Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

O Menino e O Mundo!

 

 

 

Dica linda pra crianças, pais, famílias, avós, jovens, velhos, e qualquer um de qualquer idade e jeito: "O Menino e o Mundo", de Alê Abreu, Sessão Corujinha que está em cartaz no Festival Internacional Cineramabc até essa quinta-feira*.

Todos os outros filmes são exibição única, as sessões infantis repetem (e são gratuitas). Eu assisti e fiquei surpresa com a qualidade da obra, um filme único, esteticamente maravilhoso e socialmente muito crítico! Um dedo na ferida pintado a giz de cera que mostra de forma simples e bela a força do capitalismo selvagem, as linhas de produção, o consumo excessivo, a destruição do patrimônio natural, a cidade engolindo as pessoas e as pessoas virando máquinas até perderem lugar pras máquinas de fato.

O menino da aldeia e da vida simples muito cedo perdeu os pais para o sistema, mas manteve viva a saudade e a semente plantada: amor, afeto, música e beleza, que nos momentos mais críticos sempre se mostrava pulsando. Há sempre um contraponto e isso é muito feliz! Há sempre um jeito de espiar pelo caleidoscópio colorido, com suas formas mutantes e alegres, há como passear pelo mundo cinza e manter-se firme e atento, é possível dançar, deixar fluir e assim contribuir minimamente (?, mas nem tão mínimo) para que novas sementes continuem e continuem a ser plantadas. Fé na humanidade!

O Festival está todo muito bom, mas achei importante dizer que esse filme está longe de ser apenas para o público infantil. E que ele está lindamente costurado ao resto da programação pela curadoria da Bárbara Sturm, que trouxe essa temática do simples e da crítica de inúmeras formas nessa quinta edição do Cineramabc. Super aproveitem!

 

* Próximas sessões do filme "O Menino e o Mundo":
> dia 03/06, às 9h e 14h; no Teatro Municipal.
> dia 04/06, às 14h; no Cine Itália.

 

Escrito por Caroline Cezar, 02/06/2015 às 21h16 | carol.jp3@gmail.com

Galeano eterno #amor

Morreu Eduardo Galeano, uruguaio, cidadão do mundo, contribuição eterna. 

Longas caminhadas, observações, futebol e América Latina são tags que funcionariam aqui, mas sobretudo AMOR. 

 

Escrito por Caroline Cezar, 13/04/2015 às 11h53 | carol.jp3@gmail.com

Professor Hermógenes


Caroline Cezar
 

Lembro que nesse dia, num encontro em Mariscal, o Professor Hermógenes passou grande parte do seu tempo como palestrante contando piada. Simples e divino pra quem lê as entrelinhas (e pra quem não lê também). Nesse mesmo outubro de 2007 tivemos a sorte de desfrutar sua companhia em dois eventos em Balneário Camboriú, onde ele concedeu longa entrevista ao Página3. Reeditamos pra republicar*: conteúdo atemporal, pessoa atemporal, que dedicou maior parte de seu tempo (dos 94 anos mais de 60 ao yoga) doando-se e ensinando o caminho do bem. Amo essa foto, com o efeito sem-querer captando a essência fora-do-tempo que ficou pra sempre na memória. Valeu profe!

(*A entrevista completa será publicada sábado pelo Página3).

 

P - Tem alguma coisa que o senhor não fez que gostaria de fazer?

R - Ser médico, tocar violino... nada disso eu consegui até agora. Gostaria de pegar onda, não pego. Na próxima encadernação quem sabe. Gostaria de perguntar a Jesus o que ele gostaria de ter ensinado e não ensinou. Porque ele disse, muita coisa mais teria para dizer, mas não teve tempo. Ele quis dizer, mas não conseguiu dizer diretamente, disse muita coisa vestida de palavras. As verdades mais sublimes, mais etéreas, essas verdades escapam ao poder da palavra humana... e Jesus não disse tudo. E isso, que ele não disse, me parece que é mais rico que ele disse. Posso estar enganado. 

 

Escrito por Caroline Cezar, 17/03/2015 às 22h02 | carol.jp3@gmail.com

Mudança, interna

"Precisamos de tremenda energia para provocar uma mudança psicológica em nós mesmos como seres humanos, porque vivemos por muito tempo num mundo de faz-de-conta, num mundo de brutalidade, violência, desespero, angústia. Para viver humanamente, sensatamente, a pessoa tem que mudar. Para provocar uma mudança em si mesmo e, consequentemente, na sociedade, a pessoa precisa desta energia radical, porque o indivíduo não é diferente da sociedade – a sociedade é o indivíduo e o indivíduo é a sociedade. E para produzir uma mudança necessária, radical na estrutura da sociedade – que é corrupta, imoral – tem que haver mudança na mente e no coração humano." Krishnamurti

 

 

"Los partidos, son partes. El país es un todo. No promulgar la división. Luchar por la unión. La politica está obsoleta. Basta de odio." Alejandro Jodorowsky

 

Escrito por Caroline Cezar, 15/03/2015 às 23h56 | carol.jp3@gmail.com

Amor e espiritualidade, na prática

Estávamos todas numa roda, conversando sobre a palestra que uma delas fez sobre amor e espiritualidade dia desses. Alguém comentou que teve dificuldade de se concentrar, achou agitado, porque havia uma criança lá atrás que não parava de chorar. Aquilo estava irritando muito, ainda mais porque a mãe não saía, não fazia nada e a criança berrava cada vez mais.


O choro manifesta algo que não está bem e sempre, indiscriminadamente, deve ser acolhido. Olhar pro choro, trazer pra perto, e depois, só depois e talvez, tentar entender. Ninguém deve, nunca, engolir o choro, e muito menos, mandar um outro fazê-lo, principalmente se esse outro for alguém que está em formação importante de caráter e valores essenciais. Choro é algo que precisa sair, um manifesto, um desabafo. Chorar é direito universal.

Essa conversa se estendeu com a professora explicando, da forma mais amorosa possível, que escutou também a criança, e que no momento pediu por ela e que deviam todos, irritados que estivessem, fazer o mesmo, porque força coletiva é mais força, seja ela de amparo ou de repulsa. Se ali estávam, mãe nervosa e filho choroso, numa palestra sobre amor e espiritualidade, que lição maior poderia haver sobre o tema do que uma irritação coletiva seguida por um amparo coletivo? O ensinamento verdadeiro nos pega de surpresa e nem sempre conseguimos enxergar a tempo o chamado, a prova real que está ali, bem na frente do nariz enquanto nossos ouvidos se esforçam para ouvir palavras ao vento.


Bem no dia seguinte li um texto que estava popular na internet sobre exatamente o mesmo tema: crianças que choram, sociedade que repele. Ali tinha um ditado africano extremamente belo:


“É PRECISO TODA UMA ALDEIA PARA CRIAR UMA CRIANÇA”.

Oferecer um copo de água, uma cadeira, uma chave como brinquedo (ou um brinquedo como chave), uma distração qualquer, uma mão, um braço. Um olhar de carinho, ao invés de olhar pra trás com a cara feia exigindo atitude, que normalmente se traduz num sacolejo, numa palmada, uma comparação com o fulaninho comportado, ou uma outra repreensão pública e vergonhosa qualquer.


Estamos todos por um mundo melhor, e um mundo melhor é aquele que tem olhar compassivo com crianças, e com os pais das crianças e -importante-, com os que se irritam com as crianças também. Estão tantos tão perdidos, tão afastados de si, é difícil dar conta, não ser engolido, não agir por impulso e no automático. Se você consegue ver, ajude. Se não consegue, peça ajuda.

 


Foto Zé Verzola/ via Simone Fortes

 

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do Página3 impresso de 29 de novembro de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 05/12/2014 às 10h51 | carol.jp3@gmail.com

Sempre se fazendo

“Sim, ele mudou, mas eu lembro dele assim e assado quando era adolescente. Um pouco da essência, do que tu era quando tinha lá seus 13, 14 anos, sempre fica. Claro que a gente evolui, mas a essência é a mesma”.

Escutei e fiquei pensando.

Que às vezes a gente evolui, e às vezes a gente involui achando que tá evoluindo.
Monta um mosaico tão encaixadinho de si mesmo que até a gente acredita. “Como é colorido! Como brilha!”
Nos apaixonamos pela nossa imagem, pela nossa vida documentada com fotos, frases e compartilhamentos nas redes sociais, tudo harmonicamente ligado, ovacionado pelos comentários de “como vocês são lindos”, “como você faz perfeito”, “que vida maravilhosa você tem”.

E quando dizemos pra nós que “agora encontramos a verdade” ferrou de vez. Porque a mentira fantasiada de verdade é das mais difíceis de ser descoberta. Estamos satisfeitos ali. Literalmente cruzamos as pernas no tapetinho e dizemos OM, nos travestimos de paz. É grave.


Conhecimento não é pra tornar ninguém superior a ninguém. Conhecimento não exclui, agrega. Conhecimento é para integrar, lembrar que fazemos parte de algo maior. Talvez a palavra nem seja conhecimento e sim sabedoria, porque não estamos falando de informação, estudo, inteligência, apesar de tudo isso estar embutido. Estamos falando de afinação, sincronia, auto-olhar, busca, algo que não acaba nunca, que está sempre se fazendo, que não é dito, só sentido. Conhecimento é pra lembrar que quanto mais a gente tem, mais ignorante a gente fica. Mais a gente sabe que não sabe.

Montar uma peça bem montada de nós mesmos só faz carregar um peso absurdo, porque morre a espontaneidade, morre a naturalidade e morre a humildade. Morre a abertura para ser ouvinte, para querer saber, pra continuar caminhando. E quando isso morre, o que mais faz sentido?

Deixo com vocês uma carta que tem a cara feia e tem um nome feio, mas serve muito para refletir:

 

EXAUSTÃO
O homem que vive através da consciência mental e torna pesado. Aquele que vive com consciência permanece leve. Por quê? - porque um homem que tem apenas algumas idéias a respeito de como se deve viver, naturalmente se torna pesado. Ele se sente obrigado a carregar consigo seu caráter. Esse caráter é como uma armadura: é a sua proteção, sua segurança. Toda a sua vida está investida nesse caráter. E ele sempre reage às situações através desse caráter, nunca diretamente. Se você lhe faz uma pergunta a resposta é pré-fabricada. Esse é um sinal de uma pessoa “pesada”- ela é enfadonha, estúpida, mecanizada. Ela pode ser um bom computador, mas não é um homem. Você provoca e ela reage de uma maneira bem definida. A reação é previsível, ela é um robô.
O homem verdadeiro age de maneira espontânea. Se você lhe faz uma pergunta, obtém uma resposta e não uma reação. Ele abre o coração para sua pergunta, expõe-se a ela, responde a ela…

Comentário
Eis aqui o retrato de uma pessoa que esgotou toda sua energia vital nos esforços que fez para manter em funcionamento sua enorme e ridícula máquina de imagens pessoas de importância. Ela esteve tão ocupada “mantendo as partes ligadas entre si” e “assegurando-se de que tudo funcionava bem”, que se esqueceu de descansar de verdade. Sem dúvida esse personagem não pode permitir-se qualquer distração. Deixar de lado suas obrigações para dar um passeio na praia poderia significar o desmantelamento de toda a sua estrutura. A mensagem dessa carta não é, entretanto, apenas a respeito de um viciado em trabalho. Ela se refere a todas as maneiras pelas quais criamos rotinas seguras, porém contrárias à natureza, que conseguem manter longe de nós tudo que é caótico e espontâneo. A vida não é um negócio a ser administrado, é um mistério a ser vivido (…)

(Texto da carta: O Tarô Zen, de Osho)

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do jornal Página3 impresso, em 22 de novembro de 2014.

Escrito por Caroline Cezar, 28/11/2014 às 10h16 | carol.jp3@gmail.com



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Caroline Cezar

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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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O Menino e O Mundo!

 

 

 

Dica linda pra crianças, pais, famílias, avós, jovens, velhos, e qualquer um de qualquer idade e jeito: "O Menino e o Mundo", de Alê Abreu, Sessão Corujinha que está em cartaz no Festival Internacional Cineramabc até essa quinta-feira*.

Todos os outros filmes são exibição única, as sessões infantis repetem (e são gratuitas). Eu assisti e fiquei surpresa com a qualidade da obra, um filme único, esteticamente maravilhoso e socialmente muito crítico! Um dedo na ferida pintado a giz de cera que mostra de forma simples e bela a força do capitalismo selvagem, as linhas de produção, o consumo excessivo, a destruição do patrimônio natural, a cidade engolindo as pessoas e as pessoas virando máquinas até perderem lugar pras máquinas de fato.

O menino da aldeia e da vida simples muito cedo perdeu os pais para o sistema, mas manteve viva a saudade e a semente plantada: amor, afeto, música e beleza, que nos momentos mais críticos sempre se mostrava pulsando. Há sempre um contraponto e isso é muito feliz! Há sempre um jeito de espiar pelo caleidoscópio colorido, com suas formas mutantes e alegres, há como passear pelo mundo cinza e manter-se firme e atento, é possível dançar, deixar fluir e assim contribuir minimamente (?, mas nem tão mínimo) para que novas sementes continuem e continuem a ser plantadas. Fé na humanidade!

O Festival está todo muito bom, mas achei importante dizer que esse filme está longe de ser apenas para o público infantil. E que ele está lindamente costurado ao resto da programação pela curadoria da Bárbara Sturm, que trouxe essa temática do simples e da crítica de inúmeras formas nessa quinta edição do Cineramabc. Super aproveitem!

 

* Próximas sessões do filme "O Menino e o Mundo":
> dia 03/06, às 9h e 14h; no Teatro Municipal.
> dia 04/06, às 14h; no Cine Itália.

 

Escrito por Caroline Cezar, 02/06/2015 às 21h16 | carol.jp3@gmail.com

Galeano eterno #amor

Morreu Eduardo Galeano, uruguaio, cidadão do mundo, contribuição eterna. 

Longas caminhadas, observações, futebol e América Latina são tags que funcionariam aqui, mas sobretudo AMOR. 

 

Escrito por Caroline Cezar, 13/04/2015 às 11h53 | carol.jp3@gmail.com

Professor Hermógenes


Caroline Cezar
 

Lembro que nesse dia, num encontro em Mariscal, o Professor Hermógenes passou grande parte do seu tempo como palestrante contando piada. Simples e divino pra quem lê as entrelinhas (e pra quem não lê também). Nesse mesmo outubro de 2007 tivemos a sorte de desfrutar sua companhia em dois eventos em Balneário Camboriú, onde ele concedeu longa entrevista ao Página3. Reeditamos pra republicar*: conteúdo atemporal, pessoa atemporal, que dedicou maior parte de seu tempo (dos 94 anos mais de 60 ao yoga) doando-se e ensinando o caminho do bem. Amo essa foto, com o efeito sem-querer captando a essência fora-do-tempo que ficou pra sempre na memória. Valeu profe!

(*A entrevista completa será publicada sábado pelo Página3).

 

P - Tem alguma coisa que o senhor não fez que gostaria de fazer?

R - Ser médico, tocar violino... nada disso eu consegui até agora. Gostaria de pegar onda, não pego. Na próxima encadernação quem sabe. Gostaria de perguntar a Jesus o que ele gostaria de ter ensinado e não ensinou. Porque ele disse, muita coisa mais teria para dizer, mas não teve tempo. Ele quis dizer, mas não conseguiu dizer diretamente, disse muita coisa vestida de palavras. As verdades mais sublimes, mais etéreas, essas verdades escapam ao poder da palavra humana... e Jesus não disse tudo. E isso, que ele não disse, me parece que é mais rico que ele disse. Posso estar enganado. 

 

Escrito por Caroline Cezar, 17/03/2015 às 22h02 | carol.jp3@gmail.com

Mudança, interna

"Precisamos de tremenda energia para provocar uma mudança psicológica em nós mesmos como seres humanos, porque vivemos por muito tempo num mundo de faz-de-conta, num mundo de brutalidade, violência, desespero, angústia. Para viver humanamente, sensatamente, a pessoa tem que mudar. Para provocar uma mudança em si mesmo e, consequentemente, na sociedade, a pessoa precisa desta energia radical, porque o indivíduo não é diferente da sociedade – a sociedade é o indivíduo e o indivíduo é a sociedade. E para produzir uma mudança necessária, radical na estrutura da sociedade – que é corrupta, imoral – tem que haver mudança na mente e no coração humano." Krishnamurti

 

 

"Los partidos, son partes. El país es un todo. No promulgar la división. Luchar por la unión. La politica está obsoleta. Basta de odio." Alejandro Jodorowsky

 

Escrito por Caroline Cezar, 15/03/2015 às 23h56 | carol.jp3@gmail.com

Amor e espiritualidade, na prática

Estávamos todas numa roda, conversando sobre a palestra que uma delas fez sobre amor e espiritualidade dia desses. Alguém comentou que teve dificuldade de se concentrar, achou agitado, porque havia uma criança lá atrás que não parava de chorar. Aquilo estava irritando muito, ainda mais porque a mãe não saía, não fazia nada e a criança berrava cada vez mais.


O choro manifesta algo que não está bem e sempre, indiscriminadamente, deve ser acolhido. Olhar pro choro, trazer pra perto, e depois, só depois e talvez, tentar entender. Ninguém deve, nunca, engolir o choro, e muito menos, mandar um outro fazê-lo, principalmente se esse outro for alguém que está em formação importante de caráter e valores essenciais. Choro é algo que precisa sair, um manifesto, um desabafo. Chorar é direito universal.

Essa conversa se estendeu com a professora explicando, da forma mais amorosa possível, que escutou também a criança, e que no momento pediu por ela e que deviam todos, irritados que estivessem, fazer o mesmo, porque força coletiva é mais força, seja ela de amparo ou de repulsa. Se ali estávam, mãe nervosa e filho choroso, numa palestra sobre amor e espiritualidade, que lição maior poderia haver sobre o tema do que uma irritação coletiva seguida por um amparo coletivo? O ensinamento verdadeiro nos pega de surpresa e nem sempre conseguimos enxergar a tempo o chamado, a prova real que está ali, bem na frente do nariz enquanto nossos ouvidos se esforçam para ouvir palavras ao vento.


Bem no dia seguinte li um texto que estava popular na internet sobre exatamente o mesmo tema: crianças que choram, sociedade que repele. Ali tinha um ditado africano extremamente belo:


“É PRECISO TODA UMA ALDEIA PARA CRIAR UMA CRIANÇA”.

Oferecer um copo de água, uma cadeira, uma chave como brinquedo (ou um brinquedo como chave), uma distração qualquer, uma mão, um braço. Um olhar de carinho, ao invés de olhar pra trás com a cara feia exigindo atitude, que normalmente se traduz num sacolejo, numa palmada, uma comparação com o fulaninho comportado, ou uma outra repreensão pública e vergonhosa qualquer.


Estamos todos por um mundo melhor, e um mundo melhor é aquele que tem olhar compassivo com crianças, e com os pais das crianças e -importante-, com os que se irritam com as crianças também. Estão tantos tão perdidos, tão afastados de si, é difícil dar conta, não ser engolido, não agir por impulso e no automático. Se você consegue ver, ajude. Se não consegue, peça ajuda.

 


Foto Zé Verzola/ via Simone Fortes

 

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do Página3 impresso de 29 de novembro de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 05/12/2014 às 10h51 | carol.jp3@gmail.com

Sempre se fazendo

“Sim, ele mudou, mas eu lembro dele assim e assado quando era adolescente. Um pouco da essência, do que tu era quando tinha lá seus 13, 14 anos, sempre fica. Claro que a gente evolui, mas a essência é a mesma”.

Escutei e fiquei pensando.

Que às vezes a gente evolui, e às vezes a gente involui achando que tá evoluindo.
Monta um mosaico tão encaixadinho de si mesmo que até a gente acredita. “Como é colorido! Como brilha!”
Nos apaixonamos pela nossa imagem, pela nossa vida documentada com fotos, frases e compartilhamentos nas redes sociais, tudo harmonicamente ligado, ovacionado pelos comentários de “como vocês são lindos”, “como você faz perfeito”, “que vida maravilhosa você tem”.

E quando dizemos pra nós que “agora encontramos a verdade” ferrou de vez. Porque a mentira fantasiada de verdade é das mais difíceis de ser descoberta. Estamos satisfeitos ali. Literalmente cruzamos as pernas no tapetinho e dizemos OM, nos travestimos de paz. É grave.


Conhecimento não é pra tornar ninguém superior a ninguém. Conhecimento não exclui, agrega. Conhecimento é para integrar, lembrar que fazemos parte de algo maior. Talvez a palavra nem seja conhecimento e sim sabedoria, porque não estamos falando de informação, estudo, inteligência, apesar de tudo isso estar embutido. Estamos falando de afinação, sincronia, auto-olhar, busca, algo que não acaba nunca, que está sempre se fazendo, que não é dito, só sentido. Conhecimento é pra lembrar que quanto mais a gente tem, mais ignorante a gente fica. Mais a gente sabe que não sabe.

Montar uma peça bem montada de nós mesmos só faz carregar um peso absurdo, porque morre a espontaneidade, morre a naturalidade e morre a humildade. Morre a abertura para ser ouvinte, para querer saber, pra continuar caminhando. E quando isso morre, o que mais faz sentido?

Deixo com vocês uma carta que tem a cara feia e tem um nome feio, mas serve muito para refletir:

 

EXAUSTÃO
O homem que vive através da consciência mental e torna pesado. Aquele que vive com consciência permanece leve. Por quê? - porque um homem que tem apenas algumas idéias a respeito de como se deve viver, naturalmente se torna pesado. Ele se sente obrigado a carregar consigo seu caráter. Esse caráter é como uma armadura: é a sua proteção, sua segurança. Toda a sua vida está investida nesse caráter. E ele sempre reage às situações através desse caráter, nunca diretamente. Se você lhe faz uma pergunta a resposta é pré-fabricada. Esse é um sinal de uma pessoa “pesada”- ela é enfadonha, estúpida, mecanizada. Ela pode ser um bom computador, mas não é um homem. Você provoca e ela reage de uma maneira bem definida. A reação é previsível, ela é um robô.
O homem verdadeiro age de maneira espontânea. Se você lhe faz uma pergunta, obtém uma resposta e não uma reação. Ele abre o coração para sua pergunta, expõe-se a ela, responde a ela…

Comentário
Eis aqui o retrato de uma pessoa que esgotou toda sua energia vital nos esforços que fez para manter em funcionamento sua enorme e ridícula máquina de imagens pessoas de importância. Ela esteve tão ocupada “mantendo as partes ligadas entre si” e “assegurando-se de que tudo funcionava bem”, que se esqueceu de descansar de verdade. Sem dúvida esse personagem não pode permitir-se qualquer distração. Deixar de lado suas obrigações para dar um passeio na praia poderia significar o desmantelamento de toda a sua estrutura. A mensagem dessa carta não é, entretanto, apenas a respeito de um viciado em trabalho. Ela se refere a todas as maneiras pelas quais criamos rotinas seguras, porém contrárias à natureza, que conseguem manter longe de nós tudo que é caótico e espontâneo. A vida não é um negócio a ser administrado, é um mistério a ser vivido (…)

(Texto da carta: O Tarô Zen, de Osho)

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do jornal Página3 impresso, em 22 de novembro de 2014.

Escrito por Caroline Cezar, 28/11/2014 às 10h16 | carol.jp3@gmail.com



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Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.