Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

A revolta dos pets

Depois que inventaram o pet Shop, nossos animais de estimação passaram a ser mais fofos e exigentes. Lembro-me de ter lido o significado de pet: “significa animal de estimação, e que o termo vem do inglês. Mas por que, exatamente, chamamos eles disso, em inglês ou português? Bom, a verdade é que a palavra pet vem de um significado muito fofo e antigo. Os primeiros registros desse termo usado para animais de estimação são de 1530, da Escócia e do dialeto do norte da Inglaterra. E nessa época pet era usado como sinônimo de animal preferido.”

O fato é que depois que se criaram restrições de ir e vir para nossos cães no Garden City, que os latidos e uivos noturnos tem sido insuportáveis, pelo menos para quem tem sono sensível, como eu.

Às vezes, quando acordo pela madrugada sob o concerto dos uivos e latidos, fico pensando se não é uma decisão orquestrada. Afinal, como dizemos: “eles só faltam falar”, por que, então, não poderiam combinar uma revolta?

A situação ficou tão grave, que muitos vizinhos resolveram fazer um abaixo assinado para a Administração do Condomínio, solicitando uma assembleia extraordinária para tratar do assunto.

O Síndico, Seu Fabiano, aceitou convocar a assembleia, pois também, pelo que se soube dos seus vizinhos, sua mulher não conseguia dormir uma noite inteira, tal como nos tempos de sua filha recém nascida. Mas, ele estava muito preocupado, porque recebera dois abaixo-assinados, um que queria assembleia para tratar do barulho dos cães e outro que era contra a realização da assembleia, onde os alegantes diziam já existir restrições demais aos seus pets.

De qualquer forma o número de peticionários pró assembleia era superior ao de contrários, por isso decidiu-se pela convocação.

No dia aprazado, o caramanchão da Praça Central estava lotado de moradores. Havia uma divisão quase espontânea, de um lado os a favor da assembleia e do outro, os contra...algumas rosnadas, ou melhor sussurros, demonstravam uma certa animosidade entre os presentes.

O Síndico se aproximou e deu por aberto os trabalhos, solicitando que o público escolhesse, dentre os presentes, quem presidiria a assembleia. Isso gerou uma primeira confusão, porque o pessoal do contra, que sabia estar em minoria, não teria chance alguma de escolher o presidente. Defendeu, então, a tese do próprio Síndico presidir, o que foi aceito pelo pessoal a favor...

O Seu Fabiano lembrou a todos do único item de pauta:

- PERTURBAÇÃO DE SOSSEGO PELOS CÃES

O Sebastião, que liderava o grupo dos contra a reunião, logo pediu a palavra:

- A culpa é dos próprios moradores, nunca tinha visto tanto cachorro nas casas, por isso ninguém mais consegue dormir. É latido e uivo toda noite!

O Sérgio, que estava no grupo dos à favor da assembleia, falou:

- O número de animais de estimação, quer sejam gatos e cães e outros, como passarinhos, chinchilas, etc...faz parte da liberdade de cada morador, assim como ter um, dois, três ou mais filhos, portanto, esse argumento do Sebastião não contribui em nada para a solução do problema.

- Pera aí. Sérgio! Tu não vem me contestar, porque se tu tem sono pesado, deve respeitar os que não tem!

- Eu nunca dormi contigo para afirmares se tenho ou não sono pesado e, além do mais, eu não aceito ser contestado por ti, que tem dois cães. Eu, por exemplo, não tenho nenhum, nem por isso estou aqui para reprimir os que tem.

O Sebastião que, além de arrogante era muito ignorante, prometeu acertar as contas, em particular, com o Sérgio. Mas, o Síndico interveio:

- Pessoal! Nós não convocamos esta assembleia para ofensas pessoais, mas para discutir ideias a respeito do problema, portanto vamos apresentar sugestões que não tirem a liberdade dos moradores, de ter ou não animais de estimação. No passado, onde os cães andavam soltos sem qualquer restrição, decidiu-se limitar a soltura para depois das 23horas, sendo que nas outras horas, só seriam permitidas saídas pela guia.

A Helena, que era defensora dos cães e de sua plena liberdade, desde que o animal não oferecesse perigo para as pessoas, pediu a palavra:

- Olha pessoal! Eu sou uma das primeiras moradoras do Garden, já passei por todas as experiências, desde a liberdade total dos nossos cachorrinhos, até a restrição absoluta para eles. Sei, que no início éramos poucos moradores; também sei que, hoje, todos os terrenos estão edificados, o que consequentemente aumentou muito o número de pessoas, de carros e de animais de estimação. Sempre que um certo número de componentes aumenta, mesmo num condomínio, as regras precisam ser rediscutidas e observadas por todos, senão vira bagunça.

- Tu tá certa, Helena! Mas, as nossas regras, mesmo obedecidas, não estão fazendo efeito algum sobre os cães, que uivam e latem demais durante a noite. Eles, apesar de nossa estima, não conseguem fazer silêncio, nem sabem o que é isso. Nem todos eram ponderados ao falar:

- Eu sugiro que seja proibido continuar a ter cães no condomínio...

- Sai pra lá, radical, filho de uma égua! Vai dar sugestão assim na “ China! ”

- Filho de uma égua é a tua mãe...

Os dois moradores se engalfinharam em luta corporal, mas os deixa disto apartaram. Mesmo assim, separados, prometiam se pegar depois...

O Síndico, percebendo o iminente conflito que o tema suscitava, resolveu pedir ajuda ao pastor Aldo que, além de condutor de almas, era veterinário.

Ele, com muita calma, falou, com propriedade:

- Um som familiar e único dos cães é o uivo; com isso o cão comunica excitação, alerta, solidão ou desejo É um recurso que o cão usa para se comunicar a distância. Através do uivo, ele pode ser ouvido a vários quilômetros de distância. Serve para avisar a matilha e a presença de fêmeas no cio.

O uivo dos cães é quase tão contagiante quanto o bocejo aos humanos. Quando um cão começa a uivar, todos os outros uivam também.

Grupos de cães presos costumam uivar à noite ou durante as primeiras horas do dia.

Para nós, o som do uivo é muito desagradável. Usualmente esse som é emitido por cães muito solitários e/ou presos. Na verdade, ele está dizendo para o dono seu desejo de companhia e liberdade. A solução, para quem quer que seu cão não seja um estorvo, é sair mais com ele e dar-lhe mais atenção, só assim ficará calmo e deixará de latir e uivar em excesso.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 25/04/2017 às 11h42 | sannickelle@gmail.com

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Brincadeira de criança

Em pleno outono, os primeiros sinais do frio começavam a aparecer antes do sol nascer. Tão logo ele surgia, no entanto, as gotículas de sereno acumuladas nas plantas, escorriam graciosamente para o solo seco. Trata-se de uma transição do verão escaldante para o inverno de muito frio, em especial para o clima do sul do país.
Peguei meu jornal Zero-Hora de domingo e fui até a Praça Central; chegando lá escolhi um banco, sob a sombra de um frondoso eucalipto, e me sentei para ler...
Uma algazarra de crianças, chamou-me a atenção, porque estavam combinando uma brincadeira que, pelo nome, eu jamais havia visto...brincar de governo.
- Que raios de brincadeira é essa? pensei em voz alta!
Só me restava abandonar o jornal e acompanhar as regras ditadas pelos meninos mais velhos. O Michel, que parecia ser o manda chuva deles, disse:
- A nossa brincadeira só pode começar se escolhermos quem vai ser povo, quem vai ser governo e quem vai ser polícia...
- Eu quero ser governo! disse a Maria Lúcia, única menina no grupo...
- Tá legal! Tu vai ser a Justiça!
- O que faz a Justiça?
- Ela é o único lugar que protege o povo...lá, qualquer membro do povo estará protegido da polícia...o teu lugar vai ser aquele banco, perto daquele senhor que está lendo jornal, tá bem?
- Tá certo!
- Quem vai ser governo, além da Maria Lúcia?
- Eu, que vou ser o Presidente da República! Além de mim, o Benício vai ser o Presidente do Senado e o Marcelo vai ser o Presidente da Câmara...
- Nós três vamos escolher a polícia...
- Nós escolhemos o Otavinho e o Paulinho para serem a polícia.
- E nós?
- Vocês vão ser o povo...
- E o que faz o povo?
- O povo vai sustentar o governo e para isso será perseguido pela polícia e, caso um de vocês for pego, será trazido até nós...
- Pra quê?
- Vocês tem que pagar alguma coisa para o Governo, como uma peça de roupa, por exemplo. Quem ficar só com a roupa de baixo sai fora da brincadeira.
- Que sem graça, a gente ser o povo...
- É, mas é assim que é a brincadeira de governo!
- Tá bom! A gente topa, não é turma?
- Sim!
- Antes de começar a brincadeira, lembrem-se que o nosso território é a praça. Então, ninguém poderá sair daqui! E, não esqueçam, que na Justiça é o único lugar que vocês poderão se proteger da polícia, mas lá não poderão ficar por mais de 10 segundos...
- E, quem vai contar o tempo?
- A própria Maria Lúcia.
- E, quando termina a brincadeira?
- Quando o governo tirar tudo do povo.

Enquanto eu estava pasmo diante daquela organização, pensando como as crianças adaptaram tão bem uma brincadeira com a situação real de governo e governados, até esqueci minha leitura e passei a acompanhar o corre-corre...
Logo, a polícia fez sua primeira vítima. Tratava-se de um menino gordo, o bolinha, que não tinha muita agilidade.
- Presidente, aqui tá um membro do povo. Que vamos tirar dele?
- Tirem o tênis, assim vai ser mais fácil tirar o resto...Depois podem soltá-lo!

Os demais meninos, por serem bem mais ágeis que a polícia, ora se protegiam na Justiça, ora corriam em zig zag, dificultando a ação dos policiais.
Mas, de novo a polícia prendeu o bolinha...
- Mas, não é possível! Pelo amor da Santa! Misericórdia! De novo pegaram o Bolinha...Eu não conseguia desgrudar daquelas crianças. Pensei em voz alta.
- E agora, Presidente, o que vamos tirar dele?
O Presidente resolveu, então, consultar os Presidentes do Senado e da Câmara...
- Nós sugerimos que se tire o calção dele...
- Mas, o bolinha que além de gordinho, também era envergonhado, se rebelou:
- O calção não! Ou eu saio da brincadeira!

O Presidente da República, então, resolveu intervir e disse aos demais parceiros:
- Pessoal, o bolinha tem sido nossa grande chance de sacanear o povo, portanto não vale a pena tirar-lhe o calção, pelo menos por enquanto! Que tal tirarmos a camiseta dele?
Os demais membros do governo concordaram e o bolinha foi solto sem tênis e sem camisa.
Enquanto a brincadeira continuava, de repente um tumulto foi percebido pelos membros do governo. Tratava-se de uma emboscada do povo para com os dois policiais, dos quais foram tiradas as roupas do Otavinho e do Paulinho. Diante da quase nudez da polícia, os membros do governo se uniram aos policiais e passaram a perseguir os membros do povo. Diante disso, o povo se refugiou na Justiça e a Maria Lúcia, decretou:
- Como os membros do governo resolveram agir como polícia também, o povo ficou prejudicado, o que não é justo...
- Eu sou o Presidente da República e eu determino que a Justiça solte o povo para que possamos tirar-lhe tudo que ele tem!
- Mas, eu sou a Justiça e não aceito ordens do Presidente! O senhor está destituído do cargo! No seu lugar deve assumir o Presidente do Senado!
- Mas, eu não aceito ser destituído do cargo! E tu, Benício, seria capaz de assumir meu lugar?
- Sim, Michel! A partir deste momento eu passo a ser o Presidente da República e, se tu reclamar, eu mando te prender.
- Mas Benício que sacanagem, hein? Tu me paga, tá!
- Eu sempre quis ser o presidente, mas você se escalou primeiro...

Completamente embasbacado com aquela brincadeira, pensei cá comigo:
- Meu Deus! E eu que pensei que as crianças de hoje ainda brincavam de “pau no gato”, “cabra-cega”, “esconde-esconde”...Preciso contar isso lá em casa.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 19/04/2017 às 13h29 | sannickelle@gmail.com

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Outono, estação de mudança

O verão, pouco a pouco, cedia lugar ao outono que, com muita chuva, não conseguia atenuar aquele calor grudento. As plantas com seus verdes sem qualquer sinal de pó, mostravam matizes distintos, desde o verde intenso até o amarelo/avermelhado, sinalizando que as plantas caducas já começam a perder as folhas. Algumas árvores, despudoradas, ficavam completamente nuas... mesmo assim as fofoqueiras de plantão não “pegavam no pé” delas!

Do ponto de vista cultural, o outono é uma estação que inspira beleza, mas também a melancolia, por isso sempre foi considerada tempo de mudança. O outono não é apenas folhas secas no chão...é uma estação em crise existencial. Uma hora está quente, cheia de amor para dar. Outra hora está triste e fria.

O seu Gumercindo, em sua tradicional cadeira preguiçosa, estava na varanda esperando a visita de seu irmão e cunhada que, trariam sua sobrinha Gerusa para prestar concurso público em Porto Alegre. Mas não deixava de admirar a beleza da paisagem outonal do Garden City, tal qual imortalizou o pintor holandês Vincent Van Gogh em sua famosa obra “Paisagem de Outono”, de 1853.

O tilintar do telefone interrompeu seu devaneio, era da Portaria, anunciando a chegada do Izidoro, dona Maria de Lourdes e da filha Gerusa. Vinham de Bagé, onde lá residiam desde sempre. O Izidoro, assim como o Gumercindo, eram pessoas tradicionais da sociedade bageense, mas o irmão, por ter permanecido na lida do campo, tinha evoluído muito pouco em termos de comportamento familiar, não admitindo nem discutir os novos valores, em especial dos jovens.

O filho mais velho, Gabriel, não suportando os ditames do pai, logo que pode, se mandou de Bagé, indo morar no Rio de Janeiro, onde hoje exerce a profissão de modelador de alta costura. Faz muitos anos que não visita o pai, mas morre de saudade da mãe e da irmã!

Depois dos efusivos abraços, todos entraram para se acomodar e saborear a comida da dona Odete, famosa pela qualidade de sua culinária.

Durante o almoço, não faltaram as perguntas sobre os parentes, seus filhos, amigos e, também, quem havia falecido. Falaram, também, das perspectivas de casamento da Gerusa, já com 21 anos de idade. O seu Izidoro pigarreou e disse que a filha não tinha namorado, que ele soubesse, E, mudou o rumo da prosa:

- Ela é muito estudiosa, sabe Gumercindo! E nós esperamos que se saia bem nesse concurso para o Banco do Brasil. Tu bem sabe, como tá difícil pra essa juventude conseguir emprego e, se ela passar, estará feita para o resto da vida. Esse é o nosso sonho, meu e da Maria de Lourdes.

- Concordo contigo, Izidoro! Não tá nada fácil pra ninguém. Eu vejo pelo Clóvis e a Soledade, que mesmo sem filhos, às vezes precisam da nossa ajuda financeira.

- Gumercindo! Eu agradeço a gentileza de hospedar a Gerusa, mas nós vamos voltar amanhã pra Bagé, pois o olho do dono é que engorda o gado!

- Tudo bem, meu irmão! Fica tranquilo, que faremos tudo para que a Gerusa se sinta em casa, e realize o teu sonho de passar no concurso!

À noite, na cama, o casal confabulava sobre a sobrinha e os planos do Izidoro:

- E, aí meu bem! O que tu achou da situação?

- Eu penso que teu irmão é cego, e o pior, quer determinar a vida da filha, como tentou fazer com o Gabriel.

- Acho que tu tem razão! O Gabriel acabou se afastando da família, depois que o pai começou a desconfiar de sua masculinidade e tratar-lhe mal. Agora, tenta fazer o mesmo com a Gerusa...

- E, afinal de contas, não sei ainda se essa guria se identifica como mulher ou como homem..

- É verdade! De feminina ela não tem quase nada.

- E o Gabriel brigou com o pai porque este lhe negou pagar um curso de moda. A irmã, no entanto, poderia até comandar a fazenda da família. É determinada e tem poder de liderança, tal qual o pai.

- Mas como fazer teu irmão enxergar, Gumercindo? Seria ele, capaz de aceitar a diversidade sexual e de gênero dos filhos?

- Tô aqui pensando com meu primeiro botão do pijama, e não faço ideia...

Enfim, o sono chegou e os anfitriões acabaram dormindo.

No outro dia, enquanto preparavam o café, a tia e a sobrinha, conversavam:

- Então, Gerusa! Está decidida a virar funcionária de um grande Banco?

- Olha, tia Odete, vou te falar em segredo...na verdade, é mais um sonho do pai do que meu, mas tu sabe que ele pouco escuta a gente. Eu sonho em viver como o Gabriel, longe das limitações do pai e da mãe e da própria comunidade preconceituosa, onde vivemos. Pode ser, no entanto, que o concurso e um emprego me dê a oportunidade de mudar de vida...

- Fica tranquila, filha, eu sei muito bem como teu pai é dominador e totalmente cego para os anseios de vocês e da própria Maria de Lourdes.

- Que bom tia, que posso me abrir pra ti...

- Claro! Sempre que tu precisar, estarei aqui e serei tua confidente. Não te preocupa, vou manter segredo absoluto, pode confiar querida...

- Obrigada, tia! Quer um cigarro?

- Não! Deixei de fumar há muito tempo.

Os dias se passavam e, a Gerusa seguia prestando as provas do concurso. Cada dia, no entanto, estava mais encafifada... a tia, muito atenciosa, não lhe dava espaço para uma prosa de verdade. Mas a tia, que não é boba, abriu o jogo:

- Querida! Tu gostaria de me falar alguma coisa muito pessoal, que talvez não consiga com tua mãe?

- Sei lá tia!! KKKKK

- Eu, desde sempre, acho... não consigo me comportar como as outras gurias da minha idade...não gosto de maquiagem e nem sinto atração alguma por babaquices femininas. Nem sei por que tô falando disso agora...

- Tudo bem, Gerusa...

- Todos somos especiais, individuais uns dos outros.

- O difícil é ser aceita por teu pai e por tua mãe...

- Sei disso, tia!

- Estou disposta a encarar minha maneira de ser, afinal a vida é minha...não posso viver uma fantasia que os outros querem que eu viva.

- Assim é que se faz a diferença, querida...encare de frente teu modo de ser e procure ser feliz, afinal a questão de gênero é uma construção social e não uma genitália.

- Você é inteligente! Tem tudo para construir um futuro brilhante…

- Obrigado, tia! A Senhora me deu uma baita força…obrigada de coração!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 12/04/2017 às 10h36 | sannickelle@gmail.com

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Ironia da curiosidade

Naquela mateada de domingo, o mais esperado era o Sérgio, nosso parceiro de chimarrão, principalmente depois que o Paulão, seu vizinho lindeiro, foi preso por invadir sua casa de madrugada.
Todos estavam curiosos para saber dos pormenores, porque além de reincidente, em se tratando de domésticas, o Paulão e a Marialba, sua esposa, já haviam aprontado um profundo desgosto ao Sérgio e a Nataly, logo que os dois foram residir no Garden City.
Quando o Sérgio chegou, ficamos conversando assuntos diversos, esperando, é claro, que ele tomasse a iniciativa de comentar o ocorrido. Falamos da corrupção em todo o pais, onde a Polícia Federal tem trabalhado como nunca. Agora foram os Conselheiros do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro que, mesmo ganhando salários fantásticos, aceitaram se locupletar com propinas, tudo para fazer “vistas grossas” em contratos que eles tinham obrigação funcional de analisar. Aliás, ao se assistir qualquer jornal televisivo, se chega a triste conclusão de que o Brasil parece não ter mais jeito, ou como escreveu Mário Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho no livro “Ética e Vergonha na Cara”.
Onde eles dizem:

“Jogar lixo no chão, colar na prova, oferecer dinheiro em troca de algum benefício – todos esses são comportamentos que podem ser facilmente percebidos em nosso dia a dia, quase como se fossem situações corriqueiras e típicas da cultura brasileira. Mas de que maneira isso se reflete na formação de crianças e jovens? A corrupção estaria mais próxima de nossa vida cotidiana do que gostaríamos de supor? ”

- Excelente livro, cujo título diz tudo, meus amigos...

Os olhares, novamente, se voltaram para o Sérgio, mas ele apenas pediu mais um mate. O Clóvis, então, falou, quebrando o silêncio cheio de expectativas:
- Vocês viram a diferença de tratamento da ex-primeira dama do Rio, Adriana Anselmo, que junto com o seu marido ladravaz, Sérgio Cabral, tiraram do Estado, já quase falido, milhões de reais em propinas, apenas porque pode pagar bons advogados, foi beneficiada com prisão domiciliar. Já uma ladrazinha, com três filhos dependentes dela, inclusive um com autismo, condenada a 8 anos de prisão, não pode receber o benefício de prisão domiciliar, porque a Juíza do caso não foi sensível ao pedido da condenada por “merreca”.
- Olha pessoal! São tantos casos, de discriminação entre as pessoas, regidas pela mesma Constituição e pelas mesmas leis, onde os privilégios só se destinam às autoridades corruptas, aos donos do poder econômico e aos poderosos em geral que, só resta acreditar que quem fica preso, são os pobres


Mais uma parada para reflexões, com a cuia girando de mão em mão...e, o Sérgio nada...
_O que vocês acharam da nova seleção brasileira de futebol?
- Bom! Depois que se botou um técnico, tudo começou a mudar...
_Por quê? Antes não tinha técnico?
_Não! Apenas um fantoche indicado pela CBF...
_Agora, não! Temos alguém que entende de futebol, foi técnico de clube e, além disso usa todos os meios tecnológicos para avaliar o desempenho dos jogadores no Brasil e no exterior. Afinal, não se monta uma seleção, quer seja de futebol ou outra modalidade, sem levar em conta a performance do atleta e, o mais importante, sua efetiva contribuição ao projeto do técnico.
Porque seleção não é um amontoado de craques, como fizeram alguns falsos técnicos, mas constituída de jogadores que vão efetivamente cumprir um papel naquele projeto.
_Seria a mesma coisa que o elenco de um filme ou novela?
_Exatamente, seu Gumercindo!
_Imagina o projeto de um filme, onde você escolhe os atores mais famosos. Provavelmente, redundará em fracasso. Cada ator ou atriz desempenha melhor certos papéis e, por isso, são escolhidos. Assim deve ser uma seleção. É o que o Tite, vem fazendo.
_É verdade! E não é de graça que ele classificou o Brasil para a copa da Rússia, com tanta antecedência.

E, a morena continuava circulando de mão em mão, mas o Sérgio continuava calado e pensativo...
_E o nosso síndico, pessoal?
_Até agora não se propôs a fazer nenhuma obra faraônica, o que é muito bom nestes tempos difíceis.
_Pessoal! Vocês viram o que os Procuradores Federais, na Operação Lava Jato, descobriram o quanto o PP se beneficiou com as propinas da Petrobrás?
_Mais de 2 bilhões e 300 milhões...
- Vocês se dão conta do que poderia ter sido feito com essa montanha de dinheiro?
_Meu Deus! Essa gente deveria ser fuzilada pelo dano causado ao país...
_Infelizmente nossas leis ainda os beneficiam e, talvez, nada seja devolvido aos cofres públicos.

E o chimarrão corria solto, mas nada do Sérgio esclarecer os acontecimentos que culminaram com a prisão do Paulão.
_Luiz Paulo, meu grande vizinho e exemplar delegado!
_Ora, exagero teu! Além do mais, já tô aposentado há quase uma década, meu caro vizinho!
_Mas, pela tua larga experiência profissional, qual foi o crime que o Paulão cometeu?
_Violação de domicílio. Art. 150 do Código Penal, ou seja: Entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito em casa alheia ou em suas dependências.
- E, aí Sérgio, o que tu tens a nos dizer?

O Sérgio pigarreou, e estava começando a narrativa, quando ouviu a Nataly chamar-lhe pelo nome:
- Sérgio! Tua mãe no telefone!
- Corre, que é interurbano! 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 04/04/2017 às 10h07 | sannickelle@gmail.com

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Carne Fraca

Depois que disseram para o Sérgio que viram um homem sair sorrateiro, altas horas, de sua casa, ele ficou muito preocupado com seu casamento...

Ladrão não poderia ser, já que nada desaparecera nos últimos dias. Então, só poderia ser uma coisa: um amante.

Mas, refletindo melhor, nos tais últimos dias, não fizera nenhum plantão, nem chegara tão tarde em casa...pensou...pensou...e resolveu perguntar ao vizinho que vira o tal homem. Bateu na casa do seu Atanagildo, que morava no lado oposto a sua casa, do outro lado da Praça Central. O próprio Atanagildo o atendeu.

- Seu Atanagildo, eu sou o Sérgio e moro no outro lado da Praça. Disseram-me que o foi o Senhor que disse ter visto um homem saindo da minha casa, é verdade?

- Infelizmente, é verdade Sérgio. Naquela noite, eu estava com insônia e fui até a varanda de casa, para tomar um ar. No escuro, eu vislumbrei um vulto saindo pela lateral da tua casa.

- E, para onde ele foi, vizinho?

- Apesar do escuro, eu vi que ele entrou pela lateral da casa ao lado da tua. Mas, eu não posso afirmar quem era...

- É muito estranho vizinho... Falo isso porque, ao lado da minha casa, mora o casal, Paulão e Marialba.

- O Senhor lembra que horas isso ocorreu?

- Lá pelas duas horas da madrugada. Eu só não posso afirmar se era ou não teu vizinho, apenas que era um homem.

O Sérgio agradeceu ao seu Atanagildo e saiu pensativo, imaginando tratar-se de algo escuso, mas o quê?

Chegando em casa, tomou coragem e perguntou para a esposa:

- Querida, eu fiquei sabendo que viram um homem saindo aqui de casa, na madrugada de segunda-feira, lá pelas duas horas...Tu sabes alguma coisa?

- Não sei, meu bem! Mas, desde que nós contratamos a Luciléia, como empregada doméstica, que eu ouço o nosso cachorro latir muito de madrugada. Será que ela tem recebido visita de alguém, sem que a gente saiba?

- É, bem possível, querida! Já que o quarto dela tem acesso pela varanda dos fundos, o que permitiria que ela recebesse alguém sem nossa autorização.

- Vou, então, falar com ela...

- Não! Ela poderá negar! O que nós precisamos fazer é preparar um flagrante.

O Sérgio e a Nataly, embuídos de levar a sério seu plano, nada falaram para a Luciléia, pois como ela estava empregada fazia pouco tempo, poderiam cometer alguma injustiça.

Enfim, a noite chegou. Os donos da casa, que costumavam ver televisão na sala-de-estar, desligaram a tv, apagaram a luz e se dirigiram para o quarto, no segundo andar. Procederam, como todas as noites, usando o banheiro da suíte, fazendo todos os barulhos antes de darem boa noite e apagarem a luz do quarto.

Mas, para que seu plano desse certo, já tinham deixado a porta do quarto aberta e, pé ante pé, desceram a escada e aguardaram na cozinha, que dava para a varanda dos fundos.

Os minutos pareciam se arrastar e nada acontecia...até que a luz do quarto da Luciléia se acendeu. O Sérgio e a Nataly, de cócoras, se aproximaram da janela basculante da cozinha e ficaram imóveis...

Passados alguns minutos, depois que a luz do quarto da Luciléia se acendera, um vulto esguio, caminhando com todo o cuidado, chegou à varanda e se aproximou do quarto, abrindo, em ato contínuo, a porta e fechando-a em seguida.

O Sérgio, então, cochichou para a Nataly:

- Eu vou lá em cima, pegar minha arma e desço para darmos o flagrante.

- Sérgio! E, se o homem estiver armado... não seria melhor chamarmos a polícia?

- Pensando bem, acho que tu tens razão. Fica aqui para que o sujeito não escape, tá bem?

- Sim, podes ir! Liga da sacada do nosso quarto, para não te escutarem!

O Sérgio ligou para a polícia, dizendo que um estranho invadira sua residência e que permanecia no interior da casa. Assim que recebera a confirmação da Polícia Militar, ligou para a Portaria do Garden City, informando que haveria uma ação da polícia, já que um sujeito suspeito invadira sua casa. Pediu, ainda, ao porteiro que solicitasse o máximo de cautela da polícia, porque o invasor poderia suspeitar e com isso invalidar o flagrante.

O Sérgio, depois das providências, voltou em absoluto silencio para junto da Nataly.

- E, aí, nada de novo?

- Até agora, não!

- Ligou pra polícia?

- Sim, inclusive avisei a Portaria de que a polícia fora chamada por nós...

- Querida, continua observando que eu vou esperar a polícia lá na frente, tchau!

Não demorou muito e o carro da Polícia chegou. Eles estacionaram longe da casa do Sérgio para não chamar a atenção. Logo, dois policiais de arma em punho, se aproximaram... O próprio Sérgio, os conduziu pela entrada lateral, mas foram surpreendidos pela vizinha, dona Marialba, que bocejando questionou:

- Meu Deus! O que tá acontecendo?

- Dona Marialba, um sujeito invadiu minha casa e a polícia está aqui para prendê-lo...Por favor, fique calma e não faça barulho. Disse-lhe o Sérgio.

Tão logo os policiais chegaram junto ao quarto da empregada, invadiram-no e deram voz de prisão ao meliante invasor.

Tratava-se do vizinho Paulão, que peladão, fazia sexo com a Luciléia...Foi, então, algemado e conduzido até a viatura. No caminho deu de cara com a esposa, Marialba, que partiu pra cima dele, aos socos e bofetões. Um dos policiais, no entanto, tentando conter a esposa traída, advertiu-lhe que, também a prenderia, se ela não parasse de socar o prisioneiro, mas ela, aos gritos, dizia:

- Esse cretino é meu marido! Eu me julgo no direito de surrá-lo!

Sangrando no rosto, o Paulão foi conduzido, pelado, para a delegacia do Bairro Ipanema, onde a Polícia Civil tomaria as providências.

Na delegacia, a única coisa que o Paulão dizia era:

- A carne é fraca Doutor...Eu não resisti aos encantos da Luciléia...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 28/03/2017 às 09h28 | sannickelle@gmail.com

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Ainda é possível acreditar nas pessoas?

Quando o Clóvis nos convidou para a nossa tradicional mateada de domingo, todos compareceram, inclusive os dois ausentes na do carnaval. Depois dos fraternais abraços, o seu Gumercindo nos questionou:

- Vocês viram na Internet a história contada por Igor Bezerra, aquele que tinha um primo chamado, Tales, lembram? Morou no Garden City há uns dois anos atrás, mais ou menos...

- Sim, o Tales, um pernambucano muito simpático, que morou na casa 10, no segundo acesso, depois se mudou.

- O que tem ele, seu Gumercindo?

- Pois a história que ele conta merece ser lida e comentada, porque prova que ainda existem pessoas capazes de gestos admiráveis. Somos vítimas dos políticos em geral e da corrupção descarada deles com empresários, com isso se perdeu toda confiança na capacidade de ser honesto no nosso país. Como a corrupção institucional tem o dom de permear as atitudes das pessoas, acabamos por descrer no ser humano, como se estivéssemos todos doentes e incuráveis.

O seu Gumercindo leu, então, a carta escrita pelo Igor, publicada no facebook, onde ele relata ter vivido uma história ímpar no carnaval de Petrolina, Pernambuco. Conta que ao retornar ao seu carro, constatou que o vidro dianteiro, do passageiro, estava aberto, e em cima do banco um bilhete, escrito à mão, que dizia:

“Boa noite
pegamos seus pertences
pra ninguém roubar
amanhã liga, que devolveremos.”

Levaram tudo, celular, óculos novo, 2 camisas, comida, documentos do carro, perfume. Indignado com o ocorrido e a safadeza do ladrão em deixar aquele bilhete, foi para casa muito triste. Chegando em casa, percebeu que seus pais estavam acordados, pois haviam ligado para ele e quem atendeu foi um cara estranho. Ele, então, se identificou, disse morar em Juazeiro e que estivera no carnaval em Petrolina, com a namorada e sua mãe. E, aí repetiu a história do vidro aberto...Ele marcou um encontro com o Igor na igreja católica do centro de Juazeiro. Desconfiado, por imaginar tratar-se de um golpe, convidou dois amigos para o acompanharem. Lá chegando, esperou junto ao carro para que o estranho o encontrasse. Minutos depois um rapaz com a namorada e a mãe chegaram, viram o carro e se aproximaram do Igor, devolvendo-lhe todas as suas coisas. Ainda admirado daquele gesto, o Igor ofereceu-lhe uma recompensa que foi recusada. A mãe do rapaz ainda lhe disse: “vá e faça isso por outra pessoa”

- Que história linda, seu Gumercindo!

- Diante da realidade que vivemos, parece história da carochinha.

- É, pra já, Luiz Paulo.

E, a morena continuou passando de mão em mão, enquanto o silêncio dizia tudo, tal qual a composição de Simon e Garfunkel: the sound of silence.

- Vocês viram aquele clube sueco, o IF Elfsborg, que decidiu que só vai contratar jogadores que não simulem faltas, jogadas desleais, tudo em nome da ética desportiva.

- É, eu também vi na televisão essa reportagem...

- Mas, no Brasil, onde o Congresso Nacional quer institucionalizar a corrupção, jamais veremos isso acontecer...

- A não ser que consigamos expulsar da vida pública esses bandidos que tomaram de assalto o Brasil...

- Eu espero, sinceramente, que os Procuradores Federais, que hoje constituem a operação Lava Jato, consigam botar na cadeia esse bando de safados...

- Não vai ser fácil, com tanta grana rolando de forma escusa, eles contratam as melhores bancas de advogados...

- Infelizmente, é verdade...

- Mais um mate Clóvis!

- É pra já, Sérgio!

- Mas, seu Gumercindo, o que o senhor achou da atitude da dona Gertrudes?

- Olha San, não me surpreendeu, pois essa é a atitude da maioria das pessoas...há uma espécie de insensibilidade em relação aos problemas do próximo...As pessoas, hoje, estão mais egoístas e egocêntricas...pouco se lixando para as necessidades dos outros. Na verdade, nós só nos sensibilizamos com as desgraças que ocorrem longe de nós, onde nosso lamento não se traduz em ação concreta. Isso, enfim, alivia nossa culpa.

- Tens razão amigo, a mídia também tem ajudado a banalizar a desgraça, fazendo com que assistamos passivos...

- Mas, seu Gumercindo, quando o senhor decidiu acolher o mendigo, teve essa atitude, convicto de que ele era merecedor?

- Não! Resolvi ajudar o homem, apenas por ser mendigo...um homem necessitado que não estava ameaçando ninguém, mas que havia entrado, sem permissão, num território minado pelo medo. Aqui, como em qualquer condomínio, morre-se de medo dos pobres, dos pedintes, enfim, dos desvalidos que a sorte esqueceu.

- O Clóvis nos disse que o senhor justificou sua atitude, com uma frase:

“...Fiz, porque odeio a pobreza, não o pobre... ”

- Sempre me preocupei em não cair nas armadilhas da vida, em especial as que tratam da discriminação entre as pessoas que tem e as que não tem posses, como se isso decidisse o seu único mérito... Eu gosto muito dos livros do Augusto Cury, eles me fazem refletir sobre essas questões, como o Vendedor de Sonhos...Trata a história de um homem conhecido por “vender sonhos”, onde Cury nos faz refletir sobre a importância que as pessoas dão para os bens materiais, enquanto ignoram totalmente os verdadeiros valores da vida: a alegria, a honestidade, o amor e a paz.

Na verdade, eu tenho pena de pessoas que agem como a dona Gertrudes, pois quem se propõe a fazer o bem, também o faz para si mesmo. É, esse sentir-se em paz e feliz, que agora me diferencia da minha vizinha.

E assim, aquela mateada encerrou o dia, deixando-nos pensativos sobre o significado da vida, das nossas atitudes e da coragem para mudar o mundo.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 21/03/2017 às 10h06 | sannickelle@gmail.com

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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.
















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