Jornal Página 3
Coluna
Mãe na Roda
Por Caroline Cezar

O primeiro a perceber acende a luz

Quando escuto que "esse mundo está perdido", não sei de que mundo estamos falando, afinal, estamos aqui agora, o google maps nos acha fácil. 

Nesse mundo que está perdido eu acho que ninguém vota, mas todos se interessam por política. Ninguém pede favores, usa de influências, fica com o troco, pega o lugar do outro, todos são muito justos e honestos. Só quem se elegeu, não sei de que jeito com a maioria dos votos, rouba descaradamente. Mas a maioria mesmo é contra essa corja que está no poder e há uma equipe justa e honesta pronta para salvar o país assim que os larápios forem postos na cadeia.

Nesse mundo que está perdido escuto muitas pessoas do bem lamentando por quase todas as coisas: é segunda-feira, acabou a sexta, cadê férias, mercado tá caro, está chovendo, está muito quente, está muito frio; e sobre as leis, as que existem e as que não existem, e as que nem deviam existir porque denunciam o 'mundo virado'.

- "Não é um horror precisar de uma lei que permita amamentar em público? Realmente, isso é o fim, não tem mais jeito, podemos desistir".

Deixa eu repetir que vivo nesse mundo perdido, e faz uns dois anos e meio que amamento minha criança, que por um ano completo só queria saber do leite materno e nada mais. Nem de roupa ela gostava, ou seja, uma criança que passava os dias mamando, pelada, pendurada na mãe na rua, na igreja, no parquinho, no restaurante, na calçada, no chão, na praia, e até passeando de bicicleta, que choque.

Em nenhuma dessas vezes alguém se aproximou do binômio mãe e bebê com cara estranha ou esboçando reação negativa, mas muitos vieram oferecer uma cadeira, uma água, um apoio, uma conversa, que sempre era a melhor opção, porque às vezes cansa dar de mamá por horas em silêncio. A maioria dos que se achegaram -de crianças a velhinhos e cachorros- estavam nitidamente acessando uma memória amorosa, dizendo coisas como "ah minha filha, esse é o melhor lugar do mundo"; "eu queria estar aí sem me preocupar com nada"; "Isso é tudo que precisa".

Também já ofereci apoio a mães na mesma situação e nunca presenciei um constrangimento ou uma oposição a uma mãe amamentando. Confesso que uma vez fiquei com vontade de mudar uma de lugar - ela simplesmente sentou no corredor de entrada do shopping numa hora de pico, e aquela gente toda passando e o bebê alvoroçado me causou um desconforto. Quase ia sugerir, mas ela me olhou com uma cara tão feia que desisti. Talvez ela precisasse estar exatamente ali e isso não era da minha conta, aliás, aquilo era só da minha conta, talvez pra ela fosse outra coisa totalmente diferente.

Vou aproveitar pra dizer que não só as mães que amamentam que precisam de leis, ops, apoio. Tem essa da licença paternidade, que bom aumentar um pouquinho né, mas deixa dizer que 20 dias é nada para um puerpério e que pais que realmente querem se comprometer terão que ficar uns dois anos praticando de verdade como se constrói uma cumplicidade. Não importa se tem compromissos no outro dia, todo mundo tem, o conceito de trabalho é relativo e estamos todos aqui trabalhando de um jeito ou outro.

E essas mães que tem filhos esperneando nos corredores dos mercados, nas missas, nos vôos de avião, nos lugares onde se exige 'comportamento'? Que lei vai protegê-las dos olhares de julgamento e culpa que recebem diariamente? Na verdade se elas educassem direito não acontecia aquilo? E se elas derem uma sacudida na criança, desesperadas porque seu entorno pede uma providência? Metade vai achar o fim, metade vai achar que podia ter feito diferente. Ninguém vai apoiá-las, oferecer uma água, tentar distrair a criança. Quem acolhe uma criança mal educada, birrenta, uma mãe atarefada, perdida, mau humorada? Que lei pode ajudá-las?

A lei maior. A lei do amor. Essa é a única lei que pode ajudar realmente a construir humanidade, em qualquer situação. Não é com briga, não é com violência, não é exigindo providência, é tentando que aquela sua luzinha acesa lá dentro do peito lembre as outras luzinhas do seu entorno primeiro que elas existem, depois que podem se comunicar sem precisar de grandes discursos! Estamos ligados e nosso entorno fala sobre nós. O sutil precede o denso. Cuidar de si é cuidar do outro. Acreditar no amor, sempre, sem sombra de dúvida.



*Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão, de Caroline Cezar, no Página3 Expresso

Escrito por Caroline Cezar, 18/03/2016 às 06h32 | carol.jp3@gmail.com



Caroline Cezar

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Quando escuto que "esse mundo está perdido", não sei de que mundo estamos falando, afinal, estamos aqui agora, o google maps nos acha fácil. 

Nesse mundo que está perdido eu acho que ninguém vota, mas todos se interessam por política. Ninguém pede favores, usa de influências, fica com o troco, pega o lugar do outro, todos são muito justos e honestos. Só quem se elegeu, não sei de que jeito com a maioria dos votos, rouba descaradamente. Mas a maioria mesmo é contra essa corja que está no poder e há uma equipe justa e honesta pronta para salvar o país assim que os larápios forem postos na cadeia.

Nesse mundo que está perdido escuto muitas pessoas do bem lamentando por quase todas as coisas: é segunda-feira, acabou a sexta, cadê férias, mercado tá caro, está chovendo, está muito quente, está muito frio; e sobre as leis, as que existem e as que não existem, e as que nem deviam existir porque denunciam o 'mundo virado'.

- "Não é um horror precisar de uma lei que permita amamentar em público? Realmente, isso é o fim, não tem mais jeito, podemos desistir".

Deixa eu repetir que vivo nesse mundo perdido, e faz uns dois anos e meio que amamento minha criança, que por um ano completo só queria saber do leite materno e nada mais. Nem de roupa ela gostava, ou seja, uma criança que passava os dias mamando, pelada, pendurada na mãe na rua, na igreja, no parquinho, no restaurante, na calçada, no chão, na praia, e até passeando de bicicleta, que choque.

Em nenhuma dessas vezes alguém se aproximou do binômio mãe e bebê com cara estranha ou esboçando reação negativa, mas muitos vieram oferecer uma cadeira, uma água, um apoio, uma conversa, que sempre era a melhor opção, porque às vezes cansa dar de mamá por horas em silêncio. A maioria dos que se achegaram -de crianças a velhinhos e cachorros- estavam nitidamente acessando uma memória amorosa, dizendo coisas como "ah minha filha, esse é o melhor lugar do mundo"; "eu queria estar aí sem me preocupar com nada"; "Isso é tudo que precisa".

Também já ofereci apoio a mães na mesma situação e nunca presenciei um constrangimento ou uma oposição a uma mãe amamentando. Confesso que uma vez fiquei com vontade de mudar uma de lugar - ela simplesmente sentou no corredor de entrada do shopping numa hora de pico, e aquela gente toda passando e o bebê alvoroçado me causou um desconforto. Quase ia sugerir, mas ela me olhou com uma cara tão feia que desisti. Talvez ela precisasse estar exatamente ali e isso não era da minha conta, aliás, aquilo era só da minha conta, talvez pra ela fosse outra coisa totalmente diferente.

Vou aproveitar pra dizer que não só as mães que amamentam que precisam de leis, ops, apoio. Tem essa da licença paternidade, que bom aumentar um pouquinho né, mas deixa dizer que 20 dias é nada para um puerpério e que pais que realmente querem se comprometer terão que ficar uns dois anos praticando de verdade como se constrói uma cumplicidade. Não importa se tem compromissos no outro dia, todo mundo tem, o conceito de trabalho é relativo e estamos todos aqui trabalhando de um jeito ou outro.

E essas mães que tem filhos esperneando nos corredores dos mercados, nas missas, nos vôos de avião, nos lugares onde se exige 'comportamento'? Que lei vai protegê-las dos olhares de julgamento e culpa que recebem diariamente? Na verdade se elas educassem direito não acontecia aquilo? E se elas derem uma sacudida na criança, desesperadas porque seu entorno pede uma providência? Metade vai achar o fim, metade vai achar que podia ter feito diferente. Ninguém vai apoiá-las, oferecer uma água, tentar distrair a criança. Quem acolhe uma criança mal educada, birrenta, uma mãe atarefada, perdida, mau humorada? Que lei pode ajudá-las?

A lei maior. A lei do amor. Essa é a única lei que pode ajudar realmente a construir humanidade, em qualquer situação. Não é com briga, não é com violência, não é exigindo providência, é tentando que aquela sua luzinha acesa lá dentro do peito lembre as outras luzinhas do seu entorno primeiro que elas existem, depois que podem se comunicar sem precisar de grandes discursos! Estamos ligados e nosso entorno fala sobre nós. O sutil precede o denso. Cuidar de si é cuidar do outro. Acreditar no amor, sempre, sem sombra de dúvida.



*Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão, de Caroline Cezar, no Página3 Expresso

Escrito por Caroline Cezar, 18/03/2016 às 06h32 | carol.jp3@gmail.com



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