Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Por que?

Um amigo meu que mora em Balneário Camboriú, na maravilha do litoral norte de Santa Catarina, ao visitar-me, dias desses, no Garden City, se disse abismado com o que ocorre naquela cidade, aparentemente tão organizada.

- Sabe, Gumercindo, eu morei, por mais de 40 anos em Porto Alegre e, nunca vi gente tão indisciplinada, em matéria de desrespeito as leis de trânsito.

Conhecendo os problemas da Capital gaúcha, em especial no que diz respeito ao trânsito, perguntei-lhe:

- Como assim, Carlinhos?

- Eu vou te descrever, em rápidas pinceladas, o que lá ocorre, para que possas traçar um paralelo com Porto Alegre, que é 20 vezes maior.

- Gumercindo, você já viu o canal “MAIS GLOBOSAT”, que tem um programa chamado “ VISTO DE CIMA”?

- Sim e, por sinal, gosto muito.

- Pois, bem, se você comparar Balneário Camboriú com qualquer outra cidade, dos chamados países desenvolvidos, vai perceber que, guardadas as características topográficas, o desenho urbano destinado aos veículos e as pessoas, é praticamente igual, com suas faixas de pedestres, sinais de trânsito, ciclovias, semáforos, etc... No entanto, se as filmagens fossem feitas com câmeras paradas, sobre drones, por exemplo, você constataria que lá, as pessoas e os veículos obedecem rigidamente as regras de trânsito, o que não ocorre nas nossas cidades.

- Será que é falta de educação do nosso povo, Carlos?

- Em grande parte, sim! Mas, eu tenho, também, uma outra explicação que, mais tarde, quero submeter a você.

- Vou te descrever a cidade que hoje moro e, que por sinal, gosto muito, partindo da beira-mar, especificamente da Av. Atlântica, para o interior.

Essa bela Avenida, circundada pela praia e pelos edifícios, praticamente não tem semáforos, em parte porque não tem cruzamentos. O único semáforo é com a Av. Central. Ao longo de sua extensão desembocam 55 ruas e, na Atlântica existem dezenas de faixas de pedestres, em nível elevado. Foram construídas para facilitar a constante travessia das pessoas para a praia e vice-versa. Se você percorrer de carro, da Barra Sul, onde fica o teleférico, até o Pontal norte, vai encontrar crianças, velhos, pais e/ou mães com crianças pela mão, atravessando, de forma perigosa, fora das faixas de pedestres. E sabe porque fazem isso?

- Eu imagino, Carlinhos, que é por falta de educação urbana.

- Em parte, você tem razão, mas se perguntares para as pessoas ouvirás:

- Olha moço! Na faixa de pedestre corre-se mais riscos, porque o primeiro carro para e você começa a travessia, mas o seguinte e as infernais motos não param e os atropelamentos acontecem.

- E, por que fora da faixa de pedestre você acha mais seguro atravessar?

- Simplesmente, porque se escolhe o momento exato que  não vêm veículo algum, o que não acontece na faixa onde uns param e outros não.

- Quanto a questão da educação, posso te afirmar que na Atlântica, teoricamente, circula o pessoal de melhor formação e quiçá maior escolaridade e poder aquisitivo. Gente, inclusive, muito viajada.

Conforme tu vais te afastando da beira-mar, vem, em paralelo a Avenida Brasil que, diferentemente, da Atlântica, tem dezenas de cruzamentos e, neles, quase um semáforo em cada esquina.

- Como as faixas de pedestres, em sua maioria, estão associadas com os semáforos, diminui muito a imprudência dos pedestres e dos motoristas, não por educação, mas por um meio eletrônico que impõe respeito, ou seja, é o olho mágico e controlador invisível do guarda-de-trânsito.

- Depois, também em paralelo, vem a Terceira e a Quarta Avenidas, onde a circulação de veículos é muito intensa, mas como na Brasil, repleta de semáforos, onde pode-se dizer que o conflito entre pedestres e veículos se auto-resolve. A exceção fica por conta das motos e dos condutores de bicicletas.  Os motociclistas, com suas peculiares pressas, são os maiores riscos aos pedestres. E, os ciclistas, talvez só uns 30% utilizam as ciclovias, mas o que complica mais, além de irritar os condutores de veículos motorizados, é o mau uso das faixas de pedestres pelos ciclistas. Eles desconhecem o Código Nacional de Trânsito, o qual lhes dá pleno direito de prioridade nas faixas zebradas, desde que conduzindo a bicicleta pela mão, na condição de pedestres. Além disso, são um permanente risco aos demais pedestres que, na faixa, se defendem das apressadas motos e das bicicletas.

- Agora, nós estamos chegando na Quinta Avenida. Lá, é um Deus nos acuda, porque, mesmo existindo uma ciclovia central, faixas de pedestres e semáforos, ninguém respeita nada. Se você é uma pessoa consciente, e procura uma faixa de pedestres para atravessar as duas pistas e a ciclovia, onde não há semáforo, deve ter muito cuidado, porque os veículos motorizados não param e os ciclistas andam na contramão, fora da ciclovia. Do contrário, você vai conhecer o Hospital Rute Cardoso, mesmo obedecendo as regras de trânsito.       

- Nos bairros, as coisas não mudam muito. Eu lembro de levar e buscar meus netos, na principal escola pública municipal do Bairro Nova Esperança. Em frente da escola há uma faixa de pedestres, mas os alunos saem correndo, ignorando-a, como se tivessem ficado enjaulados durante horas. Só obedecem quando Fiscalizados pela Guarda Municipal. Eu sempre disse aos meus netos que não aceitaria que eles atravessassem fora da faixa. Mas, observando diariamente aquela movimentação, eu notava que alguns professores e mesmo mães com as crianças pela mão, insistiam em ignorar a faixa que lhes era destinada. Certa vez eu perguntei aos meus netos, quem era aquela professora que sempre atravessa aqui, longe da faixa, se desviando dos veículos, perigosamente. Eles disseram:

- É a nossa Orientadora Educacional!      

- Para concluir nossa conversa, Gumercindo, aquilo que eu te falei se a causa é falta de educação, eu te afirmo, com quase absoluta certeza, não é! - É, sim! Vontade de desrespeitar as leis e a certeza de que não haverá punição ou mesmo constrangimento. Essas mesmas pessoas, quando viajam para Londres, Nova Iorque, etc., na condição de pedestres e/ou motoristas, jamais fariam tal coisa lá...POR QUÊ? Lá eles punem no ato.

- Pobre de você se for atropelado fora de uma faixa de pedestre.

- Puxa, Carlinhos! Será que um dia as autoridades vão de fato mudar esse quadro, ou continuar se omitindo?

- E, o pior Gumercindo! É que essa omissão superlota os hospitais públicos.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 15/08/2017 às 10h41 | sannickelle@gmail.com

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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.
















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