Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

A CARAVANA DE LULA PELO SUL: um conflito com a sombra

A passagem da caravana de Lula pelo Sul da Brasil foi intensamente marcada por paradoxos: de um lado milhares de pessoas que queriam abraçar, beijar, tocar, tirar foto, ouvir o ex-presidente e, de outro, manifestantes contrários tentando impedir a passagem de Lula com frases de ódio e atitudes violentas.

O que surpreende neste movimento é o crescimento e a explicitação da intolerância, da divisão de classes, do uso de métodos antidemocráticos e fascistas para silenciar aqueles de quem divergem, ou seja, há um distanciamento do povo brasileiro da característica que lhe é atribuída: de povo da paz.

De fato, vivemos um conflito com nossa própria sombra: não temos consciência da nossa história e da nossa identidade. Negamos nossa cor - matamos negros, subjugamos suas capacidades; não temos consciência de classe – vivemos o ethos da casa grande, desejamos ser capitão do mato confundindo quem são os oprimidos e opressores; hierarquizamos os Estados brasileiros –  desejamos separar o Sul dos demais Estados, cultivando a ideia da luta dos bons contra os maus. Confundimos direitos com benesses, justiça com vingança – açoitamos e desejamos o armamento do povo; não temos clareza de importância da Democracia e, assim, pedimos a volta da ditadura e intervenção militar.

Portanto, o que vemos é ódio alimentado, manipulado, aquecido - contra quem?  Contra Lula. Por que este ódio contra o ex-presidente que deixou o cargo com mais de 80% de aprovação (bom e ótimo); que teve a maior taxa de empregabilidade, que criou o maior número de universidade federais e de escolas técnicas? Talvez porque ele é o conflito da nossa sombra – representa tudo que cotidianamente negamos – nosso povo pobre, nossas desigualdades sociais, nossa violência. Qual como nossa sombra que assombra a ordem estabelecida é preciso apagar, impedir que se propague.

Há quem tenha orgulho de se sentir o que não é. Eu prefiro as ruas, as praças, o povo da luta por um país de todas as cores e credos. Sou mais gente no meio deste povo que quer a partilha do pão, da terra, das riquezas. Escolho este povo que luta pelos direitos humanos e pela equidade, por um país da Democracia e da liberdade – sem jamais precisar do “cavalo e chicote” contra quem quer que seja. E, assim, parafraseando o poeta Jose Saramago, onde à sombra de ti, o meu perfil é linha de certeza e de convergências, realizando justiça e ensejando a paz.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 04/04/2018 às 16h36 | marisazf@hotmail.com

MARCAS DE QUEM TRAZ NA PELE O PAPEL DE SER MULHER

O nascimento de uma menina é marcado não apenas pelo padrão biológico (sexo), mas profundamente pela cultura em que ela está inserida e pela construção social dos papeis de homem e de mulher (gênero).

Este papel social começa a ser delineado ainda na barriga da mãe: para menina escolhemos o enxoval nas cores suaves e, preferencialmente, rosa como “cor de menina”. Os brinquedos ligados as tarefas da casa, as bonecas, as brincadeiras, os modos de sentar, entre outros, vão sendo caracterizados como o que é de meninos e o que é de meninas. Estas práticas, embora pareçam sutis, em boa parte das vezes, são reprodutoras de relações sociais desiguais de poder. Às mulheres vinculamos a ideia de “fragilidade” física, de seres dóceis e indefesos e que ocupam o lugar do cuidar e servir. Aos homens associamos a “força” física, a inteligência, a capacidade de liderar, comandar (patriarcado) e de ocupar espaços de poder.   A consequência desta construção social – espraiada nos lares, nos meios de comunicação, nas escolas, nas esferas do trabalho - tem gerado estereótipos, preconceito e violência.

A estereotipia nas relações sociais, segundo estudos da área (Santos, 1990), promove angústia e dor, afetando seriamente a saúde das mulheres.  Logo, ao falarmos do 8 de março, é preciso refletir sobre a trajetória das relações entre meninos e meninas, entre homens e mulheres para avançar na a construção de novos papeis que produzam rupturas e modifiquem essa realidade social, pois ela é empobrecedora das relações e das potencialidades humanas.

É preciso reconhecer que as marcas que todas nós mulheres trazemos na pele e na alma, particularmente as mulheres negras, as pobres, as transexuais, as indígenas, as mulheres dos rios e dos campos, inferiorizam e sufocam a nossa capacidade de contribuir na construção de um mundo sustentável e de relações de irmandade.

No entanto, na dura lida, aprendemos com exemplos de grandes mulheres, a resistir e persistir. A chorar, mas imediatamente secar as lágrimas e seguir. Aprendemos a reivindicar, protestar, levantar a bandeira do feminismo em todos os lugares do mundo. Aprendemos a lutar pela liberdade do nosso corpo e pela Democracia. Irreverentes, batendo latas, tambores, de lenços na cabeça, descalças ou de salto – buscamos equilíbrio e não estamos mais dispostas a deixarem que digam que “isso não é coisa de menina”, que aquietem nosso espírito de ação e de fé.

Conscientes, portanto, que a equidade de gênero só virá com a união das vozes espalhadas pelo mundo de mulheres que compartilham a esperança e o movimento de justiça - caminhamos.

Parabéns a todas mulheres/irmãs que caminham e inspiram a marcha, em cantos e em gritos de alerta até que todas sejamos marcadas pela liberdade de SER. 

(creditos de imagens: Vik Muniz - Espelhos de Papel)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/03/2018 às 00h25 | marisazf@hotmail.com

DO PORTÃO AO RECREIO DA ESCOLA: um caminho para autonomia aprendizagens

A escola se constitui como um verdadeiro campo de confronto de ideias, culturas e perspectivas que exigem a revisão de padrões e conceitos dos profissionais e gestores da educação, especialmente, daqueles que insistem em manter seus olhos na vigilância cerceadora da autonomia e corresponsabilização.

 Da educação infantil ao ensino superior é visível a decadência das relações e o esvaziamento das funções da escola e dos sujeitos envolvidos:  o modelo instituído, pautado de um lado por práticas tradicionais e, de outro, pelo viés da “economia dos municípios”, parecem ingredientes chave para o fracasso da qualidade dos serviços ofertados.

Ao observarmos os movimentos em torno da educação e a recente polêmica em Balneário Camboriú – “quem vai cuidar do recreio e do portão das escolas” – fica evidente o distanciamento da construção de uma escola como lugar de desenvolvimento humano, de cuidado, ensino, educação e socialização. Aliás, estes mesmos que propagam que escola apenas ensina, caem em contradição, pois não é possível conceber o processo educativo apenas como uma atividade intelectual. Portanto, será que o debate deve estar centrado apenas em identificar de quem   é a função do portão, do refeitório e do recreio?  Na redução de custos para os cofres públicos?

 

É básico o entendimento que todos que trabalham na educação – diretores, motoristas, serviços gerais, cozinheiros, professores, especialistas, devem ter formação específica, pois o modo como as famílias e as crianças são acolhidas, como os alunos se movimentam nos espaços tempos demarca a compreensão de toda jornada escolar como parte integrante e estruturante da vida e das aprendizagens. Logo, não são neutros, ao contrário, revelam um conjunto de valores, de ética e estética da escola e de todos os envolvidos.  

Do portão ao recreio revelamos os conceitos de educação, de projeto educativo e se há partilha com as famílias, com os meninos e meninas que frequentam este ambiente.  Assim, Falar em partilha, diferentemente dos gestos de punição e vigilância é  falar de uma escola democrática, que define normas de forma coletiva  e, sobretudo, de uma escola que trabalha com autonomia. Neste sentido, ser autônomo significa ter ferramentas que permitam ao sujeito refletir por si só entre o certo e errado. Quando a educação é balizada por este princípio as crianças aprendem a tomar decisões e os adultos envolvidos avançam dos atos de ameaças e punições como processos de suborno e reforçadores de heteronomia – muitas vezes recorrentes no ambiente escolar, por exemplo, apenas colocar agentes de controle destes espaços, sem um projeto educativo pode ser uma estratégia de controle da violência, mas não educa os alunos para liderem com conflitos e tensões cotidianas.

Há, portanto, a necessidade de compreensão do lugar de cada sujeito e do impacto que tem na vida dos alunos as ações de todos que fazem parte do contexto educativo. Digo isso porque não basta criar um projeto de lei para dar determinado ‘bônus” para este ou aquele funcionário. É necessário enfrentar os reais problemas que nossas escolas vivem e definir um projeto educativo abrangente, sólido de conhecimento, promotor de autorregulação e corresponsabilização.

O esvaziamento de uma reflexão mais profunda sobre o rico tempo de ensino e aprendizagens que ocorrem, ou deveriam ocorrer, nos recreios escolares, servem, apenas para gerar maior distanciamento entre os diversos profissionais que atuam na escola, para o empobrecimento das relações e, é claro, para alguns vereadores terem palco para a hipocrisia.

Enquanto a comunidade se limitar a pensar que suas crianças e jovens devem estar na escola sendo “vigiados” e não discutir investimentos do ponto de vista humano e de equipamentos para que o recreio e o pátio da escola sejam promotores de oportunidades, inviabilizaremos projetos e experiências que possibilitem aos alunos o exercício da convivência solidária e da estruturação de toda jornada escolar como um tempo de aprendizagens significativas.  Afinal, quem não se recorda do recreio como um momento de lazer, liberdade, encontros e mesmo com conflitos como um momento muito desejado da jornada escolar? 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 30/01/2018 às 11h24 | marisazf@hotmail.com

A esperança não tem fim

Ao chegarmos ao término de mais ano, é preciso resignificar as passagens, os tempos os rituais, as marcas que deixamos e também é imprescindível fazer um balanço de como fomos marcados.

No percurso da vida e do ano 2017, perdemos amigos, familiares, conhecidos, pessoas próximas e até distantes, mas que por algum, ou por muitos, sentimos profundamente e choramos.  Nos rituais de despedidas sempre há um turbilhão de emoções e eu particularmente, reflito sobre o curto tempo que temos, sobre o quanto nos apegamos a coisas insignificantes e o quanto “tiramos tempo” para se despedir, fazer homenagens, enviar flores – imagino quanta alegria em vida poderíamos dar às pessoas se enviássemos flores? Se dissemos que elas são importantes para nós? Que são amadas?

A vida em sociedade exige, amorosidade, compreensão de cidadania e de civilidade. Este ano, sem dúvida, atingimos estratosféricos números de violência, intolerância, ganância, brutalidade e mentiras. Os meios de comunicação, de modo geral, potencializados pelas redes sociais, protagonizaram um assombroso movimento separatista (e não falo do absurdo “o Sul é o meu país”), os brasileiros, ao meu ver, ao se digladiarem entre si, ocultaram o foco, as suas identidades e continuam sendo manipulados por aqueles que historicamente aviltaram o patrimônio econômico, natural e cultural do Brasil. Exercer cidadania requer um movimento profundo de disciplina, criticidade e generosidade. No entanto, esta postura e estes papéis, como de homens e mulheres, não são inatos ou biológicos – exigem movimento, uma escola, uma igreja, uma família, uma cultura dinâmica, ativa, livre e libertadora.

De fato, nestes últimos tempos, vivemos retrocessos inimagináveis – avanço do conservadorismo, da ocupação política de grupos religiosos fundamentalistas, de ataque a democracia e aos princípios constitucionais, de venda e saque do patrimônio público, de congelamento dos gastos, sobretudo, da educação, atingindo de modo perverso grupos étnicos, religiosos, homossexuais, estrangeiros, mulheres e crianças. A Reação é necessária. A Esperança não pode ter fim. O grito das ruas, o diálogo das vilas, o clamor dos excluídos precisam ser instituídos, acalentados e acolhidos por uma grande irmandade capaz de tecer “a mesma antiga trama que não se desfaz. E a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais” (Vinicius de Morais)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 31/12/2017 às 15h56 | marisazf@hotmail.com

Por que uma escola democrática?

Longe de simples, unívoco e linear, o contexto educacional tem todas as características de um sistema altamente complexo e, portanto, necessita ser considerado nesta complexidade se desejamos uma educação de qualidade.

O termo qualidade tem múltiplas representações pela sua polissemia, talvez por isso, a educação é constantemente afetada pela falta de coerência na própria definição de qualidade, fato agravado pela tomada de decisões sem a voz da comunidade escolar, especialmente, dos educadores e dos estudantes.

Dentre os movimentos implementados e as novas ideias observamos que aumenta-se o tempo escolar, contraturno, mas não mudam-se as práticas – o que gera, como lembra o professor Pacheco (2012), uma “dose dupla de tédio”; fala-se em tecnologias, uso de tablets, lousas digitais, mas continuam as aulas acríticas, reforçadoras do individualismo e do afastamento afetivo – elemento chave da cooperação, da fraternidade e da vida em comunidade; fala-se da ruptura com as relações de favor, subordinação e clientelismo, mas a gestão da escola continua tendo como critério a indicação política e de apadrinhamento.

Este cenário reforça a convicção na assertiva de que a escola vive no modelo epistemológico do século XIX e é foco de outras formas de colonialismo - que tem gerado inercia e desesperança. Neste contexto, parece adequada a reflexão de Boaventura de Sousa (2017) quando diz “é por isso que as vítimas se viram contra a vítimas. Por esta razão é que as vítimas, votam e elegem seus próprios opressores. ”

Por que então, precisamos uma escola democrática? Para respeitar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, (9.394/1996), que tem como princípio a gestão democrática da educação pública, o Plano Nacional de Educação (13.005/2014) e, principalmente, a Lei 4.013/2016 que dispõe sobre o processo de eleição para Diretores e Coordenadores das unidades educativas da Rede Municipal de Ensino de Balneário Camboriú - que deveria acontecer na primeira quinzena de dezembro de 2017. Ainda, pelo fato da gestão ser um dos pilares fundamentais do bom funcionamento e da qualidade escola e por sua função social de formadora da cidadania.

A falta de democracia na escola e a exclusão da comunidade escolar da esfera decisória, é, portanto, repressiva, opressora e promotora da alienação. Somente a participação livre e consciente nos processos de decisão asseguram a ruptura da passividade e da subordinação, pois) “ninguém vive plenamente a democracia nem tampouco a ajuda a crescer, primeiro, se é interdito no seu direito de falar, de ter voz, de fazer o seu discurso crítico (FREIRE, 2000). A educação de Balneário Camboriú, para assegurar plenamente a sua qualidade precisa concretizar urgentemente este propósito.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 29/11/2017 às 12h22 | marisazf@hotmail.com

O REI ESTÁ NU: quem pode ver?

 

As crianças, de modo geral, não têm voz e nem voto. São comumente uma presença invisível na vida da comunidade – há pouca crença no seu potencial, na sua inteligência e na sua capacidade para compreender o mundo que a cerca. São vítimas da retórica das normas, dos falsos pudores que os adultos inventam nas famílias, nos meios de comunicação e na educação.

A necessidade de maior atenção aos pequenos insistentemente evocada por psicólogos, médicos, professores, assistentes sociais, pesquisadores das mais diversas áreas, parece não ter eco. Boa parte das crianças brasileiras continuam fora da escola, morando nas ruas, vivendo em condições de extrema pobreza, sendo vítimas de agressões físicas, psicológicas, sexuais, da fome, do trabalho infantil, entre outras inúmeras mazelas que as afetam de modo muito particular.

Esses casos parecem não se tratar de pessoas reais, nem de gente miúda, pois não incomodam e não mobilizam redes sociais, como por exemplo, o modo como reagiram à performance do homem nu, no MAM. Isso denuncia como estamos sem foco, indiferentes aos reais problemas que afetam nossas crianças, apontando descaso da atual sociedade em assegurar que as crianças vivam suas infâncias. 

Somos acríticos! Nos deixamos levar por ondas sensacionalistas e, acredito sobremaneira, pelo medo de perder o que já não temos: identidade civilizatória. Temos medo do nu, porque a nudez revela os equívocos conceituais e o vazio profundo da nossa corporeidade. Voltamos assim, aos remotos tempos de crise reflexiva em que não podemos esperar de boa parte da população algum compromisso com coerência. Em nome da defesa da família (cabe lembrar que grande parte dos abusos físicos, psicológicos e sexuais são cometidos por familiares ou pessoas muito próximas das crianças), criamos inimigos, separamos os bons dos maus e perpetuamos reais abusos contra os pequenos.

O Rei está nu: quem pode ver? As crianças - como no conto de Hans Christian Andersen. São elas que sem os vícios do foco, enxergam sem medo o corpo do outro como um espelho que transcende a imagem convencional de uma sociedade doente, porque não conhece seu próprio corpo e sua corporeidade.

Que possamos por e com elas, superar a alienação, a obediência deslumbrada, a retórica vazia e avançar para o autoconhecimento, que é o fundamento do respeito pelos outros e pelo mundo.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 26/10/2017 às 16h54 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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