Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Sempre se fazendo

“Sim, ele mudou, mas eu lembro dele assim e assado quando era adolescente. Um pouco da essência, do que tu era quando tinha lá seus 13, 14 anos, sempre fica. Claro que a gente evolui, mas a essência é a mesma”.

Escutei e fiquei pensando.

Que às vezes a gente evolui, e às vezes a gente involui achando que tá evoluindo.
Monta um mosaico tão encaixadinho de si mesmo que até a gente acredita. “Como é colorido! Como brilha!”
Nos apaixonamos pela nossa imagem, pela nossa vida documentada com fotos, frases e compartilhamentos nas redes sociais, tudo harmonicamente ligado, ovacionado pelos comentários de “como vocês são lindos”, “como você faz perfeito”, “que vida maravilhosa você tem”.

E quando dizemos pra nós que “agora encontramos a verdade” ferrou de vez. Porque a mentira fantasiada de verdade é das mais difíceis de ser descoberta. Estamos satisfeitos ali. Literalmente cruzamos as pernas no tapetinho e dizemos OM, nos travestimos de paz. É grave.


Conhecimento não é pra tornar ninguém superior a ninguém. Conhecimento não exclui, agrega. Conhecimento é para integrar, lembrar que fazemos parte de algo maior. Talvez a palavra nem seja conhecimento e sim sabedoria, porque não estamos falando de informação, estudo, inteligência, apesar de tudo isso estar embutido. Estamos falando de afinação, sincronia, auto-olhar, busca, algo que não acaba nunca, que está sempre se fazendo, que não é dito, só sentido. Conhecimento é pra lembrar que quanto mais a gente tem, mais ignorante a gente fica. Mais a gente sabe que não sabe.

Montar uma peça bem montada de nós mesmos só faz carregar um peso absurdo, porque morre a espontaneidade, morre a naturalidade e morre a humildade. Morre a abertura para ser ouvinte, para querer saber, pra continuar caminhando. E quando isso morre, o que mais faz sentido?

Deixo com vocês uma carta que tem a cara feia e tem um nome feio, mas serve muito para refletir:

 

EXAUSTÃO
O homem que vive através da consciência mental e torna pesado. Aquele que vive com consciência permanece leve. Por quê? - porque um homem que tem apenas algumas idéias a respeito de como se deve viver, naturalmente se torna pesado. Ele se sente obrigado a carregar consigo seu caráter. Esse caráter é como uma armadura: é a sua proteção, sua segurança. Toda a sua vida está investida nesse caráter. E ele sempre reage às situações através desse caráter, nunca diretamente. Se você lhe faz uma pergunta a resposta é pré-fabricada. Esse é um sinal de uma pessoa “pesada”- ela é enfadonha, estúpida, mecanizada. Ela pode ser um bom computador, mas não é um homem. Você provoca e ela reage de uma maneira bem definida. A reação é previsível, ela é um robô.
O homem verdadeiro age de maneira espontânea. Se você lhe faz uma pergunta, obtém uma resposta e não uma reação. Ele abre o coração para sua pergunta, expõe-se a ela, responde a ela…

Comentário
Eis aqui o retrato de uma pessoa que esgotou toda sua energia vital nos esforços que fez para manter em funcionamento sua enorme e ridícula máquina de imagens pessoas de importância. Ela esteve tão ocupada “mantendo as partes ligadas entre si” e “assegurando-se de que tudo funcionava bem”, que se esqueceu de descansar de verdade. Sem dúvida esse personagem não pode permitir-se qualquer distração. Deixar de lado suas obrigações para dar um passeio na praia poderia significar o desmantelamento de toda a sua estrutura. A mensagem dessa carta não é, entretanto, apenas a respeito de um viciado em trabalho. Ela se refere a todas as maneiras pelas quais criamos rotinas seguras, porém contrárias à natureza, que conseguem manter longe de nós tudo que é caótico e espontâneo. A vida não é um negócio a ser administrado, é um mistério a ser vivido (…)

(Texto da carta: O Tarô Zen, de Osho)

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do jornal Página3 impresso, em 22 de novembro de 2014.

Escrito por Caroline Cezar, 28/11/2014 às 10h16 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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“Sim, ele mudou, mas eu lembro dele assim e assado quando era adolescente. Um pouco da essência, do que tu era quando tinha lá seus 13, 14 anos, sempre fica. Claro que a gente evolui, mas a essência é a mesma”.

Escutei e fiquei pensando.

Que às vezes a gente evolui, e às vezes a gente involui achando que tá evoluindo.
Monta um mosaico tão encaixadinho de si mesmo que até a gente acredita. “Como é colorido! Como brilha!”
Nos apaixonamos pela nossa imagem, pela nossa vida documentada com fotos, frases e compartilhamentos nas redes sociais, tudo harmonicamente ligado, ovacionado pelos comentários de “como vocês são lindos”, “como você faz perfeito”, “que vida maravilhosa você tem”.

E quando dizemos pra nós que “agora encontramos a verdade” ferrou de vez. Porque a mentira fantasiada de verdade é das mais difíceis de ser descoberta. Estamos satisfeitos ali. Literalmente cruzamos as pernas no tapetinho e dizemos OM, nos travestimos de paz. É grave.


Conhecimento não é pra tornar ninguém superior a ninguém. Conhecimento não exclui, agrega. Conhecimento é para integrar, lembrar que fazemos parte de algo maior. Talvez a palavra nem seja conhecimento e sim sabedoria, porque não estamos falando de informação, estudo, inteligência, apesar de tudo isso estar embutido. Estamos falando de afinação, sincronia, auto-olhar, busca, algo que não acaba nunca, que está sempre se fazendo, que não é dito, só sentido. Conhecimento é pra lembrar que quanto mais a gente tem, mais ignorante a gente fica. Mais a gente sabe que não sabe.

Montar uma peça bem montada de nós mesmos só faz carregar um peso absurdo, porque morre a espontaneidade, morre a naturalidade e morre a humildade. Morre a abertura para ser ouvinte, para querer saber, pra continuar caminhando. E quando isso morre, o que mais faz sentido?

Deixo com vocês uma carta que tem a cara feia e tem um nome feio, mas serve muito para refletir:

 

EXAUSTÃO
O homem que vive através da consciência mental e torna pesado. Aquele que vive com consciência permanece leve. Por quê? - porque um homem que tem apenas algumas idéias a respeito de como se deve viver, naturalmente se torna pesado. Ele se sente obrigado a carregar consigo seu caráter. Esse caráter é como uma armadura: é a sua proteção, sua segurança. Toda a sua vida está investida nesse caráter. E ele sempre reage às situações através desse caráter, nunca diretamente. Se você lhe faz uma pergunta a resposta é pré-fabricada. Esse é um sinal de uma pessoa “pesada”- ela é enfadonha, estúpida, mecanizada. Ela pode ser um bom computador, mas não é um homem. Você provoca e ela reage de uma maneira bem definida. A reação é previsível, ela é um robô.
O homem verdadeiro age de maneira espontânea. Se você lhe faz uma pergunta, obtém uma resposta e não uma reação. Ele abre o coração para sua pergunta, expõe-se a ela, responde a ela…

Comentário
Eis aqui o retrato de uma pessoa que esgotou toda sua energia vital nos esforços que fez para manter em funcionamento sua enorme e ridícula máquina de imagens pessoas de importância. Ela esteve tão ocupada “mantendo as partes ligadas entre si” e “assegurando-se de que tudo funcionava bem”, que se esqueceu de descansar de verdade. Sem dúvida esse personagem não pode permitir-se qualquer distração. Deixar de lado suas obrigações para dar um passeio na praia poderia significar o desmantelamento de toda a sua estrutura. A mensagem dessa carta não é, entretanto, apenas a respeito de um viciado em trabalho. Ela se refere a todas as maneiras pelas quais criamos rotinas seguras, porém contrárias à natureza, que conseguem manter longe de nós tudo que é caótico e espontâneo. A vida não é um negócio a ser administrado, é um mistério a ser vivido (…)

(Texto da carta: O Tarô Zen, de Osho)

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do jornal Página3 impresso, em 22 de novembro de 2014.

Escrito por Caroline Cezar, 28/11/2014 às 10h16 | carol.jp3@gmail.com



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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.