Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Horta urbana; ou; Esperança

A horta urbana mais linda. Toda verde, toda viva, toda cheia de flor.
Cuidada por uma senhorinha de idade avançada, que usa chapéu e os dois pés no chão.

Ali tem capricho, tem cuidado, tem esperança. Ali tem firmeza no propósito.

Pode ser que em volta só haja concreto. Pode ser que more um monte de gente empilhada, e que muitos não saibam o nome do vizinho. Pode ser que o dia passe e eles não vejam. Pode ser que alguns se sintam como o gato sentado na sacada, achando lá fora um mundo impossível. Pode ser que nunca tenham plantado, nunca tenham colhido. Que achem que comida nasce em prateleiras e dentro de plásticos. Que o lixo some na porta mágica, que os dejetos evaporam com a descarga. Pode ser que não se importem e que tenham escolhido viver assim. Ou nada disso.
A horta urbana me faz feliz, sempre que estou por ali páro pra contemplar. Discretamente, fico observando aquela senhora, aquela solitude, aquele silêncio, perdido na cidade. O cachorro, fiel companheiro, a água molhando as plantas de manhãzinha e fim de tarde, a resposta da natureza. Um ritual sagrado cotidiano, no meio do corre, do meio dos prédios, no meio da pressa.


Quantas vezes esquecemos do que somos em decorrência do local onde estamos, das coisas que nos cercam? Quantas vezes falamos o que não pensamos, praticamos o que não acreditamos, nos comportamos como seres distantes de nós mesmos, separados do Todo?
Ter consciência e estar em si é o que me lembra aquela horta: dia após dia, e apesar do ritmo externo, cavocar a terra, dar água, mudar de lugar o que precisa ser mudado, podar, limpar, observar a luz e as sombras. Momento presente, fazer o que tem que ser feito, e isso é muito. Isso é tanto, isso é dar o melhor pro mundo: uma pessoa em si alimenta todo o seu redor.

 

 

 

“Natureza é uma força que inunda como os desertos.” Manoel de Barros

Escrito por Caroline Cezar, 21/11/2014 às 10h58 | carol.jp3@gmail.com

Entrega

 

Tava na cidade, toda atrapalhada, toda em dúvidas. Nitidamente um sintoma da síndrome da roça, umas quinze opções de não-sei-se-faço e a predominante vontade de voltar pra casa e assar um pão antes do dia se ir.

 

O lado caxias querendo cumprir o que se propôs, que até agora se resumiu a visitar a amiga…pra que mercado, pra que banco, pra que lista de itens… Isso tudo só embaralhando mais a cabeça. Vamos praticar, esse era o topo da lista. Disciplina, disciplina Caroline… mas... será mesmo que é o que preciso hoje? Tô com fome. Tô fora de casa há horas. Quero sair da cidade. E o bebê? Vamos praticar, decisão tomada pela segunda vez. Tem o trânsito, tem entrar na rua errada, tem mais confusão.

 

Atrasada uns vinte minutos, rondei a porta, cogitei, desisti quando escutei todo o silêncio e a concentração de um grupo que saiu de casa pra isso. Tá tudo certo, cestlavie, plantio e colheita, você nem sabia se ia casar ou andar de bicicleta, toma uma água, senta um pouco, volta a si e vai embora.

 

Lá estou dando o tempo quando vejo Maria, no auge de sua meia dúzia de anos, toda trabalhada na sapequice, me dando aquela analisada onde tava escrito “e aí perdida?” (eu rio)

 

- Maria! Você tá aí é? Quanto tempo menina! (tentando evitar o bordão “você cresceu” com o apertão nas bochechas, mas consciente que sim, a gente fica igual às tias).

- Oi. Mas quem é você mesmo?

(Por um instante lamento a ausência e queria fazer mais parte; no instante seguinte comemoro e vejo que faço totalmente parte. Quem quer que ela me reconheça é meu ego, mas meu coração tá aqui, em total presença com ela e com sua verdade, o que é mais lindo. Quanto tempo tem num instante?)

- Eu sou aquela tia que tem vários filhos, uma é bebê, você se lembra? Eu sou amiga da mamãe, que te conhece desde que você tava dentro da barriga.

- Ãããhn tá. (vulgo “grandes coisa”).

 

Saiu andando.

 

Continuei o assunto corriqueiro de halls de entrada. Me cansei, dei uma volta, caí na sala de Maria, com uma casinha muito bem montada, um filtro dos sonhos gigante e um tapete azul esticado no chão. Deus, o yoga que eu precisava, toda a inocência e a pureza do mundo, um espaço vazio, menos gente, menos outros, e uma facilitadora mestra e despida de qualquer tem-que-ser.

 

- Ah, com licença Maria, eu posso ocupar esse espaço um pouquinho?

- Ah claro, você veio fazer yoga?

- Sim, eu vim.

- Ah, pode fazer sim. Você quer uma ajuda? Olha, faz essa postura aqui do macaco.

- Ah, ok, faço sim.

- Ahãm, você parece uma macaca MESMO. Agora faz essa aqui, da árvore. (...)  E agora essa aqui, como é mesmo o nome? Ai, como é mesmo… (saiu da sala, deu uma volta)… A postura da mamãe! A mamãe adora essa postura, ela sempre faz, vamos chamar de postura da mamãe.

- Hm, eu também gosto dessa, eu gosto muito (comemorando internamente a perfeita definição para natarajásana, a postura de Shiva como dançarino cósmico - dança, equilíbrio, quatro braços, tudo a ver com mamães!).

E ela continuou guiando: - Vamos fazer juntas… Coloca a mão aqui ó, isso, muito bem, você também sabe essa. Vamos mostrar pra mamãe quando ela sair da sala.

 

Já estou totalmente satisfeita e agradecida pelo atraso, pelas dúvidas e por voltar a mim dessa forma, mas ela ainda tem mais a oferecer:

 

- Vamos tirar uma cartinha. (não era uma pergunta, era uma afirmação). Ela embaralha o tarô, retira uma pra si, ABUNDÂNCIA, e me oferece outra, “Cura Planetária”.

Emocionante, mas disfarço, deito, ela apaga a luz. Passam uns minutos e ela me diz:

 

- Bom né? Mas agora acabou, você pode ir. Você poderia pendurar o tapete ali por favor?

(Eu adoro o jeito que ela encerra a coisa, neutra, educada, desapegada, sem espaço pra divagações. Obedeço, agradeço.)

- Sim Maria. Obrigada pela aula. Dá um beijo na sua mãe.

- Obrigada também. Como é mesmo seu nome? Você tem o mesmo cheiro da Dedé, aquela outra que teve bebê.

- E você é uma ótima farejadora mocinha.

 

Minha lista estava cumprida, e naquele dia, ao invés da disciplina escolhi a entrega. Todo resto veio de brinde.

  

(Ilustração do Respire Blog, via Kika Teixeira)

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do Página3 impresso, em 18 de outubro de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 10/11/2014 às 15h05 | carol.jp3@gmail.com

Estamos todos exagerando

 

Entre as opções do lugar, expostas em uma placa na rua, uma me chamou atenção: “musicalização para bebês”.

 

(Pera. Que diacho é isso agora senhor. O que será que chamam de bebê? Já senta, por favor, me digam que já senta. E o que seria a tal musicalização? Música é que nem Deus, onde Ele não está?)

 

Bater palmas, assobiar, lavar louça, usar os pés, sacudir caixa de fósforos, solfejar, brincar com o corpo, isso pra nem falar do que vem de lá de fora. Todos os sons, todos os ritmos, a voz maravilhosa da mãe, não importa em que tom, desde que esteja repleto de amor, a melhor música. Bebê devia ficar com a mãe. Devia ficar no peito.

 

Não é uma crítica isolada a tal lugar, tal pessoa, tal método. A partir da observação rasa de uma placa fiquei pensando em outras coisas mais além. Podem haver projetos lindos e ricos envolvendo música e bebês, porque afinal, ideal é ideal, e mundo real é outra coisa. A sociedade está montada desse jeito e nesse caso, são bem vindas idéias que enriqueçam os dias das crianças órfãs e das outras não tão órfãs. Enriquecer e não substituir. Somar e não trocar. Aproximar e não afastar. Fortalecer o vínculo.

 

Bebê devia ficar com a mãe, ficar no peito, não ter compromisso e ter contato com música e eartes em geral. E mãe, mãe é gente, precisa de ajuda, de compreensão, de apoio, doação não é tão simples quanto parece. Doar dinheiro é. Doar sopa é. Doar tempo, corpo, alma, amor, peito, não é. E temos aí, duas doenças sociais: crianças abandonadas e/ou adotadas por inúmeros compromissos e mães isoladas e carentes nos centros urbanos. Que espécie de filho elas vão criar? Que espécie de adulto eles vão se tornar? Precisa olhar pra isso, porque isso é base.

 

A ciência explica que filhote humano é filhote até três anos de idade, mas na prática dá meia dúzia de passos não é mais bebê, “já é criança” e “independente”. Já pode ir na aula de dança, equitação, mandarim e colônia nas horas vagas, porque temos que aprender a ser produtivos e mente vazia é coisa do tibinga. A escola nem se fala, o quanto antes, para “aprender a socializar, conviver com outras crianças, dividir”. Porque já não tem mais criança na rua. Porque os parquinhos, “ãhn, que parquinho?”, vizinho, “ãhn, que vizinho?” (O cara ali, da caixa ao lado. O que sai de manhã e volta à noite, que nem nós).

 

Tá todo mundo com pressa. E nesse ritmo, perdem-se coisas essenciais numa fase de construção. O direito de ficar em casa. O direito de ter pai e mãe. O direito de BRINCAR. O direito de ser LIVRE. O espaço vazio. A ausência de estímulos. O acaso. O vento. A chuva. O frio e o calor. A fome, antes de comer. O sono, antes de ser sedado. A alegria. A tristeza. O direito de ficar triste. De chorar. De experimentar. De ficar em paz. De ser acolhido. O direito à palavra, escrita, falada, dita e não dita. O direito à palavra ouvida. O olhar. Andar a pé pra ir a nenhum lugar, só andar.

 

Tudo é agendado, programado, planejado.

 

Contagem regressiva pro nascimento, local, data, hora e signo devidamente escolhidos por um -ou mais- adultos, numerologia que indica sucesso na vida. Faltam 10 dias, faltam 5 dias, falta meia hora, tira a foto. Um dia, trinta visitas, dois dias, mais 30. Três dias, ida ao médico. Quatro dias, exames de última geração. Dez dias, ensaio new born. Quinze dias, primeiro passeio no shopping. Um mês, festinha com bolo de chantilly e mesa de doce. Dois meses, festinha. Três meses, exposição dos sapatinhos e lacinhos. Quatro meses, look do dia pra ir na creche, mamãe precisa trabalhar (e voltar à boa forma, e ir no salão, dar um up no visú etc etc). Cinco meses, já se interessa por tudo, merece um tablet. Seis meses, festinha e contagem regressiva para a grande festa de comemoração do primeiro ano, como passa rápido! Dia das Crianças. Natal. Coelhinho. Shopping. Loja. Roupa. Brinquedo que liga, apita, toca música, treme. Barulho, barulho, ruído, luz que acende, luz que apaga.

 

Exagero? Estamos todos exagerando, achando que isso é normal. Comum NÃO É normal. Falta uma conexão mais profunda com a vida, com os filhos e com as relações de maneira geral. Falta um comprometimento com a infância, conosco, e com a verdade. Não podemos encarar a vida como uma página de facebook, com recortes de momentos lindos, e não enxergar a mediocridade do cotidiano. A coisa toda está montada para ficar fácil, quase automática, cômoda, bonitinha, mas pra beneficiar quem? E o que se perde, o que se sacrifica?

 


                                                                                                                                                                     BANKSY

 

“¡Qué poco cuesta construir castillos en el aire, y qué cara es su destrucción!” (François Mauriac)

 

Escrito por Caroline Cezar, 15/10/2014 às 22h04 | carol.jp3@gmail.com

Banho de luz

 

E a menina tendo dor de barriga pra ir na escola, sempre no mesmo dia.

- Você sabe, minha filha, que a dor não nasce do nada, mas é você que tem que descobrir daonde que ela vem. Eu posso te ajudar a investigar, te dizer que nosso corpo nos alerta o tempo todo sobre tudo, mas a resposta mesmo é só você que tem.

 

Depois de muito auto e co-estudo, voltas e hipóteses, sempre sutis e sugestivas, nunca sentenças prontas -que é como a gente devia conversar com criança sempre-, veio um possível diagnóstico: a aula de leitura.
(Mas como uma aula de leitura pode ser desgostosa pra alguém que gosta tanto de ler? É o método? O condutor? Os textos? Como acontece? Nova anamnese.)

 

E volta, e volta, e volta...e hipóetese: pode ser que seja a pessoa.

- Então é assim minha filha: essa pessoa está ali. Outras pessoas vão estar em outros momentos da vida e você vai ter que passar por cima. E por favor não me entenda mal que isso não quer dizer pisar na cabeça, desrespeitar, agir grosseiramente, ou devolver o que ela te dá. A gente não vive uma batalha. A gente não tá aqui pra trocar olho por olho, dente por dente não senhora. Já imaginou que dia difícil aquela pessoa pode estar tendo? Ou que fase difícil? Ou que ano inteiro difícil… Ou ainda que existência difícil!?

 

- Mas ela nem tem filhos mamãe!
(Gargalhadas)
(Pausa)
(Suspiro)

 

Minha filha amada, filho não é problema, só dá trabalho, muito trabalho, mas também muita felicidade. Às vezes a pessoa não tem filhos, mas qualquer pessoa tem pais, não é verdade? Tios. Avós. Namorado. Vizinho. Conhecido. Ela mesma pode ser várias. Sempre tem outras pessoas na vida de uma pessoa. E nem sempre isso é fácil, aliás, quase nunca é, mas podemos tentar que isso seja mais... leve.
Também vale lembrar que gente não é estática, temos fases e ciclos, e outro dia pode ser nós que estamos carregando uma nuvem na cabeça. Tem esses dias não tem? Todo mundo tem. E aí a gente sai trovejando e geral relampeando de volta, pensa em como a gente se sente? Terrível, um alimentando a tempestade do outro.

 

Podemos tentar um exercício na próxima aula de leitura: fazer uma leitura. Silenciosa, menos com os olhos, e mais com todos os sentidos, ligar as anteninhas mágicas pra ver como andam as coisas, como está tudo naquele dia. Se você ver, ou melhor, sentir, que algo não está tão bem, se concentra, se concentra mais um tanto e lembra antes de tudo: não é com você. Você não fez nada. Aquilo não é seu. Segundo: você pode ajudar. Dá uma disfarçada e sem fazer careta começa a imaginar tudo de bom para aquela pessoa. Se ela fizer cara feia, dá um sorriso. E vai entrando com o teu poder mais pra dentro, esquece a roupa, esquece o rosto, esquece a expressão, esquece a pele, esquece o que tem fora e vai, vai, vai até achar alguma coisa que brilha, às vezes tá meio apagadinho, mas dá uma lustrada e traz de volta. Tenta com teu super poder secreto trazer aquilo pra fora, contaminar e não ser contaminada. Se você não quiser entrar tanto lá, tudo bem, pega uma luz de fora e joga na cabeça dela, mas joga mesmo, mais e mais, quanto você puder. Abre um chuveiro de luz na cabeça dela. Dá uma banho mágico, daqueles bem fortes que chega a doer. Você é tão tão poderosa com essa alegria extrema, eu sei que você pode. E vou te dizer mais uma coisa que não é pra se gabar nem se achar melhor que ninguém, mas ainda por cima você é fêmea. Tem o dom de gerar vida, de abençoar, de proteger e tem o dom mais poderoso de todos, que é a intuição e muita força de criação. Fique em si, esteja em si e você vai saber fazer qualquer coisa.

 

Lembra sempre também que as pessoas, todas elas, carregam uma bagagem, às vezes é uma mochilinha, se ela se acostuma sempre a jogar algumas coisas fora, guardar só as bem importantes… às vezes são malas muito pesadas, outras vezes só vai de reboque mesmo. Considera isso e respeita. Ninguém cai aqui de paraquedas. Estamos pra nos relacionar. Com as bagagens, com as pessoas chatas, as pessoas legais, as famílias e os encontros e desencontros da vida. Esse é nosso maior aprendizado. “O plano espiritual é um bairro”, diz o Enzo. Tenha amor minha filha. Tenha amor e faça sua parte.

Escrito por Caroline Cezar, 19/09/2014 às 11h27 | carol.jp3@gmail.com

Religare

 

Esses dias minha filha veio da escola dizendo que ouviu “umas coisas lá” sobre Buda mas que já sabia que não era verdade.

 

- Hmm, mas o que você ouviu?
- É que estavam dizendo que quem gosta de Buda não gosta de Deus, mas eu sabia que isso não podia ser verdade porque eu sei muito bem que Buda também é um Deus.

 (Era uma discussão entre crianças, porque uma apareceu com uma medalhinha de Buda).

 

Soube que ali, ano passado houve reclamação de uma mãe sobre ser oferecida oficina de capoeira, “coisa de candomblé”, no ambiente escolar.

 

Se uma religião, seja ela qual for, ensina a odiar ou ter preconceito com quem não é igual, ela não segue os preceitos básicos de amor e respeito ao próximo e isso não é admissível.

 

A própria palavra religião perdeu o sentido, porque é associada a fanatismo, culpa, medo, e outros estereótipos que não lhe cabem. Religião vem do latim religare, é voltar a ser, religação, estabelecer um canal direto com Deus, seja de que forma isso se dê. Tem gente que gosta de rezar, outros preferem cantar, outros sentar em silêncio. Há ainda quem goste de ler. Praticar yoga. Beijar o chão. Repetir palavras. Dançar. Entrar no mar. Tomar banho de rio. Ingerir chás.


Não existe forma errada, desde que a conexão seja sincera e verdadeira. Uma vez ouvi alguém dizer: “estão todos indo pro mesmo lugar, só que uns vão a pé, outros a cavalo, outros pedalando, de trem, ônibus ou avião, mas o destino é o mesmo”.


Se o destino é o mesmo, não deviam louvar uns aos outros, acenar, dizer bom dia, mesmo que à distância? Por que parece tão difícil aceitar a expressão de amor em diferentes formas? Se Deus está em todos os lugares, qual o problema de adorar uma imagem a mais, uma a menos, que represente algo maior, a relação do indivíduo com o Todo? Não é natural que entre pessoas tão únicas e diferentes, existam expressões múltiplas?


E quando essa discussão sai da escola, do bairro, e sobe para uma eleição presidencial? Eu não sei o quanto que escuto é verdade, se são ataques da oposição, se é apelação, máfia... mas sei que há igrejas e mais igrejas financiando campanhas políticas e sempre participando da mais alta escala de interesse e poder. O Estado deve ser obrigatoriamente laico. As religiões podem co-existir e todos têm direito à expressão. Chamar uma cultura religiosa de “seita” ou coisas do tipo, é um desrespeito e uma ignorância. Quem usa a religião “pro bem” ou “pro mal” são as pessoas, maus intérpretes das escrituras sagradas. Os valores universais estão para lembrar-nos do livre arbítrio, da lei de causa e efeito, de uma conduta favorável nesse sentido. O resto é do homem que não se vê parte do Todo, está desconectado.

 

 

“Los partidos, son partes. El país es un todo.
No promulgar la división. Luchar por la unión.
La politica está obsoleta. Basta de odio”.
(Alejandro Jodorowski)

Escrito por Caroline Cezar, 12/09/2014 às 10h00 | carol.jp3@gmail.com

Dilemas

Senti a necessidade de dizer que estou de férias daqui, na verdade não é isso: ando com uns dilemas sobre formato, conteúdo, texto, não texto, foto, não foto. Sou muito transparente pra fingir inspiração, e não é nem falta de inspiração, mas o que fazer com ela. Dias de sol, ventos diferentes, sento no banquinho pra ver qual é. Meu marido fez quarenta, meu pai faz sessenta e minha avó fará 80. Minha bebê se move pela casa, meu filho se move pelo mundo, minha filha dança e escreve emails reclamando direitos. Agora eu tomo café preto, hábito que não tinha. Agora eu me recolho com o dia, hábito que não tinha. Agora eu tô aqui, esperando o que vai ser, hábito que também não tinha.

Por enquanto, sugiro a quem se interessa pelas mudanças constantes, assistir a esse documentário. Com tempo. 

 

 

(E das cinquenta reflexões que eu faria aqui, escolho uma: "o que estamos fazendo com a luz dos outros? Ajudando a acender, ou ajudando a apagar"?) Amém.

Escrito por Caroline Cezar, 06/08/2014 às 09h28 | carol.jp3@gmail.com



1 2 3 4 5 6 7 8

Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Horta urbana; ou; Esperança

A horta urbana mais linda. Toda verde, toda viva, toda cheia de flor.
Cuidada por uma senhorinha de idade avançada, que usa chapéu e os dois pés no chão.

Ali tem capricho, tem cuidado, tem esperança. Ali tem firmeza no propósito.

Pode ser que em volta só haja concreto. Pode ser que more um monte de gente empilhada, e que muitos não saibam o nome do vizinho. Pode ser que o dia passe e eles não vejam. Pode ser que alguns se sintam como o gato sentado na sacada, achando lá fora um mundo impossível. Pode ser que nunca tenham plantado, nunca tenham colhido. Que achem que comida nasce em prateleiras e dentro de plásticos. Que o lixo some na porta mágica, que os dejetos evaporam com a descarga. Pode ser que não se importem e que tenham escolhido viver assim. Ou nada disso.
A horta urbana me faz feliz, sempre que estou por ali páro pra contemplar. Discretamente, fico observando aquela senhora, aquela solitude, aquele silêncio, perdido na cidade. O cachorro, fiel companheiro, a água molhando as plantas de manhãzinha e fim de tarde, a resposta da natureza. Um ritual sagrado cotidiano, no meio do corre, do meio dos prédios, no meio da pressa.


Quantas vezes esquecemos do que somos em decorrência do local onde estamos, das coisas que nos cercam? Quantas vezes falamos o que não pensamos, praticamos o que não acreditamos, nos comportamos como seres distantes de nós mesmos, separados do Todo?
Ter consciência e estar em si é o que me lembra aquela horta: dia após dia, e apesar do ritmo externo, cavocar a terra, dar água, mudar de lugar o que precisa ser mudado, podar, limpar, observar a luz e as sombras. Momento presente, fazer o que tem que ser feito, e isso é muito. Isso é tanto, isso é dar o melhor pro mundo: uma pessoa em si alimenta todo o seu redor.

 

 

 

“Natureza é uma força que inunda como os desertos.” Manoel de Barros

Escrito por Caroline Cezar, 21/11/2014 às 10h58 | carol.jp3@gmail.com

Entrega

 

Tava na cidade, toda atrapalhada, toda em dúvidas. Nitidamente um sintoma da síndrome da roça, umas quinze opções de não-sei-se-faço e a predominante vontade de voltar pra casa e assar um pão antes do dia se ir.

 

O lado caxias querendo cumprir o que se propôs, que até agora se resumiu a visitar a amiga…pra que mercado, pra que banco, pra que lista de itens… Isso tudo só embaralhando mais a cabeça. Vamos praticar, esse era o topo da lista. Disciplina, disciplina Caroline… mas... será mesmo que é o que preciso hoje? Tô com fome. Tô fora de casa há horas. Quero sair da cidade. E o bebê? Vamos praticar, decisão tomada pela segunda vez. Tem o trânsito, tem entrar na rua errada, tem mais confusão.

 

Atrasada uns vinte minutos, rondei a porta, cogitei, desisti quando escutei todo o silêncio e a concentração de um grupo que saiu de casa pra isso. Tá tudo certo, cestlavie, plantio e colheita, você nem sabia se ia casar ou andar de bicicleta, toma uma água, senta um pouco, volta a si e vai embora.

 

Lá estou dando o tempo quando vejo Maria, no auge de sua meia dúzia de anos, toda trabalhada na sapequice, me dando aquela analisada onde tava escrito “e aí perdida?” (eu rio)

 

- Maria! Você tá aí é? Quanto tempo menina! (tentando evitar o bordão “você cresceu” com o apertão nas bochechas, mas consciente que sim, a gente fica igual às tias).

- Oi. Mas quem é você mesmo?

(Por um instante lamento a ausência e queria fazer mais parte; no instante seguinte comemoro e vejo que faço totalmente parte. Quem quer que ela me reconheça é meu ego, mas meu coração tá aqui, em total presença com ela e com sua verdade, o que é mais lindo. Quanto tempo tem num instante?)

- Eu sou aquela tia que tem vários filhos, uma é bebê, você se lembra? Eu sou amiga da mamãe, que te conhece desde que você tava dentro da barriga.

- Ãããhn tá. (vulgo “grandes coisa”).

 

Saiu andando.

 

Continuei o assunto corriqueiro de halls de entrada. Me cansei, dei uma volta, caí na sala de Maria, com uma casinha muito bem montada, um filtro dos sonhos gigante e um tapete azul esticado no chão. Deus, o yoga que eu precisava, toda a inocência e a pureza do mundo, um espaço vazio, menos gente, menos outros, e uma facilitadora mestra e despida de qualquer tem-que-ser.

 

- Ah, com licença Maria, eu posso ocupar esse espaço um pouquinho?

- Ah claro, você veio fazer yoga?

- Sim, eu vim.

- Ah, pode fazer sim. Você quer uma ajuda? Olha, faz essa postura aqui do macaco.

- Ah, ok, faço sim.

- Ahãm, você parece uma macaca MESMO. Agora faz essa aqui, da árvore. (...)  E agora essa aqui, como é mesmo o nome? Ai, como é mesmo… (saiu da sala, deu uma volta)… A postura da mamãe! A mamãe adora essa postura, ela sempre faz, vamos chamar de postura da mamãe.

- Hm, eu também gosto dessa, eu gosto muito (comemorando internamente a perfeita definição para natarajásana, a postura de Shiva como dançarino cósmico - dança, equilíbrio, quatro braços, tudo a ver com mamães!).

E ela continuou guiando: - Vamos fazer juntas… Coloca a mão aqui ó, isso, muito bem, você também sabe essa. Vamos mostrar pra mamãe quando ela sair da sala.

 

Já estou totalmente satisfeita e agradecida pelo atraso, pelas dúvidas e por voltar a mim dessa forma, mas ela ainda tem mais a oferecer:

 

- Vamos tirar uma cartinha. (não era uma pergunta, era uma afirmação). Ela embaralha o tarô, retira uma pra si, ABUNDÂNCIA, e me oferece outra, “Cura Planetária”.

Emocionante, mas disfarço, deito, ela apaga a luz. Passam uns minutos e ela me diz:

 

- Bom né? Mas agora acabou, você pode ir. Você poderia pendurar o tapete ali por favor?

(Eu adoro o jeito que ela encerra a coisa, neutra, educada, desapegada, sem espaço pra divagações. Obedeço, agradeço.)

- Sim Maria. Obrigada pela aula. Dá um beijo na sua mãe.

- Obrigada também. Como é mesmo seu nome? Você tem o mesmo cheiro da Dedé, aquela outra que teve bebê.

- E você é uma ótima farejadora mocinha.

 

Minha lista estava cumprida, e naquele dia, ao invés da disciplina escolhi a entrega. Todo resto veio de brinde.

  

(Ilustração do Respire Blog, via Kika Teixeira)

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do Página3 impresso, em 18 de outubro de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 10/11/2014 às 15h05 | carol.jp3@gmail.com

Estamos todos exagerando

 

Entre as opções do lugar, expostas em uma placa na rua, uma me chamou atenção: “musicalização para bebês”.

 

(Pera. Que diacho é isso agora senhor. O que será que chamam de bebê? Já senta, por favor, me digam que já senta. E o que seria a tal musicalização? Música é que nem Deus, onde Ele não está?)

 

Bater palmas, assobiar, lavar louça, usar os pés, sacudir caixa de fósforos, solfejar, brincar com o corpo, isso pra nem falar do que vem de lá de fora. Todos os sons, todos os ritmos, a voz maravilhosa da mãe, não importa em que tom, desde que esteja repleto de amor, a melhor música. Bebê devia ficar com a mãe. Devia ficar no peito.

 

Não é uma crítica isolada a tal lugar, tal pessoa, tal método. A partir da observação rasa de uma placa fiquei pensando em outras coisas mais além. Podem haver projetos lindos e ricos envolvendo música e bebês, porque afinal, ideal é ideal, e mundo real é outra coisa. A sociedade está montada desse jeito e nesse caso, são bem vindas idéias que enriqueçam os dias das crianças órfãs e das outras não tão órfãs. Enriquecer e não substituir. Somar e não trocar. Aproximar e não afastar. Fortalecer o vínculo.

 

Bebê devia ficar com a mãe, ficar no peito, não ter compromisso e ter contato com música e eartes em geral. E mãe, mãe é gente, precisa de ajuda, de compreensão, de apoio, doação não é tão simples quanto parece. Doar dinheiro é. Doar sopa é. Doar tempo, corpo, alma, amor, peito, não é. E temos aí, duas doenças sociais: crianças abandonadas e/ou adotadas por inúmeros compromissos e mães isoladas e carentes nos centros urbanos. Que espécie de filho elas vão criar? Que espécie de adulto eles vão se tornar? Precisa olhar pra isso, porque isso é base.

 

A ciência explica que filhote humano é filhote até três anos de idade, mas na prática dá meia dúzia de passos não é mais bebê, “já é criança” e “independente”. Já pode ir na aula de dança, equitação, mandarim e colônia nas horas vagas, porque temos que aprender a ser produtivos e mente vazia é coisa do tibinga. A escola nem se fala, o quanto antes, para “aprender a socializar, conviver com outras crianças, dividir”. Porque já não tem mais criança na rua. Porque os parquinhos, “ãhn, que parquinho?”, vizinho, “ãhn, que vizinho?” (O cara ali, da caixa ao lado. O que sai de manhã e volta à noite, que nem nós).

 

Tá todo mundo com pressa. E nesse ritmo, perdem-se coisas essenciais numa fase de construção. O direito de ficar em casa. O direito de ter pai e mãe. O direito de BRINCAR. O direito de ser LIVRE. O espaço vazio. A ausência de estímulos. O acaso. O vento. A chuva. O frio e o calor. A fome, antes de comer. O sono, antes de ser sedado. A alegria. A tristeza. O direito de ficar triste. De chorar. De experimentar. De ficar em paz. De ser acolhido. O direito à palavra, escrita, falada, dita e não dita. O direito à palavra ouvida. O olhar. Andar a pé pra ir a nenhum lugar, só andar.

 

Tudo é agendado, programado, planejado.

 

Contagem regressiva pro nascimento, local, data, hora e signo devidamente escolhidos por um -ou mais- adultos, numerologia que indica sucesso na vida. Faltam 10 dias, faltam 5 dias, falta meia hora, tira a foto. Um dia, trinta visitas, dois dias, mais 30. Três dias, ida ao médico. Quatro dias, exames de última geração. Dez dias, ensaio new born. Quinze dias, primeiro passeio no shopping. Um mês, festinha com bolo de chantilly e mesa de doce. Dois meses, festinha. Três meses, exposição dos sapatinhos e lacinhos. Quatro meses, look do dia pra ir na creche, mamãe precisa trabalhar (e voltar à boa forma, e ir no salão, dar um up no visú etc etc). Cinco meses, já se interessa por tudo, merece um tablet. Seis meses, festinha e contagem regressiva para a grande festa de comemoração do primeiro ano, como passa rápido! Dia das Crianças. Natal. Coelhinho. Shopping. Loja. Roupa. Brinquedo que liga, apita, toca música, treme. Barulho, barulho, ruído, luz que acende, luz que apaga.

 

Exagero? Estamos todos exagerando, achando que isso é normal. Comum NÃO É normal. Falta uma conexão mais profunda com a vida, com os filhos e com as relações de maneira geral. Falta um comprometimento com a infância, conosco, e com a verdade. Não podemos encarar a vida como uma página de facebook, com recortes de momentos lindos, e não enxergar a mediocridade do cotidiano. A coisa toda está montada para ficar fácil, quase automática, cômoda, bonitinha, mas pra beneficiar quem? E o que se perde, o que se sacrifica?

 


                                                                                                                                                                     BANKSY

 

“¡Qué poco cuesta construir castillos en el aire, y qué cara es su destrucción!” (François Mauriac)

 

Escrito por Caroline Cezar, 15/10/2014 às 22h04 | carol.jp3@gmail.com

Banho de luz

 

E a menina tendo dor de barriga pra ir na escola, sempre no mesmo dia.

- Você sabe, minha filha, que a dor não nasce do nada, mas é você que tem que descobrir daonde que ela vem. Eu posso te ajudar a investigar, te dizer que nosso corpo nos alerta o tempo todo sobre tudo, mas a resposta mesmo é só você que tem.

 

Depois de muito auto e co-estudo, voltas e hipóteses, sempre sutis e sugestivas, nunca sentenças prontas -que é como a gente devia conversar com criança sempre-, veio um possível diagnóstico: a aula de leitura.
(Mas como uma aula de leitura pode ser desgostosa pra alguém que gosta tanto de ler? É o método? O condutor? Os textos? Como acontece? Nova anamnese.)

 

E volta, e volta, e volta...e hipóetese: pode ser que seja a pessoa.

- Então é assim minha filha: essa pessoa está ali. Outras pessoas vão estar em outros momentos da vida e você vai ter que passar por cima. E por favor não me entenda mal que isso não quer dizer pisar na cabeça, desrespeitar, agir grosseiramente, ou devolver o que ela te dá. A gente não vive uma batalha. A gente não tá aqui pra trocar olho por olho, dente por dente não senhora. Já imaginou que dia difícil aquela pessoa pode estar tendo? Ou que fase difícil? Ou que ano inteiro difícil… Ou ainda que existência difícil!?

 

- Mas ela nem tem filhos mamãe!
(Gargalhadas)
(Pausa)
(Suspiro)

 

Minha filha amada, filho não é problema, só dá trabalho, muito trabalho, mas também muita felicidade. Às vezes a pessoa não tem filhos, mas qualquer pessoa tem pais, não é verdade? Tios. Avós. Namorado. Vizinho. Conhecido. Ela mesma pode ser várias. Sempre tem outras pessoas na vida de uma pessoa. E nem sempre isso é fácil, aliás, quase nunca é, mas podemos tentar que isso seja mais... leve.
Também vale lembrar que gente não é estática, temos fases e ciclos, e outro dia pode ser nós que estamos carregando uma nuvem na cabeça. Tem esses dias não tem? Todo mundo tem. E aí a gente sai trovejando e geral relampeando de volta, pensa em como a gente se sente? Terrível, um alimentando a tempestade do outro.

 

Podemos tentar um exercício na próxima aula de leitura: fazer uma leitura. Silenciosa, menos com os olhos, e mais com todos os sentidos, ligar as anteninhas mágicas pra ver como andam as coisas, como está tudo naquele dia. Se você ver, ou melhor, sentir, que algo não está tão bem, se concentra, se concentra mais um tanto e lembra antes de tudo: não é com você. Você não fez nada. Aquilo não é seu. Segundo: você pode ajudar. Dá uma disfarçada e sem fazer careta começa a imaginar tudo de bom para aquela pessoa. Se ela fizer cara feia, dá um sorriso. E vai entrando com o teu poder mais pra dentro, esquece a roupa, esquece o rosto, esquece a expressão, esquece a pele, esquece o que tem fora e vai, vai, vai até achar alguma coisa que brilha, às vezes tá meio apagadinho, mas dá uma lustrada e traz de volta. Tenta com teu super poder secreto trazer aquilo pra fora, contaminar e não ser contaminada. Se você não quiser entrar tanto lá, tudo bem, pega uma luz de fora e joga na cabeça dela, mas joga mesmo, mais e mais, quanto você puder. Abre um chuveiro de luz na cabeça dela. Dá uma banho mágico, daqueles bem fortes que chega a doer. Você é tão tão poderosa com essa alegria extrema, eu sei que você pode. E vou te dizer mais uma coisa que não é pra se gabar nem se achar melhor que ninguém, mas ainda por cima você é fêmea. Tem o dom de gerar vida, de abençoar, de proteger e tem o dom mais poderoso de todos, que é a intuição e muita força de criação. Fique em si, esteja em si e você vai saber fazer qualquer coisa.

 

Lembra sempre também que as pessoas, todas elas, carregam uma bagagem, às vezes é uma mochilinha, se ela se acostuma sempre a jogar algumas coisas fora, guardar só as bem importantes… às vezes são malas muito pesadas, outras vezes só vai de reboque mesmo. Considera isso e respeita. Ninguém cai aqui de paraquedas. Estamos pra nos relacionar. Com as bagagens, com as pessoas chatas, as pessoas legais, as famílias e os encontros e desencontros da vida. Esse é nosso maior aprendizado. “O plano espiritual é um bairro”, diz o Enzo. Tenha amor minha filha. Tenha amor e faça sua parte.

Escrito por Caroline Cezar, 19/09/2014 às 11h27 | carol.jp3@gmail.com

Religare

 

Esses dias minha filha veio da escola dizendo que ouviu “umas coisas lá” sobre Buda mas que já sabia que não era verdade.

 

- Hmm, mas o que você ouviu?
- É que estavam dizendo que quem gosta de Buda não gosta de Deus, mas eu sabia que isso não podia ser verdade porque eu sei muito bem que Buda também é um Deus.

 (Era uma discussão entre crianças, porque uma apareceu com uma medalhinha de Buda).

 

Soube que ali, ano passado houve reclamação de uma mãe sobre ser oferecida oficina de capoeira, “coisa de candomblé”, no ambiente escolar.

 

Se uma religião, seja ela qual for, ensina a odiar ou ter preconceito com quem não é igual, ela não segue os preceitos básicos de amor e respeito ao próximo e isso não é admissível.

 

A própria palavra religião perdeu o sentido, porque é associada a fanatismo, culpa, medo, e outros estereótipos que não lhe cabem. Religião vem do latim religare, é voltar a ser, religação, estabelecer um canal direto com Deus, seja de que forma isso se dê. Tem gente que gosta de rezar, outros preferem cantar, outros sentar em silêncio. Há ainda quem goste de ler. Praticar yoga. Beijar o chão. Repetir palavras. Dançar. Entrar no mar. Tomar banho de rio. Ingerir chás.


Não existe forma errada, desde que a conexão seja sincera e verdadeira. Uma vez ouvi alguém dizer: “estão todos indo pro mesmo lugar, só que uns vão a pé, outros a cavalo, outros pedalando, de trem, ônibus ou avião, mas o destino é o mesmo”.


Se o destino é o mesmo, não deviam louvar uns aos outros, acenar, dizer bom dia, mesmo que à distância? Por que parece tão difícil aceitar a expressão de amor em diferentes formas? Se Deus está em todos os lugares, qual o problema de adorar uma imagem a mais, uma a menos, que represente algo maior, a relação do indivíduo com o Todo? Não é natural que entre pessoas tão únicas e diferentes, existam expressões múltiplas?


E quando essa discussão sai da escola, do bairro, e sobe para uma eleição presidencial? Eu não sei o quanto que escuto é verdade, se são ataques da oposição, se é apelação, máfia... mas sei que há igrejas e mais igrejas financiando campanhas políticas e sempre participando da mais alta escala de interesse e poder. O Estado deve ser obrigatoriamente laico. As religiões podem co-existir e todos têm direito à expressão. Chamar uma cultura religiosa de “seita” ou coisas do tipo, é um desrespeito e uma ignorância. Quem usa a religião “pro bem” ou “pro mal” são as pessoas, maus intérpretes das escrituras sagradas. Os valores universais estão para lembrar-nos do livre arbítrio, da lei de causa e efeito, de uma conduta favorável nesse sentido. O resto é do homem que não se vê parte do Todo, está desconectado.

 

 

“Los partidos, son partes. El país es un todo.
No promulgar la división. Luchar por la unión.
La politica está obsoleta. Basta de odio”.
(Alejandro Jodorowski)

Escrito por Caroline Cezar, 12/09/2014 às 10h00 | carol.jp3@gmail.com

Dilemas

Senti a necessidade de dizer que estou de férias daqui, na verdade não é isso: ando com uns dilemas sobre formato, conteúdo, texto, não texto, foto, não foto. Sou muito transparente pra fingir inspiração, e não é nem falta de inspiração, mas o que fazer com ela. Dias de sol, ventos diferentes, sento no banquinho pra ver qual é. Meu marido fez quarenta, meu pai faz sessenta e minha avó fará 80. Minha bebê se move pela casa, meu filho se move pelo mundo, minha filha dança e escreve emails reclamando direitos. Agora eu tomo café preto, hábito que não tinha. Agora eu me recolho com o dia, hábito que não tinha. Agora eu tô aqui, esperando o que vai ser, hábito que também não tinha.

Por enquanto, sugiro a quem se interessa pelas mudanças constantes, assistir a esse documentário. Com tempo. 

 

 

(E das cinquenta reflexões que eu faria aqui, escolho uma: "o que estamos fazendo com a luz dos outros? Ajudando a acender, ou ajudando a apagar"?) Amém.

Escrito por Caroline Cezar, 06/08/2014 às 09h28 | carol.jp3@gmail.com



1 2 3 4 5 6 7 8

Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.