Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Socialmente inaceitável

O caso grave de agressão que aconteceu no colégio particular foi um prato cheio para quem, do alto do seu teclado mágico, gosta de apontar vilões e mocinhos, cavocar a vida alheia, criar teorias e, euforicamente, quase comemorar as desgraças. Não basta às famílias sofrerem a tragédia, têm que lidar com a segunda tragédia, que é cair na boca da geração facebooker, os justiceiros de cadeira. Que passam horas por dia sentenciando na rede e quando se encontram ao vivo comentam sobre as “postagens” que fizeram ou deixaram de fazer. A bostagem na vida real, não enxergam.

O que surpreende não é a tragédia, é a surpresa. É perceber que a maioria não percebe que esse tipo de agressão está sendo construída cotidianamente, sorrateiramente, desapercebidamente; e pior: de forma socialmente aceita. Não existe plantio sem colheita, mas parece que quanto mais escancarado é o fruto, mais a sociedade trata de vê-lo isolado do pomar, como se caísse do céu.

“Isso não dá pra tolerar! Vamos achar o culpado e o motivo, jogamos as pedras e acabou. Nossas mãos parecem até mais limpas”.

Nesse mesmo mundo que não enxerga o fruto da ação amarrado à ação, é socialmente aceito crescer sem pai nem mãe, ser cuidado por terceiros, desde bebê-que-mama até perder de vista.

É socialmente aceito ser recebido com agressões, que chamam de “procedimentos padrão”, pra sempre registrados em nossas memórias menos lembradas e mais sentidas.

É socialmente aceito que desconhecidos ditem como devemos gestar e parir nossos filhos, se devem ou não mamar no peito, se devem ou não dormir com os pais, se devem usar rosa ou azul, se devem se esgoelar chorando sozinhos porque colo demais “estraga”, deixa dependente (!).

É socialmente aceito que tratem bebês como porcos na engorda, que devem obedecer a uma linha de crescimento como se fossem produção em série, mesmo que seja à base de alimento industrializado e de péssima categoria. E que tratem mães como pedaços de bife, que devem “recuperar” um corpo que agrade o mercado do sexo e da aparência.

É socialmente aceito ser dono da vida: antecipar, prolongar, fazer cópias, trocar pedaços, injetar toxinas, fabricar alegria, sono, prazer.

É socialmente aceito não ver o indivíduo como indivíduo, e sim como mais um, que deve ser igual pra não soar estranho.

É socialmente aceito colocar crianças desde muito cedo dentro de salas pequenas por horas, em filas, de costas pras outras, ouvindo, ouvindo, ouvindo o que alguém despeja. Cinco dias por semana. Não olhe pros lados.

É socialmente aceito que quem esteja à frente dessas crianças não tenha descanso, lazer, equilíbrio físico e mental e trabalhe oito, dez, doze horas por dia como um condenado para pagar as contas dos filhos -que estão sendo cuidados por outro no mesmo estado psíquico.

É socialmente aceito conversar muito pouco sobre o mundo, a cidade, o bairro, a casa, mas estudar geografia através de um livro que a todo ano é “renovado” para render lucros à editora e conchavos, mas que continua defasado, porque, só pra começar, é unidimensional. Temos google maps na palma de um celular. (E temos lá fora pra quem consegue ver).

É socialmente aceito que se dê menos importância às refeições em família, onde se come qualquer coisa que não se sabe de onde vem. De preferência em dez minutos e na rua, para que sigam todos às atividades da tarde. Quem não tem agenda cheia é um deslocado social. 

É socialmente aceito não ter “tempo livre”, aliás, é muito mal visto socialmente estar à toa, porque mente vazia é coisa de quem mesmo? Soca a mente de coisa, vai.

Os celulares, social e amplamente aceitos. Crianças os recebem cada vez mais cedo. Pais se preocupam mais com o modelo oferecido, do que pra que será usado. As escolas, pra lavar as mãos, proíbem. Mas esse computador de bolso com câmera de vídeo, foto, gravador e acesso ao mundo, é um mero emissor de “whatsup”? Reclamam, mas ninguém quer repensar o uso. Eles existem, fato. Poderiam ser ferramentas úteis.

Social e amplamente aceito é tarjar com medicamento faixa preta crianças que conseguem manifestar sua insatisfação com a doença desse modelo.  Depois têm a coragem de chamar quem expressa isso de maneira incontrolável de “estranho”. Eu não consigo aceitar.

Texto originalmente publicado no Página3 impresso, em 05 de julho de 2014.

Escrito por Caroline Cezar, 11/07/2014 às 09h40 | carol.jp3@gmail.com

De luto #street #art

Quase chorei quando vi a parede branca que pintaram em cima da moça bonita que deixava tudo mais feliz no viaduto da Martin Luther, antes da prefeitura. Cometer um despautério desses quase ao lado do paço municipal é escancarar a falta de admiração e reconhecimento do governo pela arte que PULSA LIVRE, que não depende de edital, costa quente e aprovação, que não tem burocracia, tem-que-ser e discurso político, e que representa verdadeiramente a alma de uma cidade. Na parede da frente pintaram os quadrados de verde e amarelo e eu pergunto POR QUÊ, POR QUÊ MEO DEOS. In memorian: lambe-lambe assinado por Jean Villegas.

 

 

 

PS: Nota publicada na edição impressa em 21.06. Quem passar pela Martin Luther essa semana vai ver que quase ao lado  da ex-moça há um grande painel de grafiti sendo desenhado, projeto aprovado pela Lei de Incentivo Municipal. Legal, mas a arte não cabe dentro de uma caixa. Precisa apoio? Sim! Apoio às aprovadas e às "não aprovadas". (Pergunta: quem "aprovou" um fuleco na frente da prefeitura?)

 

Escrito por Caroline Cezar, 02/07/2014 às 09h52 | carol.jp3@gmail.com

Brincar é urgente!

Só vi o trailer, mas já recomendo. Sou suspeita, tenho alma brincante e apaixonada por isso que brota solto. "Brincar pra mim é usar o fio inteiro de cada ser". (Que assim seja)

 

Escrito por Caroline Cezar, 24/06/2014 às 09h13 | carol.jp3@gmail.com

Frutificar a polêmica #cidade

Válida a discussão sobre cortar ou não cortar a árvore que tá no caminho (?) da estrada.
Aquela UMA.
Quando ninguém vê cortam mesmo.
Pra alargar rua, pra expor vitrine, pra levantar prédio.
Ou "só porque cai folha".

Mas com polêmica a coisa gira, a politicage impera, vai até à votação popular (!!)

Nas redes, dezenas de comentários de todo tipo sobre aquela UMA árvore. 
"Na casa dele ele corta".
"Transplanta ela".
"Põe um pouquinho pro lado".
"Coloca em risco o trânsito".
"Tá podre".
"É linda". 
 

Salve a livre expressão e as criatividades.
 

No fim desse verão tórrido fiquei olhando algumas vezes toda aquela molecada torrando os miolos no sol. Andando longas distâncias, na saida da escola, sem nenhum sinal de sombra. Longas distâncias sem nenhuma árvore e nem ao menos uma intenção - um galhinho, uma muda, um broto. Não tem e não vai ter.


Árvore demora a crescer.
Conheço um monte de gente que não planta porque tem preguiça. 
De sair do sofá, de esperar o ciclo natural, de cavar, ter paciência pra ver nascer. 

 

Seria bom acrescentar à discussão plantios urgentes de novas árvores.
Incluam as grandes. As pequenas. Frutíferas. Ornamentais. Trepadeiras. Maracujá. Abóbora. Chuchu.

Quem sabe daqui uns quinze anos a molecada pode caminhar na sombra e até levar uma coisa pro almoço.


Vamo adiante gente.

 

Escrito por Caroline Cezar, 11/06/2014 às 09h13 | carol.jp3@gmail.com

RECUPERAR a consciência

MUITO SONO quando chegam pra mim uns links de “como recuperar o corpo depois da gravidez”. Se clicar é desgraça completa! Tem desde lipoaspirações “levinhas” a dietas milagrosas, com mil e um recursos e “truques pra parecer melhor”. Até da barriga da princesa falam - aquela que pariu há um dia.

Ah, então é isso. Você é um corpo. Que infla, infla, infla e depois esvazia, fica murcho e precisa ser RECUPERADO. Só não achei onde está um bebê nessa história; nem uma mãe. Nem o poder da criação. Nem o amor.

Tudo se transforma e isso NÃO É um consolo, muito menos um drama.

Vou dizer como se recupera um corpo depois da gestação: NÃO SE RECUPERA. Esse corpo NUNCA MAIS será o mesmo. Esse saco de pele, ossos e secreções agora tem memórias que só cortando a cabeça fora. E olhe lá! Esse corpo, depois da gestação, é um corpo que DEU A LUZ. Se mostrou mais TEMPLO do que nunca. Não é um objeto. Não é um manequim. Não é uma foto de revista. É um corpo que serviu, e CONTINUA A SERVIÇO da vida. Não é uma incubadora. Aliás, é.

Uma incubadora NATURAL e não artificial. De amor. De luz. De encaminhamento HUMANO. Precisa ser usado como tal. Não é uma idéia, uma alternativa, uma opção, é um exercício fundamental. É O exercício. Muito mais que três séries de dez. Despertar-se para essa função sagrada faz-se urgente. Seu corpo tem uma sabedoria ancestral que só precisa de menos interferências pra ser acessada. Você pode ajudar.

PROTEJA-SE
Não clique em links de “como recuperar seu corpo”. Não procure as fotos das artistas no “pós-parto”. Evite qualquer tipo de sugestão estética nesse sentido. Você tem mais o que fazer com esse “corpo”, que pra começo de conversa, não é um fim, e sim UM MEIO.

AMAMENTE
Seu “corpo” maravilhosamente produz o melhor alimento para seu filho. Sirva-o à vontade desse alimento, mantenha-o perto, esqueça relógios, quantidades, fórmulas ideais e tabelas. Ele vai saber fazer, é básico e instintivo. Se tiver alguma dificuldade, peça ajuda, discretamente. A alguém de confiança, amoroso e próximo. Que principalmente, acredite nesse vínculo.

DIVIDA
Seu corpo se dividiu, se multiplicou, e de preferência, deve continuar disponível para livre partilha, dividindo, multiplicando, dividindo, multiplicando. Deixe que o bebê continue parte dele o quanto precisar, que tenha acesso a esse corpo. Não só para mamar, mas também para dormir, sentir calor, cheiro, pele, ser tocado, tocar. Menos carrinho, mais carinho. Vista-o em você. Amarre, enjambre, pendure, abrace. Permita essa fusão. Para ele, para você. É troca.

TIRE AS ROUPAS
Sempre que puder, faça isso com menos roupa. Se não se sente à vontade com alguém ou alguma coisa, peça licença e feche a porta. Permita-se livrar-se do que estipularam pra você. Tá frio? Vai debaixo das cobertas. Põe uma cadeira debaixo do chuveiro. Senta ao sol. Proteja seu bebê em você, alimente-o verdadeiramente, com o corpo inteiro e os sentidos. Lembre-se de como ele estava acolhido, protegido.

ALIMENTE-SE
Coma bem. Em paz. Sem culpa. Não faça dieta. Opte por alimentos naturais, leves, de fácil digestão e nutritivos. Batata. Fruta. Folha. Menos açúcar, menos gordura, muitíssimo menos industrializados. Muita água.

DESCANSE
Sempre que puder. Descansar não é ligar a televisão ou ficar no computador. Tenha momentos de repouso absoluto, mental inclusive. Se houver descanso, seu corpo vai pedir movimento. Gradualmente e no tempo certo.

RESPEITE-SE
Não é porque um médico te dá uma pílula anticoncepcional quarenta dias depois do parto com um “pronto, tá liberada” que você precisa retomar sua vida sexual. CALMA. Sua prioridade é bem estar emocional, que reflete diretamente no bem estar do bebê e da família como um todo. Respeite seu tempo. Converse com o parceiro. Repensem formas, estejam próximos, mas muita calma nesse território sagrado. Mais sensibilidade.

Escrito por Caroline Cezar, 23/05/2014 às 14h58 | carol.jp3@gmail.com

E a vida segue...

 

"Uma única mãe não consegue criar uma criança. Mas cinco mães juntas podem criar cem. Nenhuma mulher deveria passar os dias a sós com a criança nos braços. É responsabilidade das mulheres reconhecer que precisam voltar a ficar unidas. Entender que, se funcionarem coletivamente e dentro de circuitos femininos, a maternidade poderá ser muito mais doce e suave. E que uma "mãe sozinha" é aquela que não é compreendida, apoiada ou incentivada, embora conviva com muitas pessoas. E "mãe acompanhada" pode ser uma mulher solteira que conte com o aval de sua comunidade." (Laura Gutman)

 

 
 

Feliz dia pra quem se atreve a remar contra a maré numa cultura onde criar os próprios filhos é considerado subfunção social, vulgo "ficar em casa" ou "fazer nada". Segue uma dica-presente, estendida a todos, já que para as mães cumprirem seu papel de forma minimamente satisfatória, necessita-se uma consciência coletiva e geral sobre a importância desse papel: "Mulheres Visíveis, Mães Invisíveis", livro de Laura Gutman, disponível para dowload gratuito aqui. Boa leitura e boa sorte.
 

Escrito por Caroline Cezar, 13/05/2014 às 11h42 | carol.jp3@gmail.com



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Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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Socialmente inaceitável

O caso grave de agressão que aconteceu no colégio particular foi um prato cheio para quem, do alto do seu teclado mágico, gosta de apontar vilões e mocinhos, cavocar a vida alheia, criar teorias e, euforicamente, quase comemorar as desgraças. Não basta às famílias sofrerem a tragédia, têm que lidar com a segunda tragédia, que é cair na boca da geração facebooker, os justiceiros de cadeira. Que passam horas por dia sentenciando na rede e quando se encontram ao vivo comentam sobre as “postagens” que fizeram ou deixaram de fazer. A bostagem na vida real, não enxergam.

O que surpreende não é a tragédia, é a surpresa. É perceber que a maioria não percebe que esse tipo de agressão está sendo construída cotidianamente, sorrateiramente, desapercebidamente; e pior: de forma socialmente aceita. Não existe plantio sem colheita, mas parece que quanto mais escancarado é o fruto, mais a sociedade trata de vê-lo isolado do pomar, como se caísse do céu.

“Isso não dá pra tolerar! Vamos achar o culpado e o motivo, jogamos as pedras e acabou. Nossas mãos parecem até mais limpas”.

Nesse mesmo mundo que não enxerga o fruto da ação amarrado à ação, é socialmente aceito crescer sem pai nem mãe, ser cuidado por terceiros, desde bebê-que-mama até perder de vista.

É socialmente aceito ser recebido com agressões, que chamam de “procedimentos padrão”, pra sempre registrados em nossas memórias menos lembradas e mais sentidas.

É socialmente aceito que desconhecidos ditem como devemos gestar e parir nossos filhos, se devem ou não mamar no peito, se devem ou não dormir com os pais, se devem usar rosa ou azul, se devem se esgoelar chorando sozinhos porque colo demais “estraga”, deixa dependente (!).

É socialmente aceito que tratem bebês como porcos na engorda, que devem obedecer a uma linha de crescimento como se fossem produção em série, mesmo que seja à base de alimento industrializado e de péssima categoria. E que tratem mães como pedaços de bife, que devem “recuperar” um corpo que agrade o mercado do sexo e da aparência.

É socialmente aceito ser dono da vida: antecipar, prolongar, fazer cópias, trocar pedaços, injetar toxinas, fabricar alegria, sono, prazer.

É socialmente aceito não ver o indivíduo como indivíduo, e sim como mais um, que deve ser igual pra não soar estranho.

É socialmente aceito colocar crianças desde muito cedo dentro de salas pequenas por horas, em filas, de costas pras outras, ouvindo, ouvindo, ouvindo o que alguém despeja. Cinco dias por semana. Não olhe pros lados.

É socialmente aceito que quem esteja à frente dessas crianças não tenha descanso, lazer, equilíbrio físico e mental e trabalhe oito, dez, doze horas por dia como um condenado para pagar as contas dos filhos -que estão sendo cuidados por outro no mesmo estado psíquico.

É socialmente aceito conversar muito pouco sobre o mundo, a cidade, o bairro, a casa, mas estudar geografia através de um livro que a todo ano é “renovado” para render lucros à editora e conchavos, mas que continua defasado, porque, só pra começar, é unidimensional. Temos google maps na palma de um celular. (E temos lá fora pra quem consegue ver).

É socialmente aceito que se dê menos importância às refeições em família, onde se come qualquer coisa que não se sabe de onde vem. De preferência em dez minutos e na rua, para que sigam todos às atividades da tarde. Quem não tem agenda cheia é um deslocado social. 

É socialmente aceito não ter “tempo livre”, aliás, é muito mal visto socialmente estar à toa, porque mente vazia é coisa de quem mesmo? Soca a mente de coisa, vai.

Os celulares, social e amplamente aceitos. Crianças os recebem cada vez mais cedo. Pais se preocupam mais com o modelo oferecido, do que pra que será usado. As escolas, pra lavar as mãos, proíbem. Mas esse computador de bolso com câmera de vídeo, foto, gravador e acesso ao mundo, é um mero emissor de “whatsup”? Reclamam, mas ninguém quer repensar o uso. Eles existem, fato. Poderiam ser ferramentas úteis.

Social e amplamente aceito é tarjar com medicamento faixa preta crianças que conseguem manifestar sua insatisfação com a doença desse modelo.  Depois têm a coragem de chamar quem expressa isso de maneira incontrolável de “estranho”. Eu não consigo aceitar.

Texto originalmente publicado no Página3 impresso, em 05 de julho de 2014.

Escrito por Caroline Cezar, 11/07/2014 às 09h40 | carol.jp3@gmail.com

De luto #street #art

Quase chorei quando vi a parede branca que pintaram em cima da moça bonita que deixava tudo mais feliz no viaduto da Martin Luther, antes da prefeitura. Cometer um despautério desses quase ao lado do paço municipal é escancarar a falta de admiração e reconhecimento do governo pela arte que PULSA LIVRE, que não depende de edital, costa quente e aprovação, que não tem burocracia, tem-que-ser e discurso político, e que representa verdadeiramente a alma de uma cidade. Na parede da frente pintaram os quadrados de verde e amarelo e eu pergunto POR QUÊ, POR QUÊ MEO DEOS. In memorian: lambe-lambe assinado por Jean Villegas.

 

 

 

PS: Nota publicada na edição impressa em 21.06. Quem passar pela Martin Luther essa semana vai ver que quase ao lado  da ex-moça há um grande painel de grafiti sendo desenhado, projeto aprovado pela Lei de Incentivo Municipal. Legal, mas a arte não cabe dentro de uma caixa. Precisa apoio? Sim! Apoio às aprovadas e às "não aprovadas". (Pergunta: quem "aprovou" um fuleco na frente da prefeitura?)

 

Escrito por Caroline Cezar, 02/07/2014 às 09h52 | carol.jp3@gmail.com

Brincar é urgente!

Só vi o trailer, mas já recomendo. Sou suspeita, tenho alma brincante e apaixonada por isso que brota solto. "Brincar pra mim é usar o fio inteiro de cada ser". (Que assim seja)

 

Escrito por Caroline Cezar, 24/06/2014 às 09h13 | carol.jp3@gmail.com

Frutificar a polêmica #cidade

Válida a discussão sobre cortar ou não cortar a árvore que tá no caminho (?) da estrada.
Aquela UMA.
Quando ninguém vê cortam mesmo.
Pra alargar rua, pra expor vitrine, pra levantar prédio.
Ou "só porque cai folha".

Mas com polêmica a coisa gira, a politicage impera, vai até à votação popular (!!)

Nas redes, dezenas de comentários de todo tipo sobre aquela UMA árvore. 
"Na casa dele ele corta".
"Transplanta ela".
"Põe um pouquinho pro lado".
"Coloca em risco o trânsito".
"Tá podre".
"É linda". 
 

Salve a livre expressão e as criatividades.
 

No fim desse verão tórrido fiquei olhando algumas vezes toda aquela molecada torrando os miolos no sol. Andando longas distâncias, na saida da escola, sem nenhum sinal de sombra. Longas distâncias sem nenhuma árvore e nem ao menos uma intenção - um galhinho, uma muda, um broto. Não tem e não vai ter.


Árvore demora a crescer.
Conheço um monte de gente que não planta porque tem preguiça. 
De sair do sofá, de esperar o ciclo natural, de cavar, ter paciência pra ver nascer. 

 

Seria bom acrescentar à discussão plantios urgentes de novas árvores.
Incluam as grandes. As pequenas. Frutíferas. Ornamentais. Trepadeiras. Maracujá. Abóbora. Chuchu.

Quem sabe daqui uns quinze anos a molecada pode caminhar na sombra e até levar uma coisa pro almoço.


Vamo adiante gente.

 

Escrito por Caroline Cezar, 11/06/2014 às 09h13 | carol.jp3@gmail.com

RECUPERAR a consciência

MUITO SONO quando chegam pra mim uns links de “como recuperar o corpo depois da gravidez”. Se clicar é desgraça completa! Tem desde lipoaspirações “levinhas” a dietas milagrosas, com mil e um recursos e “truques pra parecer melhor”. Até da barriga da princesa falam - aquela que pariu há um dia.

Ah, então é isso. Você é um corpo. Que infla, infla, infla e depois esvazia, fica murcho e precisa ser RECUPERADO. Só não achei onde está um bebê nessa história; nem uma mãe. Nem o poder da criação. Nem o amor.

Tudo se transforma e isso NÃO É um consolo, muito menos um drama.

Vou dizer como se recupera um corpo depois da gestação: NÃO SE RECUPERA. Esse corpo NUNCA MAIS será o mesmo. Esse saco de pele, ossos e secreções agora tem memórias que só cortando a cabeça fora. E olhe lá! Esse corpo, depois da gestação, é um corpo que DEU A LUZ. Se mostrou mais TEMPLO do que nunca. Não é um objeto. Não é um manequim. Não é uma foto de revista. É um corpo que serviu, e CONTINUA A SERVIÇO da vida. Não é uma incubadora. Aliás, é.

Uma incubadora NATURAL e não artificial. De amor. De luz. De encaminhamento HUMANO. Precisa ser usado como tal. Não é uma idéia, uma alternativa, uma opção, é um exercício fundamental. É O exercício. Muito mais que três séries de dez. Despertar-se para essa função sagrada faz-se urgente. Seu corpo tem uma sabedoria ancestral que só precisa de menos interferências pra ser acessada. Você pode ajudar.

PROTEJA-SE
Não clique em links de “como recuperar seu corpo”. Não procure as fotos das artistas no “pós-parto”. Evite qualquer tipo de sugestão estética nesse sentido. Você tem mais o que fazer com esse “corpo”, que pra começo de conversa, não é um fim, e sim UM MEIO.

AMAMENTE
Seu “corpo” maravilhosamente produz o melhor alimento para seu filho. Sirva-o à vontade desse alimento, mantenha-o perto, esqueça relógios, quantidades, fórmulas ideais e tabelas. Ele vai saber fazer, é básico e instintivo. Se tiver alguma dificuldade, peça ajuda, discretamente. A alguém de confiança, amoroso e próximo. Que principalmente, acredite nesse vínculo.

DIVIDA
Seu corpo se dividiu, se multiplicou, e de preferência, deve continuar disponível para livre partilha, dividindo, multiplicando, dividindo, multiplicando. Deixe que o bebê continue parte dele o quanto precisar, que tenha acesso a esse corpo. Não só para mamar, mas também para dormir, sentir calor, cheiro, pele, ser tocado, tocar. Menos carrinho, mais carinho. Vista-o em você. Amarre, enjambre, pendure, abrace. Permita essa fusão. Para ele, para você. É troca.

TIRE AS ROUPAS
Sempre que puder, faça isso com menos roupa. Se não se sente à vontade com alguém ou alguma coisa, peça licença e feche a porta. Permita-se livrar-se do que estipularam pra você. Tá frio? Vai debaixo das cobertas. Põe uma cadeira debaixo do chuveiro. Senta ao sol. Proteja seu bebê em você, alimente-o verdadeiramente, com o corpo inteiro e os sentidos. Lembre-se de como ele estava acolhido, protegido.

ALIMENTE-SE
Coma bem. Em paz. Sem culpa. Não faça dieta. Opte por alimentos naturais, leves, de fácil digestão e nutritivos. Batata. Fruta. Folha. Menos açúcar, menos gordura, muitíssimo menos industrializados. Muita água.

DESCANSE
Sempre que puder. Descansar não é ligar a televisão ou ficar no computador. Tenha momentos de repouso absoluto, mental inclusive. Se houver descanso, seu corpo vai pedir movimento. Gradualmente e no tempo certo.

RESPEITE-SE
Não é porque um médico te dá uma pílula anticoncepcional quarenta dias depois do parto com um “pronto, tá liberada” que você precisa retomar sua vida sexual. CALMA. Sua prioridade é bem estar emocional, que reflete diretamente no bem estar do bebê e da família como um todo. Respeite seu tempo. Converse com o parceiro. Repensem formas, estejam próximos, mas muita calma nesse território sagrado. Mais sensibilidade.

Escrito por Caroline Cezar, 23/05/2014 às 14h58 | carol.jp3@gmail.com

E a vida segue...

 

"Uma única mãe não consegue criar uma criança. Mas cinco mães juntas podem criar cem. Nenhuma mulher deveria passar os dias a sós com a criança nos braços. É responsabilidade das mulheres reconhecer que precisam voltar a ficar unidas. Entender que, se funcionarem coletivamente e dentro de circuitos femininos, a maternidade poderá ser muito mais doce e suave. E que uma "mãe sozinha" é aquela que não é compreendida, apoiada ou incentivada, embora conviva com muitas pessoas. E "mãe acompanhada" pode ser uma mulher solteira que conte com o aval de sua comunidade." (Laura Gutman)

 

 
 

Feliz dia pra quem se atreve a remar contra a maré numa cultura onde criar os próprios filhos é considerado subfunção social, vulgo "ficar em casa" ou "fazer nada". Segue uma dica-presente, estendida a todos, já que para as mães cumprirem seu papel de forma minimamente satisfatória, necessita-se uma consciência coletiva e geral sobre a importância desse papel: "Mulheres Visíveis, Mães Invisíveis", livro de Laura Gutman, disponível para dowload gratuito aqui. Boa leitura e boa sorte.
 

Escrito por Caroline Cezar, 13/05/2014 às 11h42 | carol.jp3@gmail.com



1 2 3 4 5 6 7 8 9

Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.