Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

A mosquinha

Era sábado, dia de curtir uma rede na tranquilidade do Garden City...

O aparato policial, de 1700 homens, denotava a importância de se tomar o depoimento do ex-presidente Lalau, diante do famoso Juiz Moura, na República das Araucárias.

Desde cedo, manifestantes pró e contra se concentravam nos arredores do Palácio da Justiça, daquele pequeno país. O efetivo policial era de 1700 homens, portanto, estavam todos guarnecendo àquele Palácio, onde nunca um ex-presidente da república fora julgado.

Como não se podia televisionar, nem transmitir pelo rádio, a população toda estava na expectativa para saber dos detalhes. Mas, como saber se todos os canais existentes estavam bloqueados? Foi aí, que o mago Merlin, que conhecia os mistérios do céu e da terra, da vida e da morte dos homens e dos deuses, foi lembrado. Ele, então, se dispôs a ajudar, já que não gostava do Lalau. Como feiticeiro, mandou uma mosquinha para acompanhar o depoimento.

Na grande sala, o Juiz Moura, acompanhado de diversos Promotores Federais, tinha pela frente o ex-presidente, acompanhado de um batalhão de advogados.

Depois de o magistrado ter esclarecido como seria tomado o depoimento, bem como da limitação dos defensores em falar, foi iniciada a sessão.

A mosquinha do Merlin entrou na cabeça do depoente, para registrar na íntegra o que, de fato, pensava o ex-presidente:

“Como eu posso estar aqui, me submetendo a esse idiota? E, ainda, ter de pagar esse monte de advogados? Será que ele pensa que eu vou me entregar…? Ele não sabe como eu sou esperto, pior que um muçum vivo…”

O Juiz Moura fez a primeira pergunta:

- O senhor está sendo acusado de receber da empresa SOS, um imóvel de 500m2 de area construída, um sítio, além de benfeitorias nos mesmos, como vantagem por favorecer contratos do governo com essa empresa. É verdade?

- 500 m2? Um sítio? O presidente da SOS, me disse que era apenas um apartamento JK de 35m2 e, um terreninho mixuruca, e que não tava me dando e sim me vendendo. Um momentinho Sr Juiz, eu preciso consultar meu advogado…

Ao se aproximar do seu defensor, a mosquinha saiu do ouvido do Lalau e voou para o interior da boca do advogado, fazendo com que uma tosse incontrolável o impedisse de ouvir o seu contratante. Diante disso, o depoente ficou muito irritado, afastando-se do advogado que o cuspira todo.

- Dr. Moura, quando eu fui ver os tais imóveis, que o Senhor diz ter 500m2, só o apartamento, vi que era uma droga. A cozinha praticamente não existia, as garagens privativas poderiam acomodar apenas meia dúzia de carros e não tinha sacada. O terreno tinha muito mato, a piscina estava mal conservada, a casa do caseiro só poderia acomodar um casal e, o pior, a casa só possuía três suites e, eu, como o Senhor deve saber, possuo quatro filhos, noras e dois netos. Realmente, não tive interesse algum nos imóveis.

O advogado que tossia sem parar, tentou novamente falar-lhe ao ouvido do ex-presidente, mas foi em vão…O Juiz, então, continuou a fazer perguntas:

- Senhor ex-presidente, a SOS, naquele singelo ato comercial, precisaria estar representada pelo seu presidente? Isso não lhe chamou a atenção?

- Sim! Me chamou a atenção. Eu até perguntei para esse advogado que até agora não parou de tossir e me cuspir, o que eu deveria dizer sobre isso.

- E, o que ele lhe orientou?

O advogado que tossia sem parar, ficou branco, apesar da tosse, porque o seu contratante poderia botar os pés pelas mãos. Foi, então, que o Juiz insistiu:

- Senhor ex-presidente, por quê razão o presidente da SOS estava presente para oferecer-lhe aqueles bens?

- Bem, como já nos conhecíamos, desde aqueles contratos envolvendo a Estatal de Petróleo, eu o tinha como…como “cúmplice”, ou melhor, amigo, por isso ele foi, pessoalmente, me apresentar os imóveis. Achei um gesto de grande consideração comigo!

- Por quê , senhor ex-presidente, foram feitas reformas nos imóveis?

- Na verdade, eu ainda não tinha decidido se aceitaria os imóveis, ou melhor comprá-los, por isso um arquiteto e os engenheiros da SOS resolveram adequar aqueles itens que nós havíamos classificado como inaceitáveis .

- Nós, quem?

- Ora, Dotô Juiz! Eu, minha mulher, os filhos, as noras e até os netos.

- Quer dizer, então, que se os profissionais da SOS, fizessem as modificações nos imóveis, o Senhor os receberia?

- Sim! Eu os receberia, ou melhor eu os compraria, até porque o preço era uma bagatela, não dava pra recusar, Dotô!

- Qual o preço que a SOS lhe fez, mesmo após todas as reformas pedidas?

- Algo em torno de cinquenta contos.

- Pelo que sei, Senhor ex-presidente, só o apartamento vale uns 3.700.000,00.

- Tudo isso! Por quê, então, o Presidente da SOS me pediu só 50.000?

- Eu, é que lhe pergunto, por quê?

- Vai ver que a empresa dele tava mal das pernas, né?

Enquanto o Lalau estava se enterrando diante do Juiz Moura, os demais advogados, junto com aquele que tossia sem parar, estavam pasmos, porque tudo que tinha sido instruído para o depoente dizer, ele esqueceu.

- Senhor, ex-presidente, se o Senhor disse que não demonstrou nenhum interesse pelos imóveis, por que aceitou que fossem feitas melhorias?

- A minha mulher me disse, ao pé do ouvido e pisando no meu calo, que só aceitaria os imóveis, se fossem feitas todas as modificações que ela combinara com o arquiteto e com os engenheiros da SOS.

A população toda, da República das Araucárias, ficou sabendo de tudo, graças à mosquinha intrometida. Para os defensores do Lalau foi uma vitória. Para os contrários, no entanto, uma confissão de culpa.

- Pois, mudando de saco pra mala, não é que a tal mosquinha me pousa na ponta do meu nariz? Quero dizer, com isso que estava a dormir languidamente, em minha velha rede…E a insetinha resolve furungar a ponta da minha narina esquerda! E, me acordo!

- Simples assim…

- Então…Tudo foi um sonho?

- Mas, e a mosquinha?...A mosquinha era real!

- Durma-se, com um pesadelo desses!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 16/05/2017 às 09h27 | sannickelle@gmail.com

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Sítio da Néia

Longe da cidade, onde os telefones celulares não pegam, podemos nos dedicar a um antigo hábito, conversar. Coisa rara, nos dias de hoje. Basta olhar os comensais num restaurante qualquer, poucos conversam enquanto esperam a comida ou mesmo durante a refeição, destinando seu tempo precioso a dedilhar aqueles aparelhinhos eletrônicos, como se os distantes estivessem à mesa. Enfim, sinal dos tempos, o que se há de fazer?

Nossa família, no entanto, achou um jeito peculiar de se comunicar, como na idade da pedra, passando os fins de semana no sítio da minha cunhada Néia.

Lá, as aves gorjeiam, enchendo-nos de alegria ao vê-las, livres dos homens egoístas que tentam aprisioná-las, sem dó nem piedade. Deviam era ler o nosso poeta Olavo Bilac: “Se os pássaros falassem, talvez os teus ouvidos escutassem este cativo pássaro dizer: Não quero o teu alpiste! Gosto mais do alimento que procuro na mata livre em que voar me viste; Tenho água fresca num recanto escuro.”

No fundo da pequena propriedade, corre, de forma sinuosa, um ribeirão de águas cristalinas, onde lambaris em cardume nadam, em busca de alimento. Jogar-lhes pequenas lascas de pão é uma diversão, quando, pelo afoito desejo de chegar primeiro, seus dorsos escuros dão lugar ao prateado de suas escamas. Nesse frenesi de saudável convivência, os adultos estimulam as crianças a respeitar a natureza, permitindo-lhes apenas apreciá-los no seu hábitat.

Lembra-me do “Planeta Água”, como canta Guilherme Arantes:

“Água que nasce na fonte serena do mundo
E que abre um profundo grotão
Água que faz inocente riacho
E deságua na corrente do ribeirão”


No Sítio da Néia, as horas passam, mas num compasso diferente, é como se o tempo se desse ao luxo de descansar, permitindo-nos colocar todas as conversas em dia. Enquanto minha outra cunhada, a Marilda, dedica-se, por opção e prazer, a atiçar o fogo do fogão caipira, onde panelas de barro exalam cheiros de comida caseira, nós mais velhos, brindamos com o chimarrão da Cris, gaúcha de Bagé, que sabe preparar o mate como ninguém.

Quando a comida tá pronta, cada um faz seu prato na hora que lhe convier, sem cerimoniais de mesa posta. É um entrevero que dá gosto, uns comendo, outros brindando, e as crianças brincando de balanço, jogando bola e rindo de tudo.

Nessas horas, lembro do Lupicínio Rodrigues, que dizia:

“Felicidade foi-se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque eu sei que a falsidade não vigora.

A minha casa fica lá detrás do mundo
Onde eu vou num segundo, quando começo a cantar
O pensamento parece uma coisa à toa
Mas como é que a gente voa, quando começa a pensar...”

Depois de almoçar, as vezes, tiro um cochilo na rede sob as árvores... meus ouvidos, no entanto, continuam atentos a algaravia das conversas e dos folguedos da piazada. Olho para cima e vejo que os frutos do cambuizeiro já estão maduros, basta esticar o braço e logo estou saboreando aquela delícia de fruto silvestre. O cambuí, de gosto, lembra a jaboticaba, mas não dá no tronco e nos galhos. O que eles tem em comum, é frutificar na mesma época do ano.

As goiabeiras forram o chão de frutas maduras, das quais a Marilda faz uma deliciosa geleia, pra comer com pão caseiro, feito pela minha sogra. Aliás, a dona Elsa, com seus quase 90 anos, parece ficar mais jovem no sítio. Faz sobremesa das peras e, também, o meu preferido manjar branco, onde vai coco com ameixas pretas... Irresistível!

A única coisa que não se espera no sítio é fazer regime para emagrecer, quem tentou, se estrepou com alguns quilinhos a mais.

Às vezes, algumas conversas viram discussões, tudo para não perder o hábito de querer ter razão. Mas, até hoje, ninguém brigou de forma definitiva; o termômetro é a vontade de se reencontrar no próximo fim de semana .

A manutenção da casa é compartilhada, principalmente em termos de víveres e material de limpeza, onde todos tem plena liberdade para fazer churrasco ou comida no fogão à lenha. Qualquer das modalidades de comida é também compartilhada, sem estresse.

Nossa última Festa Junina foi feita no sítio, com direito a fogueira, bandeirinhas, pipoca, pinhão e muita animação. Foi uma noite memorável, sem qualquer prejuízo aos vizinhos distantes. Coisa quase impossível de se realizar na cidade.

No Sítio da Néia, resgatamos o que consagrou Lupicínio Rodrigues quando compôs a frase:
“...Eu falo porque essa dona já mora no meu barraco à beira de um regato e de um bosque em flor...”

No caso, a dona é a própria felicidade.

Naquele sítio, ao final dos domingos, de onde acabamos de renovar nossas baterias, só nos resta fechar a casa e voltar para enfrentar a cidade, seu barulho e a sua burocracia. Enquanto partimos, nossos corações estão de olho no retrovisor, sentindo saudades daquela vida simples que um dia o progresso nos impôs distância.

O que nos consola, é o que canta Simone em “TÔ VOLTANDO”

“Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
eu tô voltando
Põe meia dúzia de brahma pra gelar...
Eu tô voltando”


Assim tem sido muitos de nossos fins de semana, rodeados do carinho da família.

A família, que serve de refúgio contra os problemas do dia a dia, encontra no sítio o ânimo que a fortalece.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 09/05/2017 às 16h41 | sannickelle@gmail.com

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Quem perde, quem ganha?

Depois da assembleia sobre os pets, decidimos fazer a mateada na garagem do seu Gumercindo, por que choveria muito naquele domingo.

O dia amanheceu como se não tivesse acordado, sonolento e preguiçoso. Eu pensei até em ficar na cama, mas era domingo e a mateada confirmada exigia a presença de todos, afinal compromisso é de se respeitar sempre. Tomei café, dei um beijo na patroa e fui...Sob o guarda-chuva, as pancadas molhavam da cintura pra baixo; cheguei metade seco e metade ensopado na garagem do Gumercindo. Lá, já estavam o Sérgio, o Luiz Paulo, o Reinaldo, seu Gumercindo e o artista do chimarrão, o Clóvis.

- Buenas! Que dia propício para uma mateada, não é pessoal?

Os companheiros ficaram em silêncio, como se eu tivesse feito uma afirmação.

Sentei-me ao lado do Sérgio e sussurrei-lhe:

- Tá tudo bem?

- Sim, por quê?

-  Ué! Parece um enterro, ninguém respondeu meu cumprimento.

- Acho que todos ainda não acordaram, mas logo-logo, o chimarrão vai esquentar e soltar a prosa... podes crer!

- Eu espero, Sérgio, por que molhado como estou só um mate bem quente, para animar!

Depois daquele silêncio sepulcral, o seu Gumercindo sorveu o primeiro mate e falou:

- Bom dia amigos de mateada! Obrigado pela presença de todos! O dia chuvoso nos torna mais pensativos do que falantes, mas como o nosso objetivo é comentar os últimos acontecimentos, façamos um esforço, enquanto o meu genro cuida do mate. O Sérgio foi o primeiro a falar:

- Eu gostaria de comentar aquela assembleia sobre os pets, mas a intervenção magistral do Pastor Aldo não deixou dúvidas sobre nossa culpa em querer ter tantos bichos de estimação, sem a contrapartida do carinho e atenção que eles requerem. No entanto, amigos, estou mais preocupado com as decisões que o Congresso Nacional está tomando.

- Como assim, Sérgio?

- Assim como não existe vida solitária, isenta de influências do vizinho, do síndico, do governo, estamos prestes a receber, goela abaixo, novas relações de trabalho, que poderão trazer consequências imprevisíveis para todos nós.

- Sérgio, tu tens razão, realmente o assunto é polêmico!

- Sim, Clóvis! Mas, veja o que se pretende, por exemplo, com a proposta do banco de horas. Enquanto, hoje, a hora adicional é remunerada com 50% e até 100%, pelo sistema de compensação, cada hora excedente trabalhada em um dia é trocada por apenas uma hora de descanso em outro.

- É, não parece justo, mesmo!

- O que tu acha SAN?

- Eu estava na barriga da minha mãe, Graciolinda, quando em primeiro de maio de 1943, o Getúlio Vargas promulgou a CLT, Consolidação da Leis Trabalhistas. Naquela época, o Brasil vislumbrava um cenário de industrialização e crescimento de apenas um país agrário.

Enfim, a CLT varreria de vez os regimes de trabalho escravocratas. Os trabalhadores passaram a ter direito a férias, salario mínimo, jornada de trabalho fixa, pagamento de horas extras, entre outros benefícios. Fundamental para um país capitalista.

- Eu acho, pessoal, que a reforma trabalhista é um retrocesso.

- Como assim, Luiz Paulo?

- Porque está baseada na retirada de direitos dos empregados de qualquer setor.

- É verdade, Luiz Paulo, e dizer que não haverá mudança alguma é balela!

-E o senhor, seu Gumercindo, o que pensa?

- Pra mim, é totalmente falso afirmar que a CLT é a culpada pelo desemprego de 13 milhões de pessoas. O problema, a meu ver, é com a economia que não está aquecida. Quando o cenário era favorável, ninguém encontrava na CLT o bode expiatório e também não se preocupavam com a reforma trabalhista.

- Bem pensado ,meu sogro!

- A própria Justiça do Trabalho é contra a reforma. Juízes e promotores defendem que a legislação garante somente os direitos mínimos aos trabalhadores. Já a proposta de reforma pode abrir uma brecha, se aprovada em negociação, para que os trabalhadores ganhem menos que o salário mínimo.

- Desculpe interferir no teu pensamento, Reinaldo, mas a valorização da negociação coletiva não é uma tendência mundial?

- Sim, Clóvis! Todos os países do centro europeu estão enaltecendo mais acordos sindicais, a exemplo da Espanha , Portugal, França e Alemanha. Na América Latina, podemos dizer que o Uruguai e a Argentina têm uma cultura coletiva mais desenvolvida do que a do Brasil.

- Quer dizer, com isso, que o acordo coletivo visa atender as peculiaridades de determinadas categorias.

- Isso mesmo, Clóvis! Não é possível ter o mesmo regime para trabalhadores da indústria e do comércio varejista, por exemplo.

- Mas, afinal, quem ganha e quem perde?

- A meu ver, quem ganha mais é o empregador.

- Eu também penso assim, Reinaldo! O governo, que não é de esquerda, vai modificar a Previdência Social e a Trabalhista, visando precarizar os direitos. Aliás, as altas taxas de desemprego insuflam ainda mais os ânimos para a realização dessas mudanças.

- Só para trazer uma opinião abalizada à baila, vejam o que disse o presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e região:

“...dezenas de categorias serão prejudicadas se os acordos entre empresários e trabalhadores estiverem acima do legislado.”

- Pessoal, o papo tá muito bom, mas chegou a hora de voltarmos às nossas necessidades básicas.

- Pois, então, fale, seu Gumercindo?

- Almoçar, minha gente! Afinal hoje é domingo e o almoço em família é coisa séria. Vamos pensar assim, minha gente: Apesar de tudo, penso que vale a pena a gente prosseguir e lutar por dias ainda melhores.

 

Obs. Créditos ao Jornal da Universidade(UFRGS) n.45, edição 199, março de 2017, texto de Samantha Klein , que deram sustentação aos diálogos na crônica

Escrito por Saint Clair Nickelle, 03/05/2017 às 14h54 | sannickelle@gmail.com

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A revolta dos pets

Depois que inventaram o pet Shop, nossos animais de estimação passaram a ser mais fofos e exigentes. Lembro-me de ter lido o significado de pet: “significa animal de estimação, e que o termo vem do inglês. Mas por que, exatamente, chamamos eles disso, em inglês ou português? Bom, a verdade é que a palavra pet vem de um significado muito fofo e antigo. Os primeiros registros desse termo usado para animais de estimação são de 1530, da Escócia e do dialeto do norte da Inglaterra. E nessa época pet era usado como sinônimo de animal preferido.”

O fato é que depois que se criaram restrições de ir e vir para nossos cães no Garden City, que os latidos e uivos noturnos tem sido insuportáveis, pelo menos para quem tem sono sensível, como eu.

Às vezes, quando acordo pela madrugada sob o concerto dos uivos e latidos, fico pensando se não é uma decisão orquestrada. Afinal, como dizemos: “eles só faltam falar”, por que, então, não poderiam combinar uma revolta?

A situação ficou tão grave, que muitos vizinhos resolveram fazer um abaixo assinado para a Administração do Condomínio, solicitando uma assembleia extraordinária para tratar do assunto.

O Síndico, Seu Fabiano, aceitou convocar a assembleia, pois também, pelo que se soube dos seus vizinhos, sua mulher não conseguia dormir uma noite inteira, tal como nos tempos de sua filha recém nascida. Mas, ele estava muito preocupado, porque recebera dois abaixo-assinados, um que queria assembleia para tratar do barulho dos cães e outro que era contra a realização da assembleia, onde os alegantes diziam já existir restrições demais aos seus pets.

De qualquer forma o número de peticionários pró assembleia era superior ao de contrários, por isso decidiu-se pela convocação.

No dia aprazado, o caramanchão da Praça Central estava lotado de moradores. Havia uma divisão quase espontânea, de um lado os a favor da assembleia e do outro, os contra...algumas rosnadas, ou melhor sussurros, demonstravam uma certa animosidade entre os presentes.

O Síndico se aproximou e deu por aberto os trabalhos, solicitando que o público escolhesse, dentre os presentes, quem presidiria a assembleia. Isso gerou uma primeira confusão, porque o pessoal do contra, que sabia estar em minoria, não teria chance alguma de escolher o presidente. Defendeu, então, a tese do próprio Síndico presidir, o que foi aceito pelo pessoal a favor...

O Seu Fabiano lembrou a todos do único item de pauta:

- PERTURBAÇÃO DE SOSSEGO PELOS CÃES

O Sebastião, que liderava o grupo dos contra a reunião, logo pediu a palavra:

- A culpa é dos próprios moradores, nunca tinha visto tanto cachorro nas casas, por isso ninguém mais consegue dormir. É latido e uivo toda noite!

O Sérgio, que estava no grupo dos à favor da assembleia, falou:

- O número de animais de estimação, quer sejam gatos e cães e outros, como passarinhos, chinchilas, etc...faz parte da liberdade de cada morador, assim como ter um, dois, três ou mais filhos, portanto, esse argumento do Sebastião não contribui em nada para a solução do problema.

- Pera aí. Sérgio! Tu não vem me contestar, porque se tu tem sono pesado, deve respeitar os que não tem!

- Eu nunca dormi contigo para afirmares se tenho ou não sono pesado e, além do mais, eu não aceito ser contestado por ti, que tem dois cães. Eu, por exemplo, não tenho nenhum, nem por isso estou aqui para reprimir os que tem.

O Sebastião que, além de arrogante era muito ignorante, prometeu acertar as contas, em particular, com o Sérgio. Mas, o Síndico interveio:

- Pessoal! Nós não convocamos esta assembleia para ofensas pessoais, mas para discutir ideias a respeito do problema, portanto vamos apresentar sugestões que não tirem a liberdade dos moradores, de ter ou não animais de estimação. No passado, onde os cães andavam soltos sem qualquer restrição, decidiu-se limitar a soltura para depois das 23horas, sendo que nas outras horas, só seriam permitidas saídas pela guia.

A Helena, que era defensora dos cães e de sua plena liberdade, desde que o animal não oferecesse perigo para as pessoas, pediu a palavra:

- Olha pessoal! Eu sou uma das primeiras moradoras do Garden, já passei por todas as experiências, desde a liberdade total dos nossos cachorrinhos, até a restrição absoluta para eles. Sei, que no início éramos poucos moradores; também sei que, hoje, todos os terrenos estão edificados, o que consequentemente aumentou muito o número de pessoas, de carros e de animais de estimação. Sempre que um certo número de componentes aumenta, mesmo num condomínio, as regras precisam ser rediscutidas e observadas por todos, senão vira bagunça.

- Tu tá certa, Helena! Mas, as nossas regras, mesmo obedecidas, não estão fazendo efeito algum sobre os cães, que uivam e latem demais durante a noite. Eles, apesar de nossa estima, não conseguem fazer silêncio, nem sabem o que é isso. Nem todos eram ponderados ao falar:

- Eu sugiro que seja proibido continuar a ter cães no condomínio...

- Sai pra lá, radical, filho de uma égua! Vai dar sugestão assim na “ China! ”

- Filho de uma égua é a tua mãe...

Os dois moradores se engalfinharam em luta corporal, mas os deixa disto apartaram. Mesmo assim, separados, prometiam se pegar depois...

O Síndico, percebendo o iminente conflito que o tema suscitava, resolveu pedir ajuda ao pastor Aldo que, além de condutor de almas, era veterinário.

Ele, com muita calma, falou, com propriedade:

- Um som familiar e único dos cães é o uivo; com isso o cão comunica excitação, alerta, solidão ou desejo É um recurso que o cão usa para se comunicar a distância. Através do uivo, ele pode ser ouvido a vários quilômetros de distância. Serve para avisar a matilha e a presença de fêmeas no cio.

O uivo dos cães é quase tão contagiante quanto o bocejo aos humanos. Quando um cão começa a uivar, todos os outros uivam também.

Grupos de cães presos costumam uivar à noite ou durante as primeiras horas do dia.

Para nós, o som do uivo é muito desagradável. Usualmente esse som é emitido por cães muito solitários e/ou presos. Na verdade, ele está dizendo para o dono seu desejo de companhia e liberdade. A solução, para quem quer que seu cão não seja um estorvo, é sair mais com ele e dar-lhe mais atenção, só assim ficará calmo e deixará de latir e uivar em excesso.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 25/04/2017 às 11h42 | sannickelle@gmail.com

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Brincadeira de criança

Em pleno outono, os primeiros sinais do frio começavam a aparecer antes do sol nascer. Tão logo ele surgia, no entanto, as gotículas de sereno acumuladas nas plantas, escorriam graciosamente para o solo seco. Trata-se de uma transição do verão escaldante para o inverno de muito frio, em especial para o clima do sul do país.
Peguei meu jornal Zero-Hora de domingo e fui até a Praça Central; chegando lá escolhi um banco, sob a sombra de um frondoso eucalipto, e me sentei para ler...
Uma algazarra de crianças, chamou-me a atenção, porque estavam combinando uma brincadeira que, pelo nome, eu jamais havia visto...brincar de governo.
- Que raios de brincadeira é essa? pensei em voz alta!
Só me restava abandonar o jornal e acompanhar as regras ditadas pelos meninos mais velhos. O Michel, que parecia ser o manda chuva deles, disse:
- A nossa brincadeira só pode começar se escolhermos quem vai ser povo, quem vai ser governo e quem vai ser polícia...
- Eu quero ser governo! disse a Maria Lúcia, única menina no grupo...
- Tá legal! Tu vai ser a Justiça!
- O que faz a Justiça?
- Ela é o único lugar que protege o povo...lá, qualquer membro do povo estará protegido da polícia...o teu lugar vai ser aquele banco, perto daquele senhor que está lendo jornal, tá bem?
- Tá certo!
- Quem vai ser governo, além da Maria Lúcia?
- Eu, que vou ser o Presidente da República! Além de mim, o Benício vai ser o Presidente do Senado e o Marcelo vai ser o Presidente da Câmara...
- Nós três vamos escolher a polícia...
- Nós escolhemos o Otavinho e o Paulinho para serem a polícia.
- E nós?
- Vocês vão ser o povo...
- E o que faz o povo?
- O povo vai sustentar o governo e para isso será perseguido pela polícia e, caso um de vocês for pego, será trazido até nós...
- Pra quê?
- Vocês tem que pagar alguma coisa para o Governo, como uma peça de roupa, por exemplo. Quem ficar só com a roupa de baixo sai fora da brincadeira.
- Que sem graça, a gente ser o povo...
- É, mas é assim que é a brincadeira de governo!
- Tá bom! A gente topa, não é turma?
- Sim!
- Antes de começar a brincadeira, lembrem-se que o nosso território é a praça. Então, ninguém poderá sair daqui! E, não esqueçam, que na Justiça é o único lugar que vocês poderão se proteger da polícia, mas lá não poderão ficar por mais de 10 segundos...
- E, quem vai contar o tempo?
- A própria Maria Lúcia.
- E, quando termina a brincadeira?
- Quando o governo tirar tudo do povo.

Enquanto eu estava pasmo diante daquela organização, pensando como as crianças adaptaram tão bem uma brincadeira com a situação real de governo e governados, até esqueci minha leitura e passei a acompanhar o corre-corre...
Logo, a polícia fez sua primeira vítima. Tratava-se de um menino gordo, o bolinha, que não tinha muita agilidade.
- Presidente, aqui tá um membro do povo. Que vamos tirar dele?
- Tirem o tênis, assim vai ser mais fácil tirar o resto...Depois podem soltá-lo!

Os demais meninos, por serem bem mais ágeis que a polícia, ora se protegiam na Justiça, ora corriam em zig zag, dificultando a ação dos policiais.
Mas, de novo a polícia prendeu o bolinha...
- Mas, não é possível! Pelo amor da Santa! Misericórdia! De novo pegaram o Bolinha...Eu não conseguia desgrudar daquelas crianças. Pensei em voz alta.
- E agora, Presidente, o que vamos tirar dele?
O Presidente resolveu, então, consultar os Presidentes do Senado e da Câmara...
- Nós sugerimos que se tire o calção dele...
- Mas, o bolinha que além de gordinho, também era envergonhado, se rebelou:
- O calção não! Ou eu saio da brincadeira!

O Presidente da República, então, resolveu intervir e disse aos demais parceiros:
- Pessoal, o bolinha tem sido nossa grande chance de sacanear o povo, portanto não vale a pena tirar-lhe o calção, pelo menos por enquanto! Que tal tirarmos a camiseta dele?
Os demais membros do governo concordaram e o bolinha foi solto sem tênis e sem camisa.
Enquanto a brincadeira continuava, de repente um tumulto foi percebido pelos membros do governo. Tratava-se de uma emboscada do povo para com os dois policiais, dos quais foram tiradas as roupas do Otavinho e do Paulinho. Diante da quase nudez da polícia, os membros do governo se uniram aos policiais e passaram a perseguir os membros do povo. Diante disso, o povo se refugiou na Justiça e a Maria Lúcia, decretou:
- Como os membros do governo resolveram agir como polícia também, o povo ficou prejudicado, o que não é justo...
- Eu sou o Presidente da República e eu determino que a Justiça solte o povo para que possamos tirar-lhe tudo que ele tem!
- Mas, eu sou a Justiça e não aceito ordens do Presidente! O senhor está destituído do cargo! No seu lugar deve assumir o Presidente do Senado!
- Mas, eu não aceito ser destituído do cargo! E tu, Benício, seria capaz de assumir meu lugar?
- Sim, Michel! A partir deste momento eu passo a ser o Presidente da República e, se tu reclamar, eu mando te prender.
- Mas Benício que sacanagem, hein? Tu me paga, tá!
- Eu sempre quis ser o presidente, mas você se escalou primeiro...

Completamente embasbacado com aquela brincadeira, pensei cá comigo:
- Meu Deus! E eu que pensei que as crianças de hoje ainda brincavam de “pau no gato”, “cabra-cega”, “esconde-esconde”...Preciso contar isso lá em casa.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 19/04/2017 às 13h29 | sannickelle@gmail.com

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Outono, estação de mudança

O verão, pouco a pouco, cedia lugar ao outono que, com muita chuva, não conseguia atenuar aquele calor grudento. As plantas com seus verdes sem qualquer sinal de pó, mostravam matizes distintos, desde o verde intenso até o amarelo/avermelhado, sinalizando que as plantas caducas já começam a perder as folhas. Algumas árvores, despudoradas, ficavam completamente nuas... mesmo assim as fofoqueiras de plantão não “pegavam no pé” delas!

Do ponto de vista cultural, o outono é uma estação que inspira beleza, mas também a melancolia, por isso sempre foi considerada tempo de mudança. O outono não é apenas folhas secas no chão...é uma estação em crise existencial. Uma hora está quente, cheia de amor para dar. Outra hora está triste e fria.

O seu Gumercindo, em sua tradicional cadeira preguiçosa, estava na varanda esperando a visita de seu irmão e cunhada que, trariam sua sobrinha Gerusa para prestar concurso público em Porto Alegre. Mas não deixava de admirar a beleza da paisagem outonal do Garden City, tal qual imortalizou o pintor holandês Vincent Van Gogh em sua famosa obra “Paisagem de Outono”, de 1853.

O tilintar do telefone interrompeu seu devaneio, era da Portaria, anunciando a chegada do Izidoro, dona Maria de Lourdes e da filha Gerusa. Vinham de Bagé, onde lá residiam desde sempre. O Izidoro, assim como o Gumercindo, eram pessoas tradicionais da sociedade bageense, mas o irmão, por ter permanecido na lida do campo, tinha evoluído muito pouco em termos de comportamento familiar, não admitindo nem discutir os novos valores, em especial dos jovens.

O filho mais velho, Gabriel, não suportando os ditames do pai, logo que pode, se mandou de Bagé, indo morar no Rio de Janeiro, onde hoje exerce a profissão de modelador de alta costura. Faz muitos anos que não visita o pai, mas morre de saudade da mãe e da irmã!

Depois dos efusivos abraços, todos entraram para se acomodar e saborear a comida da dona Odete, famosa pela qualidade de sua culinária.

Durante o almoço, não faltaram as perguntas sobre os parentes, seus filhos, amigos e, também, quem havia falecido. Falaram, também, das perspectivas de casamento da Gerusa, já com 21 anos de idade. O seu Izidoro pigarreou e disse que a filha não tinha namorado, que ele soubesse, E, mudou o rumo da prosa:

- Ela é muito estudiosa, sabe Gumercindo! E nós esperamos que se saia bem nesse concurso para o Banco do Brasil. Tu bem sabe, como tá difícil pra essa juventude conseguir emprego e, se ela passar, estará feita para o resto da vida. Esse é o nosso sonho, meu e da Maria de Lourdes.

- Concordo contigo, Izidoro! Não tá nada fácil pra ninguém. Eu vejo pelo Clóvis e a Soledade, que mesmo sem filhos, às vezes precisam da nossa ajuda financeira.

- Gumercindo! Eu agradeço a gentileza de hospedar a Gerusa, mas nós vamos voltar amanhã pra Bagé, pois o olho do dono é que engorda o gado!

- Tudo bem, meu irmão! Fica tranquilo, que faremos tudo para que a Gerusa se sinta em casa, e realize o teu sonho de passar no concurso!

À noite, na cama, o casal confabulava sobre a sobrinha e os planos do Izidoro:

- E, aí meu bem! O que tu achou da situação?

- Eu penso que teu irmão é cego, e o pior, quer determinar a vida da filha, como tentou fazer com o Gabriel.

- Acho que tu tem razão! O Gabriel acabou se afastando da família, depois que o pai começou a desconfiar de sua masculinidade e tratar-lhe mal. Agora, tenta fazer o mesmo com a Gerusa...

- E, afinal de contas, não sei ainda se essa guria se identifica como mulher ou como homem..

- É verdade! De feminina ela não tem quase nada.

- E o Gabriel brigou com o pai porque este lhe negou pagar um curso de moda. A irmã, no entanto, poderia até comandar a fazenda da família. É determinada e tem poder de liderança, tal qual o pai.

- Mas como fazer teu irmão enxergar, Gumercindo? Seria ele, capaz de aceitar a diversidade sexual e de gênero dos filhos?

- Tô aqui pensando com meu primeiro botão do pijama, e não faço ideia...

Enfim, o sono chegou e os anfitriões acabaram dormindo.

No outro dia, enquanto preparavam o café, a tia e a sobrinha, conversavam:

- Então, Gerusa! Está decidida a virar funcionária de um grande Banco?

- Olha, tia Odete, vou te falar em segredo...na verdade, é mais um sonho do pai do que meu, mas tu sabe que ele pouco escuta a gente. Eu sonho em viver como o Gabriel, longe das limitações do pai e da mãe e da própria comunidade preconceituosa, onde vivemos. Pode ser, no entanto, que o concurso e um emprego me dê a oportunidade de mudar de vida...

- Fica tranquila, filha, eu sei muito bem como teu pai é dominador e totalmente cego para os anseios de vocês e da própria Maria de Lourdes.

- Que bom tia, que posso me abrir pra ti...

- Claro! Sempre que tu precisar, estarei aqui e serei tua confidente. Não te preocupa, vou manter segredo absoluto, pode confiar querida...

- Obrigada, tia! Quer um cigarro?

- Não! Deixei de fumar há muito tempo.

Os dias se passavam e, a Gerusa seguia prestando as provas do concurso. Cada dia, no entanto, estava mais encafifada... a tia, muito atenciosa, não lhe dava espaço para uma prosa de verdade. Mas a tia, que não é boba, abriu o jogo:

- Querida! Tu gostaria de me falar alguma coisa muito pessoal, que talvez não consiga com tua mãe?

- Sei lá tia!! KKKKK

- Eu, desde sempre, acho... não consigo me comportar como as outras gurias da minha idade...não gosto de maquiagem e nem sinto atração alguma por babaquices femininas. Nem sei por que tô falando disso agora...

- Tudo bem, Gerusa...

- Todos somos especiais, individuais uns dos outros.

- O difícil é ser aceita por teu pai e por tua mãe...

- Sei disso, tia!

- Estou disposta a encarar minha maneira de ser, afinal a vida é minha...não posso viver uma fantasia que os outros querem que eu viva.

- Assim é que se faz a diferença, querida...encare de frente teu modo de ser e procure ser feliz, afinal a questão de gênero é uma construção social e não uma genitália.

- Você é inteligente! Tem tudo para construir um futuro brilhante…

- Obrigado, tia! A Senhora me deu uma baita força…obrigada de coração!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 12/04/2017 às 10h36 | sannickelle@gmail.com

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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.
















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