Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

o Brasil de verdade

A chuva intensa dos últimos dias trouxe, para a população mais pobre, a desgraça das enchentes...Aqui no Garden, várias casas apresentaram problemas de vazamentos nos telhados, mas nada que seus moradores não possam consertar. Já para a maioria dos brasileiros, só contando com a ajuda governamental! E eles, depois que as águas baixarem, voltarão a morar nas encostas e beira de rios, porque lá a especulação imobiliária ainda não chegou; é como morar quase de graça até a próxima enchente.

Enquanto a maioria da população brasileira não se beneficia da riqueza que o país produz, uma minoria rouba, descaradamente, de todas as formas. Às vezes lembro da frase símbolo de Winston Churchill, durante a segunda Guerra Mundial:

NUNCA, TANTOS DEVERAM TANTO A TÃO POUCOS.”

E, aqui no nosso país só cabe a verdade:

“NUNCA, TÃO POUCOS ROUBAM TANTO DE TANTOS”

Por isso, somos um país de miseráveis. Poucos países no mundo têm a riqueza que temos e, ainda assim, somos campeões de analfabetismo, de insegurança, de desmatamento, de precariedade em saneamento básico. Nós, hoje, matamos mais que na guerra da Síria, pela violência urbana e de trânsito. Algo inimaginável para os padrões de qualquer país, que tem o PIB que temos.

Por que somos assim?

“Mesmo sendo uma nação de dimensões continentais e riquíssima em recursos naturais, o Brasil desponta uma triste contradição, de estar sempre entre os dez países do mundo com o PIB mais alto e, por outro lado, estar sempre entre os 10 países com maiores índices de disparidade social.

Em um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas), que foi divulgado em julho de 2010, o Brasil aparece com o terceiro pior índice de desigualdade no mundo e, em se tratando da diferença e distanciamento entre ricos e pobres, fica atrás no ranking apenas de países muito menores e menos ricos, como Haiti, Madagascar, Camarões, Tailândia e África do Sul.

A ONU mostra ainda, nesse estudo, como principais causas de tanta desproporcionalidade social, a falta de acesso à educação de qualidade, uma política fiscal injusta, baixos salários e dificuldade da população em desfrutar de serviços básicos oferecidos pelo Estado, como saúde, transporte público e saneamento básico.” O Brasil tem mais de 100 milhões de habitantes vivendo sem saneamento básico, ou seja, esgoto sanitário.

Essa incrível desigualdade social torna quase impossível praticarmos uma cultura da paz, que é fundamental para o país viver sem medo. Olhem as casas e prédios residenciais, são cercados de grades, câmeras de segurança e cercas eletrificadas. Aqui no Garden City, apesar de ser um condomínio, com Portaria que controla rigidamente quem entra e quem sai, com guardas diurnos e noturnos, ainda assim, muitas casas tem grades nas janelas.

Dia desses, fui falar com um vizinho; era um assunto de nosso interesse mútuo, pois ele não me recebeu diretamente, apenas falou pelo interfone:

- Quem é?

- É o SAN da casa 56.

- Infelizmente, eu não te conheço e, portanto, não posso abrir-lhe a porta.

Deixei de falar com o vizinho e fiquei pensando, será que em outros países vive-se com tanto medo?

Lembrei-me de um casal de conhecidos que, atualmente, vive na China. Perguntei,  pelo WhatsApp, se as casas, lá na China tinham tantos itens de segurança como aqui, eles me responderam que não. A população da China é quase 7 vezes maior que a do Brasil...Como pode um país com tanta gente, que na década de 50 comia casca de árvore para não morrer de fome, agora ter esse equilíbrio social?

Em parte, nós sabemos que os crimes políticos levam seus praticantes a serem condenados à morte. Isso, por si só, é fator limitante para a prática de ilícitos, o que não é o caso do Brasil. Como disse o Ministro do STF, Luís Roberto Barroso:  “...a corrupção no Brasil é endêmica...”

Outra coisa que contribui para essa quase histeria de insegurança, provém dos noticiários que, os quais, por insistirem, exageradamente em veicular notícias trágicas e policiais, tornam a sociedade cada vez mais refém do medo. Raramente, temos notícias boas. Notícias de ações humanitárias, de respeito ao meio ambiente, de soluções alternativas para as questões do dia a dia, como reciclagem do lixo doméstico, compostagem (“...que é o processo biológico de valorização da matéria orgânica, seja ela de origem urbana, doméstica, agrícola ou florestal, e pode ser considerada como um tipo de reciclagem do lixo orgânico. Trata-se de um processo natural em que os micro-organismos, como fungos e bactérias, são responsáveis pela degradação de matéria orgânica.” ), por exemplo.

Será que os noticiários de outros países, cuja prosperidade é mais igualitária e a vida menos tensa, insistem, também, em noticiar só desgraças, roubalheira, assaltos, etc. como se fossem permanentes boletins policiais?

Será que não é chegada a hora de consultarmos psicólogos, para tratar dessas causas?

O que nos coloca, também, numa encruzilhada histórica é se o regime que adotamos será capaz de alavancar o desenvolvimento pleno. Mas, o desenvolvimento como sinônimo de qualidade, de mudança para a qualidade, não para a quantidade.

O principio predominante do nosso desenvolvimento é a acumulação privada de riquezas às custas dos pobres trabalhadores. Uma prova disso é que os pobres e os trabalhadores sempre foram explorados neste país e a desigualdade social é uma marca permanente na nossa história. Esta situação tem sofrido uma significativa alteração para pior nestes últimos anos, em virtude da hegemonia do modelo econômico e politico neoliberal, que aumenta a distância entre os pobres e os ricos e restringe a ação do Estado no combate à pobreza.

Nosso país está triste, descrente, mesmo com o trabalho magnífico da Lava Jato. Como robôs, vamos vivendo um dia a dia sem esperança de mudança efetiva.

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 13/06/2017 às 14h30 | sannickelle@gmail.com

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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.
















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