Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Por que?

Um amigo meu que mora em Balneário Camboriú, na maravilha do litoral norte de Santa Catarina, ao visitar-me, dias desses, no Garden City, se disse abismado com o que ocorre naquela cidade, aparentemente tão organizada.

- Sabe, Gumercindo, eu morei, por mais de 40 anos em Porto Alegre e, nunca vi gente tão indisciplinada, em matéria de desrespeito as leis de trânsito.

Conhecendo os problemas da Capital gaúcha, em especial no que diz respeito ao trânsito, perguntei-lhe:

- Como assim, Carlinhos?

- Eu vou te descrever, em rápidas pinceladas, o que lá ocorre, para que possas traçar um paralelo com Porto Alegre, que é 20 vezes maior.

- Gumercindo, você já viu o canal “MAIS GLOBOSAT”, que tem um programa chamado “ VISTO DE CIMA”?

- Sim e, por sinal, gosto muito.

- Pois, bem, se você comparar Balneário Camboriú com qualquer outra cidade, dos chamados países desenvolvidos, vai perceber que, guardadas as características topográficas, o desenho urbano destinado aos veículos e as pessoas, é praticamente igual, com suas faixas de pedestres, sinais de trânsito, ciclovias, semáforos, etc... No entanto, se as filmagens fossem feitas com câmeras paradas, sobre drones, por exemplo, você constataria que lá, as pessoas e os veículos obedecem rigidamente as regras de trânsito, o que não ocorre nas nossas cidades.

- Será que é falta de educação do nosso povo, Carlos?

- Em grande parte, sim! Mas, eu tenho, também, uma outra explicação que, mais tarde, quero submeter a você.

- Vou te descrever a cidade que hoje moro e, que por sinal, gosto muito, partindo da beira-mar, especificamente da Av. Atlântica, para o interior.

Essa bela Avenida, circundada pela praia e pelos edifícios, praticamente não tem semáforos, em parte porque não tem cruzamentos. O único semáforo é com a Av. Central. Ao longo de sua extensão desembocam 55 ruas e, na Atlântica existem dezenas de faixas de pedestres, em nível elevado. Foram construídas para facilitar a constante travessia das pessoas para a praia e vice-versa. Se você percorrer de carro, da Barra Sul, onde fica o teleférico, até o Pontal norte, vai encontrar crianças, velhos, pais e/ou mães com crianças pela mão, atravessando, de forma perigosa, fora das faixas de pedestres. E sabe porque fazem isso?

- Eu imagino, Carlinhos, que é por falta de educação urbana.

- Em parte, você tem razão, mas se perguntares para as pessoas ouvirás:

- Olha moço! Na faixa de pedestre corre-se mais riscos, porque o primeiro carro para e você começa a travessia, mas o seguinte e as infernais motos não param e os atropelamentos acontecem.

- E, por que fora da faixa de pedestre você acha mais seguro atravessar?

- Simplesmente, porque se escolhe o momento exato que  não vêm veículo algum, o que não acontece na faixa onde uns param e outros não.

- Quanto a questão da educação, posso te afirmar que na Atlântica, teoricamente, circula o pessoal de melhor formação e quiçá maior escolaridade e poder aquisitivo. Gente, inclusive, muito viajada.

Conforme tu vais te afastando da beira-mar, vem, em paralelo a Avenida Brasil que, diferentemente, da Atlântica, tem dezenas de cruzamentos e, neles, quase um semáforo em cada esquina.

- Como as faixas de pedestres, em sua maioria, estão associadas com os semáforos, diminui muito a imprudência dos pedestres e dos motoristas, não por educação, mas por um meio eletrônico que impõe respeito, ou seja, é o olho mágico e controlador invisível do guarda-de-trânsito.

- Depois, também em paralelo, vem a Terceira e a Quarta Avenidas, onde a circulação de veículos é muito intensa, mas como na Brasil, repleta de semáforos, onde pode-se dizer que o conflito entre pedestres e veículos se auto-resolve. A exceção fica por conta das motos e dos condutores de bicicletas.  Os motociclistas, com suas peculiares pressas, são os maiores riscos aos pedestres. E, os ciclistas, talvez só uns 30% utilizam as ciclovias, mas o que complica mais, além de irritar os condutores de veículos motorizados, é o mau uso das faixas de pedestres pelos ciclistas. Eles desconhecem o Código Nacional de Trânsito, o qual lhes dá pleno direito de prioridade nas faixas zebradas, desde que conduzindo a bicicleta pela mão, na condição de pedestres. Além disso, são um permanente risco aos demais pedestres que, na faixa, se defendem das apressadas motos e das bicicletas.

- Agora, nós estamos chegando na Quinta Avenida. Lá, é um Deus nos acuda, porque, mesmo existindo uma ciclovia central, faixas de pedestres e semáforos, ninguém respeita nada. Se você é uma pessoa consciente, e procura uma faixa de pedestres para atravessar as duas pistas e a ciclovia, onde não há semáforo, deve ter muito cuidado, porque os veículos motorizados não param e os ciclistas andam na contramão, fora da ciclovia. Do contrário, você vai conhecer o Hospital Rute Cardoso, mesmo obedecendo as regras de trânsito.       

- Nos bairros, as coisas não mudam muito. Eu lembro de levar e buscar meus netos, na principal escola pública municipal do Bairro Nova Esperança. Em frente da escola há uma faixa de pedestres, mas os alunos saem correndo, ignorando-a, como se tivessem ficado enjaulados durante horas. Só obedecem quando Fiscalizados pela Guarda Municipal. Eu sempre disse aos meus netos que não aceitaria que eles atravessassem fora da faixa. Mas, observando diariamente aquela movimentação, eu notava que alguns professores e mesmo mães com as crianças pela mão, insistiam em ignorar a faixa que lhes era destinada. Certa vez eu perguntei aos meus netos, quem era aquela professora que sempre atravessa aqui, longe da faixa, se desviando dos veículos, perigosamente. Eles disseram:

- É a nossa Orientadora Educacional!      

- Para concluir nossa conversa, Gumercindo, aquilo que eu te falei se a causa é falta de educação, eu te afirmo, com quase absoluta certeza, não é! - É, sim! Vontade de desrespeitar as leis e a certeza de que não haverá punição ou mesmo constrangimento. Essas mesmas pessoas, quando viajam para Londres, Nova Iorque, etc., na condição de pedestres e/ou motoristas, jamais fariam tal coisa lá...POR QUÊ? Lá eles punem no ato.

- Pobre de você se for atropelado fora de uma faixa de pedestre.

- Puxa, Carlinhos! Será que um dia as autoridades vão de fato mudar esse quadro, ou continuar se omitindo?

- E, o pior Gumercindo! É que essa omissão superlota os hospitais públicos.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 15/08/2017 às 10h41 | sannickelle@gmail.com

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Bastidores: a verdade nua e crua

O ciúme de Caim diante de seu irmão Abel, ambos filhos de Adão e Eva, deu início, segundo a Bíblia, ao comportamento ganancioso do homem sobre seu semelhante, fazendo com que estranhos e inconfessáveis desejos poluíssem a cabeça de monarcas, religiosos, políticos e até pais e mães...

- Caim! Cadê seu irmão?

- Ué! Ele ainda não voltou?

- Se eu tô te perguntando, é claro que não. Vai procurá-lo, antes que a Eva prepare a janta. Depois de algum tempo, Caim voltou esbaforido:

- Paieeeeeeeeê! Paieeeeê!

- Euuuuuu o encontrei…mas parece que ele tá morto! 

- Venha Caim, vamos até lá! Chegando ao local, onde jazia o corpo de Abel,

Caim sugeriu ao pai que ele pudesse ter sido morto por uma cobra, talvez a mesma da maçã...

- Caim, seu desgraçado! Desde quando cobra mata com uma paulada na cabeça?

- Então, foi algum assaltante pai.

- Como, algum assaltante? Se no mundo somos só eu, você e sua mãe, seu assassino idiota!

Mesmo de barriga cheia de pão e vinho, onde participara da última Ceia de Páscoa, Judas Iscariotes arquitetou a traição de Jesus. Ambicioso, tal qual os políticos de hoje, foi até os príncipes dos sacerdotes e informou que aquele era o melhor momento para executar o plano; para tanto receberia trinta moedas, mas não uma mala com R$ 500.000,00, como pedira, pois sua pretensão era muita futurista para a época. Judas recebeu uma escolta, composta por servos do Sinédrio, guardas do templo, capitães da guarda, alguns soldados romanos. Foram, então, até o horto onde Jesus permanecia com os apóstolos, mas como não sabiam quem era, pediram a Judas que o apontasse:

Ora, aquele que eu beijar, esse é Jesus; prendei-o, e levai-o com segurança.

Entre os judeus, o beijo era uma forma costumeira de saudação. Mas Jesus, que era filho de Deus, portanto, onipresente, logo percebeu que era falsa a saudação do seu discípulo...Depois disso, Judas foi visto na Taberna, pagando bebida para todo mundo...

Caio Júlio César, nascido de uma família patrícia de pequena influência, foi galgando seu lugar na vida pública romana, chegando a ditador absoluto, em 49 a.C. Ele iniciou uma série de reformas sociais e políticas, instituindo o “Bolsa família” para os mais pobres, mas continuou a centralizar o poder e a burocracia do partido dominante. Nos bastidores, os partidos oposicionistas só conspiravam, mas até então não haviam encontrado quem o destituísse, tal era seu poder. Foram falar com seu sobrinho-neto, Caio Otaviano Maia, que todos sabiam, ambicionava o lugar do tio. O Caio sugeriu falar com o mais medíocre e ambicioso senador da república, Mário Júnio Bruto, que por qualquer merreca poderia eliminá-lo. Ele topou, desde que suas dívidas de jogo e beberragem fossem perdoadas. E, assim, o poderoso Júlio César foi assassinado por um senador do baixo clero...

Estamos, agora, na França do século XIII, especificamente, no Vale de Loire, onde foram edificados os mais elegantes e suntuosos castelos da nobreza francesa.

Ao ser convidado para visitar o castelo de Chenanceau, o rei soube dos desvios do seu ministro de finanças, para construir tão belíssima obra. O filho do construtor safado foi desapropriado, sendo o Château entregue ao Rei Francisco I, pelos débitos não pagos à Coroa. No julgamento, o Ministro da Justiça, Sergiô Morrott, condenou o acusado, muito embora ele jurasse inocência até sua morte.

Segundo consta, foi morto pela guarda do Palácio, roubando flores, frutas e verduras nos extensos jardins construídos por Diane de Poitiers, amante do monarca Henrique II…Quando Diane, ficou sabendo dos furtos constantes e de quem o estava praticando, ficou enlouquecida, gritando aos quarto ventos, da torre mais alta do castelo:

- Meus jardins sendo conspurcados por aquelas mãos imundas…Oh! Meu Rei! Quero que todos os jardins sejam replantados…

Nos dias atuais, as coisas não são muito diferentes, pois na casa da dinda ou da mãe Joana, tudo pode acontecer por baixo dos panos, até que alguém se sente estuprado naquele bacanal…Ainda com o “forever” doendo, chama a imprensa…que, por sua vez, ajuda a puxar os lençóis, tornando visíveis as grandes safadezas. Mas, a safadeza é tão bem feita, que qualquer advogado de porta-de-cadeia, livra os meliantes do castigo da punição.

Por isso, tem tanto advogado comemorando nos bares da vida:

- Commoo, diziaaa aquele fi..fi.. ló..so..fo  gre…goo: E logo alguém, sem paciência, completa:

- A Justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem.

- Falooouuu e disseee, coleegagaaa!

Nos confins de uma calábria, confabulavam uma quadrilha de ladrões comuns, desses que superlotam as cadeias:

- Ô mano! Só trinta e cinco pila prá mim, qual é a tua?

- Pô, cara! Tu ficô só na moita, vigiando os home da lei e qué mais?

- Bão, pelo menos pra o leitinho dos de menor lá de casa.

- Não tá satisfeito, vaza, cara!

- Pro marron e prô banguela deu 50, prá cada…

- Prá euzinho, que mando nessa porcaria toda, deu 80 mango!

- Vamô enchê a cara de trago, mano!

Enquanto isso em Brasília, depois de uma votação complicada no Congresso, deputados recebiam o que lhes fora prometido:

- Dois milhões pro deputado aqui, mais três pro deputado ali...

- Pessoal, vamos apurar a distribuição de benesses, tem mais de 200 deputados na fila...

- Será que não vai faltar grana?

- Claro que não! No Brasil só falta grana para a Saúde, Educação e Segurança, prá nós nunca...

…e, como tinha razão o saudoso Barão de Itararé, quando escreveu:

“Não é triste mudar de ideias; triste é não ter ideias para mudar.”

Escrito por Saint Clair Nickelle, 03/08/2017 às 15h35 | sannickelle@gmail.com

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A crise da indústria automobilística

Naquela manhã de domingo recebemos, para a nossa tradicional mateada no Garden City, um amigo do Sérgio que trabalha numa Montadora em São Paulo. O convite feito pelo nosso parceiro foi aceito, depois de consulta a cada um dos membros natos, porque o assunto, segundo o Sérgio, era de interesse para todos nós e para a economia brasileira.

O tal fulano, de nome William Schmidt, americano de nascimento, mas radicado no nosso país desde 1984, assessor da Associação dos Fabricantes de Automóveis no Brasil, estava em visita a Porto Alegre.

Ele nos contou que a crise econômica brasileira afetou a indústria de um modo geral, mas a de automóveis foi muito acima do esperado. Tanto que nos últimos quatro anos a queda de vendas, em especial dos veículos populares, caiu 30%.

O governo brasileiro, em reunião com a nossa Associação, nos pediu para baratear o preço dos automóveis, mas não abre mão dos impostos, um dos mais altos do mundo.

Nós, então, sugerimos retirar alguns itens obrigatórios, considerando pesquisa encomendada pela nossa Associação. Assim não teríamos os seguintes itens obrigatórios, a não ser de forma opcional:

1. pisca para mudar de faixa ou virar para esquerda ou direita, já que 74% dos motoristas não fazem uso desse item;

2. triângulo de sinalização, pois 83% dos motoristas nem sabem que ele existe;

3. cinto de segurança, já que se constatou que 85% dos acidentados não estavam utilizando esse item;

4. luz de neblina, onde 99% dos motoristas nem sabem ligá-la;

5. estepe, se constatou que 55% não os possuem em seus carros, guardando-os em casa;

6. rádios nos carros, são causa de 61% dos acidentes, quer pelo som altíssimo que impede que o motorista fique atento aos sons obrigatórios de sirenes, apitos dos guardas-de-trânsito, gritos dos transeuntes sobre idosos e crianças em situação de perigo, bem como as brigas entre o motorista e a esposa ou namorada sobre a rádio escolhida;

7. porta-luvas que, por não usarmos mais, se tornou obsoleto e, também, porque alguns motoristas, mesmo dirigindo, teimam em mexer lá, para provar aos demais passageiros, que o item que eles dizem não estar lá, está;

8. espelhos nos quebra-sóis, pois 63% das mulheres retocam a maquiagem com o carro em movimento, causando acidentes;

9. limpador de para-brisa traseiro, onde alguns modelos já o eliminaram;

10. macaco e chave de rodas, onde 79% não sabem onde se encontram nos carros, muito menos utilizá-los;

11. consolo para depositar copos ou latas, comumente usado para bebidas alcoólicas;

12. etc. etc.

Nós, então, perguntamos ao nosso convidado, o quanto a retirada desses itens baratearia o custo dos veículos.

- Por alto, em torno de 30%.

- Mas, Senhor William, isso não seria um tremendo retrocesso para a altíssima estatística de acidentes no Brasil?

- Sinto muito, amigos, mas o problema dos acidentes não são os carros, mas a qualidade dos motoristas, muitos dos quais nem prestam os cursos obrigatórios, alguns até compram as carteiras de habilitação.

- É, infelizmente você tem toda a razão.

- Durante a nossa pesquisa, nós entrevistamos dezenas de milhares de motoristas, desde jovens até idosos, e o que mais nos surpreendeu foram as respostas:

-60% não sabia o significado das faixas pintadas nas estradas e, nem tinham ideia da diferença da contínua e da intercalada. Alguns até responderam que era para a estrada ficar mais bonita;

-quanto às faixas zebradas, alguns disseram que era pra diminuir a velocidade, caso alguma zebra estivesse atravessando;

-o significado das placas oitavadas com borda vermelha em relação à preferencial. Muitos responderam que não sabiam o que era oitavada;

- as placas circulares com o desenho de um “E”, com um “E” e borda vermelha e com uma linha em diagonal cortando-o, era para dizer que o estacionamento seria permitido, desde que você o fizesse de forma oblíqua;

-o triângulo com miolo branco e borda vermelha, que significa dê a preferência, para muitos significava “rotatória em triângulo”;

- Perguntamos o que significava ” mão inglesa”. Alguns perguntaram se ela era diferente da mão brasileira, que tem 5 dedos;

- Meu Deus, William! Vocês devem ter ficado boquiabertos com a falta de conhecimento dos nossos motoristas!

- Para sermos sinceros, até hoje, ainda não acreditamos no que a pesquisa nos revelou...é muito triste!

- Meu caro Willian, eu acredito que no nosso país só se fiscaliza carro estacionado que, mesmo errado, não está oferecendo risco algum, mas os demais itens, esses sim causadores de acidentes, há grande negligência.

- É verdade, Clóvis! Nos falta vergonha na cara e, principalmente, fiscalização consequente. Olha os casos de crianças que morrem em piscinas por falta de fiscalização nos ralos de sucção, quando basta uma tampa ou dispositivo que interrompa automaticamente a sucção.

- E as casas noturnas, então! Depois daquela tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, quantas continuam funcionando de forma precária.

- Willian, só nos resta agradecer a tua presença na nossa mateada e, oxalá, um dia, possamos copiar o que fazem os chamados países sérios.

E, assim, encerrou-se mais uma mateada dos amigos do Garden City, que saíram cabisbaixos, pensando sobre nossas mazelas.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 27/07/2017 às 08h00 | sannickelle@gmail.com

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Seu Nonô

Seu Agenor, mais conhecido por Nonô, o mais antigo morador do Garden City, viveu até os 99 anos. Depois de ter sido internado diversas vezes, acabou falecendo em casa, cercado pelos parentes e alguns vizinhos mais íntimos.

Dizem que ele, antes de dar o último suspiro, não havia perdido sua característica de bronqueiro. Enquanto as filhas e os filhos o cercavam no leito de morte, pedindo-lhe que resistisse, ele lembrava, com voz rouca e fraca, a passagem semelhante do presidente do Estado do Rio Grande do Sul por 25 anos, Antônio Augusto Borges de Medeiros que, cercado pelos cupinchas da República Velha, respondia aos apelos dos que o cercavam:

- CORAGEM, CORAGEM, Dr. Borges...

- CORAGEM?...CORAGEM não me falta, o que me falta é AR...

Assim, também, se manifestava o seu Nonô:

- Deixem-me ir embora, eu não aguento mais esta vida sem sentido, em especial nesse país de corruptos em que vivemos.

E, os filhos contestavam:

- Como sem sentido, pai?

- Nós precisamos do senhor vivo...

- Precisam para quê, meu Deus!

- Ora, pai, isso é pergunta que se faça? Nós te amamos.

- Eu sei que vocês me amam, mas eu não amo mais a vida nem o nosso país. - Vocês não imaginam o sofrimento que eu, um velho de 99 anos, passa até para cumprir a rotina diária.

- Mas pai, a gente tem facilitado tudo pro Senhor, inclusive compramos este aparelho de surdez para que  pudéssemos manter um diálogo e saber das suas necessidades.

- Aliás, este aparelho de surdez, para os que não sabiam, foi muito oportuno para saber o que realmente falavam de mim, inclusive de vocês, que esqueciam que eu estava ouvindo. Aproveitei tudo isso para fazer algumas mudanças no meu testamento.

- Credo papai! Isso é coisa que se faça para nós, filhos dedicados, amorosos e presentes?

- É, basta falar em grana, pra vocês ficarem se auto-elogiando, como se eu não soubesse das queixas que vocês fazem quando estão longe de mim.

Os cochichos fora do quarto do seu Nonô eram intensos, principalmente pelas velhas filhas dele, as quais não se conformavam que até na hora da morte o pai pudesse ser tão ranzinza. Os vizinhos mais íntimos ouviam e também cochichavam entre si:

- É, o velho não é fácil!

- Mas, como síndico, foi um exemplo de honestidade...Coisa rara no Brasil.

- Mas, como marido, deixou muito a desejar. Quantas vezes eu ouvi ele brigando com a dona Amália, sua primeira esposa...

- É verdade, eu acho que até batia nela, coitada, que a Deus a tenha...

- A única que suporta o velho é a neta Marcinha, uma santa...

- Santa sim! Quantas vezes ela veio se queixar pra mim dos maus tratos do avô...

- É verdade, nem para aquela santa criatura ele deixava de infernizar...

- Por isso está aí, nesse morre não morre, que Deus me perdoe!

- É, e na hora de morrer, não adianta se arrepender, pedir perdão, com medo do inferno.  

Enquanto os cochichos na sala continuavam, no quarto, seu Nonô continuava seu périplo pré-morte aos filhos que o rodeavam:

- Vocês pensam que levantar todos os dias, lavar o rosto, mijar sentado, alcançar a toalha ou o papel-higiênico é tarefa fácil. Fácil para vocês, que ainda tem alguma vitalidade. Pra um velho, como eu, é um sacrifício medonho e, às vezes, humilhante, como chamar alguém pra sacudir pra mim!

- Credo, papai, como você pode afirmar uma coisa dessas. Nós estamos aqui, e na nossa ausência, a Marcinha o acompanha...

- Acompanha, nada! Vive de fofocas na vizinhança...

- Mas papai, a Marcinha dedicou toda a sua juventude a cuidar do senhor. Tudo bem que ela é um pouco desajeitada e distraída,...

- Acho que, por isso nunca namorou nem casou, mas daí a falar mal dela é inaceitável...

Entre uma tosse e outra, o seu Nonô não deixava de ser ferino:

- É porque vocês não sabem da metade da missa...Ela vive dando em cima dos empregados do Condomínio. Quantas vezes eu tive que pedir para ela entrar, tarde da noite.

- Como assim, dando em cima dos empregados? O senhor sabe que, apesar de seus 40 anos, ela tem idade mental de criança.

- Sim, eu sei, por isso me preocupo, quando ela demora para entrar.

- Outro dia, o guarda noturno veio me avisar que ela estava trepada numa goiabeira.

- Ah! Grande coisa, papai! Aqui no Garden City, com todas essas frutas no pomar, quem não se sente tentado a colher goiabas ou o que quer que seja na época?

- Tá certo? Mas, de vestidinho rodado e sem calcinha de baixo?

- Papai!

- Mas, olha as fotos, minha filha, as goiabas nem apareceram!

- Tiraram fotos?

- A endiabrada fez até pose!

 A tosse e os soluços aumentavam e o seu Nonô pedia:

- O urinol... por favor!

- Aqui está, papai...Acalme-se, que o médico já está chegando!

- Chegando, pra quê? Quem o chamou?

- Ora, fomos nós, papai!

- Então, vocês vão pagar a consulta! Vocês sabem que tá o olho da cara uma consulta em casa!

- Que bobagem, papai, nós fizemos uma “vaquinha” e vai custar só um pouquinho para cada um de nós e outro pouquinho pro o senhor...

- ”Porco cane!” Parem de falar comigo, como se eu fosse um velho idiota! Vocês são um bando de “Pão duro”! Não foi a mim, que vocês puxaram...

Mais um acesso de tosse e soluços e o seu Nonô parecia estar se despedindo...Os filhos se reuniram ao redor de seu leito e dizem ter ouvido suas últimas palavras:

- Se algum de vocês quiser mandar uma mensagem ao diabo, digam-me, agora, pois estou prestes a encontrá-lo”          

Ainda perplexos, os filhos deram-se as mãos, rezando para que Deus, em sua infinita bondade, o perdoasse.

“Vou lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias.” Albert Camus.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 18/07/2017 às 17h00 | sannickelle@gmail.com

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Um dia a casa cai

- Meu Deus! Está acontecendo mesmo! A Polícia Federal, junto com o Exército começou a prender todo mundo. Só no Congresso Nacional, foram 500 Deputados e 80 Senadores ...Os noticiários só falavam dessa megaoperação...As cenas televisivas mostravam parlamentares sendo arrastados pela gravata, pelo cabelo, agarrados as suas mordomias, mas sendo incapazes de resistir. Alguns tentavam chamar seus advogados, mas os celulares lhes eram arrancados e quebrados. Outros diziam que isso não ficaria impune, mas continuavam sendo levados à força para os camburões, onde eram jogados como sacos de batata.

- Pensei comigo: Só posso estar sonhando...deve ser porque vi, ainda ontem, aquele filme A Lista de Schindler...Mas, tudo parecia real. Belisquei-me várias vezes para ver se acordava e nada, os noticiários estavam ali para comprovar...

- O povo foi às ruas para aplaudir e dar apoio. Havia tanto entusiasmo que parecia uma grande festa. Quando passavam os camburões lotados de presos jogavam-se de tudo, desde ovos até coco de cachorro...A alegria do povo varou a noite, em todos os lugares. Eu não conseguia sair de frente da televisão, até que ouvi uma gritaria e fogos de artifício...Saí para ver o que ocorria no Garden City...Eram os moradores que faziam festa, chamando todos para a rua. Saí de pijama mesmo, caindo na folia...Entre abraços e choros nunca havia visto tanta alegria, parecíamos todos crianças. A praga da impunidade alcançara também os Estados, onde a maioria estava sendo presa.

- De repente, sacudidas constantes tentavam me acordar, achei que fora sufocado pelos abraços dos vizinhos do Condomínio, mas não, eram médicos e enfermeiros que faziam massagens cardíacas... eu tivera um surto e suava muito, depois fiquei sabendo do desfalecimento, em casa.

Quando, finalmente, me estabilizaram a pressão, pude compreender que nada daquilo, que é o sonho dos brasileiros honestos, tinha acontecido. Minha frustração só não era maior pela medicação sonolenta que me aplicaram. Muitas horas depois, acordei, sendo monitorado pela enfermeira que media minha pressão arterial. Ela, gentilmente me perguntou:

- Como está se sentindo, Seu Gumercindo?

- Melhor! Mas, você poderia me esclarecer uma coisa?

- Sim, o que o Senhor quer saber?

- Quantos dias eu estou no hospital?

- Trinta dias!

- Credo, tudo isso?

- O Senhor entrou em situação muito grave, mas felizmente conseguimos recuperá-lo...

- Enquanto estive internado, aconteceu alguma coisa no país?

- Não! Continua tudo igual...Mas, para seu próprio bem, não veja televisão, em especial os noticiários, pois as notícias podem piorar a sua situação.

- Agora, descanse e, qualquer coisa, me chame, tá bem?

- Sim, obrigado  

- Dias depois, tive alta hospitalar. Em casa, consegui me recuperar bem e, hoje, para minha satisfação, estou recebendo os meus amigos de mateada.

- Estou muito feliz por tê-los aqui em casa. Só lamento que o meu sonho, ou seja lá o que tive, não fosse realidade. Mas me contem as novidades, já que se passaram mais de um mês, desde a minha internação:

- Olha, Gumercindo, nem tudo que pensaste ter acontecido, foi sonho ou pesadelo, pois muito mais gente, entre políticos e empresários, foram presos pela Operação Lava Jato, nesse ínterim. Claro que não na proporção que nos contaste, mas, mesmo assim, os presídios estão abarrotados de engravatados safados, ou usando tornozeleiras eletrônicas. O país é uma prisão plena, só os traficantes continuam soltos.

- Aliás, as tornozeleiras viraram moda.

- Moda! Como assim?

- Em Brasília já tem a ala dos que usam tornozeleiras vermelhas com estrela branca. Também, os que as usam com símbolos religiosos, tucanos... alguns mais “abastados”, aplicaram ouro e pedras preciosas, como sinal de status.

- Meu Deus! Então, em trinta dias, pouco mudou o quadro político e social que me levou à internação?

- Infelizmente, é verdade!

- E o Presidente da República, foi cassado?

- Que nada, está no poder ainda, comprando todo mundo. Haja dinheiro, neste país, para agradar tanto político. Ele, nem sai mais do Jaburu, só negociando, mas mesmo assim achamos que ele cai...

- Alguém foi preso?

- Sim, todos os que denunciaram o Presidente.

- E os ministros corruptos?

- Continuam no poder, mais fortes do que nunca, com uma diferença, eles usam tornozeleiras verde-amarelas.

- E, o Juiz Sérgio Moro?

- Tá lá em Curitiba, mandando gente pra cadeia, sem parar. Dizem que ele teve até um problema na mão, de tanto assinar sentenças de prisão.

- Como é mesmo o problema do Juiz, Luiz Paulo?

- LER, lesão por esforço repetitivo...

- Mas, a frustração dele deve ser ainda mais dolorida... ele manda prender e o Supremo manda soltar ou, no máximo, ficar em prisão domiciliar.

- E, aqui no Garden City, como tão as coisas?

- Como sempre foram...

- Como assim?

- Toda aquela lorota do nosso síndico, enquanto candidato, que faria uma administração centrada em “Novas Ideias”, não aconteceu. É buraco no asfalto, é prestador de serviço se recusando a continuar nos atendendo, a limpeza das áreas comuns está péssima, não tem havido manutenção na iluminação... Enfim, não estamos muito diferentes do resto país.

- Credo, gente! Nada de bom aconteceu na minha ausência?

- É, quase nada. Bom, tem uma coisa, que pode parecer boba, mas foi implantada no Garden. Todas as domésticas são obrigadas a usar uniforme, fornecido pela Administração do Condomínio.

- Essa é a boa notícia?

 Depois disso ele passou mal e precisou ser internado novamente.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 10/07/2017 às 09h54 | sannickelle@gmail.com

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Encontro de presidentes

Naquele domingo de mateada, o Clóvis com a sua curiosidade habitual, nos perguntou:
- Vocês lembram daquele nosso vizinho poliglota, que foi trabalhar no Ministério de Relações Exteriores?
- Sim! Disse o Luiz Paulo...
- Só não me pergunte o nome dele, pois não lembro. Mas, por quê, Clóvis?
- Apenas curiosidade...
- Como assim curiosidade? Perguntou-lhe o seu Gumercindo, seu sogro.
- É que eu fiquei imaginando... se os assessores de presidentes, são capazes de traduzir com fidelidade aquelas conversas protocolares enfadonhas.
- Essa curiosidade até merece uma pesquisa com alguém que já fez esse papel. Aqui no nosso grupo, tem alguém que sabe algo a respeito?

O Sérgio, que naquele momento estava sorvendo o chimarrão, levantou a mão...Todos se voltaram para ele, em especial o Clóvis, que começou o assunto.
- Eu tenho um cunhado, que foi amigo de um sujeito que exercia esse papel nas viagens presidenciais; ele costumava contar muitas histórias a respeito, só não sei se todas eram verdadeiras...
- Legal!
Disse o Clóvis, eufórico.
- Você poderia lembrar de algumas dessas histórias, Sérgio?
- Eu lembro de uma que o Presidente Brasileiro, não lembro qual, visitaria o Presidente Russo...Durante o voo, o Assessor especializado nas duas línguas, vai fazendo algumas simulações para que não haja nenhuma bola fora. Mas o nosso Presidente, que era uma toupeira, tinha muita dificuldade em entender os aspectos protocolares, bem como as peculiaridades do povo daquele país. O que levou, então, o Assessor, a afirmar ao Presidente que ele consertaria, na língua russa, qualquer deslize para não ofender o anfitrião.
- Anfi... o quê, Assessor?
- O Presidente Russo!

No desembarque começou a confusão, porque o nosso Presidente esquecera o nome do anfitrião, e cochichou no ouvido do Assessor:
- Qual é o nome do Presidente da China?
- Senhor Presidente, nós estamos na Rússia, mas não precisa lembrar o nome dele, apenas o saúde com sorrisos e aperto de mão, depois o acompanhe por entre a guarda de honra...
- Tá bem! Vou começar a sorrir, logo que chegue à escada do avião...
- É, isso aí!

Ao terminar de descer o último degrau da escada do avião, o Presidente Brasileiro, ajoelhando-se no tapete vermelho, beijou o chão, enquanto o Presidente Russo ficava perplexo, com a mão estendida...Depois abraçou o anfitrião com tapinhas nas costas e na bunda. O Presidente Russo, sem entender patavina, também bateu-lhe nas costas e na bunda, achando que fazia parte da cultura ocidental. A nossa delegação, à semelhança da bandeira russa, ficou toda vermelha. Depois de chegar à sala VIP, o tal Assessor perguntou:


- Senhor Presidente, por que se ajoelhou antes de cumprimentar o anfitrião?- Ué! O Papa não faz isso, também!
- O ato de beijar o chão de um país, tão logo pise nele, quando é feito pelo Papa, é simplesmente um modo de expressar amor e respeito, bem como demonstrar a humildade do representante de Deus na terra.
- Pois, foi o que eu fiz!
- E, aquele abraço e o toque no traseiro do Presidente Russo?
- Ué! Depois que o cabra me beijou na boca, o que tu querias que eu fizesse? - Saísse rolando com ele, arrancando-lhe a roupa para um sexo selvagem? - COM QUEM ESSE SUJEITO ACHA QUE TÁ LIDANDO?
Com essa resposta, o Assessor se calou, benzendo-se longe do Presidente…
Depois, a comitiva seguiu para o Hotel Crowne Plaza Moscow World, que fica no centro, a 3,8 km do Kremlim.
O primeiro ato do Presidente, no dia seguinte, era depoisitar flores no Túmulo do Soldado Desconhecido. O Assessor, com medo de nova gafe, explicou, ao Presidente, o significado desse gesto:
- Túmulo do soldado desconhecido é o nome que recebem os monumentos erigidos pelas nações para honrar os soldados, que morreram em tempo de Guerra, sem que seus corpos tenham sido identificados. É um túmulo simbólico, evocando todos os habitantes de um país, que morreram em conflito.
- Você já encomendou as flores?
- A Embaixada brasileira já tomou todas as providências...Basta ir ao Jardim de Alexandre, em Moscou, para que o Senhor reverencie o Túmulo, podendo fazer uma pequena oração diante da coroa de flores...
- E a oração é em russo?
- Não! Na verdade, o Senhor apenas ficará em silêncio por alguns minutos.

O cerimonial foi mais ou menos tranquilo, se não fosse o Presidente pegar um cravo da Coroa e colocar na sua lapela, por pouco, não derrubando-a. Felizmente, como era um cravo vermelho, os russos entenderam como um gesto louvável e até aplaudiram. Muito embora, o cravo vermelho lembrasse Joseph Stalin.
Na cerimônia a seguir, que reuniu os dois Presidentes, a recepção foi mais coloquial, impedindo que o nosso representante bulinasse de novo o anfitrião.
- ????? ?????????? ????????? ????????!
Assombrado, o Presidente indagou ao fiel Assessor:
- CRIATURA, disfarça, fala baixo aqui, comigo:
- O que esse sujeito tá falando? Parece que engoliu um gravador estragado!
- Bem-vindo, Presidente Brasileiro!
- Pois, então, diga-lhe, em russo:
- É uma satisfação estar na terra de Stalin!
- ??? ???????????? ???? ?? ?????

??? ???????
O Assessor, no entanto, falou em russo, algo mais adequado:
- É uma satisfação estar na terra de Liev Tolstói. Famoso escritor russo, que ficou conhecido, pelo épico romance Guerra e Paz.

- Legal, Sérgio! Mas, será que isso aconteceu mesmo?
-Bem, isso já são outros quinhentos...Clóvis!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 27/06/2017 às 10h39 | sannickelle@gmail.com

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.
















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