Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

O medo que nos cerca

No final da tarde daquele dia quente de verão, pétalas roxas das quaresmeiras rolavam sob a brisa que antecedia o anoitecer. As extremosas, ainda mantinham suas flores no alto de sua galharia orgulhosa. Era a primavera que teimava continuar abraçando o verão. Toda essa paisagem idílica, no entanto, foi momentaneamente esquecida pelos moradores do Garden City que, em suas casas, só comentavam o ocorrido com o casal Gumercindo e Odete.

_ Vejam como não temos segurança, apesar de todo o aparato do Condomínio...

_ É verdade, meu bem!

_Aliás, o país, como um todo, está demonstrando fragilidade até para conter os bandidos que estão presos, imagine, então, com os que estão soltos em tudo que é lugar.

_ Até em religiosos já não se pode confiar.

_Do jeito que vão as coisas, nem em quartel vamos estar seguros...

Na Praça Central, só os jovens mantinham o hábito do encontro para bater papo e namorar. Para eles, menos influenciados pelas notícias policiais, a vida continuava alegre e com muitas risadas.

_Vai rolar uma festa na casa do Guto...Vamos todos lá, galera?

_ Alguém aqui foi convidado?

_Não tem essa, gente! É só chegar e encarar... Tô dentro!...

A mãe do Guto, no entanto, estava com medo de patrocinar a festa, pois poderia perder o controle de quem entraria no Garden City. Ainda mais, depois do ocorrido com o seu Gumercindo.

O Guto, por sua vez, não queria entender, já que a festa fora marcada uma semana antes.

_ Pô... mãe!, a gente não vai ficar refém de algo que ocorreu e saiu tudo bem...Tenha dó!

_Mas, meu filho, tu sabes quem são os convidados?

_É uma galera da escola e alguns amigos daqui do Condomínio...Vai ser na garagem, você não vai se incomodar, eu prometo._É nesta hora, que eu sinto falta do teu pai...

_Mas, foi tu que quis se separar dele...

_ Foste, Guto. Tu nem parece filho de professora...

_O teu pai é um galinha, não pode ver rabo de saia...

_Rabo de saia?

_Mulher...MULHER...Guto!

_Quanto à festa, tudo bem, Guto. Precisamos avisar a Portaria para anotar os nomes dos teus amigos. Nunca se sabe se não vão aparecer os penetras ou coisa pior...

_Esse assunto de segurança eu deixo contigo...tá bom?

_Tá...Tá...Tá bom.

Dona Miriam, sem ter outra alternativa, passou a organizar o local da festa, bem como avisar o Síndico e a Portaria sob as condições que deveriam ser observadas para o controle de entrada e saída dos amigos de seu filho.

Ela mesma preparou pulseiras, que deveriam ser entregues na entrada, após a anotação do nome do visitante. As de cores rosas para as meninas e as de cores azuis para os meninos

Lá, pelas 22 h começaram a chegar os amigos do Guto que, embalados pela perspectiva de uma festa maneira, se aglomeravam na Portaria do Garden.

O porteiro, que já trabalhara em boate, sabia das dificuldades para conter a urgência dos jovens.

_ Você, mocinha...seu nome?

_ Rodrigo... Ops! Desculpe...Aqui está sua pulseira azul, pode entrar.

_ E, você lourinha...seu nome?

_Roberto...De novo, desculpe...Pode entrar.

E, assim, foi a rotina bolada pelo síndico e pela dona Miriam, até que o último convidado entrasse.

A festa rolou animada a noite toda sob o som de reggae, funk, hip hop, pop rock e até sertanejo universitário. Só os vizinhos não conseguiram dormir.

Lá pelas 6h começaram a chegar os pais para buscar seus adolescentes, mas o porteiro, por ordens expressas do síndico, não os poderia deixar entrar no Condomínio, o que revoltou alguns pais e mães.

Meu Deus! O que é isso? Um campo de concentração? Dizia uma mãe escandalizada.

_Minha senhora, o que aconteceu ontem pela manhã, com a tentativa de sequestro de um casal, morador aqui do Garden, levou a Administração a proceder dessa forma...

_Meu Deus! Que horror! Onde eu fui deixar minha filha...?

_Fique tranquila, o assassino já foi preso...Ouvindo isso, a senhora desmaiou.

Depois de atendida na Portaria, ela e os demais pais foram, gradativamente, recebendo e levando seus filhos para casa.

Na sala, uma Miriam extenuada, jazia num sofá, quando foi sacudida...

_Ham? O que houve? Alguém se machucou?

_Não, mãe!...É o Guto...Você acabou dormindo neste sofá e a festa já acabou.

_Ham?...Acabou?...Que horas são?

_São 7h, mãe.

_A Senhora pode subir e dormir no seu quarto...Tá?

_Tá bom, Guto, vou subir...Boa noite! Ou melhor, Bom dia!

Logo que a dona Miriam sobe, houve-se um grito de espanto:

_Gustavo, venha aqui... AGORA!

_Ih! Sujou!

_Gustavo, o que é isto aqui? Na cama da Dona Miriam, um casal de jovens.

_Mãe, eles devem ter se cansado e o que encontraram foi tua cama...

_Tu já pensaste nas consequências, se os pais ficam sabendo?

_Mas, mãe...

_Não tem MAS, Guto. Vão me chamar de alcoviteira...

_O que é isso mãe?

_Mulher que é intermediária em relações amorosas e fofoqueira...

_Mãe! A Vivian e o Vinicius são irmãos...

_Heim?!...Irmãos...Puxa!...Que alívio...Obrigado, meu Deus.

Ela caiu na cama com os jovens e dormiu sorrindo.

Na rua, muitas flores continuavam desabrochando; nas casas jovens dormiam e sonhavam, sem medo da vida..

Escrito por Saint Clair Nickelle, 01/02/2017 às 09h32 | sannickelle@gmail.com

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O Pastor

Eram 7h e 30min, quando o tilintar do telefone fez com que a Ariovalda, empregada doméstica do seu Gumercindo e de dona Odete, atendesse:

- Alô!

- Aqui é da Portaria do Garden City...Alô! Está me ouvindo?

- Sim!...Quer falar com quem?

A senhora é a dona Ariovalda?

Sim!

- Está aqui na Portaria um senhor...um momentinho...como é seu nome?...Osnildo, diz que eu quero falar com ela.

- Um senhor de nome Osnildo que quer falar com a senhora.

- Seu porteiro, meus patrões estão dormindo e eu não posso falar com ninguém.

- Ele disse que é seu irmão...

- Não pode ser, meu irmão está morando no Rio Grande do Norte...

- Alô! Não desligue que eu vou passar o telefone pra ele...

- Alô! Alô!...Ariovalda...é o Osnildo, teu irmão...

- Osnildo? Não é possível! Que tu tá fazendo aqui?

- Vim te ver...

- É, mas eu estou no trabalho e os meus patrões não deixam ninguém entrar sem autorização deles...

- Ariovalda! Eu não vim só te ver, mas devolver aquele dinheiro que tu me emprestou para viajar, 5 anos atrás...

- A é? E, tu só vai entregar o dinheiro?

- Sim!...Fica tranquila...é te entregar o dinheiro e ir embora...

- Tá bom, então! Deixa eu falar com o porteiro...

- Alô! É o porteiro...

- Pode deixar o meu irmão entrar, ele só veio me trazer um presente...

O porteiro, então, pensou um pouco e disse para o visitante:

- Olha! Minhas ordens é pra não deixar ninguém entrar, sem autorização dos donos da casa, mas como a tua irmã pediu, eu vou deixar,,,

- Fica tranquilho, meu filho, eu sou religioso...Pastor no Rio Grande do Norte, portanto, nada vai te prejudicar.

Tão logo o porteiro permitiu a entrada do visitante, ele resolveu ligar para o Vice-Síndico, Delegado Luiz Paulo, informando-o do ocorrido.

O Luiz Paulo, policial experiente, ligou para o Clóvis, genro do seu Gumercindo, e o colocou a par da situação, pedindo-lhe que ficasse atento mas não interferisse, enquanto ele tomava as providências junto à polícia.

Tão logo a polícia foi informada e, pela descrição minuciosa do porteiro, eles constataram tratar-se de um fugitivo da Penitenciara de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Tratava-se de um falso pastor, que havia dado um desfalque de 100 mil Reais da Igreja Evangélica de Campina Grande, bem como assassinara o Pastor que o denunciou. Na cadeia, recebera o apelido de Lulau, em referência ao Lula e ao Lalau. No último motim, acabou fugindo a cadeia.

No intuito de não causar qualquer problema aos donos da casa, em especial qualquer risco de morte, eles dependiam do porteiro, para traçar um plano de captura e/ou resgate, caso houvesse reféns.

O plano, previa capturá-lo na saída do Condomínio, se tudo corresse como planejado. Neste caso, a Polícia dependia da capacidade de atuação do porteiro, de tal sorte que o assassino não levantasse suspeita.

O Plano previa uma comunicação do porteiro para a casa do seu Gumercindo...

- Alô! Dona Ariovalda. Está tudo bem? Seu irmão já saiu?

- Alô! Ele já vai sair, mas o seu Gumercindo, depois que soube que ele é pastor, pediu-lhe uma gentileza...

- Qual?

- Ele ir no Supermercado Bom, comprar leite e pão para nós tomarmos o café da manhã.

- E, como ele vai ir?

- Ah! O seu Gumercindo emprestou-lhe o carro para buscar as compras. O senhor pode deixá-lo sair que ele vai voltar logo, logo...Tá bom?

- Tá bom, então, dona Ariovalda.

A Polícia na escuta secundária, manjou o plano de fuga...Provavelmente os reféns seriam postos no porta-malas, enquanto ele fugia.

Alertaram o porteiro, para agir com tranquilidade, como se a história da empregada fosse verdadeira, enquanto os policiais, em tocaia, o renderiam.

Muito nervoso, o porteiro fazia o possível para não demonstrar, enquanto, os policiais preparavam a abordagem junto à Portaria. Na Avenida Juca Batista, que dá acesso ao Garden City, outra equipe deveria impedir a entrada, quando o carro saísse da casa do seu Gumercindo. Essa informação seria dada pelo Clóvis que, de binóculos, acompanhava a movimentação na casa do seu sogro. Os demais moradores, que estivessem saindo, deveriam fazer sem que pudessem desconfiar de nada.

Às 9h, o carro do seu Gumercindo, saiu da garagem...Na direção, o falso pastor. No banco de trás, não havia ninguém. Provavelmente, o casal deveria estar no porta-malas do carro. Da empregada nada se sabia...disse o Clóvis.

Enquanto o Clóvis descrevia a movimentação do carro, informando passo a passo para a polícia, na Portaria os policiais se preparavam, com armas engatilhadas, escondidos atrás dos muros esquerdo e direito. A ação devia ser bem cronometrada, pois o motorista estaria no lado onde fica a porta de acesso à Portaria...E, onde é mais difícil se esconder.

O carro apontou na última curva que dá acesso à saída, diminuindo a marcha e, com luz intermitente, solicitava a abertura da cancela. O porteiro, no entanto, lhe deu sinal de mão, esboçando com muito esforço, um largo sorriso. O carro parou, então, junto a cancela. O porteiro lhe disse:

- Gente boa aquela do seu Gumercindo, não é?

- Muito gente bo...

Ele, o bandido, nem teve tempo de terminar a frase, quando um 38 lhe foi enfiado goela abaixo. Imediatamente, pelo outro lado, um policial, também, de arma em punho, lhe espetava as costelas. Com as mãos na cabeça, o bandido foi rendido e algemado. No porta-malas, quase sufocados, seu Gumercindo e dona Odete, respiravam aliviados. O porteiro, muito nervoso, se desculpava, dizendo que foi muito bem enganado. O seu Gumercindo, com aquela bondade que lhe caracteriza, confessou que também não desconfiara do falso pastor. A Polícia elogiou a atuação imprescindível do porteiro, para a elucidação do caso.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 24/01/2017 às 08h25 | sannickelle@gmail.com

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Ajuste fiscal

Quando o Seu Fabiano assumiu como novo Síndico do Garden City, encontrou as finanças em situação pré-falimentar, onde 30% dos moradores estavam inadimplentes. Após confirmar a gravíssima situação, com uma auditoria da Administradora do Condomínio, convocou uma assembleia extraordinária com a presença obrigatória dos condôminos.

O Edital de convocação dizia o seguinte:

A SITUAÇÃO FINANCEIRA DO GARDEN CITY É MUITO GRAVE, PORTANTO CONVOCO TODOS OS MORADORES PARA UMA ASSEMBLEIA EXTRAORDINÁRIA, DIA 14 DE JANEIRO DE 2017, ÀS 10 HORAS DA MANHÃ NA PRAÇA CENTRAL.

No domingo, conforme previa a convocação, a maioria dos moradores estava presente. Os burburinhos denotavam a preocupação de todos, os quais só se atenuaram com a chegada do Síndico e os membros do Conselho Fiscal.

Várias pastas foram colocadas à mesa e, o Sr. Fabiano, deu por iniciada a Assembleia, dizendo:

- Em primeiro lugar obrigado pelo comparecimento maciço dos moradores. Com as procurações por mim recebidas e a conferência das assinaturas no Livro de Presença, podemos afirmar que 100% se faz presente ou representada.

- Em segundo lugar, conforme afirmei pela convocação, a situação do Condomínio é muito grave. Estamos, hoje, com 30% de inadimplentes, o que significa que perdemos uma fatia substantiva da nossa receita, fato que compromete o pagamento de nossos funcionários e das empresas prestadoras de serviços, como portaria, segurança e manutenção.

- A crise porque passa a economia brasileira, também, nos atingiu e, agora nos resta definir o que fazer.

- Coloco a palavra à disposição e as sugestões serão anotadas para, se for o caso, colocá-las em votação:

O Valdir foi o primeiro a levantar o braço, dizendo o seguinte:

- Na condição de antigo morador do Garden City, devemos acionar judicialmente os inadimplentes e com isso recuperar o que deixamos de arrecadar;

O Sebastião, amigo do Valdir e um dos inadimplentes, protestou:

- Oh Valdir! E, eu que pensei que tu era meu amigo, agora vejo que és sacana como muitos desse Condomínio, que só veem o seu lado. São incapazes de olhar e ver as dificuldades de tantos, assim como eu. Para não perder o emprego, eu aceitei receber 50% do que ganhava e, agora que estou passando por essa dificuldade, vem tu Valdir querer nos botar na justiça.

O Plínio, que estava ao lado Valdir, cochichou no seu ouvido:

- Desta vez tu pegou pesado com o nosso amigo. A que o Valdir respondeu:

- Eu só sou amigo daquele pé-de-chinelo quando estou bêbado...

O Seu Floriano, sentindo que o clima pudesse piorar, falou:

- A sugestão do Valdir não resolve de imediato nossa situação financeira, apenas coloca vizinho contra vizinho. Não foi com esse espírito que convoquei a Assembleia.

- Se a sugestão do Valdir não resolve a questão, o que fazer, então?

O Síndico, voltou a se manifestar:

- Dona Iolanda, essa é a pergunta que ainda não foi respondida, pois não basta entrar em juízo contra os inadimplentes, porque é uma ação demorada, além do que envolve pessoas que estão momentaneamente passando por dificuldades e, para mim, não acho justo que essa seja a única solução;

Por um momento os moradores, sensibilizados com o pronunciamento do Síndico, permaneceram em silêncio, como a refletir sobre o infortúnio de tantos vizinhos.

- Precisamos cortar gastos...Falou o Seu Antunes, membro do Conselho Fiscal.

- Mas que gastos? Falou dona Catarina.

Seu Antunes, respondeu:

Hoje, entre funcionários, prestadores de serviços, material de manutenção e reserva técnica obrigatória, nossos gastos somam 130% do que efetivamente arrecadamos;

Novamente, o silêncio se fez presente.

- E, se usarmos a reserva técnica? Perguntou o Valdir.

- Pelos meus cálculos, ela amenizaria em 5% e, além disso, estaríamos infringindo a Convenção do Condomínio. Disse o Síndico.

E, se despedíssimos 50% dos funcionários? Sugeriu seu Dirceu.

- Essa possibilidade, nós do Conselho de Administração, cogitamos. Só que o que precisaríamos para pagar as rescisões, necessitaria de uma chamada extra. Em todo caso, é uma hipótese que podemos colocar em votação;

De novo, a Assembleia ficou silenciosa.

Dentre os presentes, alguém que, até então não tinha falado, pediu a palavra. Tratava-se do Dr. Tiago:

- Senhoras e senhores, estive ouvindo as sugestões e, ainda não encontrei uma que pudesse contemplar o nosso maior problema, qual seja a dos inadimplentes;

O Valdir, aproveitou o ensejo e disse:

- Finalmente, apareceu alguém que concorda comigo. Mas, ele estava redondamente enganado, quando Dr. Tiago complementou:

- Ao contrário, vizinho. Estou me referindo aos nossos vizinhos e amigos que estão passando por dificuldades financeiras e pelo que observo, o senhor quer vê-los afundados, como se de repente fossem nossos inimigos!

Tanto o Síndico, como os demais participantes pediram-lhe que explicitasse sua sugestão, até agora inédita:

- Minha sugestão visa contemplar uma solução para os 30% de inadimplentes, com a ajuda temporária dos 70% dos demais moradores. Nós, então, emprestaremos 25% a mais na taxa condominial ao Garden City, durante 3 anos. Passados os três anos, gradativamente, o Condomínio iria devolvendo esse empréstimo, descontando da taxa condominial, a medida que os nossos vizinhos, hoje beneficiados, forem fazendo seus ajustes fiscais nas suas contas e, com isso nos ressarcindo, via Condomínio.

A sugestão do Dr. Tiago foi aprovada por maioria.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 17/01/2017 às 09h57 | sannickelle@gmail.com

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Mateada da Natal

Após a belíssima Festa de Natal, o Clóvis nos convidou para uma mateada na Praça Central, onde poderíamos comentar os acontecimentos da noite anterior.

No domingo, como combinado, lá estava o Clóvis pilchado e com erva mate da boa, um fogareiro e uma chaleira preta chiando de faceira com fogo no rabo. Aos poucos fomos nos aprochegando em volta do fogareiro. Lá chegaram o Luiz Paulo, o Reinaldo, o Sérgio e eu. O seu Gumercindo ainda não havia chegado.

Não demorou muito e o responsável pela mais bela festa de Natal, chegou

Foi solenemente aplaudido por todos nós. Com a característica dos humildes, ele agradeceu em nome de todos que se mobilizaram para o sucesso do evento.

Disse-nos, com voz embargada:

- Pela primeira vez, de fato, comemoramos o Natal como merecíamos, deixando de lado o aspecto comercial da data cristã, onde, de um modo geral, só Papai Noel é o que importa, esquecendo-nos do seu verdadeiro significado...o nascimento de Jesus Cristo.

Seu Gumercindo, homem do interior do Estado, tinha, sem ser piegas, uma religiosidade a ser imitada. Às vezes, ia a missa, mas nunca criticou ou induziu alguém a seguir suas decisões. Tanto é verdade que nunca impôs qualquer credo aos seus filhos. Como dizia:

- Eles que decidam se querem ou não seguir esta ou essa religião. O que eu, como pai, não abro mão, são dos valores que procuro passar aos filhos pelas minhas atitudes e exemplos.

Ao se referir ao Natal, com viés comercial, ficava muito crítico e até intolerante. Por isso, na condição de síndico, propôs uma confraternização que valorizasse o seu verdadeiro sentido- O aniversário do filho de Deus.

O Clóvis, sempre muito curioso, perguntou ao sogro:

- Meu estimado sogro, desde quando o Senhor se libertou desses natais pragmáticos?

Agradecendo o elogio do genro, ele assim nos contou:

Meu pai, era dono de um bolicho, no interior de Bagé, e para não ser antipático com seus fregueses, permaneceu aberto até a meia-noite da véspera de Natal, pois lá estavam a maioria dos seus amigos, bebemorando, longe de suas famílias, a data.

Quando bateu meia-noite e ele já se preparava para fechar, um velhinho de barba e cabelos brancos entrou no bolicho, surpreendendo a todos.

O forasteiro, cumprimentou todos e ao chegar ao balcão pediu um copo de água, porque depois de longa caminhada, sua sede era imensa, como declarou ao bolicheiro.

Enquanto seu Bento, meu pai, providenciava o pedido do recém chegado, os demais bebuns lhe ofereceram cerveja e cachaça, a que ele agradecendo, recusou.

Depois de saciar a sede, perguntou ao pessoal o que estavam comemorando.

Os homens se entreolharam e, em uníssono, responderam:

- Só bebendo!

E o forasteiro, se aprumando para deixar o bolicho, perguntou-lhes:

- Vocês sabem onde estão comemorando o aniversário do meu filho?

- Que aniversário? Perguntaram-lhe.

- Ora, do meu filho.

- E o senhor tem filho?

- Sim, ele veio para cá numa missão de paz e amor, mas não foi muito bem recebido.

- Mesmo sem querer ser intrometido, mas sendo, por que ele não foi bem recebido?

- Porque seu entusiasmo foi maior do que a capacidade das pessoas para entendê-lo.

Após esse diálogo, o velhinho disse:

Senhores, desculpe ocupar seu tempo, mas quando vi o bolicho aberto e tantas pessoas comemorando, até imaginei que era pelo aniversário do meu filho...

Logo a seguir o forasteiro se retirou, sumindo na noite escura.

Seu Bento, que tudo presenciara, pensou em voz alta:

- Será que o filho desse velhinho, é quem eu estou pensando que seja?

Os demais, não entenderam e continuaram bebendo.

Após concluir seu relato, seu Gumercindo pediu um mate, pois estava com a garganta seca.

Enquanto ele saboreava o mate, acariciando a cuia morena, nós ficamos pensativos, até que o Clóvis perguntou-lhe:

- Meu estimado sogro, isso ocorreu mesmo ou foi inventado?

- Meu também estimado genro, foi meu pai quem contou, pois ele presenciara o ocorrido e, por conhecê-lo bem, ele seria incapaz de mentir ou inventar.

A resposta do seu Gumercindo, nos deixou ainda mais convictos de que aquele acontecimento, de fato, existiu. Foi o Sérgio quem quebrou o silêncio em que nos encontrávamos:

- O mundo, depois da vinda de Cristo, passou por profundas transformações. Deixamos de ser politeístas, acreditando num único Deus, capaz de enviar seu filho, na condição de humano, para redimir nossos pecados e acreditar na vida após a morte. No entanto, nos distanciamos dos verdadeiros valores cristãos, imprimindo ao simbólico aniversário do filho de Deus, uma confraternização mais pagã, do que religiosa. As festas não exigem qualquer reflexão, apenas o prazer de comer e beber. E, o astro principal passou a ser o produto de marketing da coca-cola...

As palavras do Sérgio, foram recebidas com pesar por todos os presentes que, ao concordarem com a sua assertiva, também lamentaram nossa submissão ao comércio de presentes, com raríssimas exceções, onde mentes e mãos caridosas aproveitam a ocasião para distribuir carinho aos mais necessitados.

Aos poucos, fomos nos retirando pensativos, mas felizes por compreender melhor o tipo de festa sugerido pelo seu Gumercindo.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 10/01/2017 às 09h09 | sannickelle@gmail.com

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Beau Geste

Depois de tanto ouvir meu sobrinho, Cleuson, andar dizendo em voz alta “...tem gente...”, que resolvi perguntar para minha irmã, Neusa, o que significava aquilo. Ela, então, me disse que a professora aposentada, Dona Clarice, estava ensaiando um peça teatral sobre a obra clássica dos Irmãos Grimm, para ser apresentada no caramanchão da Praça Central, no dia do aniversário do Garden City.

Disse-lhe, com cara de não ter entendido patavina:

- Tá! E o que tem isso a ver com o Cleuson andar por aí dizendo, em voz alta:

- “...Tem gente...”

- Acontece que o Cleuson, depois que sua irmã foi escolhida para o papel principal, fez questão de participar da peça teatral. Nossa! Isso deixou a Dona Clarice em maus lençóis , pois a trupe já estava composta.

_E daí! Continuo boiando, Neusa.

- A peça é sobre Chapeuzinho Vermelho! No texto não há qualquer participação de uma criança de 5 anos...- Meu Deus amado!!!!!!!!... como ele bateu pé, que queria porque queria participar, eu fui falar com a Dona Clarice. Criativa como de costume, prontamente ela simulou na imaginação que a casa da vovozinha tivesse uma latrina ou banheiro fora da casa!!!!!! Isso quer dizer que o lobo, antes de bater à porta da casa da velha, teria uma possível dor de barriga ou algo do tipo. Ao dirigir-se para a latrina, o lobo mau encontraria a porta fechada e, em ato contínuo, bateria à porta. Como a dita cuja estaria ocupada, de lá o Cleuson gritaria:

- ...Tem gente...!

_O lobo mau, então, voltaria sua atenção para a casa principal...O resto da história você deve conhecer.

- Meu Deus! E o meu querido sobrinho aceitou fazer esse papel ridículo?

- Sim. Claro que a Dona Clarice o convenceu da importância daquela participação, porque permitiu um pequeno atraso do lobo mau e o consequente aparecimento do caçador.

- Tudo bem, Neusa, mas pelo menos ele poderia aparecer e não só falar.

- Essa hipótese não foi pensada. Tu tens alguma ideia para dar?

- Depois que o lobo mau se afasta da latrina, o Cleuson abre a porta e espia para fora! Aí ele aparece!!!!!

- É! Acho que é uma boa ideia...até que não iria alterar quase nadinha de nada a narrativa... Vou falar com a Dona Clarice.

A Dona Clarice, pensou um pouco e acabou aceitando a ideia.

- No entanto nós precisamos ensaiar o Cleuson para este papel, disse ela. Qualquer inserção no texto exige que o tempo seja computado.

E assim foi. E aquela semana, antes da apresentação da peça, o Cleuson já tava vibrando. Eu, de saco muiiiitooooo cheio, estava torcendo para o domingo chegar logo... já não aguentava mais ouvir o Cleuson dizer “tem gente”.

Enfim o domingo chegou. Na Praça Central, havia muitos moradores e convidados e, no caramanchão, uma cortina composta por lençóis fechava o cenário onde se desenrolaria a peça teatral.

Os atores já estavam nos camarins improvisados que ficavam atrás dos bastidores. Tudo meticulosamente pensado pela diretora da peça, Dona Clarice.

Sentado ao lado da Neusa, pude perceber como ela tava nervosa e ansiosa; acho que pela tensão do momento de estreia do Cleuson.

Ás 19h, como previsto, as cortinas se abriram.

O primeiro cenário se passava na casa da mãe do Chapeuzinho Vermelho.

Ao som de uma melodia campestre, uma voz anunciava:

“...ERA UMA VEZ UMA LINDA MENINA CHAMADA CHAPEUZINHO VERMELHO. UM CERTO DIA SUA MÃE PEDIU QUE ELA LEVASSE UMA CESTA DE DOCES PARA A SUA AVÓ QUE MORAVA DO OUTRO LADO DO BOSQUE..”

Em seguida entra em cena a atriz mirim que fazia o papel de Chapeuzinho; a cena transcorre normalmente até o tradicional encontro com o lobo com a indefesa menina:

- aonde vai chapeuzinho? Perguntou o lobo.

- Na casa da vovó levar uma cesta de doces. Respondeu Chapeuzinho.

- Muito bem boa menina, por que não leva flores também?

ENQUANTO CHAPEUZINHO COLHIA AS FLORES O LOBO CORREU PARA A CASA DA VOVÓ;

LÁ CHEGANDO, O LOBO IA BATER NA PORTA DA CASA DA VOVÓ, QUANDO SENTIU UMA TREMENDA DOR DE BARRIGA OU COISA BEM PARECIDA. SE CONTORCENDO TODO E SUANDO A PICOS, OLHOU PARA OS LADOS E VIU UM BANHEIRO FORA DA CASA... DEPRESSA SE DIRIGIU PARA LÁ...INUTILMENTE TENTOU ABRIR A PORTA, MAS ESTAVA TRANCADA...ELE, ENTÃO, BATEU À PORTA E OUVIU O SEGUINTE:

- ...Tem gente...!

NESSE ÍNTERIM, CHEGA O CAÇADOR QUE, DE ARMA EM PUNHO, AMEAÇAVA ATIRAR NO LOBO.

Sem estar previsto no roteiro da peça adaptada, de repente o Cleuson, que resolvera espiar quem batera à porta, constatou que o caçador apontava uma arma para o lobo. Ele, então, corre em direção ao lobo e abraçando-o, grita:

- Não mate o lobo!!!! ELE é apenas um animal selvagem...

A plateia, sem saber a adaptação exata da peça, começou a aplaudir o gesto do menino, que saíra em defesa do animal selvagem. Dona Clarice, que não esperava aquele acontecimento inusitado, passou a improvisar sua fala final:

DIANTE DA IMINENTE MORTE DO LOBO, O CAÇADOR BAIXOU SUA ARMA E CORREU PARA ABRAÇAR O MENINO QUE, COM SUA CORAGEM, DEFENDEU O ANIMAL. LOGO A SEGUIR, O CHAPEUZINHO VERMELHO CHEGOU À CASA DA VOVÓ A TEMPO DE PRESENCIAR O GESTO DESTEMIDO DAQUELE MENINO. JUNTOU-SE, ENTÃO, AO CAÇADOR QUE, ARREPENDIDO, AJOELHARA-SE DIANTE DO MENINO ABRAÇADO AO LOBO, PROMETENDO NÃO MAIS MATAR QUALQUER ANIMAL.

O público, que não sabia daquela improvisação, aplaudiu de pé o final ecológico da peça. Dona Clarice, ainda surpresa, e os atores foram recebidos como heróis.

A plateia, muito emocionada, gritava:

- Viva a Dona Clarice! Viva os atores! VIVA! VIVA! VIVA! Hip-Hip- Hurra!

A Neusa, perplexa diante da iniciativa do filho, correu para abraça-lo.

Beau Geste é um filme estadunidense de 1939 do gênero aventura, que significa “Nobre Gesto”, em Francês

Escrito por Saint Clair Nickelle, 03/01/2017 às 10h49 | sannickelle@gmail.com

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Passagem de ano

A comemoração da passagem de ano, no ocidente, tem origem num decreto do governador romano Júlio César, que fixou o primeiro de janeiro como o Dia do Ano-Novo.

Atualmente, a passagem do ano-novo é celebrada por todo o mundo e, normalmente envolve shows pirotécnicos em festas públicas, reuniões familiares ou com amigos, muita comida e muitíssimas bebidas alcoólicas.

O seu Gumercindo, depois do sucesso da Festa de Natal, resolveu fazer, também pela primeira vez no Garden City, um acontecimento público para celebrar a virada do ano em grande estilo.

A Praça Central novamente seria o palco da programação festiva, com queima de fogos de artifício, comida e bebida trazida por todos os moradores, bem como uma banda para animar a virada do ano.

O plano estava perfeito, bastava preparar as condições ambientais, ou seja, o local para a queima dos fogos, uma grande mesa para a comida e muitos isopores com gelo para as bebidas. Aos mais velhos foram dispostas mesas com quatro cadeiras cada, para que pudessem assistir os fogos e comer a ceia sentados.

O Carlos Alberto, técnico em eletrônica, ficou encarregado de montar a iluminação da praça e um telão onde seriam exibidas imagens do Garden City, dos seus moradores e, quando faltassem 10 segundos da meia-noite, a contagem regressiva da mudança de ano.

As mulheres das famílias decidiram o que fariam de comidas e/ou sobremesas, de tal sorte que houvesse uma variedade condizente com as típicas ceias natalinas . Aos homens coube o encargo das bebidas, gelo e meios de acondicionamento.

Naquela semana que antecedeu o Natal, a mobilização era frenética. Enquanto os funcionários do Garden preparavam o local da festa sob o comando do síndico, uma equipe de moradores ia de casa em casa, para contabilizar o número de participantes, já que alguns convidariam parentes. Ou seja, tudo devia ser bem planejado para que não houvessem falhas.

Enfim, chegou o dia da Festa. O dia, com muito sol e um céu de brigadeiro não previa chuva a noite. A noite desceu seu manto negro e a Praça Central se iluminou, tal qual uma árvore de natal.

Os moradores e convidados, aos poucos foram chegando e organizando as comidas na grande mesa. As crianças eufóricas, corriam por toda praça e brincavam no playground infantil. Alguns moradores, no entanto, já chegaram de copo cheio na mão, brindando com os que confundem festa com beber todas.

Lá pelas 22h, a Praça Central estava lotada, como se previra pela contabilidade prévia da equipe do síndico.

O seu Gumercindo, ao microfone, pediu um pouco de silêncio para anunciar oficialmente a abertura da Festa:

_Queridos vizinhos e convidados, depois do sucesso da Festa de Natal estamos hoje aqui para comemorar de forma, também festiva, o ano que se encerra e o novo que se inicia, desejando a todos um próspero e FELIZ ANO NOVO. Sirvam-se a vontade e bebam com moderação porque a FESTA é de todos nós do GARDEN CITY.

O seu Gumercindo, nem bem tinha saído do estrado, de onde fizera a abertura official da Festa, quando sentiu um frio na espinha ao ser abordado pelo Sebastião, marido da Walquíria:

- Aí, ó, geente fiina! …Belaas pala… vrraas…alilás, eeuu seemppre fuui teu fãã…tuu sabbees não ééé…?

- O Sebastião você já está bêbado, por favor vê se não arruma confusão, tá?

- O otoridadadee… podee deixáá…, mas dizer que euu star bebum é uma… uma ofensaa, viu!

O Sebastião saiu dali e já esbarrou na mesa do seu Agenor, caindo por cima dos velhos. Foi comida e copos de guaraná se esparramando pelo chão…Mas, ainda assim, o bebum gritava:

- Descurpee… gente… foii um acidennttee, porque eu nãããoo tô bêbadooo…Alilás, tôô procurandooo bebeeerrr comm moderaçõn, mas não a encontreii…

Muitos socorreram os velhos, parentes do seu Agenor, que pediram licença para se retirar, pois depois do susto e roupas molhadas não poderiam continuar na festa.

O seu Gumercindo, lamentou o ocorrido, pedindo desculpas pela insensatez do vizinho.

Como o Sebastião poderia aprontar outras, o síndico e a sua equipe o procuraram para convencer-lhe a se retirar, mas para surpresa foram impedidos por outros bebuns, em estado até pior de alcoolização.

- Autoridade, ninguém vai tirá o Sebas dessa freessta, porque fresta é fresta, tá!

- Pessoal, festa é festa, eu concordo, mas abusos não são condizentes com a comemoração. Além disso, há aqui muitos convidados, muitas crianças, e o espetáculo deprimente que vocês estão mostrando não é aceitável. Se, querem beber todas, por favor, voltem para suas casas.

- O quê! Você, seu merdinha, está nos expulsando da feeestaa, éé?

- Merdinha não, seu desbochado safado… Seu Gumercindo, já apoiado pelo seu genro e a sua equipe, desferiu potente soco na cara do Valdir, que encabeçava o grupo de bebuns. Como um dominó o Valdir foi derrubando os demais…

Não deu outra, como um rastilho de pólvora, a luta corporal se espalhou, derrubando mesas, velhos, crianças e as comidas. A luta campal parecia não ter começo nem fim, muito embora os deixa-disso fizessem um esforço para acalmar os mais exaltados.

Por fim, prevaleceu a força e a vontade dos mais sensatos e, a festa pode prosseguir, com a expulsão, inconformada, dos baderneiros.

Este fato fez lembrar-me de uma passagem de ano que participei em Balneário Camboriú/SC, no caso de 2004 para 2005. Logo após os abraços e palavras de FELIZ ANO NOVO e a queima dos fogos, o que se viu foi uma baderna iniciada pelos que entendem o momento como “beber todas”, que acabou se estendendo como um “tsunami” entre as ruas 2300 e a Praça Tamandaré.

A situação, antes festiva, transformou-se num quebra-quebra generalizado, exigindo das forças policiais uma ação nunca, até então, utilizada.

A tropa de choque da Polícia Militar, com seus cassetetes e escudos, varreram baderneiros e gente inocente da Av. Atlântica, transformando as promessas de FELIZ ANO NOVO, em palavras vazias, sem sentido, porque muitos, há muito tempo, dizem todos os finais de ano as mesmas coisas, mas projetam, já nos primeiros minutos do novo tempo, uma perspectiva cada vez mais insana de convivência. Não muito diferente da do síndico e de seus assessores

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/12/2016 às 17h41 | sannickelle@gmail.com

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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.
















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