Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Seu Nonô

Seu Agenor, mais conhecido por Nonô, o mais antigo morador do Garden City, viveu até os 99 anos. Depois de ter sido internado diversas vezes, acabou falecendo em casa, cercado pelos parentes e alguns vizinhos mais íntimos.

Dizem que ele, antes de dar o último suspiro, não havia perdido sua característica de bronqueiro. Enquanto as filhas e os filhos o cercavam no leito de morte, pedindo-lhe que resistisse, ele lembrava, com voz rouca e fraca, a passagem semelhante do presidente do Estado do Rio Grande do Sul por 25 anos, Antônio Augusto Borges de Medeiros que, cercado pelos cupinchas da República Velha, respondia aos apelos dos que o cercavam:

- CORAGEM, CORAGEM, Dr. Borges...

- CORAGEM?...CORAGEM não me falta, o que me falta é AR...

Assim, também, se manifestava o seu Nonô:

- Deixem-me ir embora, eu não aguento mais esta vida sem sentido, em especial nesse país de corruptos em que vivemos.

E, os filhos contestavam:

- Como sem sentido, pai?

- Nós precisamos do senhor vivo...

- Precisam para quê, meu Deus!

- Ora, pai, isso é pergunta que se faça? Nós te amamos.

- Eu sei que vocês me amam, mas eu não amo mais a vida nem o nosso país. - Vocês não imaginam o sofrimento que eu, um velho de 99 anos, passa até para cumprir a rotina diária.

- Mas pai, a gente tem facilitado tudo pro Senhor, inclusive compramos este aparelho de surdez para que  pudéssemos manter um diálogo e saber das suas necessidades.

- Aliás, este aparelho de surdez, para os que não sabiam, foi muito oportuno para saber o que realmente falavam de mim, inclusive de vocês, que esqueciam que eu estava ouvindo. Aproveitei tudo isso para fazer algumas mudanças no meu testamento.

- Credo papai! Isso é coisa que se faça para nós, filhos dedicados, amorosos e presentes?

- É, basta falar em grana, pra vocês ficarem se auto-elogiando, como se eu não soubesse das queixas que vocês fazem quando estão longe de mim.

Os cochichos fora do quarto do seu Nonô eram intensos, principalmente pelas velhas filhas dele, as quais não se conformavam que até na hora da morte o pai pudesse ser tão ranzinza. Os vizinhos mais íntimos ouviam e também cochichavam entre si:

- É, o velho não é fácil!

- Mas, como síndico, foi um exemplo de honestidade...Coisa rara no Brasil.

- Mas, como marido, deixou muito a desejar. Quantas vezes eu ouvi ele brigando com a dona Amália, sua primeira esposa...

- É verdade, eu acho que até batia nela, coitada, que a Deus a tenha...

- A única que suporta o velho é a neta Marcinha, uma santa...

- Santa sim! Quantas vezes ela veio se queixar pra mim dos maus tratos do avô...

- É verdade, nem para aquela santa criatura ele deixava de infernizar...

- Por isso está aí, nesse morre não morre, que Deus me perdoe!

- É, e na hora de morrer, não adianta se arrepender, pedir perdão, com medo do inferno.  

Enquanto os cochichos na sala continuavam, no quarto, seu Nonô continuava seu périplo pré-morte aos filhos que o rodeavam:

- Vocês pensam que levantar todos os dias, lavar o rosto, mijar sentado, alcançar a toalha ou o papel-higiênico é tarefa fácil. Fácil para vocês, que ainda tem alguma vitalidade. Pra um velho, como eu, é um sacrifício medonho e, às vezes, humilhante, como chamar alguém pra sacudir pra mim!

- Credo, papai, como você pode afirmar uma coisa dessas. Nós estamos aqui, e na nossa ausência, a Marcinha o acompanha...

- Acompanha, nada! Vive de fofocas na vizinhança...

- Mas papai, a Marcinha dedicou toda a sua juventude a cuidar do senhor. Tudo bem que ela é um pouco desajeitada e distraída,...

- Acho que, por isso nunca namorou nem casou, mas daí a falar mal dela é inaceitável...

Entre uma tosse e outra, o seu Nonô não deixava de ser ferino:

- É porque vocês não sabem da metade da missa...Ela vive dando em cima dos empregados do Condomínio. Quantas vezes eu tive que pedir para ela entrar, tarde da noite.

- Como assim, dando em cima dos empregados? O senhor sabe que, apesar de seus 40 anos, ela tem idade mental de criança.

- Sim, eu sei, por isso me preocupo, quando ela demora para entrar.

- Outro dia, o guarda noturno veio me avisar que ela estava trepada numa goiabeira.

- Ah! Grande coisa, papai! Aqui no Garden City, com todas essas frutas no pomar, quem não se sente tentado a colher goiabas ou o que quer que seja na época?

- Tá certo? Mas, de vestidinho rodado e sem calcinha de baixo?

- Papai!

- Mas, olha as fotos, minha filha, as goiabas nem apareceram!

- Tiraram fotos?

- A endiabrada fez até pose!

 A tosse e os soluços aumentavam e o seu Nonô pedia:

- O urinol... por favor!

- Aqui está, papai...Acalme-se, que o médico já está chegando!

- Chegando, pra quê? Quem o chamou?

- Ora, fomos nós, papai!

- Então, vocês vão pagar a consulta! Vocês sabem que tá o olho da cara uma consulta em casa!

- Que bobagem, papai, nós fizemos uma “vaquinha” e vai custar só um pouquinho para cada um de nós e outro pouquinho pro o senhor...

- ”Porco cane!” Parem de falar comigo, como se eu fosse um velho idiota! Vocês são um bando de “Pão duro”! Não foi a mim, que vocês puxaram...

Mais um acesso de tosse e soluços e o seu Nonô parecia estar se despedindo...Os filhos se reuniram ao redor de seu leito e dizem ter ouvido suas últimas palavras:

- Se algum de vocês quiser mandar uma mensagem ao diabo, digam-me, agora, pois estou prestes a encontrá-lo”          

Ainda perplexos, os filhos deram-se as mãos, rezando para que Deus, em sua infinita bondade, o perdoasse.

“Vou lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias.” Albert Camus.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 18/07/2017 às 17h00 | sannickelle@gmail.com

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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.
















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