Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Sejamos estranhos!

Esses dias meu filho de 13 anos falou que eu sou “a mais estranha”, e isso que tô com um corte de cabelo bem normalzinho. Ele tá naquela fase de pré-aborrecência, que fica procurando pêlo em ovo pra arrumar uma discussão. O problema da vez era que toda terça os amigos da escola almoçam no macdonalds, e que eu, muito esquisita, não aprovo o hábito. Também não deixo ele ter um iphone de última geração, e como todos os amigos da escola têm, de novo sou a errada. Tem outros quinhentos itens pra acrescentar na lista de mãe e.t., mas como já passei da idade de ouvir os outros na criação dos filhos, não titubeio e toco o barco. Ele não me deixa nem um pouco em dúvida, pelo contrário, me faz pensar de novo e de novo e só reforçar minhas convicções.


Além de ser a mais chata e a mais estranha faço questão de explicar o porquê das coisas e que esquisito não é ele não ter o telefone e sim todos os outros terem. Muito esquisito mesmo é que alguns já tiveram uns quatro ou cinco, porque “quebrar a tela” é comum. Esses dias um deles foi assaltado na esquina da escola e levaram o aparelho, e eu me pergunto pra que lado o moleque olhava quando o malaco vinha em sua direção. Um telefone que custa dois mil reais, com obsolescência programada, e que eu, profissionalmente, ainda uso a primeira versão. Que funciona direitinho.


Não sou contra a tecnologia, bem pelo contrário, mas acho que as coisas ainda merecem ser tratadas como coisas, as pessoas como pessoas e a escravidão e a dependência como escravidão e dependência. Também não sou contra possibilitar o acesso das tecnologias às crianças, mas se já temos um grave problema com a educação, será que toda essa parafernália eletrônica não se torna um agravante negativo na formação? Tenho certeza absoluta que sim. Nem vamos falar de linha de produção, de onde vêm as coisas e pra onde vão depois... quando viram...lixo!


É difícil criar filhos no meio de tanta gente que vive no automático. Sejamos estranhos, mas não nos deixemos confundir. “Comum” não é “normal”, repitam mil vezes. Não é normal criança ter telefone, não é normal comer fast food, não é normal passar horas sem ir lá fora e gastar os dias na frente de telas, nem se fantasiar digitalmente e passar a viver duas vidas, a inventada e a real (?).


Nem tudo são espinhos e parece que tem mais gente percebendo. Por “conhecidência”, como diz a Sarinha, caíram dois artigos no meu colo essa semana, um do caderno de Equilíbrio da Folha, “Movimento prega a desaceleração da rotina das crianças”; falando sobre o “Slowkids”, um dia para fazer que rolou em São Paulo e apesar do nome meio medíocre (é sequência do dia americano) é por uma nobre causa.

O outro, da Biblioteca Virtual de Antroposofia (indico, googla lá!), se chama “Menos computadores, mais brincadeiras ao ar livre”, e conta dos trágicos números da atualidade e sobre outro movimento, esse na Inglaterra, chamado “The Wild Network”, que prega que bastariam 30 minutos diários de brincadeiras para os menores de 12 anos aumentarem seus níveis de aptidão física e melhorarem seu bem-estar. É o que eles chamam de “pausa selvagem”.


Estamos sendo engolidos por estratégias de marketing e estímulos constantes que não deixam espaço para perceber o quão idiota esse estilo de vida é. E já é Natal! Dingobels, acordaí.

 


“A vida era bem largada. Todo mundo se ocupava da tarefa  de ver o dia atravessar. Pois afinal as coisas não eram iguais às cousas?”
Manoel de Barros

 

Escrito por Caroline Cezar, 21/11/2013 às 18h13 | carol.jp3@gmail.com

Dia da Consciência

 

“Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro...” Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala

 

Barra Grande, BA

 

Escrito por Caroline Cezar, 20/11/2013 às 09h46 | carol.jp3@gmail.com

Da pele pra dentro #pratyahara

 

O que é o pratyáhára?


O termo pratyáhára está formado por duas palavras sânscritas: prati e ahára. Ahára significa comida, ou algo que você coloca para dentro. Parti é uma preposição que significa contra ou fora. Pratyáhára então significa controle do ahára, ou ter controle sobre as influências externas. No Mahabhárata se compara o pratyáhára a uma tartaruga: ‘assim como a tartaruga recolhe seus membros sob a carapaça, da mesma forma o yogi retrai os sentidos da influência dos objetos externos.’ Normalmente se traduz pratyáhára como controle dos sentidos, mas não é apenas isso.


Existem 3 tipos de ahára/ alimento:
1) o alimento físico, que nutre o corpo e se forma pelas combinações dos cinco elementos.
2) as impressões e sensações que entram através dos sentidos: tato, visão, audição etc.
3) os relacionamentos que temos com os demais: esposo/a, namorado/a, família, amigos, etc., com quem nos relacionamos através do anáhata chakra e que nutrem a nossa alma.


O pratyáhára é duplo. Implica:
1) evitar as coisas ruins: alimento ruim, impressões ruins, relacionamentos que nos façam mal e
2) abrir-se para as coisas boas: alimento saudável, impressões boas, relacionamentos e associações que nos fazem bem.
É impossível controlar as impressões mentais e os conteúdos do pensamento sem ter uma dieta correta e relacionamentos que sejam para o bem.

Porém, a importância do pratyáhára está no controle das impressões sensoriais, que permite que a mente se volte para o interior.
Ao recolher a consciência das impressões negativas, o pratyáhára nos fortalece, da mesma forma que um corpo saudável rejeita toxinas e agentes patógenos. Se você for incomodado pelo barulho à sua volta, você está precisando um pouco de pratyáhára. Sem isso, não há como meditar.

Há quatro formas básicas de pratyáhára, que possuem métodos específicos:

1) controle da energia:
O controle dos sentidos inclui o controle da energia vital, o prána, pois os sentidos vão atrás dele. Se a nossa energia não estiver fortalecida, não poderemos controlar os sentidos. Se a vitalidade estiver desequilibrada, os sentidos também ficarão.

2) controle dos sentidos: É a parte mais importante do pratyáhára, embora isso não seja exatamente o que os meios de comunicação esperam de você. Neste presente tecnocrático estamos constantemente submetidos a um bombardeio de imagens e sons: rádio, televisão, cinema, jornais, revistas, computadores, outdoors na rua, etc. A sociedade de consumo se move através do estímulo dos sentidos do homem. Por isso, para não virar mais um fashion victim, é preciso ficar ligado. O detalhe é que os sentidos, assim como as crianças pequenas, têm lá seus caprichos, que estão determinados pelos instintos. São eles que dizem para a mente o que fazer. Se a gente não conseguir dominá-los, seremos escravos deles para sempre. Estamos tão acostumados à atividade sensorial que não conseguimos manter o mínimo controle sobre a mente. Ficamos na roda vida do cotidiano e esquecemos os objetivos essenciais.

3) controle das ações;

4) controle da mente: Vyása, o comentarista de Pátáñjali, compara a mente com uma abelha rainha, e os sentidos com as abelhas operárias. Para onde a mente for, os sentidos seguem atrás. Então, mano pratyáhára é menos sobre controlar os sentidos e mais sobre controlar o próprio pensamento.

 

###

O texto acima foi retirado do site yoga.pro e é de autoria do professor Pedro Kupfer. Fala sobre um dos “braços” do ashtanga yoga, de Patanjali.

Achei apropriado falar de pratyahara nesse momento, em que o processo racional ainda está dormente por aqui. Todas que dão a luz deviam -dias antes- dar-se o direito de desligar os telefones e parar de responder as perguntas técnicas da ansiedade coletiva, o que inclui inúmeras consultas e exames médicos, datas e previsões, pesos e medidas, palpites e pra-quando-é de toda sorte. Isso não ajuda, pelo contrário, só atrapalha na entrega absoluta que merece se dar a um nascimento, vai em direção oposta da conexão verdadeira. O mesmo serve para os primeiros dias, quando tudo que mãe, bebê e família precisam é interiorizar e encontrar seu próprio ritmo. Momento presente, momento maravilhoso, sagrado que é, banalizado que está.


Dedico essa coluna à Madu, que reforçou a necessidade do recolhimento, antes, durante e depois de chegar, o que foi de grande importância para nós.

 

Escrito por Caroline Cezar, 14/11/2013 às 10h24 | carol.jp3@gmail.com

Olhar "infantil"? #arte

Pra quem subestima crianças e sua gigantesca percepção de "mundo"...

 

Escrito por Caroline Cezar, 30/10/2013 às 08h08 | carol.jp3@gmail.com

Filhotes abandonados

Hoje é tão comum escutar sobre abandono de cães, gatos e outros animais de estimação -virou um grande movimento social- que a gente esquece de observar o abandono humano. Não me refiro aos bairros pobres, à exploração infantil -seja sexual, de trabalho e outras barbáries-, à criança "largada" na rua, e sim ao abandono cotidiano e considerado "NORMAL" nas famílias de todas as classes sociais, PRINCIPALMENTE nas de média e alta renda, onde mamãe, papai e filhinhos têm agenda cheia de coisas vazias e caras, mas restrito contato familiar em coisas básicas e essenciais, como caminhar na rua, ficar à toa e comer juntos. 

 


Ter filhos não deve ser "mais um passo" no script da vida, têm que nascer de escolha consciente. Filhote humano é FILHOTE até 3 anos de idade, não deve ser separado da mãe em nenhuma hipótese no primeiro ano de vida e vai continuar exigindo amor e atenção por muito e muito tempo.

 

Recomendo a pais e não-pais esse vídeo do pediatra José Martins Filho; ainda não tive acesso aos seus livros, mas sua fala é consistente e fundamentada, cheia de lógica e amor. Que sejamos capazes de refletir!!

 

"Com a vida moderna, as crianças passaram a ocupar um papel secundário ou terciário na vida familiar. Lembre-se de que o futuro da humanidade vai depender dessas crianças que, provavelmente, chegarão aos 100 anos de idade. Fico triste quando, no consultório, a mãe não pode estar presente, ou o pai. E nem mesmo a avó: apenas a babá".


 

Escrito por Caroline Cezar, 23/10/2013 às 09h34 | carol.jp3@gmail.com

No improviso

E já que o assunto é o Quintal, compartilho aqui o breve textinho que minha amiga Nana Góis publicou recentemente, junto com um videozin das crias cantando:

 

"Coração não é tão simples qto pensa, nele cabe o que não cabe na dispensa, cabe o meu amor!

Nenhuma apresentação de escola se compara a uma que não foi orquestrada, marcada ou ensaiada, saiu assim, deles mesmos no meio do churrasco: dia das crianças como toda criança deveria ter direito, livre para desafinar, para cair, para se sentir amada. Crianças livres, talentosas e com iniciativa, cantam e se ordenam como querem. Cantaram e emocionaram porque quiseram, porque sabem, porque amam!"

 


Me fez lembrar muito desse texto aqui, publicado em 2 de março na Ex pressão impressa:


Tem pais que não gostam de apresentações em escolas. Dá pra entender, porque as apresentações em escolas, em geral, são muito chatas, mecânicas. Um teatrinho para "mostrar serviço", segurar clientela, já que educação, ao patamar que desceu há alguns tempos, é negócio. Mas quando a coisa é humana, estar à frente de crianças apresentando -ou não-, o que ensaiam -ou não-, é rico. Quando a escola tem confiança no seu aprofundamento humano, não tem medo da espontaneidade. Só consegue ser espontâneo quem tem chão firme pra pisar. Só consegue lidar com a espontaneidade quem sabe o que está plantando, mas não tenta ficar controlando o que colhe.


O espontâneo é pintado como desleixo, falta de disciplina, pouco sério, descontraído, mas é sempre a forma mais pura de manifestação. Ao redor, causa medo e repulsa, um quase desespero. Espontaneidade -dar ou receber- é só para corajosos, e não vale vestir máscara pra parecer à vontade, "agora todo mundo senta de qualquer jeito e faz cara de tô nem aí". O espontâneo está sempre mostrando mais uma face que a gente não vê, confirmando outra que a gente desconfia, trazendo novos pontos de vista, mais perguntas do que respostas, mais dúvidas do que certezas, mais reticências... surpresas. O espontâneo faz pensar, provoca, questiona, força o improviso, trabalha a cintura, o sistema respiratório, a circulação. O espontâneo é muito livre, e sabe como é, livre dá problema. A ausência do espontâneo também denuncia, - e como!-, mas só pra quem quer mesmo ver.


Leia-se como "apresentação" o que se torna público, uma expressão, um desenho, uma frase, um silêncio.


Faz tempo, mas não esqueço, do casal que chegou na metade do show e sentou pra ver a filha, já que era "a vez dela". Eu me desconcentrei do que dizia a música porque percebia a mulher se mexendo e fazendo sinal pra professora que o chapéu estava no rosto. "Arruma, arruma"; e a professora, no palco, tentando ajeitar, nervosa; e a criança se afundando no chapéu, -mas dava de ver os olhos-; e uma tensão coletiva ligando aqueles que estavam de alguma forma presenciando aquilo, poucos acredito: a mulher; a criança; o marido; a professora; eu; meu vizinho; e um foco totalmente distorcido de um momento. Quando não acenava e dialogava labialmente com a professora posicionada atrás da menina, reclamava para o marido que ai, que nervoso, ai, tá horrível, ai, credo, mas logo acabou a música, eles levantaram, foram embora, tinham ido só pra isso, ver a filha se afundar no chapéu.


Morri.

Já tava morrendo desde que cheguei e vi uma exposição de frases na parede lá da frente. Na porta do teatro. Não sei se alguém mais viu. Não sei se alguém leu mais do que a frase do seu filho, passando rápido os olhos pelas caligrafias até reconhecer uma, e ler "o que já sabia". Sempre sabem né? O que é certo, o que não é, como deve ser e o que será, o que deve ser esperado daquilo. Lê só o que bem entende (ou o que mal entende seria?). 


Só naquela porta tinha tanta riqueza que dava pra morrer mil vezes.

 

 

E foi assim por horas seguidas, pura arte, uma essência implícita, latente, farta de aparência -tudo simples, manual, pouco 'tecnológico', mais farto ainda de significado. Mas tantos estavam ali pra ver um chapéu ajeitado numa cabeça. Uma figura individual. Uma projeção. O "seu" filho, a "sua" música, a "sua" participação, o "seu" desenho, a "sua" performance.


Ninguém tem culpa, porque há muito tempo não se treina os olhos pra beleza, pra olhar em volta. Se decora datas de guerras, se resolve equações inusáveis, fórmulas químicas, aprende-se nomes técnicos, prima-se pela competição e superação do próximo chamando isso de sucesso, mas pouco se fala nas coisas essenciais do viver, pouco se ensina sobre o lado prático, as cotidianices, pouco se fala sobre o corpo, a mente, pouco se conversa. Filosofia é só o nome de uma disciplina que aparece lá nas últimas séries, coisa rápida pra embelezar o quadro. E vale nota.

Eu não sei por que me lembrei disso agora.



GALERIA:
Vê a galeria de fotos de frases aqui: "Oi, consegue me ver?"

Escrito por Caroline Cezar, 17/10/2013 às 07h44 | carol.jp3@gmail.com



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Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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Sejamos estranhos!

Esses dias meu filho de 13 anos falou que eu sou “a mais estranha”, e isso que tô com um corte de cabelo bem normalzinho. Ele tá naquela fase de pré-aborrecência, que fica procurando pêlo em ovo pra arrumar uma discussão. O problema da vez era que toda terça os amigos da escola almoçam no macdonalds, e que eu, muito esquisita, não aprovo o hábito. Também não deixo ele ter um iphone de última geração, e como todos os amigos da escola têm, de novo sou a errada. Tem outros quinhentos itens pra acrescentar na lista de mãe e.t., mas como já passei da idade de ouvir os outros na criação dos filhos, não titubeio e toco o barco. Ele não me deixa nem um pouco em dúvida, pelo contrário, me faz pensar de novo e de novo e só reforçar minhas convicções.


Além de ser a mais chata e a mais estranha faço questão de explicar o porquê das coisas e que esquisito não é ele não ter o telefone e sim todos os outros terem. Muito esquisito mesmo é que alguns já tiveram uns quatro ou cinco, porque “quebrar a tela” é comum. Esses dias um deles foi assaltado na esquina da escola e levaram o aparelho, e eu me pergunto pra que lado o moleque olhava quando o malaco vinha em sua direção. Um telefone que custa dois mil reais, com obsolescência programada, e que eu, profissionalmente, ainda uso a primeira versão. Que funciona direitinho.


Não sou contra a tecnologia, bem pelo contrário, mas acho que as coisas ainda merecem ser tratadas como coisas, as pessoas como pessoas e a escravidão e a dependência como escravidão e dependência. Também não sou contra possibilitar o acesso das tecnologias às crianças, mas se já temos um grave problema com a educação, será que toda essa parafernália eletrônica não se torna um agravante negativo na formação? Tenho certeza absoluta que sim. Nem vamos falar de linha de produção, de onde vêm as coisas e pra onde vão depois... quando viram...lixo!


É difícil criar filhos no meio de tanta gente que vive no automático. Sejamos estranhos, mas não nos deixemos confundir. “Comum” não é “normal”, repitam mil vezes. Não é normal criança ter telefone, não é normal comer fast food, não é normal passar horas sem ir lá fora e gastar os dias na frente de telas, nem se fantasiar digitalmente e passar a viver duas vidas, a inventada e a real (?).


Nem tudo são espinhos e parece que tem mais gente percebendo. Por “conhecidência”, como diz a Sarinha, caíram dois artigos no meu colo essa semana, um do caderno de Equilíbrio da Folha, “Movimento prega a desaceleração da rotina das crianças”; falando sobre o “Slowkids”, um dia para fazer que rolou em São Paulo e apesar do nome meio medíocre (é sequência do dia americano) é por uma nobre causa.

O outro, da Biblioteca Virtual de Antroposofia (indico, googla lá!), se chama “Menos computadores, mais brincadeiras ao ar livre”, e conta dos trágicos números da atualidade e sobre outro movimento, esse na Inglaterra, chamado “The Wild Network”, que prega que bastariam 30 minutos diários de brincadeiras para os menores de 12 anos aumentarem seus níveis de aptidão física e melhorarem seu bem-estar. É o que eles chamam de “pausa selvagem”.


Estamos sendo engolidos por estratégias de marketing e estímulos constantes que não deixam espaço para perceber o quão idiota esse estilo de vida é. E já é Natal! Dingobels, acordaí.

 


“A vida era bem largada. Todo mundo se ocupava da tarefa  de ver o dia atravessar. Pois afinal as coisas não eram iguais às cousas?”
Manoel de Barros

 

Escrito por Caroline Cezar, 21/11/2013 às 18h13 | carol.jp3@gmail.com

Dia da Consciência

 

“Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro...” Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala

 

Barra Grande, BA

 

Escrito por Caroline Cezar, 20/11/2013 às 09h46 | carol.jp3@gmail.com

Da pele pra dentro #pratyahara

 

O que é o pratyáhára?


O termo pratyáhára está formado por duas palavras sânscritas: prati e ahára. Ahára significa comida, ou algo que você coloca para dentro. Parti é uma preposição que significa contra ou fora. Pratyáhára então significa controle do ahára, ou ter controle sobre as influências externas. No Mahabhárata se compara o pratyáhára a uma tartaruga: ‘assim como a tartaruga recolhe seus membros sob a carapaça, da mesma forma o yogi retrai os sentidos da influência dos objetos externos.’ Normalmente se traduz pratyáhára como controle dos sentidos, mas não é apenas isso.


Existem 3 tipos de ahára/ alimento:
1) o alimento físico, que nutre o corpo e se forma pelas combinações dos cinco elementos.
2) as impressões e sensações que entram através dos sentidos: tato, visão, audição etc.
3) os relacionamentos que temos com os demais: esposo/a, namorado/a, família, amigos, etc., com quem nos relacionamos através do anáhata chakra e que nutrem a nossa alma.


O pratyáhára é duplo. Implica:
1) evitar as coisas ruins: alimento ruim, impressões ruins, relacionamentos que nos façam mal e
2) abrir-se para as coisas boas: alimento saudável, impressões boas, relacionamentos e associações que nos fazem bem.
É impossível controlar as impressões mentais e os conteúdos do pensamento sem ter uma dieta correta e relacionamentos que sejam para o bem.

Porém, a importância do pratyáhára está no controle das impressões sensoriais, que permite que a mente se volte para o interior.
Ao recolher a consciência das impressões negativas, o pratyáhára nos fortalece, da mesma forma que um corpo saudável rejeita toxinas e agentes patógenos. Se você for incomodado pelo barulho à sua volta, você está precisando um pouco de pratyáhára. Sem isso, não há como meditar.

Há quatro formas básicas de pratyáhára, que possuem métodos específicos:

1) controle da energia:
O controle dos sentidos inclui o controle da energia vital, o prána, pois os sentidos vão atrás dele. Se a nossa energia não estiver fortalecida, não poderemos controlar os sentidos. Se a vitalidade estiver desequilibrada, os sentidos também ficarão.

2) controle dos sentidos: É a parte mais importante do pratyáhára, embora isso não seja exatamente o que os meios de comunicação esperam de você. Neste presente tecnocrático estamos constantemente submetidos a um bombardeio de imagens e sons: rádio, televisão, cinema, jornais, revistas, computadores, outdoors na rua, etc. A sociedade de consumo se move através do estímulo dos sentidos do homem. Por isso, para não virar mais um fashion victim, é preciso ficar ligado. O detalhe é que os sentidos, assim como as crianças pequenas, têm lá seus caprichos, que estão determinados pelos instintos. São eles que dizem para a mente o que fazer. Se a gente não conseguir dominá-los, seremos escravos deles para sempre. Estamos tão acostumados à atividade sensorial que não conseguimos manter o mínimo controle sobre a mente. Ficamos na roda vida do cotidiano e esquecemos os objetivos essenciais.

3) controle das ações;

4) controle da mente: Vyása, o comentarista de Pátáñjali, compara a mente com uma abelha rainha, e os sentidos com as abelhas operárias. Para onde a mente for, os sentidos seguem atrás. Então, mano pratyáhára é menos sobre controlar os sentidos e mais sobre controlar o próprio pensamento.

 

###

O texto acima foi retirado do site yoga.pro e é de autoria do professor Pedro Kupfer. Fala sobre um dos “braços” do ashtanga yoga, de Patanjali.

Achei apropriado falar de pratyahara nesse momento, em que o processo racional ainda está dormente por aqui. Todas que dão a luz deviam -dias antes- dar-se o direito de desligar os telefones e parar de responder as perguntas técnicas da ansiedade coletiva, o que inclui inúmeras consultas e exames médicos, datas e previsões, pesos e medidas, palpites e pra-quando-é de toda sorte. Isso não ajuda, pelo contrário, só atrapalha na entrega absoluta que merece se dar a um nascimento, vai em direção oposta da conexão verdadeira. O mesmo serve para os primeiros dias, quando tudo que mãe, bebê e família precisam é interiorizar e encontrar seu próprio ritmo. Momento presente, momento maravilhoso, sagrado que é, banalizado que está.


Dedico essa coluna à Madu, que reforçou a necessidade do recolhimento, antes, durante e depois de chegar, o que foi de grande importância para nós.

 

Escrito por Caroline Cezar, 14/11/2013 às 10h24 | carol.jp3@gmail.com

Olhar "infantil"? #arte

Pra quem subestima crianças e sua gigantesca percepção de "mundo"...

 

Escrito por Caroline Cezar, 30/10/2013 às 08h08 | carol.jp3@gmail.com

Filhotes abandonados

Hoje é tão comum escutar sobre abandono de cães, gatos e outros animais de estimação -virou um grande movimento social- que a gente esquece de observar o abandono humano. Não me refiro aos bairros pobres, à exploração infantil -seja sexual, de trabalho e outras barbáries-, à criança "largada" na rua, e sim ao abandono cotidiano e considerado "NORMAL" nas famílias de todas as classes sociais, PRINCIPALMENTE nas de média e alta renda, onde mamãe, papai e filhinhos têm agenda cheia de coisas vazias e caras, mas restrito contato familiar em coisas básicas e essenciais, como caminhar na rua, ficar à toa e comer juntos. 

 


Ter filhos não deve ser "mais um passo" no script da vida, têm que nascer de escolha consciente. Filhote humano é FILHOTE até 3 anos de idade, não deve ser separado da mãe em nenhuma hipótese no primeiro ano de vida e vai continuar exigindo amor e atenção por muito e muito tempo.

 

Recomendo a pais e não-pais esse vídeo do pediatra José Martins Filho; ainda não tive acesso aos seus livros, mas sua fala é consistente e fundamentada, cheia de lógica e amor. Que sejamos capazes de refletir!!

 

"Com a vida moderna, as crianças passaram a ocupar um papel secundário ou terciário na vida familiar. Lembre-se de que o futuro da humanidade vai depender dessas crianças que, provavelmente, chegarão aos 100 anos de idade. Fico triste quando, no consultório, a mãe não pode estar presente, ou o pai. E nem mesmo a avó: apenas a babá".


 

Escrito por Caroline Cezar, 23/10/2013 às 09h34 | carol.jp3@gmail.com

No improviso

E já que o assunto é o Quintal, compartilho aqui o breve textinho que minha amiga Nana Góis publicou recentemente, junto com um videozin das crias cantando:

 

"Coração não é tão simples qto pensa, nele cabe o que não cabe na dispensa, cabe o meu amor!

Nenhuma apresentação de escola se compara a uma que não foi orquestrada, marcada ou ensaiada, saiu assim, deles mesmos no meio do churrasco: dia das crianças como toda criança deveria ter direito, livre para desafinar, para cair, para se sentir amada. Crianças livres, talentosas e com iniciativa, cantam e se ordenam como querem. Cantaram e emocionaram porque quiseram, porque sabem, porque amam!"

 


Me fez lembrar muito desse texto aqui, publicado em 2 de março na Ex pressão impressa:


Tem pais que não gostam de apresentações em escolas. Dá pra entender, porque as apresentações em escolas, em geral, são muito chatas, mecânicas. Um teatrinho para "mostrar serviço", segurar clientela, já que educação, ao patamar que desceu há alguns tempos, é negócio. Mas quando a coisa é humana, estar à frente de crianças apresentando -ou não-, o que ensaiam -ou não-, é rico. Quando a escola tem confiança no seu aprofundamento humano, não tem medo da espontaneidade. Só consegue ser espontâneo quem tem chão firme pra pisar. Só consegue lidar com a espontaneidade quem sabe o que está plantando, mas não tenta ficar controlando o que colhe.


O espontâneo é pintado como desleixo, falta de disciplina, pouco sério, descontraído, mas é sempre a forma mais pura de manifestação. Ao redor, causa medo e repulsa, um quase desespero. Espontaneidade -dar ou receber- é só para corajosos, e não vale vestir máscara pra parecer à vontade, "agora todo mundo senta de qualquer jeito e faz cara de tô nem aí". O espontâneo está sempre mostrando mais uma face que a gente não vê, confirmando outra que a gente desconfia, trazendo novos pontos de vista, mais perguntas do que respostas, mais dúvidas do que certezas, mais reticências... surpresas. O espontâneo faz pensar, provoca, questiona, força o improviso, trabalha a cintura, o sistema respiratório, a circulação. O espontâneo é muito livre, e sabe como é, livre dá problema. A ausência do espontâneo também denuncia, - e como!-, mas só pra quem quer mesmo ver.


Leia-se como "apresentação" o que se torna público, uma expressão, um desenho, uma frase, um silêncio.


Faz tempo, mas não esqueço, do casal que chegou na metade do show e sentou pra ver a filha, já que era "a vez dela". Eu me desconcentrei do que dizia a música porque percebia a mulher se mexendo e fazendo sinal pra professora que o chapéu estava no rosto. "Arruma, arruma"; e a professora, no palco, tentando ajeitar, nervosa; e a criança se afundando no chapéu, -mas dava de ver os olhos-; e uma tensão coletiva ligando aqueles que estavam de alguma forma presenciando aquilo, poucos acredito: a mulher; a criança; o marido; a professora; eu; meu vizinho; e um foco totalmente distorcido de um momento. Quando não acenava e dialogava labialmente com a professora posicionada atrás da menina, reclamava para o marido que ai, que nervoso, ai, tá horrível, ai, credo, mas logo acabou a música, eles levantaram, foram embora, tinham ido só pra isso, ver a filha se afundar no chapéu.


Morri.

Já tava morrendo desde que cheguei e vi uma exposição de frases na parede lá da frente. Na porta do teatro. Não sei se alguém mais viu. Não sei se alguém leu mais do que a frase do seu filho, passando rápido os olhos pelas caligrafias até reconhecer uma, e ler "o que já sabia". Sempre sabem né? O que é certo, o que não é, como deve ser e o que será, o que deve ser esperado daquilo. Lê só o que bem entende (ou o que mal entende seria?). 


Só naquela porta tinha tanta riqueza que dava pra morrer mil vezes.

 

 

E foi assim por horas seguidas, pura arte, uma essência implícita, latente, farta de aparência -tudo simples, manual, pouco 'tecnológico', mais farto ainda de significado. Mas tantos estavam ali pra ver um chapéu ajeitado numa cabeça. Uma figura individual. Uma projeção. O "seu" filho, a "sua" música, a "sua" participação, o "seu" desenho, a "sua" performance.


Ninguém tem culpa, porque há muito tempo não se treina os olhos pra beleza, pra olhar em volta. Se decora datas de guerras, se resolve equações inusáveis, fórmulas químicas, aprende-se nomes técnicos, prima-se pela competição e superação do próximo chamando isso de sucesso, mas pouco se fala nas coisas essenciais do viver, pouco se ensina sobre o lado prático, as cotidianices, pouco se fala sobre o corpo, a mente, pouco se conversa. Filosofia é só o nome de uma disciplina que aparece lá nas últimas séries, coisa rápida pra embelezar o quadro. E vale nota.

Eu não sei por que me lembrei disso agora.



GALERIA:
Vê a galeria de fotos de frases aqui: "Oi, consegue me ver?"

Escrito por Caroline Cezar, 17/10/2013 às 07h44 | carol.jp3@gmail.com



4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14

Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.