Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Em busca do paraíso

Corria o ano de 2023 e eu, sentado na minha varanda junto à Praça Central do Garden City, aguardava a chegada do meu irmão Izidoro e da minha cunhada Maria de Lourdes, que foram passar a virada de ano no litoral norte de Santa Catarina.

O meu irmão, estancieiro de Bagé, estava fazendo essa viagem pela primeira vez, porque nunca se dera o deleite de sair de casa e conhecer outras plagas, mas acabou sendo convencido pelos filhos...e até por nós.

Seria um ano atípico, começando pelas eleições presidenciais que, para incredulidade dos investidores e euforia dos ultradireitistas, o Bolsonaro havia emplacado. O Lula e o Palocci continuavam presos, mas em celas separadas, porque já tinham tentado se matar.

Minha paisagem, no entanto, era idílica, deixando em segundo plano as notícias sobre a roubalheira dos políticos, pois as quaresmeiras derramavam flores deslumbrantes para este par de olhos românticos. Chamei minha prenda para, ao meu lado, desfrutar de tanta beleza. Ela veio com aquele chimarrão quentinho, sentou-se e me pegou na mão, dizendo:

- Sinto-me tão feliz por estar ao teu lado e me encantar com a singeleza da natureza...

Concordei, sem nada dizer, mas não pude evitar lágrimas de felicidade...

- Eles estão demorando, será que aconteceu alguma coisa, querido?

- Não! É o trânsito infernal nessa época do ano...logo, logo estarão aqui.

Passaram-se mais alguns minutos e o telefone da Portaria anunciou a chegada do casal visitante.

Depois dos cumprimentos e das acomodações, sentaram para conversar, já que o Gumercindo e a Odete estavam curiosos para saber dessa primeira viagem.

- E, aí! Maria de Lourdes! Aproveitaram bastante?

- Olha, queridos, eu, sinceramente, imaginava outra coisa, mas o Izidoro ficou bem mais frustrado;

- Ué! Mas por quê?

- É muita gente...Nós não estamos acostumados em disputar lugar, ser mal atendidos, pagar verdadeiros absurdos para comer, alugar cadeira e guardassol. Enfim, coisas que os nossos olhos e ouvidos custam a se adaptar. O Izidoro, vocês sabem, gosta daquela nostalgia batendo nas folhas das árvores do campo; de ouvir o canto dos pássaros; do coaxar das rãs quando chove e até o canto do grilo, ao anoitecer. Lá, onde estávamos, a única coisa que se vê, é gente amontoada, quase brigando por um espacinho na praia.

- E, tu Izidoro, não gostou, também?

- Olha, gente, não é possível entender o que tantas pessoas querem fazer naqueles lugares. Aliás, belíssimos, mas numa virada de ano, é uma loucura.

- Foram até Bombinhas?

- Na verdade nós tentamos, não é Maria de Lourdes?

- Sim, querido! Mas eu concordo que foi um suplício.

- Gumercindo! Nós saímos do Hotel às 7h da manhã, pegamos a BR 101, que a essa hora já estava atulhada. Aquela pequena distância, de cerca de 30km, entre Balneário e Porto Belo, nós levamos 6 horas. Tanto é verdade, que acabamos almoçando em Porto Belo, pois já era uma da tarde. Enquanto almoçávamos no Restaurante La Ponte, podíamos observar o trânsito contínuo dos veículos, como se fosse um trem com infinitos vagões. Nos carros, as pessoas demonstravam um olhar cansado, como se tivessem indo para um velório...

Terminamos de almoçar, lá pelas 3 da tarde...olhamos um para o outro e dissemos, quase ao mesmo tempo:

- Vamos adiante ou voltamos? A prudência das mulheres é muito importante nesses momentos, pensei comigo. Ela, então, disse convicta:

- Vamos voltar!

- Foram mais 6 horas de estrada trancada, quando o normal é levar de 30 a 40 minutos.

- Então, nem foram a Bombinhas?

- Fomos, uns dias depois. Mas, o pior vocês não sabem: lá, também, tinha gente saindo pelo ladrão! Acabamos conseguindo chegar à Praia do Mariscal,  depois do meio-dia.

Tava difícil de achar lugar para estacionar, isso que era meio de semana. Por fim, conseguimos estacionar, pagando 30 pila pra um flanelinha, que se achava dono do lugar. Aliás, isso é outra coisa negativa, por aquelas bandas, a exploração do turista.

- Vocês imaginam ter que pagar 50 por uma cadeira e mais 50 pra um guardassol? E, nada de cadeira novinha, não! Aliás, chechelenta, toda manchada, mas o quê fazer? Ficar sentado no chão, não dava; o negócio, meu irmão, era encarar e tentar desfrutar da paisagem.

- Bueno, depoisssss tomamos aqueleeeeee banho gostoso, que acabou compensando tanto trabalho.

- Jantamos, ali mesmo em Mariscal, e saímos para enfrentar a maratona da volta, ou seja, 7 horas de estrada, num interminável para e anda.

- Olha, queridos! Se essa é a forma de diversão do pessoal da cidade, eu tô fora! Mas, sabe como é, se não tivéssemos passado pela experiência, dificilmente, nossos incentivadores descansariam, em especial os filhos e até vocês e a Maria de Lourdes. Com essa, eu acabei  confirmando a minha teoria de que “só se pode sentir feliz, onde você se sinta bem”. E, lá na fazenda, eu tenho certeza está a felicidade, de braços abertos, nos esperando.

E, assim, prevaleceu nosso jeito rural de ser, mais contemplativo do que agitado.

Quem vive nas cidades se beneficia por estar próximo as prestações de serviços, como: hospitais, escolas, rede de mercados, divertimento, principalmente a noite. Outra vantagem, que faz com que as pessoas prefiram a zona urbana, é a oferta de empregos. As desvantagens são os riscos que se corre diariamente: ar poluído, trânsito estressante, barulho em excesso, criminalidade, assaltos, prostituição.

Quem vive no interior ou no campo tem uma vida mais tranquila, porém está longe de todas as vantagens que as cidades oferecem. Enfim, que cada um de nós saiba fazer as escolhas certas e não agir como boiada, como dizia um velho amigo meu:

- Se todo mundo tá indo pra lá, eu vou no sentido contrário!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 09/09/2017 às 09h33 | sannickelle@gmail.com

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Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.
















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