Jornal Página 3
Coluna
Frente & Verso
Por Daniele Sisnandes

Vá a um festival sozinho

Fotos: Daniele Sisnandes

Viajar 100% sozinha era uma dessas metas que eu ainda não tinha cumprido desde 2016, quando decidi recomeçar a vida. Aí no início de 2018 surgiu bem do nada a oportunidade de ir para Psicodália, um grande festival que acontece no Carnaval, em Rio Negrinho.

Quando recebi minha confirmação foi meio em cima do laço. Eu ia tocar em outro lugar naquele mesmo final de semana e até pensei até em não ir ao festival, porque também não teria ninguém pra ir junto comigo nessa aventura inesperada.

Acontece bastante né, às vezes sem companhia para um determinado evento, a gente acaba deixando de ir. Mas acho que era pra ter sido assim mesmo e foi incrível! Coisas do acaso que marcam a vida da gente pra sempre.

Então foi assim, eu arrumei uma mochila com roupas e outra com mantimentos. Toquei na festa que tinha marcado e no dia seguinte carreguei meu corajoso Picanto vermelho - o Jingo - e subi a serra.

Não fiz propaganda, nem fiquei postando meus passos enquanto estava lá. Desconectei para conectar!

Por isso reforço que ir a um festival como esse é uma das melhores pedidas pra quem também quer um rolê sozinho, pra pensar, sentir, descobrir, principalmente para a mulherada! Digo isso porque é pé na lama e intensidade, mas é muito respeito.

Um festival é um mundo à parte sim. É um extrato dos nossos sonhos utópicos de sociedade ideal. É 'bom dia' nos caminhos, é entrega nos shows é tudo o que se quiser, desde que não perturbe o outro.

Eu já tinha ido a festivais naquele mesmo lugar e sabia o poder energético daquela colina, então eu estava otimista, mas nem perto imaginava o que me esperava.

Quando cheguei na fazenda caía uma garoa fina. O festival já rolava há uns três dias e nem tinha fila para entrar. O estacionamento estava virado em lama e uma patrola ajudava quem queria desatolar, normal!

Antes de tirar as coisas do carro, dei uma volta e fiz o reconhecimento pra ver o que rolava e onde ia parar.

Carreguei meu cartão com Dálias (que é o dinheiro do lugar) e comprei uma cerveja. Achei um lugar irado bem perto dos dois palcos principais e ali montei acampamento. Foi a última trip da minha barraquinha parceira, essa já merecia um descanso.

Eu que não sou trouxa e já passei perrengue a beça, calcei as galochas de borracha, garrei na cadeira e fui pra pista.

Logo quando eu cheguei vivenciei um dos shows mais viscerais. Uma banda de minas chamada Mulamba (que eu absurdamente não conhecia) e logo virei fã. Mulherada responsa tocando lindamente e o povo enlouquecido.

Assim como as minas do palco, as minas do público também arrancaram as blusas e fizeram coro quando começaram a tocar a canção “Mulamba”, um hino de empoderamento feminino. O show todo é um protesto, um ato de coragem, uma experiência inesquecível. Pra nossa sorte elas voltam no próximo Psicodália e tocam em Balneário Camboriú em outubro!!!!

O show da banda Francisco El Hombre também foi incrível, foi essa banda que me arrastou até o Psicodália na verdade e valeu cada minuto.

O Psicodália tem uma particularidade interessante de respeito aos músicos, então em cada horário, um dos palcos funciona. Para que as pessoas possam circular e prestigiar, acredito eu.

Foi assim que eu conheci um monte de artistas sensacionais, como André Prando, Ema Stoned e Daniel Groove e seu brega que vai direto do coração. Esse foi um show tão intenso que quando vi estava super emocionada e olha que eu nunca tinha ouvido o som do cara antes. Acontece quando a gente está receptivo e permite ser tocado pela arte.

Com um festival desse e ainda com um público considerável - são milhares de pessoas - tem banda do país inteiro querendo tocar e a curadoria faz questão de garantir a diversidade. 

Tem muita qualidade musical, nada muito convencional não. Pra quem curte descobrir sons é muito legal.

Mas não são só os shows nos palcos que fazem um festival. Na verdade tem muita arte linda nas entrelinhas, nos caminhos, nos intervalos. Cinema, palhaçaria, interação, muita interação de pessoas de todas as idades, inclusive da criançada.

As oficinas também são complementos muito importantes, pela vivência, pelas trocas. Muita energia acontece seja num jogo, aprendendo a fazer tie dye ou encontrando o ritmo.

Geralmente os festivais oferecem bem mais do que bar, tem praça de alimentação, mercadinho, você não fica sem coisas básicas, então a minha dica é leve o que for essencial. Eu sempre volto pra casa com muita comida, principalmente essas coisas prontas porque chego e acabo comendo lá mesmo. Desapega e aproveita os sabores que o lugar te oferece.

Providencialmente a área onde tinha alguns interruptores para o pessoal carregar os celulares, era um centro de convivência e lá se conhecia muita gente. Tinha uma pizza maravilhosa 24 horas por dia e sempre tinha alguém fazendo jam session.

Ali nas madrugadas, quando os palcos silenciavam, rolava o Bailinho de Vinil, um trio que virava os discos e fazia o povo não querer dormir. Era insano!

O Palco do Lago era um lugar bem mítico, coisa linda a energia que rolava por lá. Mesmo com lama, sob chuva, não tinha tempo ruim não.

Por isso a gente tem que ir preparado, levar bastante meia, uma capa boa e sapatos resistentes à água (se a previsão for de chuva), mas principalmente amor e bom humor. Se for para reclamar é melhor ficar no aconchego do lar, mas se quiser ir pra conhecer os mundos, se apaixonar, ouvir boa música e viver sem filtro, vá a um festival sozinho!

Se tiver companhia será uma experiência maravilhosa também, mas se não tiver, vai só com a coragem mesmo.

Para os que gostam de música eletrônica a mesma Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho, recebe o Adhana, na virada deste ano, que está preparando uma estrutura de tirar o chapéu. E pra quem curte rock autoral independente, o Psicodália será no começo de março de 2019.

Mas há também outros lugares por aí recebendo eventos assim, vale a pesquisa. Saia do modo robô por um tempinho, não tem desculpa, só tem bônus. E aí, bora?!

Escrito por Daniele Sisnandes, 11/09/2018 às 17h33 | danikahc@gmail.com



Daniele Sisnandes

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Ama a música, as letras e gargalhadas. Sonhadora com os pés no chão. Jornalista. Quer ir além da pirâmide invertida, mas que seja frente e verso.














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Viajar 100% sozinha era uma dessas metas que eu ainda não tinha cumprido desde 2016, quando decidi recomeçar a vida. Aí no início de 2018 surgiu bem do nada a oportunidade de ir para Psicodália, um grande festival que acontece no Carnaval, em Rio Negrinho.

Quando recebi minha confirmação foi meio em cima do laço. Eu ia tocar em outro lugar naquele mesmo final de semana e até pensei até em não ir ao festival, porque também não teria ninguém pra ir junto comigo nessa aventura inesperada.

Acontece bastante né, às vezes sem companhia para um determinado evento, a gente acaba deixando de ir. Mas acho que era pra ter sido assim mesmo e foi incrível! Coisas do acaso que marcam a vida da gente pra sempre.

Então foi assim, eu arrumei uma mochila com roupas e outra com mantimentos. Toquei na festa que tinha marcado e no dia seguinte carreguei meu corajoso Picanto vermelho - o Jingo - e subi a serra.

Não fiz propaganda, nem fiquei postando meus passos enquanto estava lá. Desconectei para conectar!

Por isso reforço que ir a um festival como esse é uma das melhores pedidas pra quem também quer um rolê sozinho, pra pensar, sentir, descobrir, principalmente para a mulherada! Digo isso porque é pé na lama e intensidade, mas é muito respeito.

Um festival é um mundo à parte sim. É um extrato dos nossos sonhos utópicos de sociedade ideal. É 'bom dia' nos caminhos, é entrega nos shows é tudo o que se quiser, desde que não perturbe o outro.

Eu já tinha ido a festivais naquele mesmo lugar e sabia o poder energético daquela colina, então eu estava otimista, mas nem perto imaginava o que me esperava.

Quando cheguei na fazenda caía uma garoa fina. O festival já rolava há uns três dias e nem tinha fila para entrar. O estacionamento estava virado em lama e uma patrola ajudava quem queria desatolar, normal!

Antes de tirar as coisas do carro, dei uma volta e fiz o reconhecimento pra ver o que rolava e onde ia parar.

Carreguei meu cartão com Dálias (que é o dinheiro do lugar) e comprei uma cerveja. Achei um lugar irado bem perto dos dois palcos principais e ali montei acampamento. Foi a última trip da minha barraquinha parceira, essa já merecia um descanso.

Eu que não sou trouxa e já passei perrengue a beça, calcei as galochas de borracha, garrei na cadeira e fui pra pista.

Logo quando eu cheguei vivenciei um dos shows mais viscerais. Uma banda de minas chamada Mulamba (que eu absurdamente não conhecia) e logo virei fã. Mulherada responsa tocando lindamente e o povo enlouquecido.

Assim como as minas do palco, as minas do público também arrancaram as blusas e fizeram coro quando começaram a tocar a canção “Mulamba”, um hino de empoderamento feminino. O show todo é um protesto, um ato de coragem, uma experiência inesquecível. Pra nossa sorte elas voltam no próximo Psicodália e tocam em Balneário Camboriú em outubro!!!!

O show da banda Francisco El Hombre também foi incrível, foi essa banda que me arrastou até o Psicodália na verdade e valeu cada minuto.

O Psicodália tem uma particularidade interessante de respeito aos músicos, então em cada horário, um dos palcos funciona. Para que as pessoas possam circular e prestigiar, acredito eu.

Foi assim que eu conheci um monte de artistas sensacionais, como André Prando, Ema Stoned e Daniel Groove e seu brega que vai direto do coração. Esse foi um show tão intenso que quando vi estava super emocionada e olha que eu nunca tinha ouvido o som do cara antes. Acontece quando a gente está receptivo e permite ser tocado pela arte.

Com um festival desse e ainda com um público considerável - são milhares de pessoas - tem banda do país inteiro querendo tocar e a curadoria faz questão de garantir a diversidade. 

Tem muita qualidade musical, nada muito convencional não. Pra quem curte descobrir sons é muito legal.

Mas não são só os shows nos palcos que fazem um festival. Na verdade tem muita arte linda nas entrelinhas, nos caminhos, nos intervalos. Cinema, palhaçaria, interação, muita interação de pessoas de todas as idades, inclusive da criançada.

As oficinas também são complementos muito importantes, pela vivência, pelas trocas. Muita energia acontece seja num jogo, aprendendo a fazer tie dye ou encontrando o ritmo.

Geralmente os festivais oferecem bem mais do que bar, tem praça de alimentação, mercadinho, você não fica sem coisas básicas, então a minha dica é leve o que for essencial. Eu sempre volto pra casa com muita comida, principalmente essas coisas prontas porque chego e acabo comendo lá mesmo. Desapega e aproveita os sabores que o lugar te oferece.

Providencialmente a área onde tinha alguns interruptores para o pessoal carregar os celulares, era um centro de convivência e lá se conhecia muita gente. Tinha uma pizza maravilhosa 24 horas por dia e sempre tinha alguém fazendo jam session.

Ali nas madrugadas, quando os palcos silenciavam, rolava o Bailinho de Vinil, um trio que virava os discos e fazia o povo não querer dormir. Era insano!

O Palco do Lago era um lugar bem mítico, coisa linda a energia que rolava por lá. Mesmo com lama, sob chuva, não tinha tempo ruim não.

Por isso a gente tem que ir preparado, levar bastante meia, uma capa boa e sapatos resistentes à água (se a previsão for de chuva), mas principalmente amor e bom humor. Se for para reclamar é melhor ficar no aconchego do lar, mas se quiser ir pra conhecer os mundos, se apaixonar, ouvir boa música e viver sem filtro, vá a um festival sozinho!

Se tiver companhia será uma experiência maravilhosa também, mas se não tiver, vai só com a coragem mesmo.

Para os que gostam de música eletrônica a mesma Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho, recebe o Adhana, na virada deste ano, que está preparando uma estrutura de tirar o chapéu. E pra quem curte rock autoral independente, o Psicodália será no começo de março de 2019.

Mas há também outros lugares por aí recebendo eventos assim, vale a pesquisa. Saia do modo robô por um tempinho, não tem desculpa, só tem bônus. E aí, bora?!

Escrito por Daniele Sisnandes, 11/09/2018 às 17h33 | danikahc@gmail.com



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