Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Eu quero o gosto e o sumo de uma discussão

"Os maconheiros têm de aprender a tragar a democracia — ou vão respirar o gás lacrimogêneo do estado de direito. É simples!"

 

"Pois é… Os maconheiros vão ter de aprender a seguir a lei. Se resistem, a tanto têm de ser forçados".

 

Democracia? Isso me lembra a ditadura. Naquela época também tinha lei.


Extremamente preconceituosa e sensacionalista a posição de Reinaldo Azevedo, colunista da Veja, sobre A Marcha da Maconha. Ele ficou tuitando coisas desse tipo ontem o dia todo, talvez pra causar polêmica e atrair leitores com sua "manobra". Pf.

Assim como acho desconfortável que manifestantes insistam em propagar frases do Bob Marley e jargões que não ajudam a tirar a cortina de fumaça sobre essa discussão, que devia ser simples e direta, mas o povo complica.

 

O foco não é a 'reles' importância de poder curtir um barato em paz, e sim discutir a política atrasada e desigual que se dá às drogas de forma geral no nosso país. Discutir a morte de milhares, eu disse milhares, de crianças, não porque estão puxando fumo, mas porque estão trabalhando para a atividade ilegal que se desenvolveu na brecha da ilegalidade. Discutir o enriquecimento de traficantes, polícias, políticos e autoridades em geral, que ganham o seu, em largas porcentagens, como em qualquer atividade ilegal em nosso país, que adora lei, para poder lucrar com o que está fora da lei.

 

Aqui nesse lugar que se intitula 'democrático' a lei não nos protege, a lei possibilita que continuemos sendo a ponta da corda, quem só se fode, enquanto atrás de todo esse moralismo exarcebado, pratica-se toda sorte de atitudes totalmente ausentes de caráter, justiça e benefícios sociais. Existe sempre um fim, e esse nunca é o conforto do cidadão. E muitos desses, "cidadãos", ainda se prestam a servir de marionetes para o discurso que vai ferrar com eles próprios. Incrível.

 

A discussão do fuma ou não fuma nem devia passar perto dessa outra, que pede por um pouco mais de justiça social, que pede pra tapar os buracos, acabar com a brecha, dar devida importância e peso aos cigarros (e consequentemente a outras drogas lícitas e ilícitas de forma geral). Que pede por um verdadeiro controle: de qualidade; de distribuição, de impostos, de saúde. Porque proibir não limita o uso. Proibir maximiza malefícios. Cria problemas infinitamente maiores.

 

Acho até que muitos manifestantes ajudam a reforçar esse estereótipo de maconheiro, legalize e coisa e tal. Como se todo consumidor fosse isso. E quem tem algo com isso? Assim continua raso. Continua piada. Vejam a cobertura de uma outra marcha que teve no Rio pelos CQCs da vida: close na folha de maconha, no olho pequeno e no rastafari ali ó. Faz uma pergunta engraçada, uma piada com o Bob Marley, põe um "sóóó, podicrê" e pronto. Fechô.

 

Morte não é engraçado. O que acontece na favela não é engraçado não. A volta que a erva dá e tudo que ela traz junto até chegar no cigarro do maconheiro não é divertido. Não é piada. É grave. É triste. É pouco civilizado. Mas movimenta muito dinheiro e aí chegamos na base da questão. É triste que o molejo brasileiro do "dar um jeitinho" tenha chegado a esferas tão agressivas a ponto de ser o norte para qualquer "ordem" vigente. Mesmo que seus interesses e consequências sejam óbvios, visíveis, transparentes e não tenham sentido algum.

 

Acho que quando acabar isso de estereotipar quem embarca nessa luta vai ficar um pouco mais fácil falar como gente civilizada. Não que isso seja o principal (parece aquela história que a moça só foi estuprada porque tava de saia curta). É que não precisa gostar de maconha para ser justo. Isso precisar estar óbvio. Como na discussão sobre homofobia. Só defende o direito quem é gay? Por favor, pensemos!

 

Ainda mais agora que está tão na moda dizer que o "maconheiro" financia o tráfico. Quem gosta de propagar isso, devia se perguntar "por quê". É fácil chegar na resposta, acomodação, ter alguém pra culpar. E num tempo onde quem tem o mínimo de consciência pergunta de onde vem o que põe pra dentro, é esquisito mesmo que uma erva tão pacífica esteja misturada com tanta impureza.


Não esqueçam do álcool e sua infinidade de desdobramentos na sociedade. Tem muito assunto pra manga. Rosa, verde, amarela, de qualquer tipo.

Escrito por Caroline Cezar, 22/05/2011 às 13h15 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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"Os maconheiros têm de aprender a tragar a democracia — ou vão respirar o gás lacrimogêneo do estado de direito. É simples!"

 

"Pois é… Os maconheiros vão ter de aprender a seguir a lei. Se resistem, a tanto têm de ser forçados".

 

Democracia? Isso me lembra a ditadura. Naquela época também tinha lei.


Extremamente preconceituosa e sensacionalista a posição de Reinaldo Azevedo, colunista da Veja, sobre A Marcha da Maconha. Ele ficou tuitando coisas desse tipo ontem o dia todo, talvez pra causar polêmica e atrair leitores com sua "manobra". Pf.

Assim como acho desconfortável que manifestantes insistam em propagar frases do Bob Marley e jargões que não ajudam a tirar a cortina de fumaça sobre essa discussão, que devia ser simples e direta, mas o povo complica.

 

O foco não é a 'reles' importância de poder curtir um barato em paz, e sim discutir a política atrasada e desigual que se dá às drogas de forma geral no nosso país. Discutir a morte de milhares, eu disse milhares, de crianças, não porque estão puxando fumo, mas porque estão trabalhando para a atividade ilegal que se desenvolveu na brecha da ilegalidade. Discutir o enriquecimento de traficantes, polícias, políticos e autoridades em geral, que ganham o seu, em largas porcentagens, como em qualquer atividade ilegal em nosso país, que adora lei, para poder lucrar com o que está fora da lei.

 

Aqui nesse lugar que se intitula 'democrático' a lei não nos protege, a lei possibilita que continuemos sendo a ponta da corda, quem só se fode, enquanto atrás de todo esse moralismo exarcebado, pratica-se toda sorte de atitudes totalmente ausentes de caráter, justiça e benefícios sociais. Existe sempre um fim, e esse nunca é o conforto do cidadão. E muitos desses, "cidadãos", ainda se prestam a servir de marionetes para o discurso que vai ferrar com eles próprios. Incrível.

 

A discussão do fuma ou não fuma nem devia passar perto dessa outra, que pede por um pouco mais de justiça social, que pede pra tapar os buracos, acabar com a brecha, dar devida importância e peso aos cigarros (e consequentemente a outras drogas lícitas e ilícitas de forma geral). Que pede por um verdadeiro controle: de qualidade; de distribuição, de impostos, de saúde. Porque proibir não limita o uso. Proibir maximiza malefícios. Cria problemas infinitamente maiores.

 

Acho até que muitos manifestantes ajudam a reforçar esse estereótipo de maconheiro, legalize e coisa e tal. Como se todo consumidor fosse isso. E quem tem algo com isso? Assim continua raso. Continua piada. Vejam a cobertura de uma outra marcha que teve no Rio pelos CQCs da vida: close na folha de maconha, no olho pequeno e no rastafari ali ó. Faz uma pergunta engraçada, uma piada com o Bob Marley, põe um "sóóó, podicrê" e pronto. Fechô.

 

Morte não é engraçado. O que acontece na favela não é engraçado não. A volta que a erva dá e tudo que ela traz junto até chegar no cigarro do maconheiro não é divertido. Não é piada. É grave. É triste. É pouco civilizado. Mas movimenta muito dinheiro e aí chegamos na base da questão. É triste que o molejo brasileiro do "dar um jeitinho" tenha chegado a esferas tão agressivas a ponto de ser o norte para qualquer "ordem" vigente. Mesmo que seus interesses e consequências sejam óbvios, visíveis, transparentes e não tenham sentido algum.

 

Acho que quando acabar isso de estereotipar quem embarca nessa luta vai ficar um pouco mais fácil falar como gente civilizada. Não que isso seja o principal (parece aquela história que a moça só foi estuprada porque tava de saia curta). É que não precisa gostar de maconha para ser justo. Isso precisar estar óbvio. Como na discussão sobre homofobia. Só defende o direito quem é gay? Por favor, pensemos!

 

Ainda mais agora que está tão na moda dizer que o "maconheiro" financia o tráfico. Quem gosta de propagar isso, devia se perguntar "por quê". É fácil chegar na resposta, acomodação, ter alguém pra culpar. E num tempo onde quem tem o mínimo de consciência pergunta de onde vem o que põe pra dentro, é esquisito mesmo que uma erva tão pacífica esteja misturada com tanta impureza.


Não esqueçam do álcool e sua infinidade de desdobramentos na sociedade. Tem muito assunto pra manga. Rosa, verde, amarela, de qualquer tipo.

Escrito por Caroline Cezar, 22/05/2011 às 13h15 | carol.jp3@gmail.com



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