Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

GILBERTO AMADO, ESSE DESCONHECIDO

“Quem não gosta do Brasil não me interessa!”, Gilberto Amado ao centro

Recebo mensagem de um amigo paulistano desolado com o que viu na última Bienal Internacional do Livro. Segundo ele, a feira perdeu o caráter cultural que fazia dela um evento da maior importância e se transformou em mero comércio livreiro, sem preocupação com a qualidade. Não revelou empenho no lançamento de novidades significativas para a cultura, preocupada apenas com o volume das vendas de obras de auto-ajuda, didáticas e paradidáticas, mais vendidos, dicionários e enciclopédias, quadrinhos e coisas do gênero. Foi, enfim, uma imensa livraria temporária que só se distinguiu das outras pelo tamanho, sem maior influência cultural. Para completar - continua ele - havia estandes com outras finalidades, como vendas de produtos alheios ao objetivo e até turísticos, desfigurando-a por completo.

Leitor de Gilberto Amado (1887/1969), relata o meu amigo que percorreu toda a feira, de ponta a ponta, e não encontrou um único livro sobre esse escritor ou de sua autoria, nem mesmo nos estandes que vendiam livros usados. Indagando daqui e dali, não ouviu uma palavra no sentido de que alguém pretenda reeditar as obras do admirável escritor. Pessoas que lidam com livros revelaram nunca ter sequer ouvido falar dele. (Os livreiros também estão desaparecendo, sobram apenas vendedores desinformados e desinteressados). “Gilberto Amado está irremediavelmente esquecido!” – conclui em sua melancólica mensagem.

E quem foi Gilberto Amado? Segundo a crítica mais exigente, foi uma das figuras mais importantes do mundo cultural brasileiro no século passado, autor de uma obra da maior qualidade e com impressionante folha de serviços ao país. Jurista especializado em Direito Internacional, foi membro e presidente por várias vezes da Comissão de Direito Internacional da ONU, em Genebra, além de ter ocupado cargos de relevo na área diplomática. Ensaísta, romancista, crítico, poeta, é considerado um dos maiores memorialistas brasileiros, ao lado e ao par de Pedro Nava. Professor universitário, suas aulas alcançavam o nível de conferências, atraindo alunos de outras turmas e até colegas de magistério. Mesmo tendo vivido por longos anos no Exterior, nunca perdeu o agudo sentimento de nacionalidade e se conservou até o fim um apaixonado pelo Brasil, estudando-o e procurando interpretá-lo. Reagia com indignação às críticas ao nosso país, celebrizando-se episódios em que isso aconteceu. Em importante reunião internacional, uma palestrante criticou o Brasil, revelando antipatia e desconhecimento. Foi então que ele se levantou acintosamente e exclamou: “Quem não gosta do Brasil não me interessa!”, retirando-se da sala. As respostas candentes de “monsieur Amadô” se tornaram temidas.

Cidadão mítico em sua época, suas vindas ao país assumiam o caráter de acontecimentos da cultura. Fazia palestras, lançava livros, falava à imprensa, viajava a convite de universidades. Cidadão do mundo, deixou em vários escritos a visão abrangente e perspicaz com que observava o panorama mundial e previa seus desdobramentos. No pequeno volume “Dias e horas de vibração” lança um olhar agudo sobre o mundo de então e aponta detalhes nem sempre percebidos pelos contemporâneos. E nunca errava o alvo.

Mas o Brasil de hoje o esqueceu. 

Escrito por Enéas Athanázio, 15/09/2020 às 10h08 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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GILBERTO AMADO, ESSE DESCONHECIDO

“Quem não gosta do Brasil não me interessa!”, Gilberto Amado ao centro

Recebo mensagem de um amigo paulistano desolado com o que viu na última Bienal Internacional do Livro. Segundo ele, a feira perdeu o caráter cultural que fazia dela um evento da maior importância e se transformou em mero comércio livreiro, sem preocupação com a qualidade. Não revelou empenho no lançamento de novidades significativas para a cultura, preocupada apenas com o volume das vendas de obras de auto-ajuda, didáticas e paradidáticas, mais vendidos, dicionários e enciclopédias, quadrinhos e coisas do gênero. Foi, enfim, uma imensa livraria temporária que só se distinguiu das outras pelo tamanho, sem maior influência cultural. Para completar - continua ele - havia estandes com outras finalidades, como vendas de produtos alheios ao objetivo e até turísticos, desfigurando-a por completo.

Leitor de Gilberto Amado (1887/1969), relata o meu amigo que percorreu toda a feira, de ponta a ponta, e não encontrou um único livro sobre esse escritor ou de sua autoria, nem mesmo nos estandes que vendiam livros usados. Indagando daqui e dali, não ouviu uma palavra no sentido de que alguém pretenda reeditar as obras do admirável escritor. Pessoas que lidam com livros revelaram nunca ter sequer ouvido falar dele. (Os livreiros também estão desaparecendo, sobram apenas vendedores desinformados e desinteressados). “Gilberto Amado está irremediavelmente esquecido!” – conclui em sua melancólica mensagem.

E quem foi Gilberto Amado? Segundo a crítica mais exigente, foi uma das figuras mais importantes do mundo cultural brasileiro no século passado, autor de uma obra da maior qualidade e com impressionante folha de serviços ao país. Jurista especializado em Direito Internacional, foi membro e presidente por várias vezes da Comissão de Direito Internacional da ONU, em Genebra, além de ter ocupado cargos de relevo na área diplomática. Ensaísta, romancista, crítico, poeta, é considerado um dos maiores memorialistas brasileiros, ao lado e ao par de Pedro Nava. Professor universitário, suas aulas alcançavam o nível de conferências, atraindo alunos de outras turmas e até colegas de magistério. Mesmo tendo vivido por longos anos no Exterior, nunca perdeu o agudo sentimento de nacionalidade e se conservou até o fim um apaixonado pelo Brasil, estudando-o e procurando interpretá-lo. Reagia com indignação às críticas ao nosso país, celebrizando-se episódios em que isso aconteceu. Em importante reunião internacional, uma palestrante criticou o Brasil, revelando antipatia e desconhecimento. Foi então que ele se levantou acintosamente e exclamou: “Quem não gosta do Brasil não me interessa!”, retirando-se da sala. As respostas candentes de “monsieur Amadô” se tornaram temidas.

Cidadão mítico em sua época, suas vindas ao país assumiam o caráter de acontecimentos da cultura. Fazia palestras, lançava livros, falava à imprensa, viajava a convite de universidades. Cidadão do mundo, deixou em vários escritos a visão abrangente e perspicaz com que observava o panorama mundial e previa seus desdobramentos. No pequeno volume “Dias e horas de vibração” lança um olhar agudo sobre o mundo de então e aponta detalhes nem sempre percebidos pelos contemporâneos. E nunca errava o alvo.

Mas o Brasil de hoje o esqueceu. 

Escrito por Enéas Athanázio, 15/09/2020 às 10h08 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.