Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

O medo matou a solidariedade

A solidariedade, esse gesto humano que nos diferencia dos animais, não significa apenas reconhecer a situação especial de uma pessoa ou grupo social, mas consiste no ato de ajudar essas pessoas, circunstancialmente, desamparadas.

Quando o Garden City ainda engatinhava como condomínio, se permitia, como nos demais logradouros urbanos, a aproximação de esmoleiros, de vendedores de frutas e legumes, etc., sem qualquer restrição.

Nessa época, os poucos moradores ainda estavam imbuídos da filosofia cristã de amar ao próximo e também o lado romântico da vida na zona rural. Muitos desses moradores oriundos de cidades pequenas, e que vieram morar na Capital por motivações diversas.

Bastou, no entanto, acontecer um furto na casa de um dos primeiros moradores, o seu Agenor, vulgo Nonô, para que o idílio campesino desse lugar a neurose urbana.

Em assembleia, decidiram os moradores, motivados pelo infortúnio do seu Agenor, estabelecer restrições rígidas para o ingresso de pessoas estranhas ao Condomínio. Nascia aí a separação física do Garden City à cidade, tal qual as cidadelas da idade média.

“Na Grécia antiga, a cidadela, que era chamada de acrópole (...cidade alta...) era uma presença eminente constante na vida do povo da cidade, servido como refúgio e fortaleza em situações de perigo...Na Idade Média a cidadela era a última linha de defesa de um exército sitiado, frequentemente defendida mesmo depois que a cidade já havia sido conquistada, e oferecia abrigo às pessoas que moravam nas áreas rurais em volta das cidades. ”

O medo que se repetisse atos semelhantes ao sofrido por um de seus moradores, fez com que se edificasse uma portaria típica das fortificações militares, cujo ingresso de estranhos e mesmo dos moradores, passou a ser rigidamente controlado... qualquer semelhança com o ocorrido entre os países europeus, durante a segunda Guerra Mundial, é mera coincidência.

Assim se espalharam os condomínios pelas cidades mais populosas, onde o medo tem predominado e a imprensa, na ânsia de informar, prioriza os acontecimentos policiais, deixando os urbanitas cada vez mais neuróticos.

Eu lembro, como se fosse hoje, o que ocorreu com o jovem Plínio de Almeida, filho do nosso vizinho de Condomínio, o seu Osvaldo. Ele estava voltando da Faculdade de Direito da PUC, lá pelas 23 horas de uma sexta-feira, quando seu carro teve uma pane, justamente na subida da Eduardo Prado, voltando para Ipanema. Conseguiu parar o carro no acostamento, depois tentou pedir ajuda para os carros que passavam, mas ninguém parou, até porque ali fica um conjunto habitacional popular e o pessoal tem medo de parar.

Depois de mais de uma hora, como não conseguiu ajuda, o Plínio saiu caminhando para tentar voltar a pé para casa, já que o celular estava sem bateria. Continuou pedindo ajuda sem sucesso.

Logo em seguida, foi abordado por cinco marginais que o assaltaram, roubando-lhe a carteira, relógio, celular e a chave do carro.

Como o carro não funcionou os bandidos, furiosos, passaram a surrá-lo e, depois da atrocidade, abandonaram-no, ensanguentado, no chão.

Como passava da 1h da manhã, seu pai acordou e foi ver se o filho havia chegado. Constatando que o Plínio não chegara, pegou o celular e ligou, mas não obteve resposta. Avisou a esposa que iria procurar pelo filho, pois temia ter-lhe acontecido alguma coisa.

Pôs o carro em movimento e, ao passar pela Portaria do Condomínio, avisou o porteiro que iria procurar o Plínio e, se acaso ele chegasse, que ele o avisasse pelo celular.

Seguiu pela Juca Batista, contornou a rótula e pegou a Eduardo Prado. Sem correr, procurava observar se via o carro do filho. Chegou no topo da Avenida, junto ao Condomínio Jardim do Sol, e começou a descer em direção à Cavalhada.

Perto da COHAB avistou, do outro lado da pista, o carro do Plínio. Fez o retorno e parou junto do corpo estendido do filho:

- Plínio, meu filho, o que houve meu querido?

Plínio, abriu os olhos inchados da surra que levara, viu o pai e ambos choraram compulsivamente.

- Meu amado filho, o que houve?

- Fui assaltado pai.

- Vou chamar uma ambulância e ligar para a polícia.

Devidamente medicado, pai e filho chegaram em casa pela manhã, já sob um sol intenso de verão. A mãe, que fora informada por telefone, aguardava ansiosa para abraçar o filho.

Agora, em casa, o Plínio pode contar detalhes de seu infortúnio:

- Meu carro teve uma pane e como meu celular estava descarregado, eu desci para pedir auxílio, mas ninguém parou para me ajudar. Depois de uma hora, cinco caras me assaltaram e tentaram fugir no meu carro, que não funcionou, então, resolveram me surrar! Depois, me abandonaram no chão. Alguns carros até diminuíam a velocidade para constatar um corpo ensanguentado caído junto do carro, mas ninguém parou. Acho que depois eu desmaiei e perdi a noção do tempo. Só acordei quando meu pai me abraçava chorando...

A imprensa, de um modo geral, tem contribuído para que as pessoas tomem cuidados ao prestar socorro, pois muitos casos de assalto são praticados em simulações de acidente, especialmente com motos. Assim, as pessoas que veem acidentes e/ou acidentados relutam em parar. Esse, talvez, tenha sido o caso do filho do seu Osvaldo.

No entanto, existe sempre a possibilidade de avisar a polícia, de tal sorte que esta possa verificar a veracidade da situação. Portanto, não se omita, recupere o gesto humano da solidariedade para não deixar morrer o sentimento de fraternidade.

“ A fraternidade universal designa a boa relação entre os homens, em que se desenvolvem sentimentos de afeto próprios dos irmãos de sangue."

Escrito por Saint Clair Nickelle, 01/12/2016 às 14h36 | sannickelle@gmail.com

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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.
















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