Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Horta urbana; ou; Esperança

A horta urbana mais linda. Toda verde, toda viva, toda cheia de flor.
Cuidada por uma senhorinha de idade avançada, que usa chapéu e os dois pés no chão.

Ali tem capricho, tem cuidado, tem esperança. Ali tem firmeza no propósito.

Pode ser que em volta só haja concreto. Pode ser que more um monte de gente empilhada, e que muitos não saibam o nome do vizinho. Pode ser que o dia passe e eles não vejam. Pode ser que alguns se sintam como o gato sentado na sacada, achando lá fora um mundo impossível. Pode ser que nunca tenham plantado, nunca tenham colhido. Que achem que comida nasce em prateleiras e dentro de plásticos. Que o lixo some na porta mágica, que os dejetos evaporam com a descarga. Pode ser que não se importem e que tenham escolhido viver assim. Ou nada disso.
A horta urbana me faz feliz, sempre que estou por ali páro pra contemplar. Discretamente, fico observando aquela senhora, aquela solitude, aquele silêncio, perdido na cidade. O cachorro, fiel companheiro, a água molhando as plantas de manhãzinha e fim de tarde, a resposta da natureza. Um ritual sagrado cotidiano, no meio do corre, do meio dos prédios, no meio da pressa.


Quantas vezes esquecemos do que somos em decorrência do local onde estamos, das coisas que nos cercam? Quantas vezes falamos o que não pensamos, praticamos o que não acreditamos, nos comportamos como seres distantes de nós mesmos, separados do Todo?
Ter consciência e estar em si é o que me lembra aquela horta: dia após dia, e apesar do ritmo externo, cavocar a terra, dar água, mudar de lugar o que precisa ser mudado, podar, limpar, observar a luz e as sombras. Momento presente, fazer o que tem que ser feito, e isso é muito. Isso é tanto, isso é dar o melhor pro mundo: uma pessoa em si alimenta todo o seu redor.

 

 

 

“Natureza é uma força que inunda como os desertos.” Manoel de Barros

Escrito por Caroline Cezar, 21/11/2014 às 10h58 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Horta urbana; ou; Esperança

A horta urbana mais linda. Toda verde, toda viva, toda cheia de flor.
Cuidada por uma senhorinha de idade avançada, que usa chapéu e os dois pés no chão.

Ali tem capricho, tem cuidado, tem esperança. Ali tem firmeza no propósito.

Pode ser que em volta só haja concreto. Pode ser que more um monte de gente empilhada, e que muitos não saibam o nome do vizinho. Pode ser que o dia passe e eles não vejam. Pode ser que alguns se sintam como o gato sentado na sacada, achando lá fora um mundo impossível. Pode ser que nunca tenham plantado, nunca tenham colhido. Que achem que comida nasce em prateleiras e dentro de plásticos. Que o lixo some na porta mágica, que os dejetos evaporam com a descarga. Pode ser que não se importem e que tenham escolhido viver assim. Ou nada disso.
A horta urbana me faz feliz, sempre que estou por ali páro pra contemplar. Discretamente, fico observando aquela senhora, aquela solitude, aquele silêncio, perdido na cidade. O cachorro, fiel companheiro, a água molhando as plantas de manhãzinha e fim de tarde, a resposta da natureza. Um ritual sagrado cotidiano, no meio do corre, do meio dos prédios, no meio da pressa.


Quantas vezes esquecemos do que somos em decorrência do local onde estamos, das coisas que nos cercam? Quantas vezes falamos o que não pensamos, praticamos o que não acreditamos, nos comportamos como seres distantes de nós mesmos, separados do Todo?
Ter consciência e estar em si é o que me lembra aquela horta: dia após dia, e apesar do ritmo externo, cavocar a terra, dar água, mudar de lugar o que precisa ser mudado, podar, limpar, observar a luz e as sombras. Momento presente, fazer o que tem que ser feito, e isso é muito. Isso é tanto, isso é dar o melhor pro mundo: uma pessoa em si alimenta todo o seu redor.

 

 

 

“Natureza é uma força que inunda como os desertos.” Manoel de Barros

Escrito por Caroline Cezar, 21/11/2014 às 10h58 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.