Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Socialmente inaceitável

O caso grave de agressão que aconteceu no colégio particular foi um prato cheio para quem, do alto do seu teclado mágico, gosta de apontar vilões e mocinhos, cavocar a vida alheia, criar teorias e, euforicamente, quase comemorar as desgraças. Não basta às famílias sofrerem a tragédia, têm que lidar com a segunda tragédia, que é cair na boca da geração facebooker, os justiceiros de cadeira. Que passam horas por dia sentenciando na rede e quando se encontram ao vivo comentam sobre as “postagens” que fizeram ou deixaram de fazer. A bostagem na vida real, não enxergam.

O que surpreende não é a tragédia, é a surpresa. É perceber que a maioria não percebe que esse tipo de agressão está sendo construída cotidianamente, sorrateiramente, desapercebidamente; e pior: de forma socialmente aceita. Não existe plantio sem colheita, mas parece que quanto mais escancarado é o fruto, mais a sociedade trata de vê-lo isolado do pomar, como se caísse do céu.

“Isso não dá pra tolerar! Vamos achar o culpado e o motivo, jogamos as pedras e acabou. Nossas mãos parecem até mais limpas”.

Nesse mesmo mundo que não enxerga o fruto da ação amarrado à ação, é socialmente aceito crescer sem pai nem mãe, ser cuidado por terceiros, desde bebê-que-mama até perder de vista.

É socialmente aceito ser recebido com agressões, que chamam de “procedimentos padrão”, pra sempre registrados em nossas memórias menos lembradas e mais sentidas.

É socialmente aceito que desconhecidos ditem como devemos gestar e parir nossos filhos, se devem ou não mamar no peito, se devem ou não dormir com os pais, se devem usar rosa ou azul, se devem se esgoelar chorando sozinhos porque colo demais “estraga”, deixa dependente (!).

É socialmente aceito que tratem bebês como porcos na engorda, que devem obedecer a uma linha de crescimento como se fossem produção em série, mesmo que seja à base de alimento industrializado e de péssima categoria. E que tratem mães como pedaços de bife, que devem “recuperar” um corpo que agrade o mercado do sexo e da aparência.

É socialmente aceito ser dono da vida: antecipar, prolongar, fazer cópias, trocar pedaços, injetar toxinas, fabricar alegria, sono, prazer.

É socialmente aceito não ver o indivíduo como indivíduo, e sim como mais um, que deve ser igual pra não soar estranho.

É socialmente aceito colocar crianças desde muito cedo dentro de salas pequenas por horas, em filas, de costas pras outras, ouvindo, ouvindo, ouvindo o que alguém despeja. Cinco dias por semana. Não olhe pros lados.

É socialmente aceito que quem esteja à frente dessas crianças não tenha descanso, lazer, equilíbrio físico e mental e trabalhe oito, dez, doze horas por dia como um condenado para pagar as contas dos filhos -que estão sendo cuidados por outro no mesmo estado psíquico.

É socialmente aceito conversar muito pouco sobre o mundo, a cidade, o bairro, a casa, mas estudar geografia através de um livro que a todo ano é “renovado” para render lucros à editora e conchavos, mas que continua defasado, porque, só pra começar, é unidimensional. Temos google maps na palma de um celular. (E temos lá fora pra quem consegue ver).

É socialmente aceito que se dê menos importância às refeições em família, onde se come qualquer coisa que não se sabe de onde vem. De preferência em dez minutos e na rua, para que sigam todos às atividades da tarde. Quem não tem agenda cheia é um deslocado social. 

É socialmente aceito não ter “tempo livre”, aliás, é muito mal visto socialmente estar à toa, porque mente vazia é coisa de quem mesmo? Soca a mente de coisa, vai.

Os celulares, social e amplamente aceitos. Crianças os recebem cada vez mais cedo. Pais se preocupam mais com o modelo oferecido, do que pra que será usado. As escolas, pra lavar as mãos, proíbem. Mas esse computador de bolso com câmera de vídeo, foto, gravador e acesso ao mundo, é um mero emissor de “whatsup”? Reclamam, mas ninguém quer repensar o uso. Eles existem, fato. Poderiam ser ferramentas úteis.

Social e amplamente aceito é tarjar com medicamento faixa preta crianças que conseguem manifestar sua insatisfação com a doença desse modelo.  Depois têm a coragem de chamar quem expressa isso de maneira incontrolável de “estranho”. Eu não consigo aceitar.

Texto originalmente publicado no Página3 impresso, em 05 de julho de 2014.

Escrito por Caroline Cezar, 11/07/2014 às 09h40 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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O caso grave de agressão que aconteceu no colégio particular foi um prato cheio para quem, do alto do seu teclado mágico, gosta de apontar vilões e mocinhos, cavocar a vida alheia, criar teorias e, euforicamente, quase comemorar as desgraças. Não basta às famílias sofrerem a tragédia, têm que lidar com a segunda tragédia, que é cair na boca da geração facebooker, os justiceiros de cadeira. Que passam horas por dia sentenciando na rede e quando se encontram ao vivo comentam sobre as “postagens” que fizeram ou deixaram de fazer. A bostagem na vida real, não enxergam.

O que surpreende não é a tragédia, é a surpresa. É perceber que a maioria não percebe que esse tipo de agressão está sendo construída cotidianamente, sorrateiramente, desapercebidamente; e pior: de forma socialmente aceita. Não existe plantio sem colheita, mas parece que quanto mais escancarado é o fruto, mais a sociedade trata de vê-lo isolado do pomar, como se caísse do céu.

“Isso não dá pra tolerar! Vamos achar o culpado e o motivo, jogamos as pedras e acabou. Nossas mãos parecem até mais limpas”.

Nesse mesmo mundo que não enxerga o fruto da ação amarrado à ação, é socialmente aceito crescer sem pai nem mãe, ser cuidado por terceiros, desde bebê-que-mama até perder de vista.

É socialmente aceito ser recebido com agressões, que chamam de “procedimentos padrão”, pra sempre registrados em nossas memórias menos lembradas e mais sentidas.

É socialmente aceito que desconhecidos ditem como devemos gestar e parir nossos filhos, se devem ou não mamar no peito, se devem ou não dormir com os pais, se devem usar rosa ou azul, se devem se esgoelar chorando sozinhos porque colo demais “estraga”, deixa dependente (!).

É socialmente aceito que tratem bebês como porcos na engorda, que devem obedecer a uma linha de crescimento como se fossem produção em série, mesmo que seja à base de alimento industrializado e de péssima categoria. E que tratem mães como pedaços de bife, que devem “recuperar” um corpo que agrade o mercado do sexo e da aparência.

É socialmente aceito ser dono da vida: antecipar, prolongar, fazer cópias, trocar pedaços, injetar toxinas, fabricar alegria, sono, prazer.

É socialmente aceito não ver o indivíduo como indivíduo, e sim como mais um, que deve ser igual pra não soar estranho.

É socialmente aceito colocar crianças desde muito cedo dentro de salas pequenas por horas, em filas, de costas pras outras, ouvindo, ouvindo, ouvindo o que alguém despeja. Cinco dias por semana. Não olhe pros lados.

É socialmente aceito que quem esteja à frente dessas crianças não tenha descanso, lazer, equilíbrio físico e mental e trabalhe oito, dez, doze horas por dia como um condenado para pagar as contas dos filhos -que estão sendo cuidados por outro no mesmo estado psíquico.

É socialmente aceito conversar muito pouco sobre o mundo, a cidade, o bairro, a casa, mas estudar geografia através de um livro que a todo ano é “renovado” para render lucros à editora e conchavos, mas que continua defasado, porque, só pra começar, é unidimensional. Temos google maps na palma de um celular. (E temos lá fora pra quem consegue ver).

É socialmente aceito que se dê menos importância às refeições em família, onde se come qualquer coisa que não se sabe de onde vem. De preferência em dez minutos e na rua, para que sigam todos às atividades da tarde. Quem não tem agenda cheia é um deslocado social. 

É socialmente aceito não ter “tempo livre”, aliás, é muito mal visto socialmente estar à toa, porque mente vazia é coisa de quem mesmo? Soca a mente de coisa, vai.

Os celulares, social e amplamente aceitos. Crianças os recebem cada vez mais cedo. Pais se preocupam mais com o modelo oferecido, do que pra que será usado. As escolas, pra lavar as mãos, proíbem. Mas esse computador de bolso com câmera de vídeo, foto, gravador e acesso ao mundo, é um mero emissor de “whatsup”? Reclamam, mas ninguém quer repensar o uso. Eles existem, fato. Poderiam ser ferramentas úteis.

Social e amplamente aceito é tarjar com medicamento faixa preta crianças que conseguem manifestar sua insatisfação com a doença desse modelo.  Depois têm a coragem de chamar quem expressa isso de maneira incontrolável de “estranho”. Eu não consigo aceitar.

Texto originalmente publicado no Página3 impresso, em 05 de julho de 2014.

Escrito por Caroline Cezar, 11/07/2014 às 09h40 | carol.jp3@gmail.com



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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.