Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Amor e espiritualidade, na prática

Estávamos todas numa roda, conversando sobre a palestra que uma delas fez sobre amor e espiritualidade dia desses. Alguém comentou que teve dificuldade de se concentrar, achou agitado, porque havia uma criança lá atrás que não parava de chorar. Aquilo estava irritando muito, ainda mais porque a mãe não saía, não fazia nada e a criança berrava cada vez mais.


O choro manifesta algo que não está bem e sempre, indiscriminadamente, deve ser acolhido. Olhar pro choro, trazer pra perto, e depois, só depois e talvez, tentar entender. Ninguém deve, nunca, engolir o choro, e muito menos, mandar um outro fazê-lo, principalmente se esse outro for alguém que está em formação importante de caráter e valores essenciais. Choro é algo que precisa sair, um manifesto, um desabafo. Chorar é direito universal.

Essa conversa se estendeu com a professora explicando, da forma mais amorosa possível, que escutou também a criança, e que no momento pediu por ela e que deviam todos, irritados que estivessem, fazer o mesmo, porque força coletiva é mais força, seja ela de amparo ou de repulsa. Se ali estávam, mãe nervosa e filho choroso, numa palestra sobre amor e espiritualidade, que lição maior poderia haver sobre o tema do que uma irritação coletiva seguida por um amparo coletivo? O ensinamento verdadeiro nos pega de surpresa e nem sempre conseguimos enxergar a tempo o chamado, a prova real que está ali, bem na frente do nariz enquanto nossos ouvidos se esforçam para ouvir palavras ao vento.


Bem no dia seguinte li um texto que estava popular na internet sobre exatamente o mesmo tema: crianças que choram, sociedade que repele. Ali tinha um ditado africano extremamente belo:


“É PRECISO TODA UMA ALDEIA PARA CRIAR UMA CRIANÇA”.

Oferecer um copo de água, uma cadeira, uma chave como brinquedo (ou um brinquedo como chave), uma distração qualquer, uma mão, um braço. Um olhar de carinho, ao invés de olhar pra trás com a cara feia exigindo atitude, que normalmente se traduz num sacolejo, numa palmada, uma comparação com o fulaninho comportado, ou uma outra repreensão pública e vergonhosa qualquer.


Estamos todos por um mundo melhor, e um mundo melhor é aquele que tem olhar compassivo com crianças, e com os pais das crianças e -importante-, com os que se irritam com as crianças também. Estão tantos tão perdidos, tão afastados de si, é difícil dar conta, não ser engolido, não agir por impulso e no automático. Se você consegue ver, ajude. Se não consegue, peça ajuda.

 


Foto Zé Verzola/ via Simone Fortes

 

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do Página3 impresso de 29 de novembro de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 05/12/2014 às 10h51 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

Assina a coluna Ex pressão

É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.














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Ex pressão
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Amor e espiritualidade, na prática

Estávamos todas numa roda, conversando sobre a palestra que uma delas fez sobre amor e espiritualidade dia desses. Alguém comentou que teve dificuldade de se concentrar, achou agitado, porque havia uma criança lá atrás que não parava de chorar. Aquilo estava irritando muito, ainda mais porque a mãe não saía, não fazia nada e a criança berrava cada vez mais.


O choro manifesta algo que não está bem e sempre, indiscriminadamente, deve ser acolhido. Olhar pro choro, trazer pra perto, e depois, só depois e talvez, tentar entender. Ninguém deve, nunca, engolir o choro, e muito menos, mandar um outro fazê-lo, principalmente se esse outro for alguém que está em formação importante de caráter e valores essenciais. Choro é algo que precisa sair, um manifesto, um desabafo. Chorar é direito universal.

Essa conversa se estendeu com a professora explicando, da forma mais amorosa possível, que escutou também a criança, e que no momento pediu por ela e que deviam todos, irritados que estivessem, fazer o mesmo, porque força coletiva é mais força, seja ela de amparo ou de repulsa. Se ali estávam, mãe nervosa e filho choroso, numa palestra sobre amor e espiritualidade, que lição maior poderia haver sobre o tema do que uma irritação coletiva seguida por um amparo coletivo? O ensinamento verdadeiro nos pega de surpresa e nem sempre conseguimos enxergar a tempo o chamado, a prova real que está ali, bem na frente do nariz enquanto nossos ouvidos se esforçam para ouvir palavras ao vento.


Bem no dia seguinte li um texto que estava popular na internet sobre exatamente o mesmo tema: crianças que choram, sociedade que repele. Ali tinha um ditado africano extremamente belo:


“É PRECISO TODA UMA ALDEIA PARA CRIAR UMA CRIANÇA”.

Oferecer um copo de água, uma cadeira, uma chave como brinquedo (ou um brinquedo como chave), uma distração qualquer, uma mão, um braço. Um olhar de carinho, ao invés de olhar pra trás com a cara feia exigindo atitude, que normalmente se traduz num sacolejo, numa palmada, uma comparação com o fulaninho comportado, ou uma outra repreensão pública e vergonhosa qualquer.


Estamos todos por um mundo melhor, e um mundo melhor é aquele que tem olhar compassivo com crianças, e com os pais das crianças e -importante-, com os que se irritam com as crianças também. Estão tantos tão perdidos, tão afastados de si, é difícil dar conta, não ser engolido, não agir por impulso e no automático. Se você consegue ver, ajude. Se não consegue, peça ajuda.

 


Foto Zé Verzola/ via Simone Fortes

 

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão do Página3 impresso de 29 de novembro de 2014

Escrito por Caroline Cezar, 05/12/2014 às 10h51 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

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É curiosa e encantada com manifestações da natureza, incluindo a humana. Tem resistência a currículos e títulos. Tenta exercitar a entrega cotidiana. Discorda da própria opinião. É apaixonada. Não sabe, nem quer, separar nada de coisa alguma.