Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Entrega

 

Tava na cidade, toda atrapalhada, toda em dúvidas. Nitidamente um sintoma da síndrome da roça, umas quinze opções de não-sei-se-faço e a predominante vontade de voltar pra casa e assar um pão antes do dia se ir.

 

O lado caxias querendo cumprir o que se propôs, que até agora se resumiu a visitar a amiga…pra que mercado, pra que banco, pra que lista de itens… Isso tudo só embaralhando mais a cabeça. Vamos praticar, esse era o topo da lista. Disciplina, disciplina Caroline… mas... será mesmo que é o que preciso hoje? Tô com fome. Tô fora de casa há horas. Quero sair da cidade. E o bebê? Vamos praticar, decisão tomada pela segunda vez. Tem o trânsito, tem entrar na rua errada, tem mais confusão.

 

Atrasada uns vinte minutos, rondei a porta, cogitei, desisti quando escutei todo o silêncio e a concentração de um grupo que saiu de casa pra isso. Tá tudo certo, cestlavie, plantio e colheita, você nem sabia se ia casar ou andar de bicicleta, toma uma água, senta um pouco, volta a si e vai embora.

 

Lá estou dando o tempo quando vejo Maria, no auge de sua meia dúzia de anos, toda trabalhada na sapequice, me dando aquela analisada onde tava escrito “e aí perdida?” (eu rio)

 

- Maria! Você tá aí é? Quanto tempo menina! (tentando evitar o bordão “você cresceu” com o apertão nas bochechas, mas consciente que sim, a gente fica igual às tias).

- Oi. Mas quem é você mesmo?

(Por um instante lamento a ausência e queria fazer mais parte; no instante seguinte comemoro e vejo que faço totalmente parte. Quem quer que ela me reconheça é meu ego, mas meu coração tá aqui, em total presença com ela e com sua verdade, o que é mais lindo. Quanto tempo tem num instante?)

- Eu sou aquela tia que tem vários filhos, uma é bebê, você se lembra? Eu sou amiga da mamãe, que te conhece desde que você tava dentro da barriga.

- Ãããhn tá. (vulgo “grandes coisa”).

 

Saiu andando.

 

Continuei o assunto corriqueiro de halls de entrada. Me cansei, dei uma volta, caí na sala de Maria, com uma casinha muito bem montada, um filtro dos sonhos gigante e um tapete azul esticado no chão. Deus, o yoga que eu precisava, toda a inocência e a pureza do mundo, um espaço vazio, menos gente, menos outros, e uma facilitadora mestra e despida de qualquer tem-que-ser.

 

- Ah, com licença Maria, eu posso ocupar esse espaço um pouquinho?

- Ah claro, você veio fazer yoga?

- Sim, eu vim.

- Ah, pode fazer sim. Você quer uma ajuda? Olha, faz essa postura aqui do macaco.

- Ah, ok, faço sim.

- Ahãm, você parece uma macaca MESMO. Agora faz essa aqui, da árvore. (...)  E agora essa aqui, como é mesmo o nome? Ai, como é mesmo… (saiu da sala, deu uma volta)… A postura da mamãe! A mamãe adora essa postura, ela sempre faz, vamos chamar de postura da mamãe.

- Hm, eu também gosto dessa, eu gosto muito (comemorando internamente a perfeita definição para natarajásana, a postura de Shiva como dançarino cósmico - dança, equilíbrio, quatro braços, tudo a ver com mamães!).

E ela continuou guiando: - Vamos fazer juntas… Coloca a mão aqui ó, isso, muito bem, você também sabe essa. Vamos mostrar pra mamãe quando ela sair da sala.

 

Já estou totalmente satisfeita e agradecida pelo atraso, pelas dúvidas e por voltar a mim dessa forma, mas ela ainda tem mais a oferecer:

 

- Vamos tirar uma cartinha. (não era uma pergunta, era uma afirmação). Ela embaralha o tarô, retira uma pra si, ABUNDÂNCIA, e me oferece outra, “Cura Planetária”.

Emocionante, mas disfarço, deito, ela apaga a luz. Passam uns minutos e ela me diz:

 

- Bom né? Mas agora acabou, você pode ir. Você poderia pendurar o tapete ali por favor?

(Eu adoro o jeito que ela encerra a coisa, neutra, educada, desapegada, sem espaço pra divagações. Obedeço, agradeço.)

- Sim Maria. Obrigada pela aula. Dá um beijo na sua mãe.

- Obrigada também. Como é mesmo seu nome? Você tem o mesmo cheiro da Dedé, aquela outra que teve bebê.

- E você é uma ótima farejadora mocinha.

 

Minha lista estava cumprida, e naquele dia, ao invés da disciplina escolhi a entrega. Todo resto veio de brinde.

  

(Ilustração do Respire Blog, via Kika Teixeira)

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do Página3 impresso, em 18 de outubro de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 10/11/2014 às 15h05 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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Tava na cidade, toda atrapalhada, toda em dúvidas. Nitidamente um sintoma da síndrome da roça, umas quinze opções de não-sei-se-faço e a predominante vontade de voltar pra casa e assar um pão antes do dia se ir.

 

O lado caxias querendo cumprir o que se propôs, que até agora se resumiu a visitar a amiga…pra que mercado, pra que banco, pra que lista de itens… Isso tudo só embaralhando mais a cabeça. Vamos praticar, esse era o topo da lista. Disciplina, disciplina Caroline… mas... será mesmo que é o que preciso hoje? Tô com fome. Tô fora de casa há horas. Quero sair da cidade. E o bebê? Vamos praticar, decisão tomada pela segunda vez. Tem o trânsito, tem entrar na rua errada, tem mais confusão.

 

Atrasada uns vinte minutos, rondei a porta, cogitei, desisti quando escutei todo o silêncio e a concentração de um grupo que saiu de casa pra isso. Tá tudo certo, cestlavie, plantio e colheita, você nem sabia se ia casar ou andar de bicicleta, toma uma água, senta um pouco, volta a si e vai embora.

 

Lá estou dando o tempo quando vejo Maria, no auge de sua meia dúzia de anos, toda trabalhada na sapequice, me dando aquela analisada onde tava escrito “e aí perdida?” (eu rio)

 

- Maria! Você tá aí é? Quanto tempo menina! (tentando evitar o bordão “você cresceu” com o apertão nas bochechas, mas consciente que sim, a gente fica igual às tias).

- Oi. Mas quem é você mesmo?

(Por um instante lamento a ausência e queria fazer mais parte; no instante seguinte comemoro e vejo que faço totalmente parte. Quem quer que ela me reconheça é meu ego, mas meu coração tá aqui, em total presença com ela e com sua verdade, o que é mais lindo. Quanto tempo tem num instante?)

- Eu sou aquela tia que tem vários filhos, uma é bebê, você se lembra? Eu sou amiga da mamãe, que te conhece desde que você tava dentro da barriga.

- Ãããhn tá. (vulgo “grandes coisa”).

 

Saiu andando.

 

Continuei o assunto corriqueiro de halls de entrada. Me cansei, dei uma volta, caí na sala de Maria, com uma casinha muito bem montada, um filtro dos sonhos gigante e um tapete azul esticado no chão. Deus, o yoga que eu precisava, toda a inocência e a pureza do mundo, um espaço vazio, menos gente, menos outros, e uma facilitadora mestra e despida de qualquer tem-que-ser.

 

- Ah, com licença Maria, eu posso ocupar esse espaço um pouquinho?

- Ah claro, você veio fazer yoga?

- Sim, eu vim.

- Ah, pode fazer sim. Você quer uma ajuda? Olha, faz essa postura aqui do macaco.

- Ah, ok, faço sim.

- Ahãm, você parece uma macaca MESMO. Agora faz essa aqui, da árvore. (...)  E agora essa aqui, como é mesmo o nome? Ai, como é mesmo… (saiu da sala, deu uma volta)… A postura da mamãe! A mamãe adora essa postura, ela sempre faz, vamos chamar de postura da mamãe.

- Hm, eu também gosto dessa, eu gosto muito (comemorando internamente a perfeita definição para natarajásana, a postura de Shiva como dançarino cósmico - dança, equilíbrio, quatro braços, tudo a ver com mamães!).

E ela continuou guiando: - Vamos fazer juntas… Coloca a mão aqui ó, isso, muito bem, você também sabe essa. Vamos mostrar pra mamãe quando ela sair da sala.

 

Já estou totalmente satisfeita e agradecida pelo atraso, pelas dúvidas e por voltar a mim dessa forma, mas ela ainda tem mais a oferecer:

 

- Vamos tirar uma cartinha. (não era uma pergunta, era uma afirmação). Ela embaralha o tarô, retira uma pra si, ABUNDÂNCIA, e me oferece outra, “Cura Planetária”.

Emocionante, mas disfarço, deito, ela apaga a luz. Passam uns minutos e ela me diz:

 

- Bom né? Mas agora acabou, você pode ir. Você poderia pendurar o tapete ali por favor?

(Eu adoro o jeito que ela encerra a coisa, neutra, educada, desapegada, sem espaço pra divagações. Obedeço, agradeço.)

- Sim Maria. Obrigada pela aula. Dá um beijo na sua mãe.

- Obrigada também. Como é mesmo seu nome? Você tem o mesmo cheiro da Dedé, aquela outra que teve bebê.

- E você é uma ótima farejadora mocinha.

 

Minha lista estava cumprida, e naquele dia, ao invés da disciplina escolhi a entrega. Todo resto veio de brinde.

  

(Ilustração do Respire Blog, via Kika Teixeira)

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do Página3 impresso, em 18 de outubro de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 10/11/2014 às 15h05 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.