Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Banho de luz

 

E a menina tendo dor de barriga pra ir na escola, sempre no mesmo dia.

- Você sabe, minha filha, que a dor não nasce do nada, mas é você que tem que descobrir daonde que ela vem. Eu posso te ajudar a investigar, te dizer que nosso corpo nos alerta o tempo todo sobre tudo, mas a resposta mesmo é só você que tem.

 

Depois de muito auto e co-estudo, voltas e hipóteses, sempre sutis e sugestivas, nunca sentenças prontas -que é como a gente devia conversar com criança sempre-, veio um possível diagnóstico: a aula de leitura.
(Mas como uma aula de leitura pode ser desgostosa pra alguém que gosta tanto de ler? É o método? O condutor? Os textos? Como acontece? Nova anamnese.)

 

E volta, e volta, e volta...e hipóetese: pode ser que seja a pessoa.

- Então é assim minha filha: essa pessoa está ali. Outras pessoas vão estar em outros momentos da vida e você vai ter que passar por cima. E por favor não me entenda mal que isso não quer dizer pisar na cabeça, desrespeitar, agir grosseiramente, ou devolver o que ela te dá. A gente não vive uma batalha. A gente não tá aqui pra trocar olho por olho, dente por dente não senhora. Já imaginou que dia difícil aquela pessoa pode estar tendo? Ou que fase difícil? Ou que ano inteiro difícil… Ou ainda que existência difícil!?

 

- Mas ela nem tem filhos mamãe!
(Gargalhadas)
(Pausa)
(Suspiro)

 

Minha filha amada, filho não é problema, só dá trabalho, muito trabalho, mas também muita felicidade. Às vezes a pessoa não tem filhos, mas qualquer pessoa tem pais, não é verdade? Tios. Avós. Namorado. Vizinho. Conhecido. Ela mesma pode ser várias. Sempre tem outras pessoas na vida de uma pessoa. E nem sempre isso é fácil, aliás, quase nunca é, mas podemos tentar que isso seja mais... leve.
Também vale lembrar que gente não é estática, temos fases e ciclos, e outro dia pode ser nós que estamos carregando uma nuvem na cabeça. Tem esses dias não tem? Todo mundo tem. E aí a gente sai trovejando e geral relampeando de volta, pensa em como a gente se sente? Terrível, um alimentando a tempestade do outro.

 

Podemos tentar um exercício na próxima aula de leitura: fazer uma leitura. Silenciosa, menos com os olhos, e mais com todos os sentidos, ligar as anteninhas mágicas pra ver como andam as coisas, como está tudo naquele dia. Se você ver, ou melhor, sentir, que algo não está tão bem, se concentra, se concentra mais um tanto e lembra antes de tudo: não é com você. Você não fez nada. Aquilo não é seu. Segundo: você pode ajudar. Dá uma disfarçada e sem fazer careta começa a imaginar tudo de bom para aquela pessoa. Se ela fizer cara feia, dá um sorriso. E vai entrando com o teu poder mais pra dentro, esquece a roupa, esquece o rosto, esquece a expressão, esquece a pele, esquece o que tem fora e vai, vai, vai até achar alguma coisa que brilha, às vezes tá meio apagadinho, mas dá uma lustrada e traz de volta. Tenta com teu super poder secreto trazer aquilo pra fora, contaminar e não ser contaminada. Se você não quiser entrar tanto lá, tudo bem, pega uma luz de fora e joga na cabeça dela, mas joga mesmo, mais e mais, quanto você puder. Abre um chuveiro de luz na cabeça dela. Dá uma banho mágico, daqueles bem fortes que chega a doer. Você é tão tão poderosa com essa alegria extrema, eu sei que você pode. E vou te dizer mais uma coisa que não é pra se gabar nem se achar melhor que ninguém, mas ainda por cima você é fêmea. Tem o dom de gerar vida, de abençoar, de proteger e tem o dom mais poderoso de todos, que é a intuição e muita força de criação. Fique em si, esteja em si e você vai saber fazer qualquer coisa.

 

Lembra sempre também que as pessoas, todas elas, carregam uma bagagem, às vezes é uma mochilinha, se ela se acostuma sempre a jogar algumas coisas fora, guardar só as bem importantes… às vezes são malas muito pesadas, outras vezes só vai de reboque mesmo. Considera isso e respeita. Ninguém cai aqui de paraquedas. Estamos pra nos relacionar. Com as bagagens, com as pessoas chatas, as pessoas legais, as famílias e os encontros e desencontros da vida. Esse é nosso maior aprendizado. “O plano espiritual é um bairro”, diz o Enzo. Tenha amor minha filha. Tenha amor e faça sua parte.

Escrito por Caroline Cezar, 19/09/2014 às 11h27 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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Banho de luz

 

E a menina tendo dor de barriga pra ir na escola, sempre no mesmo dia.

- Você sabe, minha filha, que a dor não nasce do nada, mas é você que tem que descobrir daonde que ela vem. Eu posso te ajudar a investigar, te dizer que nosso corpo nos alerta o tempo todo sobre tudo, mas a resposta mesmo é só você que tem.

 

Depois de muito auto e co-estudo, voltas e hipóteses, sempre sutis e sugestivas, nunca sentenças prontas -que é como a gente devia conversar com criança sempre-, veio um possível diagnóstico: a aula de leitura.
(Mas como uma aula de leitura pode ser desgostosa pra alguém que gosta tanto de ler? É o método? O condutor? Os textos? Como acontece? Nova anamnese.)

 

E volta, e volta, e volta...e hipóetese: pode ser que seja a pessoa.

- Então é assim minha filha: essa pessoa está ali. Outras pessoas vão estar em outros momentos da vida e você vai ter que passar por cima. E por favor não me entenda mal que isso não quer dizer pisar na cabeça, desrespeitar, agir grosseiramente, ou devolver o que ela te dá. A gente não vive uma batalha. A gente não tá aqui pra trocar olho por olho, dente por dente não senhora. Já imaginou que dia difícil aquela pessoa pode estar tendo? Ou que fase difícil? Ou que ano inteiro difícil… Ou ainda que existência difícil!?

 

- Mas ela nem tem filhos mamãe!
(Gargalhadas)
(Pausa)
(Suspiro)

 

Minha filha amada, filho não é problema, só dá trabalho, muito trabalho, mas também muita felicidade. Às vezes a pessoa não tem filhos, mas qualquer pessoa tem pais, não é verdade? Tios. Avós. Namorado. Vizinho. Conhecido. Ela mesma pode ser várias. Sempre tem outras pessoas na vida de uma pessoa. E nem sempre isso é fácil, aliás, quase nunca é, mas podemos tentar que isso seja mais... leve.
Também vale lembrar que gente não é estática, temos fases e ciclos, e outro dia pode ser nós que estamos carregando uma nuvem na cabeça. Tem esses dias não tem? Todo mundo tem. E aí a gente sai trovejando e geral relampeando de volta, pensa em como a gente se sente? Terrível, um alimentando a tempestade do outro.

 

Podemos tentar um exercício na próxima aula de leitura: fazer uma leitura. Silenciosa, menos com os olhos, e mais com todos os sentidos, ligar as anteninhas mágicas pra ver como andam as coisas, como está tudo naquele dia. Se você ver, ou melhor, sentir, que algo não está tão bem, se concentra, se concentra mais um tanto e lembra antes de tudo: não é com você. Você não fez nada. Aquilo não é seu. Segundo: você pode ajudar. Dá uma disfarçada e sem fazer careta começa a imaginar tudo de bom para aquela pessoa. Se ela fizer cara feia, dá um sorriso. E vai entrando com o teu poder mais pra dentro, esquece a roupa, esquece o rosto, esquece a expressão, esquece a pele, esquece o que tem fora e vai, vai, vai até achar alguma coisa que brilha, às vezes tá meio apagadinho, mas dá uma lustrada e traz de volta. Tenta com teu super poder secreto trazer aquilo pra fora, contaminar e não ser contaminada. Se você não quiser entrar tanto lá, tudo bem, pega uma luz de fora e joga na cabeça dela, mas joga mesmo, mais e mais, quanto você puder. Abre um chuveiro de luz na cabeça dela. Dá uma banho mágico, daqueles bem fortes que chega a doer. Você é tão tão poderosa com essa alegria extrema, eu sei que você pode. E vou te dizer mais uma coisa que não é pra se gabar nem se achar melhor que ninguém, mas ainda por cima você é fêmea. Tem o dom de gerar vida, de abençoar, de proteger e tem o dom mais poderoso de todos, que é a intuição e muita força de criação. Fique em si, esteja em si e você vai saber fazer qualquer coisa.

 

Lembra sempre também que as pessoas, todas elas, carregam uma bagagem, às vezes é uma mochilinha, se ela se acostuma sempre a jogar algumas coisas fora, guardar só as bem importantes… às vezes são malas muito pesadas, outras vezes só vai de reboque mesmo. Considera isso e respeita. Ninguém cai aqui de paraquedas. Estamos pra nos relacionar. Com as bagagens, com as pessoas chatas, as pessoas legais, as famílias e os encontros e desencontros da vida. Esse é nosso maior aprendizado. “O plano espiritual é um bairro”, diz o Enzo. Tenha amor minha filha. Tenha amor e faça sua parte.

Escrito por Caroline Cezar, 19/09/2014 às 11h27 | carol.jp3@gmail.com



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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.