Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Estamos todos exagerando

 

Entre as opções do lugar, expostas em uma placa na rua, uma me chamou atenção: “musicalização para bebês”.

 

(Pera. Que diacho é isso agora senhor. O que será que chamam de bebê? Já senta, por favor, me digam que já senta. E o que seria a tal musicalização? Música é que nem Deus, onde Ele não está?)

 

Bater palmas, assobiar, lavar louça, usar os pés, sacudir caixa de fósforos, solfejar, brincar com o corpo, isso pra nem falar do que vem de lá de fora. Todos os sons, todos os ritmos, a voz maravilhosa da mãe, não importa em que tom, desde que esteja repleto de amor, a melhor música. Bebê devia ficar com a mãe. Devia ficar no peito.

 

Não é uma crítica isolada a tal lugar, tal pessoa, tal método. A partir da observação rasa de uma placa fiquei pensando em outras coisas mais além. Podem haver projetos lindos e ricos envolvendo música e bebês, porque afinal, ideal é ideal, e mundo real é outra coisa. A sociedade está montada desse jeito e nesse caso, são bem vindas idéias que enriqueçam os dias das crianças órfãs e das outras não tão órfãs. Enriquecer e não substituir. Somar e não trocar. Aproximar e não afastar. Fortalecer o vínculo.

 

Bebê devia ficar com a mãe, ficar no peito, não ter compromisso e ter contato com música e eartes em geral. E mãe, mãe é gente, precisa de ajuda, de compreensão, de apoio, doação não é tão simples quanto parece. Doar dinheiro é. Doar sopa é. Doar tempo, corpo, alma, amor, peito, não é. E temos aí, duas doenças sociais: crianças abandonadas e/ou adotadas por inúmeros compromissos e mães isoladas e carentes nos centros urbanos. Que espécie de filho elas vão criar? Que espécie de adulto eles vão se tornar? Precisa olhar pra isso, porque isso é base.

 

A ciência explica que filhote humano é filhote até três anos de idade, mas na prática dá meia dúzia de passos não é mais bebê, “já é criança” e “independente”. Já pode ir na aula de dança, equitação, mandarim e colônia nas horas vagas, porque temos que aprender a ser produtivos e mente vazia é coisa do tibinga. A escola nem se fala, o quanto antes, para “aprender a socializar, conviver com outras crianças, dividir”. Porque já não tem mais criança na rua. Porque os parquinhos, “ãhn, que parquinho?”, vizinho, “ãhn, que vizinho?” (O cara ali, da caixa ao lado. O que sai de manhã e volta à noite, que nem nós).

 

Tá todo mundo com pressa. E nesse ritmo, perdem-se coisas essenciais numa fase de construção. O direito de ficar em casa. O direito de ter pai e mãe. O direito de BRINCAR. O direito de ser LIVRE. O espaço vazio. A ausência de estímulos. O acaso. O vento. A chuva. O frio e o calor. A fome, antes de comer. O sono, antes de ser sedado. A alegria. A tristeza. O direito de ficar triste. De chorar. De experimentar. De ficar em paz. De ser acolhido. O direito à palavra, escrita, falada, dita e não dita. O direito à palavra ouvida. O olhar. Andar a pé pra ir a nenhum lugar, só andar.

 

Tudo é agendado, programado, planejado.

 

Contagem regressiva pro nascimento, local, data, hora e signo devidamente escolhidos por um -ou mais- adultos, numerologia que indica sucesso na vida. Faltam 10 dias, faltam 5 dias, falta meia hora, tira a foto. Um dia, trinta visitas, dois dias, mais 30. Três dias, ida ao médico. Quatro dias, exames de última geração. Dez dias, ensaio new born. Quinze dias, primeiro passeio no shopping. Um mês, festinha com bolo de chantilly e mesa de doce. Dois meses, festinha. Três meses, exposição dos sapatinhos e lacinhos. Quatro meses, look do dia pra ir na creche, mamãe precisa trabalhar (e voltar à boa forma, e ir no salão, dar um up no visú etc etc). Cinco meses, já se interessa por tudo, merece um tablet. Seis meses, festinha e contagem regressiva para a grande festa de comemoração do primeiro ano, como passa rápido! Dia das Crianças. Natal. Coelhinho. Shopping. Loja. Roupa. Brinquedo que liga, apita, toca música, treme. Barulho, barulho, ruído, luz que acende, luz que apaga.

 

Exagero? Estamos todos exagerando, achando que isso é normal. Comum NÃO É normal. Falta uma conexão mais profunda com a vida, com os filhos e com as relações de maneira geral. Falta um comprometimento com a infância, conosco, e com a verdade. Não podemos encarar a vida como uma página de facebook, com recortes de momentos lindos, e não enxergar a mediocridade do cotidiano. A coisa toda está montada para ficar fácil, quase automática, cômoda, bonitinha, mas pra beneficiar quem? E o que se perde, o que se sacrifica?

 


                                                                                                                                                                     BANKSY

 

“¡Qué poco cuesta construir castillos en el aire, y qué cara es su destrucción!” (François Mauriac)

 

Escrito por Caroline Cezar, 15/10/2014 às 22h04 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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Entre as opções do lugar, expostas em uma placa na rua, uma me chamou atenção: “musicalização para bebês”.

 

(Pera. Que diacho é isso agora senhor. O que será que chamam de bebê? Já senta, por favor, me digam que já senta. E o que seria a tal musicalização? Música é que nem Deus, onde Ele não está?)

 

Bater palmas, assobiar, lavar louça, usar os pés, sacudir caixa de fósforos, solfejar, brincar com o corpo, isso pra nem falar do que vem de lá de fora. Todos os sons, todos os ritmos, a voz maravilhosa da mãe, não importa em que tom, desde que esteja repleto de amor, a melhor música. Bebê devia ficar com a mãe. Devia ficar no peito.

 

Não é uma crítica isolada a tal lugar, tal pessoa, tal método. A partir da observação rasa de uma placa fiquei pensando em outras coisas mais além. Podem haver projetos lindos e ricos envolvendo música e bebês, porque afinal, ideal é ideal, e mundo real é outra coisa. A sociedade está montada desse jeito e nesse caso, são bem vindas idéias que enriqueçam os dias das crianças órfãs e das outras não tão órfãs. Enriquecer e não substituir. Somar e não trocar. Aproximar e não afastar. Fortalecer o vínculo.

 

Bebê devia ficar com a mãe, ficar no peito, não ter compromisso e ter contato com música e eartes em geral. E mãe, mãe é gente, precisa de ajuda, de compreensão, de apoio, doação não é tão simples quanto parece. Doar dinheiro é. Doar sopa é. Doar tempo, corpo, alma, amor, peito, não é. E temos aí, duas doenças sociais: crianças abandonadas e/ou adotadas por inúmeros compromissos e mães isoladas e carentes nos centros urbanos. Que espécie de filho elas vão criar? Que espécie de adulto eles vão se tornar? Precisa olhar pra isso, porque isso é base.

 

A ciência explica que filhote humano é filhote até três anos de idade, mas na prática dá meia dúzia de passos não é mais bebê, “já é criança” e “independente”. Já pode ir na aula de dança, equitação, mandarim e colônia nas horas vagas, porque temos que aprender a ser produtivos e mente vazia é coisa do tibinga. A escola nem se fala, o quanto antes, para “aprender a socializar, conviver com outras crianças, dividir”. Porque já não tem mais criança na rua. Porque os parquinhos, “ãhn, que parquinho?”, vizinho, “ãhn, que vizinho?” (O cara ali, da caixa ao lado. O que sai de manhã e volta à noite, que nem nós).

 

Tá todo mundo com pressa. E nesse ritmo, perdem-se coisas essenciais numa fase de construção. O direito de ficar em casa. O direito de ter pai e mãe. O direito de BRINCAR. O direito de ser LIVRE. O espaço vazio. A ausência de estímulos. O acaso. O vento. A chuva. O frio e o calor. A fome, antes de comer. O sono, antes de ser sedado. A alegria. A tristeza. O direito de ficar triste. De chorar. De experimentar. De ficar em paz. De ser acolhido. O direito à palavra, escrita, falada, dita e não dita. O direito à palavra ouvida. O olhar. Andar a pé pra ir a nenhum lugar, só andar.

 

Tudo é agendado, programado, planejado.

 

Contagem regressiva pro nascimento, local, data, hora e signo devidamente escolhidos por um -ou mais- adultos, numerologia que indica sucesso na vida. Faltam 10 dias, faltam 5 dias, falta meia hora, tira a foto. Um dia, trinta visitas, dois dias, mais 30. Três dias, ida ao médico. Quatro dias, exames de última geração. Dez dias, ensaio new born. Quinze dias, primeiro passeio no shopping. Um mês, festinha com bolo de chantilly e mesa de doce. Dois meses, festinha. Três meses, exposição dos sapatinhos e lacinhos. Quatro meses, look do dia pra ir na creche, mamãe precisa trabalhar (e voltar à boa forma, e ir no salão, dar um up no visú etc etc). Cinco meses, já se interessa por tudo, merece um tablet. Seis meses, festinha e contagem regressiva para a grande festa de comemoração do primeiro ano, como passa rápido! Dia das Crianças. Natal. Coelhinho. Shopping. Loja. Roupa. Brinquedo que liga, apita, toca música, treme. Barulho, barulho, ruído, luz que acende, luz que apaga.

 

Exagero? Estamos todos exagerando, achando que isso é normal. Comum NÃO É normal. Falta uma conexão mais profunda com a vida, com os filhos e com as relações de maneira geral. Falta um comprometimento com a infância, conosco, e com a verdade. Não podemos encarar a vida como uma página de facebook, com recortes de momentos lindos, e não enxergar a mediocridade do cotidiano. A coisa toda está montada para ficar fácil, quase automática, cômoda, bonitinha, mas pra beneficiar quem? E o que se perde, o que se sacrifica?

 


                                                                                                                                                                     BANKSY

 

“¡Qué poco cuesta construir castillos en el aire, y qué cara es su destrucción!” (François Mauriac)

 

Escrito por Caroline Cezar, 15/10/2014 às 22h04 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.