Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

O Encontro

O Garden City, considerado pelos ufanistas como a “terra prometida”, apresenta problemas históricos desde sua criação, em especial na divisa leste. No lado oeste, o Garden é margeado pela Avenida Juca Batista, onde fica a entrada principal; no lado norte, faz divisa com o Condomínio Green Carpet; no lado sul fica o Aberta dos Morros e, no lado leste faz divisa com um Conjunto Habitacional Popular, mais conhecido como Coreia...

Os habitantes da Coreia veem os do Garden City como gente rica e esnobe, muito embora não haja motivo real para tal animosidade, já que muitos empregados do Condomínio moram na Coreia. Essa animosidade é mais evidente na divisa leste, onde as casas do último acesso fazem fronteira com alguns blocos daquele imenso Conjunto Habitacional. Nessas casas já foram constatadas invasões para furtos e até roubos com ameaças de morte. Muitas vezes a polícia foi acionada pela administração do Garden, mas passados alguns dias as coisas voltam a acontecer.

Na última Assembleia Geral no Garden City, ficou decidido que deveria se tentar mais um encontro entre os síndicos. Seria um encontro histórico, caso o síndico da Coreia aceitasse, porque até então, as tentativas foram infrutíferas.

No sentido de facilitar tal encontro, os empregados do Garden, que moram na Coreia, foram conversados para entrar em contato com o síndico de lá, Sr. Marcos Silva, mais conhecido como Marcão, para que ele aceitasse a proposta de uma conversa direta.

Dizem os empregados que ele é pessoa muito difícil e “barra pesada”, mas que tentariam assim mesmo.

Passados alguns dias, o síndico do Garden City, na ocasião o Seu Floriano, recebeu um telefonema, era do Marcão, dizendo que toparia o encontro, com as seguintes condições, que se realizasse em lugar neutro e que fosse outra pessoa para representar o Garden City, não o atual síndico, pois alardeava não ir com a cara dele.

O primeiro lugar sugerido foi o salão da Igreja da Serraria, que prontamente não foi aceito, pois o Marcão é umbandista. Depois foi sugerido o Clube do Professor Gaúcho, mas de novo não foi aceito, por ser muito elitizado. Por fim, ficou decidido que o encontro se realizaria na Casa de Oxum da Vila Nova. Mesmo contrariado o Seu Floriano aceitou.

O Seu Gumercindo, por solicitação do Seu Floriano, aceitou representar o Condomínio nesse tão esperado Encontro. A justificativa do Síndico se baseou na experiência e capacidade de negociação do ex-Síndico, bem como no reconhecimento de sua capacidade de negociação. O Seu Floriano já havia tentado conversar com o Síndico da Coreia, mas só recebera  provocações hostis, como até ameaças de briga.

No dia e hora aprazados, compareceram no Centro de Umbanda da Vila Nova, o Marcão e dois “leões de chácara” e, pelo lado do Garden City, o Seu Gumercindo e dois assessores. Avisado de que o Marcão falava em gíria, Seu Gumercindo levou o Clóvis, seu genro, que era letrado na linguagem.  O primeiro a falar foi o Marcão:

- Oh! Meu chapa! Vês se voceeê não vem com conversa fiada pra cima de moá, tá?

- Deixei de jogar minha carpetinha pra bater um papo contigo, tá gente fina?

- Na Coreia nóis não temo frescura, é toma lá dá cá... 

- E, aí mano, qual é o papo?

- Mas, bah tchê! Já tinham me dito que você é uma pessoa especial, direta, sem frescuras, que tem tido muito sucesso na administração da Coreia.

- Quem disse isso?

- Olha Marcão, nós temos muitos moradores da Coreia que trabalham no Garden City, consequentemente temos ouvido falar da sua qualidade como administrador e líder, tendo inclusive resolvido vários conflitos entre vizinhos.

Nesta altura, o Marcão já estava todo envaidecido, e aberto a aceitar qualquer solicitação do Seu Gumercindo. Nada como um bom negociador. 

- A questão, meu caro e ilustre Síndico, é que está havendo constantes invasões do pessoal que mora junto à divisa do Garden City, por moradores da Coreia. Precisamos, como gente civilizada, encontrar uma maneira de evitar esses acontecimentos. O que tu podes, como líder, fazer a respeito?

- Pois é mano, ou melhor, Seu Gumercindo, fiquei sabendo que os nossos moradores, principalmente os dos blocos que ficam perto do Condomínio de vocês, estão produzindo pequenos furtos e jogando pedras nas casas, coisa de molecada.

- Olha Marcão, é tanta pedra jogada, que alguns moradores, lá do Garden City, estão pavimentando os pátios de graça...

- Mesmo assim, fico feliz que tu estejas por dentro da situação.

- E tens alguma solução para que possamos levar para casa uma boa notícia?

- Olha! Seu Gumercindo, as diferenças das condições sociais dos nossos moradores é bastante complexa, mas podemos tentar, já que minha autoridade, vem sendo respeitada desde minha eleição para Síndico. Peço, por outro lado, que o Senhor, também, converse com os moradores junto a divisa, para que não impliquem com a piazada, antes venham falar comigo, tá?

- Fique, tranquilo, Seu Marcos, que levaremos para nossos vizinhos o gesto amistoso do nosso Encontro e, em especial, a sua disposição em resolver o problema.

- Antes de encerrarmos podemos marcar um futebolzinho entre nóis e vocês, o que acha?

- Vou levar sua proposta para a Administração do Garden City.

Apertos de mãos e abraços selaram a boa vontade das partes, fazendo com que a melhor estratégia para a resolução de um conflito, seja sempre o diálogo.

Assim terminou o tão sonhado ENCONTRO entre a Coreia e o Garden City. 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 29/06/2018 às 10h21 | sannickelle@gmail.com

Um trem chamado eleição

I - O EMBARQUE

A cada quatro anos, no Brasil, um trem interestadual inicia sua viagem de sul a norte do país.

O trem chegou à primeira estação, ligeiramente atrasado, mas na gare milhares de pessoas, à esquerda, esperavam em grande alvoroço com suas bandeiras e camisetas coloridas, gritando palavras de ordem. À direita, pessoas bem mais comportadas, com suas melhores roupas, trocavam, entre abraços e cochichos, promessas de parceria e repúdio. No centro da estação não havia ninguém, todos já estavam, previamente, embarcados, desde 1889. Seus vagões, reservados de pai para filho, eram os mais luxuosos.

Antes de receberem autorização para embarque, os da esquerda já disputavam espaço, à base do empurrão e xingamentos; no lado oposto havia muitas trocas de falsas gentilezas, mas mesmo assim, encontrões foram vistos, na hora de passarem pelas portas e alguns casacos e gravatas até foram rasgados.

O maquinista impaciente para tentar dar início à viagem, deu diversos apitos de partida, mas nos vagões da esquerda poucos tinham conseguido embarcar, tamanha confusão! Foi necessário chamar a Polícia Federal para repreender os tumultuadores. Só assim, depois de duas horas de atraso, foi possível dar a partida. Embora iniciada a viagem, a composição, com centenas de vagões, levava candidatos, querendo alcançar o GRANDE PRÊMIO: ficar rico na carreira política ou, pelo menos, ter uma velhice confortável.

II - A VIAGEM

Em cada estado da federação, entram mais e mais candidatos, embarcando ora pela direita, ora pela esquerda, num frenesi de empurra-empurra. Só os do centro parecem confortáveis, pois alegam ter comprado cadeiras cativas. Nas extremidades, no entanto, a maioria viaja em pé, muitos até acabam caindo antes de chegar ao dia do sorteio, alegando que foram empurrados para fora do trem, mesmo tendo pagado para viajar.

Essa viagem leva vários meses. Durante o percurso, aos do centro são servidos lautos jantares e boas bebidas, tornando a viagem muito aprazível. Aos demais, no entanto, um pequeno lanche, que é disputado como se fossem cães famintos. Precisamente nessa hora, que acontecem as maiores quedas. Mas, apesar disso tudo, o trem percorre Estado por Estado, sendo ovacionados em alguns menos desenvolvidos e achincalhados nos mais politizados.

O maquinista, bem orientado, leva, de um lado de sua cabine uma grande bandeira do Brasil e, de outro, a bandeira do Estado que estiver percorrendo.

Chegando à capital do Estado do Paraná, levas de sem teto, sem terra, sem roupa, e até sem vergonhas, esperavam com bandeiras vermelhas para prestigiar os passageiros da esquerda. Os do centro nem desceram, alguns da direita ousaram descer e quase foram linchados.

 

Depois dessa parada indigesta para os viajantes dos vagões do centro e direita, a viagem prosseguiu. A chegada em São Paulo foi muito discreta, nenhuma aglomeração, muitos policiais na estação, o que permitiu que os viajantes do centro abrissem suas janelas e até descessem. Em solo, os mais abastados procuraram joalherias para fazer alianças. Os da direita para bajular fardados. Os da esquerda, no entanto, aproveitaram para invadir os vagões do centro. Lá encontraram restos de comida, totalmente desperdiçados pelos seus ocupantes. Durante um bom tempo fartaram-se sem pressa e remorso. Beberam o que nunca imaginaram beber, brindando pelo fim do capitalismo selvagem.

Dia seguinte, partiram para o Rio de Janeiro. Quando estavam chegando, alguém gritou:

- Pessoal, estão soltando fogos para nos recepcionar...

- Cala a boca e deita no chão, seu idiota!

- São balas de traficantes e até da polícia pacificadora...só o exército não está atirando.

- Por quê?

- Acho que é por falta de munição ou por não saber quem é bandido...

A passagem pelo Rio foi rapidíssima, mesmo assim alguns vagões sumiram.

A viagem prosseguiu, passando por Minas Gerais. Os do centro e os da direita sentiram-se em casa. Muitos desceram para tomar chá com torrada nos velhos casarões. Os da esquerda se limitaram a visitar o túmulo de Tiradentes.

No Nordeste e no Norte, a viagem foi até rápida, com apenas acenos das janelas.

III - A CHEGADA

A chegada a Brasília foi um sucesso. Visitas programadas ao Congresso Nacional, ao Palácio da Alvorada, ao Supremo Tribunal Federal e ao Itamarati. Todos os candidatos, em especial os que pela primeira vez visitavam a capital federal,  estavam encantados, nunca tinham visto tanto luxo e riqueza... Nem os países mais ricos do planeta tem tanto luxo em seus palácios. Só o Vaticano pode ser comparado ao que se vê em Brasília.   

Os políticos licenciados, foram visitar seus gabinetes no Senado e na Câmara. Lá encontraram aquela multidão de assessores que, deitavam e rolavam sem fazer nada. Alguns políticos até se surpreenderam, pois nunca tinham visto tantos “aspones” juntos. Os mais chegados, por parentesco, logo perguntavam:

- Querido tio e grande chefe, como foi a viagem?

- Muito cansativa. É muita pobreza, muitos pedintes por emprego, por saúde e educação...E o pior, ter que apertar aquelas mãos sujas e suadas. Em cidades mixurucas nós nem fazíamos questão de descer.

- Mas e os votos?

- Para isso nem precisaríamos ir, pois estão, ou comprados ou comprometidos com a possibilidade de substituir alguns de vocês...

- Credo tio, isso só pode ser brincadeirinha, né?        

- Claro! É só uma promessa vazia pelo voto.

- Por que, tio, a comitiva nem parou no Norte e Nordeste?

- Oh! Santa ingenuidade! Lá só vence eleição quem é rico e de família tradicional, como eu e você. Os do Centro e do Sul, no entanto, que inventaram  a democracia, é que precisam fazer campanha.

Bem, caros afilhados, cadê aquele uisquinho?

Preciso relaxar até a reeleição.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 29/05/2018 às 14h17 | sannickelle@gmail.com

Haja saco!

Depois que a Administração do Garden City fez uma reunião com a Brigada Militar sobre segurança, muitos moradores que usavam o celular para fofocas e informações descabidas, fizeram “cara feia”. A rede agora era exclusivamente de SEGURANÇA, pois tudo que digitássemos seria recebido pela Central da B.M.

Por decisão de maioria, então, ficariam duas redes, a de segurança, instituída em toda a cidade como Rede de Vizinhos Solidários e a de amigos do Garden City.

Hoje virou moda, utilizar-se o celular para dividir preocupações e responsabilidades em comunidades abertas e fechadas, como no caso dos condomínios. Num primeiro momento o uso das comunicações se deu de forma econômica e responsável, mas nós humanos, não sei se por falta de educação ou mesmo ignorância, nos encantamos com esse aparelhinho chamado celular e, em especial, com a facilidade econômica de usar o whatsapp, daí vem o impulso de dedilhar qualquer coisa que lhe venha na telha.

Outro dia, a dona Júlia, moradora da casa 72 começou a enviar mensagens, na rede de segurança, sobre um cachorro que latia sem parar. Aí, já apareceram vários vizinhos oportunistas, perguntando de qual casa era o cachorro, outro dizendo que também ouvira e que estava muito incomodado, outros dizendo que nada ouviram, que acabou numa chamada da Central da Brigada Militar, explicando pela centésima vez que parassem com mensagens que não diziam respeito à segurança. Parecia coisa de criança fazendo arte e recebendo punição dos pais.

Mas, o pior foi aparecer, depois da advertência da B.M. vizinhos criticando a dona Júlia e os que continuaram com o assunto dela, outros aplaudindo e alguns enviando carinhas de choro. De novo a B.M. pediu para que parassem, senão o Garden City seria retirado, compulsoriamente, da Rede de Vizinhos Solidários. Foi um verdadeiro “banho de água fria” nos impulsivos.

Atualmente a Rede de Vizinhos Solidários é pouco usada, pois de um modo geral, as informações provem da própria Brigada Militar, quando faz alertas sobre furtos de bicicleta na comunidade ou sobre gatunos que agem no nosso Bairro. No entanto, na rede Amigos do Garden City, é uma verdadeira revista de fofocas. Nós aqui em casa já saímos fora, ficando apenas com a de segurança.

O celular foi um grande avanço na comunicação entre as pessoas, mas o que ainda parece questionável, é a interferência das operadoras, em especial colocando mensagens sobre a oferta de serviços, algumas com duas opções:

OK  ou cancelar, mas só funciona a primeira opção, pois se você clicar em cancelar a mensagem volta a todo momento e, aí, só ligando para a operadora...haja saco!

Nas nossas mateadas, que ocorre sempre aos domingos, das 8h às 11h, ficou acertado que desligaríamos o celular e, caso alguém queira chamar um dos membros, basta ligar para a casa do seu Gumercindo, que fica junto da Praça Central, que será avisado.

O único que foi contra foi o Clóvis, genro do seu Gumercindo, que por ser o mais jovem do grupo, está muito apegado àquele aparelhinho mágico. Mas, como foi voto vencido, também cumpre a regra.

 

Na última mateada, comentávamos sobre as eleições e na desesperança que nos assola, como a antever a reeleição dos carreiristas contumazes. O seu Gumercindo foi o primeiro a falar:

- Desculpe pessoal, se continuo pessimista, mas como mudar alguma coisa nesse nosso país, com os oportunistas de sempre?

- Eu concordo, plenamente Gumercindo, os partidos colocam alguns nomes novos apenas como “bois de piranha”, mas os raposões são sempre os mesmos;

- Infelizmente, é isso aí Luiz Paulo, como pode haver honestidade num candidato que gaste 5 vezes mais para se eleger do que vai ganhar ao longo de seu mandato?

- Onde que ele vai buscar compensação?

- Certamente, nos acordos escusos com as grandes empreiteiras...

- É, por aí, Clóvis!

- Outro procedimento, que eu não consigo aceitar de maneira alguma, é o candidato que acabou de se eleger,  e se licencia para concorrer a outro mandato. E, o que é pior, talvez se eleja, mesmo que tenha descumprido um compromisso com os eleitores que o elegeram para aquele mandato anterior.

- É um verdadeiro absurdo, seu Gumercindo. Só eleitores cegos não veem isso. Não é possível que alguém que abandone o compromisso e ainda se eleja para outro cargo...

- Que cegueira é essa minha gente!

- Muito bem colocado, SAN. Concordo contigo;

- Mas, mudando de assunto, que vilania daqueles exploradores de pessoas humildes, que só apareceram depois do incêndio em São Paulo. Pessoas vivendo em prédios abandonados, como ratos, mas tendo de pagar aluguel para um bando de safados.

- Opa! Explica aí Luiz Paulo o que significa o termo vilania...

- Tá bem, Clóvis, significa: “atributo ou caráter do que é vil ou vilão...”

- Obrigado!

- De que incêndio tu estás falando?

- Do Edifício Wilton Paes de Almeida, de 26 andares, localizado no Largo do Paiçandu, projetado pelo arq. Roger Zmekhol, que pertencia ao governo federal e que fora abandonado;

- Puxa vida, Luiz Paulo! Como tu estás bem informado.

- Obrigado, Clóvis.

- Pensando bem pessoal, como pode o governo federal ter abandonado um

edifício de 26 andares?

- Próprio de governos desonestos, que iniciam obras e não as concluem, e quando as fazem gastam três vezes mais para sustentar as maracutaias...

- E, aí vêm as eleições para dar continuidade aos mesmos políticos.

- Haja saco! 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 09/05/2018 às 08h19 | sannickelle@gmail.com

A vida que queremos

Como não tinha plantão no Hospital das clínicas, cheguei em casa no final da tarde. Abracei minha esposa, dei um beijo e disse-lhe:

- Hoje meu dia foi excelente, querida. Os pacientes que estou tratando estão bem melhores, um até teve alta hoje.

Precisamos comemorar, disse ela, então.

- O dia está quente, próprio para uma caminhada pelo nosso arborizado Garden City.

- Amor! Vou trocar de roupa para nossa caminhada, vais querer ir?

- Hoje não, meu bem. Vou te esperar com uma comidinha leve e um bom vinho para brindarmos.

- Que bom, querida.

E, assim saí para uma caminhada, pensando é claro na recompensa de um jantar a dois.

Estava caminhando e usufruindo dos perfumes das flores, quando um vizinho, que também caminhava, chegou ao meu lado. Cumprimentei-o:

- Boa noite, vizinho!

- Boa noite nada, como podes desejar “boa noite” com a desgraceira que é o nosso país e nosso mundo.

- Mas, usufruir da natureza que o Garden City nos proporciona, não lhe deixa feliz?

- Eu nem noto essas coisas, levanto ouvindo o rádio e é só desgraça, assaltos, corrupção, acidentes. Por acaso você não ouve rádio ou assisti televisão?

- Sim! Leio meus jornais diários e procuro no rádio ouvir música e na TV alguns programas de alto astral.

- Isto significa que você está alienado da realidade do Brasil e do mundo. E ainda lê jornais, Meu Deus!

- Vizinho, o jornal é um meio bem mais democrático do que os informativos televisivos.

- Como assim?

- Ora, no jornal eu seleciono o quero ler, na televisão eles te empurram notícias goela abaixo e você não tem opção de escolha. Sou profissional da área médica e lido com o  sofrimento dos pacientes e seus familiares, por isso preciso estar tranquilo para ajudá-los. E você o que faz vizinho?

- Sou Corretor de Imóveis. Vivo correndo atrás de pessoas indecisas, sovinas e muitas de mau caráter, que só querem levar vantagens, até com nossa mirrada comissão.

- Bom, cada um com suas peculiaridades profissionais. Mas, voltando ao início da nossa conversa, em que medida estar ligado nas notícias lhe ajuda no seu trabalho?

- Não só ajuda, mas é uma questão de estar sempre bem informado, pois até para puxar conversa preciso saber o que ocorre no nosso mundo.

- Tudo bem, mas só ficar sabendo de assaltos, de acidentes, corrupção, de mortes violentas, ajuda em quê?

- Ué! Ficar informado, ora!

- Tá, mas você, talvez bem mais informado que eu, tens feito alguma coisa para melhorar a situação?

- Claro, não é! Melhora o meu relacionamento com as demais pessoas, pois do contrário nem teríamos assuntos para conversar.

- Ah, então, serve para aqueles comentários entre as pessoas, que acabam somando informações negativas, mas sem qualquer resultado prático ou de melhora...É esse o único mérito?

- Sim, em parte, porque nos ajuda a ficar mais cautelosos com a segurança, com certos locais, com algumas cidades, que por ventura escolhemos para viajar.

- Nisso eu concordo com você, mas daí estar, permanentemente, informado das desgraças pode comprometer a nossa saúde mental, afinal a vida continua, com todas as suas nuances, onde, apesar disso, temos a obrigação de bem cumprir nosso papel profissional, familiar e de convívio.

- Você não concorda comigo?

- Sabe! Eu nem prestei atenção ao que tu disseste.

- Por quê?

- É que estou preocupado com a hora...

- Mas, você recém começou a caminhar...

- Que horas são?

- São 20 h e trinta.

- Bah, cara! Preciso voltar urgente para casa, não posso perder o Jornal Nacional.

 

E, lá se foi meu vizinho bem informado.

Acabei minha caminhada, ainda apreciando o início da noite naquele paraíso que escolhemos para morar.

Suado, mas muito satisfeito fui tomar um banho e me vestir para um encontro romântico.

Já banhado, bem penteado e um toque de colônia “eau de toilette Calvin Klein” fui ao encontro da minha amada. Ela, linda como sempre, me esperava com a mesa posta e duas taças de vinho tinto já servidas. Beijei-a e senti aquele perfume, “Fleur de Rocaille” que lhe dera de presente no dia dos namorados.

Levantamos nossas taças e brindamos:

- À vida!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 18/04/2018 às 09h38 | sannickelle@gmail.com

BEAU GEST II

Tenho muito orgulho dos meus dois filhos. A Sabrina é Corretora de imóveis em Balneário Camboriú, o Michel que mora em Bombinhas e trabalha na Optolamp,  com sede em Porto Belo. Mas afinal, por que estou a falar de meus filhos? Por várias razões, mas uma em especial ocorrida dia 02 de abril de 2018, que eu vou passar a descrever, exatamente como o Michel me passou pelo WhatSapp:

“...Preciso compartilhar com vocês algo que aconteceu comigo. Após o trabalho. Fui buscar o Vicente na escola (meu neto que vai fazer 2 anos), às 18h. Íamos direto para casa, só os dois, pois a Aline (minha nora) tinha um curso em Balneário Camboriú.

No caminho de casa, na Avenida Hironildo Conceição, em Porto Belo, neste horário muito  movimentada, nos deparamos com um cachorro andando em ziguezague por entre os carros, liguei o pisca alerta e diminuí a velocidade. Obviamente os carros e motos buzinavam atrás do nosso carro. Permaneci assim até que o cachorro saísse da rua. Ele, então, foi para o acostamento, andando rápido e com nítida aparência de estar perdido. Andamos mais um pouco e de repente o trânsito parou. Era novamente ele entre os carros. Olhei para o Vicente e falei:

- Filho, vamos pegar esse cachorrinho, senão ele vai ser atropelado.

Dei a volta com o carro, estacionei na calçada e o chamei. Ele veio rebolando e pulou para dentro do carro. O Vicente se assustou e começou a chorar, mas logo parou.

Descobri que era uma cadelinha, toda preta e peluda, parecendo uma Cocker Spaniel mestiça. Aí começou a aventura...O que eu ia fazer agora?

Nisso ela já estava acomodada no chão do carro, abaixo do banco do passageiro.

Pensei, um pouco e resolvi voltar para o ponto onde a tinha visto pela primeira vez, há uns quinhentos metros dali.

Comecei a perguntar para algumas pessoas se sabiam de onde ela era, mas ninguém sabia.

- Acho que é do dono do Trovão Lanches. Falou uma senhora.

Ela, então, me acompanhou até lá e soubemos que não era, pois o cachorro dele é macho.

- Quem sabe tu vais até a casa do Senhor Borges das vans, ele tem mais de 20 cachorros, falou o dono do Trovão Lanches. Lá fomos nós, após pegar o endereço. Infelizmente ele não estava em casa, mas um vizinho disse que não era do Borges.

Lembrei-me de uma Pet Shop que fica no início da avenida onde encontrei a Princesa (eu já havia batizado a cachorra para acalmar o Vicente). Já passavam das 19h. Não a conheciam no Pet, mas me passaram o telefone de duas cuidadoras de animais, que talvez poderiam me ajudar.

Fui até lá e, ambas estavam lotadas de cachorros, mais de 20 cada uma. Pediram-me que tirasse uma foto e mandasse para elas, pois iriam postar no facebook.

 

Eu já estava desistindo, pensava na confusão, caso a levasse para casa, pois tenho dois, a Prenda e o Pitoco. Liguei para a dona Dália, minha sogra, para saber de alguém que pudesse ficar coma cachorrinha, pelo menos até o outro dia. Ela, também não sabia.

Dei mais umas voltas e retornei na casa do Borges, mas ele ainda não havia chegado.

Quando estava indo embora passou uma van com a inscrição Borges, quase  me joguei na frente do carro. Estavam ele e a esposa. Expliquei a situação e a esposa dele me disse:

- Quem falou que pegamos cachorros de rua?

- Pode largar essa aí que ela vai retornar para casa.

Agradeci e fui embora.

Liguei novamente para  a dona Dália. Combinei que deixaria o Vicente na casa dela em Itapema e voltaria para tentar localizar a casa do dono da cachorrinha. Deixei o Vicente e retornei para Porto Belo.

Lembrei que tinha no porta malas, a coleira e a guia do Shanti, que morrera há pouco tempo. Coloquei, então, na Princesa e saímos a caminhar pela Avenida e ruas transversais. Ela andava farejando como se conhecesse a área, mas fazia isso em todos os cantos.

Ainda estava na Avenida e de repente passei por casal de catadores, com uns 5 cachorros. A esposa me chamou e perguntou se o cachorro era meu. Disse que não e que estava justamente procurando pelo dono. Então, ela disse:

- Esse cachorro é meu!

Nisso apareceu o marido dela e veio falar comigo. Disse que era deles, que tinham há pouco tempo e que ele não havia se acostumado com eles. Falou que havia ganho de um homem que morava em apartamento e que não poderia ficar com ele.

Eu estava quase convencido, mas preocupado com a situação, pois andando solta, mesmo com eles, poderia ser atropelada.

Enquanto minha dúvida persistia,  de repente passou um carro e a motorista ficou olhando, parou  e estacionou. Tive a sensação que poderia ser, de fato, a dona da Princesa.

A moça atravessou a rua e afirmou:

- Moço! Essa cachorrinha é minha!

Na hora  me deu uma alívio e falei:

- Eu não acredito, Graças a Deus!

A Moça bateu as mãos e disse:

- Meg, vem com a mãe.

A cachorrinha abanou o rabo e pulou no colo dela.

Ela me contou que a Meg havia desaparecido há uns três meses. Alguém da família afirmou tê-la visto na rua, por isso saíram para procurá-la.

Conversei novamente com o catador e ele estava reclamando que não ganhou recompensa.

Então, eu lhe disse :

- Fique tranquilo que eu vou providenciar umas roupas para entregar-lhe.

Enfim, tive a grata sensação de dever cumprido. Avisei e agradeci a todos que eu havia mobilizado e, fui buscar  o Vicente.”

Escrito por Saint Clair Nickelle, 09/04/2018 às 09h55 | sannickelle@gmail.com

A cidade que seduzia

Naquela mateada de meados de março, todos compareceram, inclusive um convidado especial, seu Ivo, vizinho do Luiz Paulo, que viveu no Rio de Janeiro uma situação quase trágica.

Ele nos contou em detalhes o que passou, acompanhado da esposa, dona Bibiana e do seu filho Lucas. De ouvidos atentos e curtindo o chimarrão preparado pelo Clóvis, fomos imaginando o sofrimento dos nossos queridos vizinhos.

O Seu Ivo ainda arrematou:

- Ao sair daquele sufoco, eu vaticinei para minha família: “Rio de Janeiro nunca mais!”. Não é possível que uma cidade como aquela, de belezas naturais incomparáveis, tenha se transformado num covil de ladrões e bandidos.

 Após, vieram os comentários, o primeiro a falar foi o próprio Luiz Paulo:

- Seu Ivo, essa situação não é nova, talvez pouco noticiada alguns anos atrás. Começou com a deterioração da classe política e das autoridades constituídas. Vou lhe relatar um caso que acompanhei de perto e o Senhor vai poder tirar suas conclusões.

Como Delegado de Polícia, o Luiz Paulo referiu-se referiu a um acontecimento que vivenciou ao acompanhar um amigo, cujo filho, Gerson, que voltava de uma viagem à Europa, havia sido preso no Aeroporto Internacional do Galeão.

- O rapaz, de 25 anos, havia sido preso porque, em sua bagagem encontraram cocaína. Mas ele sequer recebeu a mala, como todos os demais passageiros; mesmo assim foi levado pela P.F. para esclarecer o transporte daquela droga. O tal rapaz ficou extremamente confuso, pois desde o embarque em Madri, no Aeroporto de Barajas, ele não teve mais acesso à mala. Deram-lhe voz de prisão e o prenderam como traficante.

Nesta altura, o Clóvis que estava servindo o chimarrão, perguntou:

- Luiz Paulo, me desculpe, mas o que tem haver o c.u. com as calças?

- Tenha paciência, Clóvis, logo logo o que estou contando vai fazer sentido com o que passou o Ivo.

- Tá bem, Luiz Paulo, toma aqui mais um mate e me desculpe pela pressa.

- Mas, voltando ao assunto, Seu Ivo e demais amigos, o pai do rapaz, um empresário de sucesso do ramo calçadista, de Novo Hamburgo, Adroaldo Pederneira, justamente, me procurou porque sabia da fama das autoridades do Rio, que só agiam mediante pagamento de propina. E, assim fomos para lá.

Em primeiro lugar fomos falar com o Gerson, já na Papuda. Ele, então, diante do pai, jurou de pé junto que jamais tocou em droga pesada, como cocaína. Um baseadinho, tudo bem, mas transportar droga de alto custo para quê, se sua vida era confortável e sempre teve o apoio da mãe e do pai, para estudar fora, fazer turismo internacional...

- Eu que estava assistindo, de longe, me convenci da inocência do rapaz, tal qual o pai, que depois me externou seu sentimento.

- O que me deixou intrigado é que ele, em Madri, depois de despachar sua mala, e mesmo depois de chegar ao Brasil, não teve acesso à bagagem;

como, então, os policiais da alfândega o abordaram sem a prova da droga,

 

diante da sua presença? Ou a droga foi colocada nos bastidores do aeroporto de Madri, ou foi colocada aqui, no Brasil, para chantagear-lhe. Ignorei a hipótese de um transporte involuntário entre agentes de lá e daqui, pois não seria lógico prender o transportador inocente.

Saímos da Papuda, quase em silêncio, mas tivemos o mesmo insight:

- A chantagem deve ser destinada para o senhor mesmo, seu Adroaldo, pois devem saber da sua situação financeira.

- Também pensei nisso, Luiz Paulo. Mas, eu estou disposto a bancar o que esses F.D.P estão querendo, pois o meu filho não merece ser considerado traficante.

- Por onde começamos, Luiz Paulo?

- Vamos falar com o Delegado que determinou sua prisão.

Lá fomos nós. Depois de muito esperar, fomos recebidos pelo Delegado Braga, o qual nos recebeu em seu Gabinete, mandou-nos sentar e depois fechou a porta.

Ficamos sem qualquer testemunha. Depois das explicações de praxe, ele insinuou que a pena para esse tipo de crime é muito severa, portanto, teríamos que estar dispostos a pagar pela soltura do rapaz, antes de ir a julgamento. Tentei argumentar pelas circunstâncias em que a droga foi apreendida, sem a presença do acusado, mas o delegado, simplesmente, argumentou:

- Vocês tem alguma prova de que o acusado não estava presente na abertura da mala?

- Não, apenas a palavra do Gerson.

- Então, arquem com as consequências jurídicas ou...

Saímos dali perplexos, quase não acreditando que tivemos uma conversa com um funcionário público, o qual na maior cara-de-pau, exigiu propina para que o processo não andasse.

Lembrei-me de um colega de Faculdade, que também estudara Direito na PUC  e, que hoje está no Ministério Público do Rio.

Ele nos recebeu, em seu Gabinete, e depois das velhas recordações, expus o caso do filho do Empresário Adroaldo. Ele, após nos ouvir atentamente, pediu-me para falar em particular comigo:

- Olha, Luiz Paulo, como delegado no Rio Grande do Sul, você deve ter uma idéia bem mais otimista das relações das diversas instâncias do Poder Judiciário, mas aqui há muitas coisas duvidosas, portanto, ou vocês se submetem à chantagem desse delegado ou vão penar para soltar o filho desse empresário gaúcho. Eu, espero que esse conselho não seja mal interpretado, pois se o processo correr e passar por mãos honestas, poderá até resultar em vitória para vocês.

Saímos dali, divididos e eu sugeri:

- Vamos voltar para o Hotel, descansar e, após o jantar, decidimos qual a estratégia a adotar.

Em dois dias estávamos de volta a Porto Alegre. Fiquei conhecendo a mãe do Gerson que nos esperava no Aeroporto Salgado Filho. Foram momentos de muita emoção, onde pai e mãe abraçados ao filho, entre lágrimas e agradecimentos deram-me adeus.

- Essa história, seu Ivo, ocorrida há muitos anos atrás, mostra porquê o Rio de Janeiro virou o que é hoje...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/03/2018 às 08h37 | sannickelle@gmail.com



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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


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