Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Treze

Hoje é o dia 13 de novembro de 2017. Minha querida irmã Amábile está fazendo aniversário. Ela é uma pessoa muito especial para mim, pois foi quem me criou, depois que fiquei órfão.

Hoje, também, é o dia em que eu e minha atual esposa, Sueli, comemoramos 19 anos e cinco meses de casados. Como fazemos aniversário de casamento em 13 de junho, não precisamos cair nas armadilhas do dia anterior, ou seja, 12 de junho- Dia dos Namorados, cuja frequência à bares, restaurantes e floriculturas é concorrida demais.

Também, é o dia do aniversário do meu querido amigo Carlos Alberto, o qual com sua tradicional sensibilidade e gentileza, propiciou que um morador da Capital gaúcha tivesse como se hospedar em Balneário Camboriú, lá por volta de 1989, quando estava namorando a irmã de sua esposa Néia.

Com o tempo, acabei me aquerenciando nessa bela e hospitaleira cidade de Balneário Camboriú, onde hoje moro há mais de 12 anos.

Por superstição, o número 13 é considerado de azar em muitas culturas. Devido a essa tradição é costume, em alguns países, não haver o andar ou piso 13 nos edifícios. Até em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, essa crendice era levado a sério. A sexta-feira 13 é, em alguns países mais supersticiosos, associada como um dia ruim e de azar. Já, para o nosso ex-técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Mário Lobo Zagallo, o 13 era um número de sorte.

Até nas corridas de Fórmula 1, geralmente não existe o carro com o número 13.

A pessoa que tem medo do número 13 sofre de TRISCAIDECAFOBIA, que significa: “medo irracional e incomum do número 13” . Fato que não ocorre com os petistas no Brasil, já que seu número de Código Eleitoral é o 13.

Nós, vis mortais, atribuímos significado para as coisas que nos cercam, incluindo tradições nem sempre explicadas, mas que perpetuamos por medo e irracionalidade, tais como:

-“Fez uma careta e o vento passou? Seu rosto vai ficar assim para sempre;

- Se a sua orelha está quente e vermelha, alguém estaria falando de você;

- Não é bom deixar o chinelo de ponta-cabeça, porque isso traria mau agouro;

- Coceira na palma da mão é sinal de que há dinheiro chegando;

- Quebrar um espelho traz sete anos de azar para o autor;

- Achar um trevo de quatro folhas é sinal de que a sorte está por perto;

- A visita chata vai embora se uma vassoura for colocada atrás da porta;

- Passar embaixo de uma escada traz má sorte e é perigoso;

- Acredita-se que bater na madeira três vezes espanta o azar;

- Plantas poderosas como arruda e espada de São Jorge afastam mau olhado;

- Faça um pedido para uma estrela cadente e ele vai se realizar;

- Quando aparecem, joaninhas e borboletas, seriam sinais de boa sorte…”

Nossa vida, mesmo sendo considerada mais intelectualizada, ou seja, sabemos bem mais do que sabiam nossos pais e avós, mesmo assim não consegue absorver o ritmo das mudanças e se vê cada vez mais sem identidade, como boiada que não para pensar. Estaríamos nós sofrendo de ansiedade irracional, quer pelo excesso de informações, quer pela incapacidade de colocar pé no freio?

Às vezes, duvidamos da nossa capacidade de nos ajustar às novas situações e, mesmo com essa avalanche de mudanças, ainda temos que conviver com nossas crendices.  

Mas. enfim, descobrir a beleza da vida deve ser nossa meta, estejamos ou não no roldão das mudanças. Assim como as crendices não devem dominar nossas ações, também, devemos focar na beleza da vida, absorvendo as coisas simples que nos cercam e tirando delas o combustível para a felicidade.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 14/11/2017 às 07h50 | sannickelle@gmail.com

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Brasil, potência econômica

 Hoje, 25 de outubro de 2017, acompanhei, por um telejornal, a reeleição do Secretário Geral do Comitê Central do Partido Comunista da China. Seus cerca de 350 membros, numa postura educada e comprometida, estavam reelegendo Xi Jinping e as seis demais autoridades que constituem o Comitê Executivo Central. Eles, os sete membros, continuarão a exercer a autoridade máxima dentro do Partido Comunista da China (PCC).

O Congresso Brasileiro que é bicameral, composto por duas casas: o Senado Federal, integrado por 81 senadores, representam as 27 unidades federativas   (26 estados e o distrito federal) e Câmara dos Deputados, integrada por 513 deputados federais, que representam o povo.

São portanto, 594 membros, cujo custo é astronômico, mas como o Brasil é a maior potência econômica do planeta, não se mede o que custa para cada brasileiro sustentar tamanha mordomia.

O que chama a atenção, de nós brasileiros, ao assistir qualquer reunião do Congresso Brasileiro, tanto por parte do Senado, como por parte da Câmara dos Deputados, é a postura displicente e desleixada dos nossos representantes. Só se vê conchavos, celulares em funcionamento, conversas informais pelos risos e tapinhas nas costas, mesmo que alguém esteja falando no púlpito ou membros da mesa diretora pedindo silêncio e atenção.

Para atender a esse mundaréu de representantes, existem cerca de 20.000 funcionários no Congresso Brasileiro, muitos dos quais, ganhando bem mais do que um senador ou deputado federal. Façamos as contas e veremos porquê o governo está sempre se queixando de déficit. Mas, como disse antes, se somos uma potência econômica, deixemos essas miudezas para países de economia mais fraca que a nossa, como os Estados Unidos, a China, a Alemanha, etc.

O pior de tudo é que essa organização democrática se estende para estados e municípios. Não tentem calcular o que custam as assembleias legislativas e as câmaras de vereadores, vocês deixarão de dormir e, certamente, terão pesadelos

por muitos anos. Como eternos cúmplices alienados, a cada dois anos, estaremos lá nas filas para votar e eleger aqueles que, se eleitos, sorrirão, não sei se de nós ou das mordomias que nós continuaremos sustentando. Haja fôlego para tanto trabalho de todos nós, em especial para os que não sabiam: sim, somos uma potência econômica! 

Essa incrível constatação das mordomias que sustentamos, me fez lembrar de um apadrinhado político que procurou o Presidente Getúlio Vargas, no Palácio do Catete, vindo de São Borja no Rio Grande do Sul. Como fora indicado por um político gaúcho, o Presidente se viu obrigado a recebê-lo...

- Dr. Getúlio, estou aqui para reivindicar um emprego no governo, já que sou seu correligionário e conterrâneo;

Dr. Getúlio, com aquela sua tradicional calma, perguntou-lhe:

- Em que o Sr. deseja trabalhar?

- Não querendo abusar da sua bondade, eu desejo trabalhar de estafeta, mas entregando correspondência só aqui no Palácio do Catete, preferencialmente no turno da tarde, das 14h até as 16h, segundas, quartas e sextas. Pela manhã, pretendo conhecer a cidade do Rio de Janeiro;

O Presidente Getúlio Vargas, mesmo estando admirado da cara-de-pau do conterrâneo, ainda lhe perguntou:

- E, qual é a sua pretensão salarial?

- Dr. Getúlio, uns 3 salários mínimos, ou seja cerca de 5.196,84 cruzeiros;

O Presidente, já se levantando, disse-lhe:

- Fique tranquilo, tão logo surja a oportunidade, a segunda vaga será sua;

- Como assim, a segunda vaga, Senhor Presidente?

- Sim, a segunda vaga, pois a primeira será minha...

E, assim, desde há muito tempo, estamos sustentando párias, que trabalham pouco, ganham muito e pouco contribuem para o país crescer e se tornar, de fato, uma POTÊNCA ECONÔMICA...   

Escrito por Saint Clair Nickelle, 27/10/2017 às 08h49 | sannickelle@gmail.com

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In SEGURANÇA

- Pessoal tem um cara de camisa azul e bermuda cinza, andando pelo Condomínio. Liguei para a Portaria e me informaram que não houve ingresso autorizado, com as características descritas. Ele acabou de passar pelo acesso 5, onde resido. Por favor, vamos ficar de olhos abertos...

- Oi! Zuleide! É a Fátima quem fala...eu moro junto à Praça Central e, também vi esse sujeito, como descreveste. Achei que era prestador de serviço, porque não despertava suspeita...Tu tens razão vamos ficar atentos.

- Esses são os mais perigosos, Fátima...especialistas em disfarce, tal qual espião.

- Oi, vizinhas! Aqui é a Juliete, da casa 45. Hoje, mais cedo, andei pelas ruas do Garden City, fazendo minha tradicional caminhada matinal, mas não constatei nenhum estranho. Que horas você disse que viu a tal pessoa, Zuleide?

- Juliete!, Foi por volta das 10 horas da manhã.

- Nesse horário eu já estava em casa, pois voltei lá pelas 9h e 30 min.

- Já avisaste a Portaria?

- Sim! Eles já mandaram um segurança percorrer o Condomínio...

- OK! Obrigado Zuleide. Qualquer novidade manda pelo whatsApp...

Após esses diálogos, os celulares não pararam mais de tocar, transmitindo informações, a maioria especulativa, sobre onde estaria o tal estranho, que poderia ser um ladrão, assassino, tarado...

Os moradores do Garden City pareciam estar entrando em pânico, toda vez que o tilintar do celular tocava. Ora era alguém que teria visto o intruso em outros acessos, ora era visto colhendo frutas. Por último, foi o seu Epaminondas, que anunciou tê-lo visto, com toda a certeza de seus 90 anos, entre a quadra de tênis e o muro da divisa sul do Garden City, na Praça Central, onde tem várias árvores frutíferas. Vários moradores correram para lá, na esperança de interceptá-lo. Vasculharam cuidadosamente a área, mas não o encontraram...Logo essa informação foi transmitida para todos, aumentando, ainda mais, o pânico.

O Síndico, que fazia parte da rede de vizinhos solidários, entrou no whatsApp para pedir que as pessoas apenas ficassem atentas, mas que evitassem transmitir informações especulativas que, além de aumentar o pânico, não ajudavam a segurança do Condomínio. O pedido do Síndico foi mal recebido pelos mais medrosos, que passaram a solicitar uma providência policial urgente por parte do Síndico. Outros sugeriam organizar um grupo, que armado de paus e facões poderia surrar e prender o assaltante. O Síndico disse, em resposta oficial:

Senhores moradores, ninguém, sob hipótese alguma, está autorizado a reunir um grupo justiceiro, já que nada se sabe sobre a pessoa descrita inicialmente pela Dona Zuleide. A Administração do Garden City, se reserva o direito de condenar, à priori, qualquer ato de justiça que atente contra às leis e, em especial, a Convenção e o Regimento do Condomínio.

Após esse pronunciamento, os ânimos belicosos, tal qual os apoiadores do modelo Trump, foram se acalmando. Mas, bastou a dona Zuleide comunicar ter visto novamente o estranho, para tudo recomeçar como um furação:

- Onde?

- Em que acesso?

- A que horas?

- Será que está armado? Ainda bem que as crianças estão nas escolas...

- Meu Deus! Chamem a polícia!

Depois de toda essa polêmica, o Síndico precisou intervir, comunicando que o segurança do Garden City, encontrou o tal sujeito. Trata-se, como ele mesmo nos disse, de um novo morador, de nome Olívio Cordeiro, que se mudara no último fim-de- semana para o Garden City. O Síndico, pelo whatsApp, informou o seguinte:

- Senhores moradores: agora que esclarecemos o mal entendido, pois trata-se de um novo morador, que adquiriu a casa n. 72, no último acesso, e que se mudou ontem para o Garden City, só nos resta agradecer à Deus por não termos cometido nenhum atentado para uma pessoa inocente que, ao saber da mobilização dos moradores e da própria segurança do Condomínio, até passou mal...

- Por favor pessoal, que esse episódio nos sirva de lição...A segurança é imprescindível nos dias de hoje, mas daí ficarmos cegos e cheios de ódio, sem qualquer certeza do que, de fato, esteja acontecendo, pode nos levar a praticar atos de pura insanidade. Quando um fato chamar a atenção de alguém, procure informar-se, antes de sair espalhando notícia falsa.

Será que a crise de valores, que permeia nossa sociedade, possa estar despertando condutas questionáveis?

Os altos índices de criminalidade e corrupção, que preenchem a totalidade dos noticiários, estaria afetando a capacidade de pensar dos brasileiros, gerando uma insegurança acima dos fatos?

No plano mundial, alguns líderes mais belicosos, como Donald Trump e King Jong Um, fazem renascer a ideia do uso de artefatos nucleares, até então, suscitados apenas durante a guerra fria.

Seriam, também, essas notícias, que nos chegam, sem qualquer filtro, capazes de aumentar a in SEGURANÇA e, por outro lado, reduzir nossa capacidade de construir um convívio mais saudável?

A insegurança implica a existência de um perigo ou de um risco iminente, o que não é o caso do Garden City, que possui empregados especializados nessa área, bem como todo o aparato físico. Portanto, o comportamento constatado, certamente provem de informações alheias a realidade local, onde a mais banal conversa foi capaz de gerar um pânico incontrolável...

As crianças, que começaram a chegar ao Garden City, depois das aulas, ficaram perplexas com os acontecimentos, gerados pelo medo e, de imaginar, que suas famílias fossem incapazes, como adultos, de discernir o certo do errado. As crianças, menos suscetíveis a criar caraminholas na cabeça, criticaram seus pais, porque um inocente poderia ter sido penalizado pela insanidade de duas vizinhas, que acenderam o pavio curto dos demais moradores...

 As crianças, certamente, estão mais imunes às notícias que preenchem a quase totalidade dos jornais televisivos. O que já não ocorre com os adultos.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 12/10/2017 às 10h38 | sannickelle@gmail.com

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Manto diáfano da fantasia

Quando da viagem do nosso Presidente à China, recentemente, as autoridades da República Popular da China, que esperavam a delegação brasileira, se surpreenderam com o tamanho da comitiva e comentaram, cochichando:

““Meu Buda! Pra que tanta gente para um encontro de livre comércio?...Sei não, mas isso tá parecendo turismo oficial.”

Após os cumprimentos de praxe, os quatro chineses, em nome do Governo, conduziram o Presidente brasileiro para a sala VIP e depois ao carro oficial que o conduziria ao Hotel. Um Deputado Federal se adiantou e perguntou ao último chinês, que estava fechando a sala VIP:

- E nós, como vamos para o hotel?

- Ora! Vocês vão de táxi, que encontrarão logo na saída do aeroporto.

- De táxi?

- Sim! Vocês não receberam diárias para as despesas pessoais?

- Recebemos, mas isso é uma desconsideração com as autoridades brasileiras.

- O Senhor me desculpe a sinceridade, mas essas mordomias não são praticadas na China.

- Mas, no Brasil nós colocamos carros oficiais para todas as autoridades que nos visitam e, inclusive pagamos todas as despesas de hospedagem.

- Sim, e é por isso que o déficit orçamentário de vocês é de quase 170 bilhões. Vocês acham que a China tem a economia forte que tem, sustentando mordomias?

A conversa foi interrompida quando a porta da sala VIP se fechou na cara do interpelante que, aturdido, não quis nada comentar com os jornalistas curiosos.

No outro dia, o  nosso Presidente foi recebido pelo Presidente Chinês, ambos acompanhados de seus respectivos intérpretes. Um aperto de mão, e uma pose para as fotografias oficiais encerrou as formalidades e eles sentaram lado a lado. O Presidente Xi Jinping, logo demostrou uma preocupação:

- Senhor Presidente, nós não temos tantos ministros para negociar com tantas autoridades brasileiras que o acompanham.

- Ora, não se preocupe com isso, bastam dois  ministros seus e dois nossos...

- Mas, então, para que tantas autoridades?

- Na verdade, Senhor Jinping, eu me vi obrigado a recompensá-los, depois do apoio recebido no Congresso, diante da infundada acusação do Ministério Público.

- Ah! Sim! Então, eles vieram é fazer turismo?

- De uma certa forma sim. Nós no Brasil não temos qualquer possibilidade de governabilidade sem troca de favores, infelizmente!

- Mas e o custo de uma viagem como essa, não pesa num orçamento deficitário?

- Não, porque é verba de Gabinete, onde a limitação é quase nula.

- Bem, totalmente diferente daqui, onde tudo é auditado com extremo rigor. “- É, por isso, que nossa economia é robusta...” Pensou o Presidente Chinês.

“- Nossas realidades históricas são distintas...”Pensou o nosso Presidente.

Depois desse diálogo, apenas compartilhado com os intérpretes, os fotógrafos e repórteres tiveram acesso novamente à sala oficial, para registrar o encontro e formular perguntas. Cujas respostas óbvias, vão sair nos jornais e noticiários televisivos.

Logo a seguir o Chefe de Gabinete fala ao ouvido do Presidente Xi Jimping:

- Senhor! O Camarada Putin no telefone amarelo...

...

- Camarada Putin! O que manda?

- Queria saber como foi a recepção aos brasileiros?

- Fraca! Muito embora, eles nos ofereçam muitas oportunidades de negócios, em especial na área de privatizações, o que nos interessa.

- Mudando de assunto, e o nosso gordinho lá de baixo, continua aprontando?

- Por enquanto, só testes, mas se atingir algum alvo, a coisa poderá ficar séria. Mas, vamos continuar com a diplomacia para desviar o foco.

- É! Isso aí, Camarada Jimping...boa sorte com os convidados...

...

Lá embaixo, na ala residencial do Palácio do Sol, um oficial de alta patente caminha apressado, com seus trejeitos militares, por um longo corredor. Pára!  Faz continência para uma sala fechada, que diz:

 

DORMITÓRIO DO SUPREMO LÍDER

Com toda a delicadeza, bate três vezes de leve na porta...Espera alguns segundos e logo a porta se abre, ele então cumprimenta a Senhora Song, ama-seca do Supremo Líder, batendo os coturnos e lhe fazendo continência:

- Pois, não, General Kisung?

- O Comando Militar informa que o teste do foguete, para hoje, já está pronto na plataforma de lançamento, apenas aguardando a detonação do nosso Supremo Líder.

- Está bem. Tão logo ele acorde, eu o informarei...Passe bem General Kisung.

O General bate os coturnos, faz continência e dirige-se à saída pelo imenso corredor do Palácio. No caminho, ele pensa, com um leve sorriso nos lábios:

“- Fiquei tão feliz de dar essa informação que até tenho vontade de dar uns pulinhos, mas minha condição  militar não permite...” 

Voltando ao interior do quarto, a Senhora Song, desliga, com delicadeza, a música de ninar que embala o sono do Supremo Líder. Em ato contínuo ela começa a abrir o dossel, cor de rosa, para facilitar o despertar do Líder. Como uma crisálida que desperta de sua metamorfose, ele, então, se mexe, boceja e estica os braços, cumprimentando a Senhora Song:

- Bom dia! Alguma novidade?

- Sim! Ela comunica o que dissera o General Kisung, minutos atrás.

- Ótima notícia! Depois do meu banho de sais perfumados, vestirei meu traje preto e apenas um detalhe, Senhora Song, separe aquele sapato com salto mais alto, pois não quero ficar na mesma altura dos demais generais.

Após, os preparativos no interior do quarto, a Senhora Song, pega o telefone e avisa o Chefe de Gabinete que o Supremo Líder está pronto para sair. Imediatamente, uma guarda de honra se posiciona ao longo do corredor residencial do Palácio. Ele, então, dirige-se à saída sob aplausos dos militares que batem continência escalonada, conforme ele caminha.          

Chegando a sala de lançamento, ele é novamente ovacionado por todos os generais. Informado, de que o teste de hoje visa alcançar uma distância equivalente até Guam, território norte-americano na Micronésia, localizado na extremidade sul das Ilhas Marianas, no oeste do Oceano Pacífico, onde residem mais de 150 mil americanos. O Supremo Líder vibra socando o ar.

Ele autoriza o início da contagem regressiva, sob forte emoção de todos os generais. No entanto, quando chega ao zero, nada acontece, deixando-o furioso, que aos gritos pergunta:

- GENERAL KISUNG! QUEM É O RESPONSÁVEL PELA PROGRAMAÇÃO DE LANÇAMENTO?

- Querido Supremo Líder, é  o General Kissut.

- Preparem-no para ao fuzilamento antes do alvorecer de amanhã.

- Sim ,excelência! E Promovam para General, no lugar dele, o soldado Kisort, sobrinho da Senhora Song.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/09/2017 às 11h04 | sannickelle@gmail.com

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Em busca do paraíso

Corria o ano de 2023 e eu, sentado na minha varanda junto à Praça Central do Garden City, aguardava a chegada do meu irmão Izidoro e da minha cunhada Maria de Lourdes, que foram passar a virada de ano no litoral norte de Santa Catarina.

O meu irmão, estancieiro de Bagé, estava fazendo essa viagem pela primeira vez, porque nunca se dera o deleite de sair de casa e conhecer outras plagas, mas acabou sendo convencido pelos filhos...e até por nós.

Seria um ano atípico, começando pelas eleições presidenciais que, para incredulidade dos investidores e euforia dos ultradireitistas, o Bolsonaro havia emplacado. O Lula e o Palocci continuavam presos, mas em celas separadas, porque já tinham tentado se matar.

Minha paisagem, no entanto, era idílica, deixando em segundo plano as notícias sobre a roubalheira dos políticos, pois as quaresmeiras derramavam flores deslumbrantes para este par de olhos românticos. Chamei minha prenda para, ao meu lado, desfrutar de tanta beleza. Ela veio com aquele chimarrão quentinho, sentou-se e me pegou na mão, dizendo:

- Sinto-me tão feliz por estar ao teu lado e me encantar com a singeleza da natureza...

Concordei, sem nada dizer, mas não pude evitar lágrimas de felicidade...

- Eles estão demorando, será que aconteceu alguma coisa, querido?

- Não! É o trânsito infernal nessa época do ano...logo, logo estarão aqui.

Passaram-se mais alguns minutos e o telefone da Portaria anunciou a chegada do casal visitante.

Depois dos cumprimentos e das acomodações, sentaram para conversar, já que o Gumercindo e a Odete estavam curiosos para saber dessa primeira viagem.

- E, aí! Maria de Lourdes! Aproveitaram bastante?

- Olha, queridos, eu, sinceramente, imaginava outra coisa, mas o Izidoro ficou bem mais frustrado;

- Ué! Mas por quê?

- É muita gente...Nós não estamos acostumados em disputar lugar, ser mal atendidos, pagar verdadeiros absurdos para comer, alugar cadeira e guardassol. Enfim, coisas que os nossos olhos e ouvidos custam a se adaptar. O Izidoro, vocês sabem, gosta daquela nostalgia batendo nas folhas das árvores do campo; de ouvir o canto dos pássaros; do coaxar das rãs quando chove e até o canto do grilo, ao anoitecer. Lá, onde estávamos, a única coisa que se vê, é gente amontoada, quase brigando por um espacinho na praia.

- E, tu Izidoro, não gostou, também?

- Olha, gente, não é possível entender o que tantas pessoas querem fazer naqueles lugares. Aliás, belíssimos, mas numa virada de ano, é uma loucura.

- Foram até Bombinhas?

- Na verdade nós tentamos, não é Maria de Lourdes?

- Sim, querido! Mas eu concordo que foi um suplício.

- Gumercindo! Nós saímos do Hotel às 7h da manhã, pegamos a BR 101, que a essa hora já estava atulhada. Aquela pequena distância, de cerca de 30km, entre Balneário e Porto Belo, nós levamos 6 horas. Tanto é verdade, que acabamos almoçando em Porto Belo, pois já era uma da tarde. Enquanto almoçávamos no Restaurante La Ponte, podíamos observar o trânsito contínuo dos veículos, como se fosse um trem com infinitos vagões. Nos carros, as pessoas demonstravam um olhar cansado, como se tivessem indo para um velório...

Terminamos de almoçar, lá pelas 3 da tarde...olhamos um para o outro e dissemos, quase ao mesmo tempo:

- Vamos adiante ou voltamos? A prudência das mulheres é muito importante nesses momentos, pensei comigo. Ela, então, disse convicta:

- Vamos voltar!

- Foram mais 6 horas de estrada trancada, quando o normal é levar de 30 a 40 minutos.

- Então, nem foram a Bombinhas?

- Fomos, uns dias depois. Mas, o pior vocês não sabem: lá, também, tinha gente saindo pelo ladrão! Acabamos conseguindo chegar à Praia do Mariscal,  depois do meio-dia.

Tava difícil de achar lugar para estacionar, isso que era meio de semana. Por fim, conseguimos estacionar, pagando 30 pila pra um flanelinha, que se achava dono do lugar. Aliás, isso é outra coisa negativa, por aquelas bandas, a exploração do turista.

- Vocês imaginam ter que pagar 50 por uma cadeira e mais 50 pra um guardassol? E, nada de cadeira novinha, não! Aliás, chechelenta, toda manchada, mas o quê fazer? Ficar sentado no chão, não dava; o negócio, meu irmão, era encarar e tentar desfrutar da paisagem.

- Bueno, depoisssss tomamos aqueleeeeee banho gostoso, que acabou compensando tanto trabalho.

- Jantamos, ali mesmo em Mariscal, e saímos para enfrentar a maratona da volta, ou seja, 7 horas de estrada, num interminável para e anda.

- Olha, queridos! Se essa é a forma de diversão do pessoal da cidade, eu tô fora! Mas, sabe como é, se não tivéssemos passado pela experiência, dificilmente, nossos incentivadores descansariam, em especial os filhos e até vocês e a Maria de Lourdes. Com essa, eu acabei  confirmando a minha teoria de que “só se pode sentir feliz, onde você se sinta bem”. E, lá na fazenda, eu tenho certeza está a felicidade, de braços abertos, nos esperando.

E, assim, prevaleceu nosso jeito rural de ser, mais contemplativo do que agitado.

Quem vive nas cidades se beneficia por estar próximo as prestações de serviços, como: hospitais, escolas, rede de mercados, divertimento, principalmente a noite. Outra vantagem, que faz com que as pessoas prefiram a zona urbana, é a oferta de empregos. As desvantagens são os riscos que se corre diariamente: ar poluído, trânsito estressante, barulho em excesso, criminalidade, assaltos, prostituição.

Quem vive no interior ou no campo tem uma vida mais tranquila, porém está longe de todas as vantagens que as cidades oferecem. Enfim, que cada um de nós saiba fazer as escolhas certas e não agir como boiada, como dizia um velho amigo meu:

- Se todo mundo tá indo pra lá, eu vou no sentido contrário!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 09/09/2017 às 09h33 | sannickelle@gmail.com

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Momentos inesquecíveis

Corria o ano de 1998, quando o tilintar do telefone, naquela noite de quinta-feira, do mês de julho, me acordou de um cochilo na sala de tv. Corri para atender e, para minha surpresa, era o Kaká, amigo de pouco tempo lá de Balneário Camboriú/SC. Na verdade eu o conheci, circunstancialmente na Praia de Bombas, no verão de 1998. Como vou narrar agora:

Eu estava na casa da minha cunhada Suzete e, eles, a Néia sua mulher e a irmã dela, a Sueli,  passavam o fim-de-semana na casa ao lado. Quando eles estavam na praia, em frente ao conjunto geminado, que minha cunhada veraneava, sentaram numa roda e bebiam vinho branco, muito gelado. Quando a Suzete, com sua cadeira, passou por eles, convidaram-na para fazer-lhes companhia.

Conversa vai conversa vem, eles perguntaram:

- Aquele senhor, que você pintava o cabelo, é seu marido?

- Não! Ele, o Saint Clair, é meu cunhado, que mesmo contrariado, permitiu que eu lhe pintasse o cabelo, pois com isso queria lhe levantar a autoestima.

- Mas, um cara tão bonitão, porque estaria de baixa autoestima?

- Ele ficou viúvo há pouco tempo.

- Coitado! Chama ele aqui para sentar conosco, quem sabe a gente o anima.

- Vou chamá-lo, então, disse a Suzete, mas não sei se ele vai querer vir.

De longe, o Kaká e sua turma, perceberam que eu parecia relutante diante do convite, mas minha cunhada me convenceu. Eu trouxe uma cadeira, me apresentei, fiquei ali na turma, mas falei muito pouco.

A Suzete, no entanto, muito curiosa, perguntou se a Sueli era casada. Quem respondeu foi a Néia:

- Atualmente está solteira, tal qual o teu cunhado.

- Saint Clair, podemos te chamar de San?

- Sim! Fiquem a vontade.

- Você aceita uma taça de vinho?

- Aceito! Brindamos e a conversa se estendeu até o fim da tarde. Por fim chegou a hora das despedidas, mas sem antes trocarmos telefones e o convite do Kaká, para visitá-los em Balneário Camboriú, assim, também procedi, caso eles quisessem me visitar em Porto Alegre. E, foi assim que conheci minha atual esposa...

- Oi Kaká! Que bom te ouvir.

- Sabes, San, nós vamos à Porto Alegre para assistirmos o Show do Ray Konniff, no sábado e, pensamos em te convidar para irmos juntos, topas?

- Acho uma grande ideia. Vocês podem se hospedar aqui em casa, no Garden City, depois eu te passo o endereço pelo celular. Quem vem contigo Kaká?

- Eu a Néia e a Sueli.

- Que boa notícia!

- Quando vocês chegam?

- Sexta-feira pela tarde. San, se for possível reserva os ingressos.

- Deixa que eu faço isso. Vou aguardá-los, então.

Na sexta-feira quando eles chegaram, eu lhes preparei um jantarzinho, com muito vinho e uma surpresa.

- Aqui no Garden City, eu participo de um pequeno grupo de mateada e, antes mesmo de vocês me ligarem para assistir ao show do Ray, nós tínhamos nos programado para irmos, para tanto alugamos uma van com 18 lugares. Como somos onze, vocês podem ir conosco.

- Poxa, San, mas nós também pretendemos, depois do show, darmos um pulo em Nova Petrópolis e, só voltarmos na noite de domingo.

- Pera aí, que não tá  tudo perdido, deixa eu ligar pro Clóvis que está organizando o passeio. Algum tempo depois:

- Kaká, veio tudo a calhar, pois o grupo também tinha pensado nesta ideia. Até fizeram uma reserva no Recanto Suiço, da Dona Margarida, que tal?

O Kaká, perguntou, então, para a Néia e a Sueli, o que elas achavam.

- A ideia parece boa, San, mas será que nós não vamos atrapalhar o grupo, que se conhece há tanto tempo?

- Claro que não! Vai ser muito bom, até porque nós vamos num carro só e, vocês devem imaginar as dificuldades para estacionar no show do Ray.

Saímos do Show, que ocorreu no Teatro da ANRIGS, por volta das 23horas, rumo à Nova Petrópolis, embalados e cantarolando:

Bésame Mucho; Loves is Many Splendored Thing; Somewhere may love; Memory; My Way; Smoke Gets in Your Eyes  

Lá, no Recanto Suiço, Dona Margarida ainda nos esperava acordada, dando-nos às boas vindas e nos encaminhado para os chalés. Por sermos solteiros, eu e a Sueli ficamos em quartos separados, afinal ainda não era hora de intimidades.

Depois do lauto café da manhã, fomos conhecer o Parque Aldeia do Imigrante, ali mesmo em Nova Petrópolis, onde o que encanta é a réplica do povoado dos primeiros habitantes da região. Depois pegamos a RS 235, onde apenas 30km nos separavam de Gramado. Lá chegando, fizemos um tour por toda cidade e paramos no Lago Negro para esticar as pernas nos pedalinhos. Depois fomos visitar o Parque Estadual do Caracol, em Canela, com sua belíssima queda d’água. Na volta a Gramado, como já estava bem frio, tomamos chocolate quente num bar na passarela coberta dos Festivais de Cinema e, quentinhos, decidimos voltar à Nova Petrópolis, pois o Clóvis nos preparara uma surpresa:

- Cantei a Dona Margarida para nos preparar um Fondue, para a noite. Ela me disse que eles já não serviam mais janta, mas nos faria uma exceção.

Chegamos à Nova Petrópolis, por volta das 18h e 30 min. O fondue seria servido as 20h. Lembrei-lhes da precisão de horários dos alemães, para que ninguém se atrasasse.

Banhados, perfumados e bem vestidos lá estávamos nós, exatamente às 20h.

A mesa já estava posta e bastava escolher as bebidas. Pedimos a carta de vinhos e optamos por vinho da região vitivinícola da serra. Alguém sugeriu que fosse da Casa Valduga. A Dona Margarida nos sugeriu o Leopoldina Terroir Merlot. Todos aceitaram. A noite foi maravilhosa, não só pela comida, como pela liberdade de beber vinho de altíssima qualidade, sem se preocupar em ter que dirigir à noite, de volta para o Garden City.

Nos despedimos da Dona Margarida, novamente agradecendo a gentileza de nos preparar o fondue.

Saímos de Nova Petrópolis, por volta das 23h. E durante a viagem, continuamos ouvindo um CD, de ninguém menos, do que a Orquestra de Ray Konniff.

Por volta da meia-noite estávamos em casa. O pessoal do Garden se despediu dos meus amigos, colocando-se à disposição para outros encontros.

Afinal, a vida também é feita de momentos inesquecíveis.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 24/08/2017 às 19h40 | sannickelle@gmail.com

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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.
















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