2019). O livro reconstitui uma história comovente unindo pai e filho na terrível luta diária pela sobrevivência e que merece mais que um comentário. Aqui, no entanto, desejo me ater apenas aos primórdios do relato, no período que antecedeu à prisão de ambos pelas forças nazistas de ocupação na Áustria. Em outra ocasião voltarei ao livro.

Gustav Kleinmann era um habilidoso artesão que vivia em Viena em companhia da esposa, Tini, e dos filhos, Fritz, Kurt, Edith e Herta. Embora fosse judeu, não era ortodoxo, e se considerava um perfeito austríaco. Havia lutado pela pátria na I Guerra Mundial como soldado, sofreu graves ferimentos e foi condecorado por bravura. Embora levassem vida modesta, nada perturbava a família. Mantinha boas relações com a vizinhança e o viver era tranquilo.

A ascensão de Hitler na Alemanha projeta uma sombra sobre a Áustria. Ele jamais escondeu o desejo de anexar o país onde havia nascido e seus adeptos iniciam uma intensa pregação nesse sentido. As opiniões se dividem e manifestações pró e contra se repetem, algumas com violência. O chanceler austríaco, Schuschingg, designa um plebiscito para decidir a questão. Irado, Hitler esbraveja no seu estilo tonitruante e exige o cancelamento da votação, prevendo uma derrota, mas o chanceler não se curva e acaba afastado do cargo. O plebiscito é realizado com evidente manipulação dos resultados e os favoráveis à anexação vencem com larga margem. Hitler anexa a Áustria à Alemanha, dando início à escalada de ocupações que levariam à II Guerra Mundial. Era o Anschluss e o país estava anexado, sem soberania e sem governo próprio. Um títere, dessas figuras abjetas que sempre surgem nessas ocasiões, assume um governo de fachada. Hitler em pessoa visita a Áustria para comemorar e desfila sob aplausos apoteóticos. O povo saudava seu futuro carrasco, o mesmo que o faria derramar lágrimas de sangue.

Um clima de ódio e intolerância toma conta do país. O fanatismo nazista explode em toda parte e a violência aterroriza as pessoas. Conhecidos de ontem que saudavam os Kleinmann com um sorriso nos lábios agora se revelavam inimigos mortais. Uma das filhas é injuriada e humilhada na rua por um colega de escola. Os filhos homens são ofendidos e forçados a quebrar esquinas para se livrarem dos ataques. Passeatas nazistas acontecem a todo momento com os manifestantes gritando insultos contra os judeus e os católicos. A situação se torna insuportável e o clima irrespirável. Gustav é forçado a encerrar as atividades e sua oficina é fechada. Os filhos não podem mais frequentar a escola. As restrições contra os judeus são cada vez mais severas. Até que a família é denunciada pelos vizinhos, antes amigos, e Gustav e Fritz são presos, conduzidos a uma delegacia e depois para Buchenwald, o temido campo de concentração. Aí tem início o calvário a que pai e filho serão submetidos e que o autor do livro relata em pormenores e com base em fundados elementos de prova. Como ele diz, os fatos são tão terríveis que preferiria que não fossem verdadeiros.

Os acontecimentos da Áustria são um exemplo aos que semeiam o ódio e a intolerância e pregam a ditadura. Em regime democrático o Holocausto não teria acontecido. O mundo vive tempos autoritários e discriminatórios capitaneado por Trump nos Estados Unidos e Macron na França, imitados por outros esbirros de menor porte. Mas é preciso resistir porque só na democracia o ser humano pode viver com dignidade. Ditadura só serve para quem tem alma de escravo.

E agora, Moro? O senhor a quem você tanto serviu o descartou como algo desnecessário e o classificou de mentiroso e chantagista. A mestra vida me ensinou que sempre que Promotores e Magistrados se envolvem com políticos acabam mal.

Como diria Camões, o Brasil vive um período de apagada e vil tristeza. 

Escrito por Enéas Athanázio, 01/06/2020 às 18h17 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.