Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

AS NOVAS COREOGRAFIAS SOCIAIS, O ESPAÇO ESCOLAR E A SAUDADE

O espaço escolar, da Creche ao Ensino Superior, sempre foi povoado por múltiplas vozes e sonoridades e, sobretudo, por múltiplos encontros. Risos, conversas, o choro, os burburinhos dos grupos, o atrito das rodas das mochilas, o arrastar das carteiras, o calor do abraço, as rodas de conversa, os grupos de amigos, os colegas, os professores .... Como viver sem eles? Como lidar sem essa imaterialidade? Como se situar nessa nova coreografia social?

É certo que o silêncio e o isolamento desses últimos meses têm afetado a todos e de modo profundo – aos professores, aos alunos e às famílias. Acostumamo-nos com as sonoridades, com a arquitetura dos prédios escolares, com a organização das salas, com o calendário escolar, com a constituição dos dias letivos, com a mecânica disciplinar dos horários. Em um engendramento quase que automatizado, naturalizamos o modo de enxergar os corpos e a ocupação do espaço escolar – essa coreografia materializada nas filas, nas áreas para circular, parar, correr, brincar, sentar-se – agora também inabitada, silenciada. Percebemos que não sabemos viver sem elas, sem eles. Sem os sons e as pessoas que habitam o espaço escolar, sem a rotina, a dinâmica pedagógica e social da escola, sofremos! Sentimos saudades.

Desse modo, o isolamento social forçado pela pandemia da COVID-19 revela uma das mais perversas faces - exponencia o sofrimento. Afeta as crenças, os valores, as instituições, o sistema financeiro, o mundo do trabalho, as relações sociais. Como uma tempestade nos desloca do eixo, reconfigura a casa, a escola, os espaços físicos e nosso interior.  

É fato que a escola foi absorvendo inúmeros papéis e, desde a existência da tradição pedagógica, que tem sua origem no século XII, tem uma série de medidas: legislativas, cientificas, metodológicas, filosóficas, econômicas, apenas para citar algumas, por meio das quais impactam na sua função e no modo como a sociedade a define. Em que medida a escola de hoje tem contribuído? Qual o papel dos professores? Qual a função da escola para a sociedade e para as famílias?  Qual o papel da família na partilha da educação dos filhos? O que é preciso saber para ensinar de agora em diante?

Em um contexto altamente complexo e em meio a uma tomada de decisões emergenciais de segurança e de saúde pública, estamos longe da possiblidade de respostas conclusivas. No entanto, parece que assistimos, em escala internacional, a uma necessidade de reconceitualização da escola, do espaço escolar, mas não só. Há uma necessidade de reconceitualização da vida, da vida em comunidade e do próprio processo civilizatório.

Não é de hoje que vivemos isolados e afastados do compromisso coletivo de cuidar, de ensinar e de educar as crianças, os jovens e os adultos. Não é de hoje que muitas famílias transferiram suas funções para a escola; que a sociedade trata os problemas sociais, sobretudo, das profundas desigualdades econômicas e culturais, de modo simplista e deslocado. Não é de hoje que ciência, o conhecimento científico – fonte precípua de atuação da escola – vem sendo atacada com movimentos que deslegitimam a autoridade pedagógica e científica e aprofundam o distanciamento entre a escola e as famílias. Não é de hoje que a violência e a exclusão social chegam desnudadas ao espaço escolar e não encontram estrutura física, pedagógica e emocional para acolhê-las, tampouco a escola encontra no conjunto da sociedade processos de corresponsabilização com a transformação desse cenário. Vivemos isolados em estruturas arquitetônicas que enclausuram corpos e cerceiam a liberdade, a criatividade e a solidariedade. A distância foi reconfigurada ou, talvez agora, tornou-se estatizada – normatizada pelo Estado, por isso, então, mais visível.

Reconceituar esses e outros tantos cenários é também a possiblidade de enxergar, nesse mais amplo e visível isolamento, o quanto padecemos de proximidades, de partilha de corresponsabilização. De coreografias sociais implicadas à vida coletiva. Necessitamos um reencontro, um entrelaçamento com as famílias e com o conjunto da sociedade para assegurar não apenas a nossa sobrevivência, mas existência humana e a função social dos espaços educativos.

 É tempo de reconfigurar o ambiente escolar, ampliar experiências de espaços ao ar livre e nas áreas verdes; organizar as salas com menos alunos, mais arejadas e interconectadas; espaços abertos à participação das famílias, da comunidade. Uma coreografia capaz de sustentar relações e interações seguras, diversificadas e respeitosas com as especificidades do coletivo de sujeitos que compõem esses espaços. Um contexto educativo com materiais alternativos, com uso de tecnologias e estratégias que aproximem os envolvidos e desafiem a pensar, a protagonizar uma nova e qualitativa relação com o conhecimento e sua função transformadora. Um ambiente que reconfigure o lugar da mediação pedagógica, a imagem dos professores capaz de sustentar uma motivação profissional potente, uma perspectiva bioecológica(BROFENBRENNER, 1997) de educação que compreenda a interconexão das múltiplas esferas – ambientais, sociais, emocionais, econômicas, culturais do desenvolvimento humano.

Reconhecer a necessidade de reconfiguração acredito ser um caminho para buscar novos modos de relacionarmo-nos com o meio onde vivemos, com as pessoas que nos cercam e, sobretudo, conosco. Com a casa interna – tão cheia de medos, de angústias, tão carente de afeto. Uma nova forma de experimentação, exercida, como diz Larrosa (2007), por meio do que nos passa, do que nos desacomoda e tem a ver com a criação de uma ética, de uma escolha por um novo modo de vida. Essa postura abre-se para a sociedade como um todo, conectando-se intimamente e preservando a vida em todas as dimensões.

Tomar consciência dessa nova realidade é um movimento que precisa ser exercido individual e coletivamente, sob pena de não termos memórias para projetar e imaginar o futuro. O silêncio das escolas não poderá ter sido em vão. O isolamento, tampouco. É preciso ousadia, coragem para enxergar o impacto do distanciamento no aprofundamento das desigualdades sociais e do papel da escola como um espaço de humanização, proteção, partilha e construção de conhecimento. Um espaço de múltiplas e qualitativas coreografias de vida e de encontros.  

É possível juntos coreografarmos um novo e mais generoso contexto social e escolar, pois há, entre tantos sentimentos, a saudade, que é um tênue, mas poderoso fio que sustenta o desejo de nossa proximidade, de nossa humanidade.

 Imagem: autor desconhecido

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 29/06/2020 às 16h28 | marisazf@hotmail.com

MORTE E VIDA

 

O percurso existencial é como um intenso pulsar, envolto de surpresas e imprevisibilidade. 

Do nascer até o fim de nossos dias, não há como negar o cintilar das luzes, a inebria escuridão que sobressalta nossos olhos, as centelhas que agitam o corpo e a vida, que muitas vezes busca subterfúgios, nos mais profundos devaneios, para se proteger. Para continuar a existir.

Irrompendo o silêncio, anunciamos a chegada ao mundo externo.  Continuamos nossa dança existencial embalados por múltiplos ritmos. Descobrimos o riso, o colo, o olhar, a poesia... Somos impelidos a trilhar caminhos, crescer, mudar de rotas, refazer as malas, recolher as dores, reinventar o jeito de caminhar.

E quem imaginaria que chegaríamos tão longe? Quem imaginaria que se avizinharia cenas com tantas mortes, tantas pessoas enclausuradas, tantos sorrisos ocultos, tantas vozes abafadas, tantos abraços impedidos e tantos funerais solitários? 

A quarentena que passamos parece se assemelhar aquela vivida por um certo jovem galileu, ou aquela bem mais recente, vivida por crianças, jovens, idosos que estão à margem da sociedade. Aqueles que vivem ou sobrevivem como órfãos da humanidade.  

Uma comunidade produtora de órfãos. Que anda em um ritmo tão frenético que não é capaz de perceber quem habita a rua, os viadutos, as praças. Aquele que dorme sobre o papelão, o banco, o terreno vazio.  Aqueles, de corpos enrolados em seus cobertores como crisálidas, que parecem ensaiar o voo da vida e da invisibilidade.

A quarentena em meio a quaresma cristã, revela uma face de um forçoso isolamento social, que espantosamente vivíamos sem perceber. Também é reveladora de outras invisibilidades daqueles que aqui habitam. Os mares, parecem que abriram espaço a vida marinha. A poluição do ar reduziu sensivelmente - o céu e as águas estão mais azuis.  

Em meio a tantas contradições e incertezas, parece que temos um caminho possivel para reestabelecer a relação com o planeta, com a economia, com o consumo, com a saúde púbica, com o papel do Estado, com as relações sociais e conosco.  Reinventar o modo de trabalhar, de estudar, de educar os filhos e cuidar das gerações futuras.

Nesses tempos de imprevisibilidade apenas surge o desejo de sobreviver? Ou seria melhor, de ressuscitar?

Acredito que, simbolicamente, o chamamento é a passagem da morte à vida. A vida plena de significado existencial.  E, neste novo ambiente, é necessário desacelerar o egoísmo, silenciar, encontrar-se consigo mesmo, levantar-se do abismo que criamos. Encontrar no sopro da vida, a força e a esperança de enfrentar a morte. Alavancar conhecimentos que de fato salvam vidas e que alicerçam estruturas emocionais e de humanidade.

Esse periodo exige mais do que criatividade. Exige voltar e aprender viver em comunidade – aquela que cuida de si e do outro e que mesmo a distância, se faz sentir em gestos de generosidade e de partilha.

Façamos um ensaio sobre a lucidez, para lembrar Saramago. A viagem não será mais a mesma. O mundo não será mais o mesmo. Eu, você, não seremos mais os mesmos. Haveremos de sair da morte à vida.  Então,  se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. (SARAMAGO).

 Feliz Passagem!

créditos da imagem: Aline Pascholati

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 12/04/2020 às 11h33 | marisazf@hotmail.com

Capitão Moleque e a Batalha da Coroa

Era uma vez… em um reino não tão distante, uma grande pandemia havia gerado uma enorme confusão.

O tal reino era comandado por um capitão lá não muito confiável. Já havia, durante a juventude, sido expulso de um exército por mau comportamento, mas fazia graça. Falava em uma língua estranha que curiosamente muitos gostavam e até aplaudiam.

As notícias da pandemia vinham de toda parte e se espalhavam na velocidade da luz, anunciando o terror do tal vírus, que alguns chamavam de coroa, outros de corona, mas o que todos comentavam é que era muito contagioso, se propagava rapidamente e, pior, ceifava muitas vidas.

Assustada, boa parte da população aceitava as orientações dos especialistas – magos, bruxas, curandeiras, essa gente que gostava de pesquisar, fazer experiências. De fato, eram pessoas estranhas que poucos conheciam naquele reino, falavam que o que eles faziam era algum tipo de balbúrdia. Os mais antigos os chamavam de cientistas – pessoas que usam a ciência para encontrar fórmulas para tratamento e cura de doenças.

Esses diziam:

— O melhor a fazer é ficar em casa até o inverno passar.

Alguns comentavam:

— Até o inverno? Isso é muito tempo.

Outros contestavam:

—Isolamento social? Isso só pode ser brincadeira ou coisa daqueles caras vermelhas.

Para muitos aqueles dias eram inacreditáveis. Impensáveis.

Bem, havia ainda aqueles que achavam uma boa ideia ficar em casa. Se reencontrar com os filhos, cozinhar, cuidar das plantas, dos animais…

Até que então, os ventos sacudiram as longas cabeleiras dos cobradores de impostos, os donos da casa grande. Eles achavam um absurdo as pessoas não trabalharem. Pegaram suas marionetes e foram às ruas conclamar:

— Saiam de casa! O reino não pode parar!

Outros repetiam:

— O reino vai falir! Como comeremos? Como pagaremos as contas?

Havia alguns ainda mais insanos, que não tinham nem tanto cabelo nem juízo, que em plena praça pública também anunciavam para todos ouvirem:

— Vai morrer gente, sim, e daí? Um dia todos morrerão.

A população então ficou mais confusa e assustada e se dividia: tinha os que acreditavam que deveriam sair para o trabalho. Afinal, durante toda a vida só fizeram trabalhar pelo pão de cada dia. Nunca haviam pensado em outra forma de existência.

Esses eram então ainda mais encorajados pelo rei, que aparecia de vez em quando no meio do povo, com a cara um tanto pálida, olhos esbugalhados, e com sua linguagem estranha dizia:

— Sejam homens e não moleques! É só uma gripezinha! O nosso reino não pode parar!

Os moleques já não compreendiam a comparação e muitas meninas também não entendiam por que não poderia o rei dizer: — Sejam corajosos como uma mulher! 

O tumulto e o medo pareciam não ter fim.

Mas, em alguns lugares do reino, bem, bem distante do rei e dos cobradores de impostos, uma magia estava acontecendo. As pessoas, estavam descobrindo o prazer de ficar com os filhos. Cantavam para os vizinhos, liam histórias, falavam de outras guerras e doenças e como outros reinos encontraram a cura. Passaram a dividir os alimentos e, mesmo sem se tocarem, passaram a compartilhar dores e alegrias que os aproximavam como nunca. 

Os pais, as mães, os filhos e até os netos se encarregaram de proteger os idosos. Dividiam as tarefas de casa e faziam juntos as lições da escola. Sim, naquele lugar, o tal vírus fez as pessoas descobrirem que as escolas e os educadores existiam e que eram muito legais.

Essas pessoas estavam tão envolvidas em cuidar de si e dos outros que descobriram que sobreviveriam com a partilha, a solidariedade e, é claro, ouvindo as orientações daquele povo da ciência. Aqueles que pareciam bruxos e curandeiros…

Então, selaram um acordo: depois que tudo isso passasse os estudiosos, os cientistas, as escolas, o afeto e a partilha teriam lugar de destaque naquele reino. 

Mas, antes, é claro, teriam de resolver o problema do rei, que já aparentava muito doente, emocionalmente abalado, até parecia digno de pena. Ou seria a hora de lhe tirar a pena? Assim, não faria leis e decretos de morte, pois as pessoas amavam viver. 

Aquele reino não tão distante também resolveu registrar a sua história para as gerações futuras.

Qualquer semelhança pode ser mera coincidência - tá okei?

 

*para acessar o texto ilustrado, clique aqui!

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/04/2020 às 11h53 | marisazf@hotmail.com

INSTINTO E A RAZÃO DE SER: covid

 

A existência humana sempre exigiu esforço, resiliência, dedicação. Isso porque parece que há uma linha no horizonte que nos faz percorrer caminhos, enfrentar desafios buscar novas terras, novos mares ...  E como isso fez a humanidade ir longe.

Instinto aventureiro?  Instinto de ter? Ou será a razão que fez com que chegássemos até aqui?

É certo que o instinto de sobrevivência foi rapidamente, sobretudo, por algumas culturas, substituído pelo desejo de conhecer, descobrir, inventar, dominar, reconstruir a realidade e, assim, as necessidades, a limitação entre o bem e o mal e a relação com a Terra, com as pessoas.

Na linha dos desejos, perdemos o bom senso e nos tornamos desejosos de poder e de acúmulo. Inventamos guerras, fronteiras e mais poder. Criamos homens quase deuses que fazem o mundo girar sob suas regras.  E como estamos girando em uma velocidade frenética nesses últimos dias! Se é observável o feito desses homens – quase deuses – também é observável o caos em que nos encontramos.

Isolados, afastados física, emocional e materialmente. Vivemos com medo.  Se o processo de humanização se dá na relação com outros humanos, faz algum tempo que vivemos distantes desta premissa. Basta olhar para os morros, os guetos, os muros, muralhas físicas e sociais –  arquitetadas e que há muito tempo   nos afastam. Nos separam. E o que de fato enxergamos? Muitas vezes nada além do nosso próprio umbigo.

E por falar em umbigo, parece contraditório o estado em que vivemos: viemos ao mundo unidos por um cordão que nutre, desenvolve e possibilita a vida. Por mais que sejamos separados de nossas mães, abruptamente ao nascer, somos totalmente dependentes da sua proteção e do seu cuidado.  As marcas desta convivência carregamos por toda a existência.  Marcados somos e carregamos as marcas como uma chaga, como a porta de entrada à vida e de saída ao mundo. Que tal olhar mais atentamente ao formato do umbigo?  Como elo, sem começo, sem fim.  Como casa e terra que nos traz a vida e gera a vida, fornece alimento e anuncia proteção. Como chaga de pertencimento.

Hoje a ordem é ficar em casa. Ficar distante do outro: não beije, não abrace.  Não visite e não tenha contato físico.

Por que parece tão estranho? Por que o momento nos deixa em pânico?  Medo de morrer?  Sabemos que, a cada dois minutos e meio, uma criança morre por não ter acesso à água potável e por falta de condições básicas de higiene, de alimentação. Essas mortes são escamoteadas cotidianamente. Por que elas não nos contagiam?

Medo de tocar? De abraçar com amorosidade e entrega?  Isso é cena comum para tantas pessoas que apenas passam desapercebidas pela multidão. Outras cotidianamente são distanciadas pela cor, pela condição sexual, pela pobreza.

Medo de crise econômica? Quem ela afetará? No Brasil, segundo relatório da ONU/2019, 1% da população mais rica, concentra 28,3% da renda total do país. Caímos no ranking do IDH e aumentamos a desigualdade social nos últimos dois anos. E para mudar isso, não há um plano de governo, um representante público que saia de seus escritórios e gabinetes mediante ao limbo social que multidões se encontram, dando ordens: reparta o pão, abrace as pessoas, seja solidário, estenda a mão ao vizinho, não acredite que a desigualdade social seja resultado das próprias pessoas excluídas – no jargão de que são “vagabundos”. Imagine um poder público mobilizando recursos e políticas públicas humanitárias, anunciando e exercendo solidariedade e trabalhando incansavelmente em prol dos menos favorecidos – como seria nossa realidade?

Enquanto o governo não faz a sua parte, façamos a nossa. Lutemos, afrontemos a ordem comum estabelecida, nos posicionemos crítica, racional e amorosamente mediante o mundo. Dê esmolas, dê pão a quem tem fome, dê abrigo, casa....

Hoje a linha do horizonte apenas aponta para uma outra guerra – a do Covid19 . Eu não quero menosprezar a gravidade do momento como faz de modo irresponsável o (des) governo, mas quem sabe, neste momento, possamos dar um novo sentido à vida. Compreender a interdependência com outras vidas e com o próprio planeta.

Hoje ajudar a salvar vidas é também se recolher, mas não ficar só. É inquietar-se no próprio recolhimento. É enxergar aqueles que não tem casa para retornar, não tem recursos para armazenar mantimentos – aliás aqueles que sempre tiveram seus “armários” e, sobretudos, seus estômagos vazios. Essa pandemia vai revelar a mais dura face na pobreza material e também naqueles pobres de espírito e de consciência social.

Espero que antes de morrermos, resinifiquemos nossas empobrecidas vidas.  Afrontemos os modelos econômicos que geram pobreza, desigualdade e violência. Controlemos a ambição desenfreada que aniquila o planeta, seus preciosos recursos e sua exuberante beleza. Modelos geradores de poluição e agitação diária que encobrem como uma cortina nebulosa nossa visão, os nossos corpos e outras vidas.   

Paremos. Passemos valorizar o estreitamento do afeto, o papel do estado na seguridade e justiça social.  Retomemos abraço, aquele que vai além, do toque físico:  que cura fome, a miséria, a violência e o ódio que esvazia nosso senso de pertencimento e toma conta de tantos corações.

Voltemos para a casa da humanidade. Conscientemente. Urgentemente. Enxerguemos a nova razão de SER HUMANO – um convite a vida.

 A criação - detalhe-   Michelangelo (1510) 

 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 22/03/2020 às 11h53 | marisazf@hotmail.com

CRIANCICE

 “Criancice é como o amor, não se desempenha sozinha”. Tomo emprestada a afirmação de Mia Couto, da obra O fio das missangas (2009, p.113), pois me parece impossível pensar a vida, o processo civilizatório, sem contemplar a infância, a criancice.

Vivemos correndo do tempo, da idade, da infância. Há um insistente movimento que nos apressa a sair dela: da fase que, para muitos, tudo falta. Não falam, não controlam os movimentos, não leem, não refletem. Não, não, não… Os “nãos” ecoam como alarmes estridentes que anunciam a saída dos sonhos, da fantasia, do chorar, do brincar, do sorrir por pouco, do contemplar as pegadas de um cão, o caminho das formigas, o voo das borboletas (há tempos também não as vejo).

De férias ou a trabalho, são elas – as crianças e seus movimentos, suas diversões, seus choros, seus conflitos, suas gargalhadas, seus gritos, suas habilidades – que me tocam, me chamam a atenção. Não consigo ficar inerte.

Me aproximo desses movimentos e logo me vem à mente o que poderíamos fazer, enquanto pais, avós, tios, educadores, vizinhos e sociedade, para assegurar a criancice? O que poderíamos fazer para assegurar a infância não só para as crianças, mas dentro de nós mesmos?

É fato que apressamos as crianças expulsando a infância de suas vidas do mesmo modo que expulsamos de dentro de nós a criança e a infância que em nós habita. A cada gesto mais sereno, menos complicado, a cada riso mais solto e espontâneo, a cada mergulho mais sensível na vida, somos impelidos a retornar, a desabitar a criança presente. Será pelo medo de não sermos reconhecidos como pessoas? Como alguém de valor?

Desse modo, esvaziamos a nós mesmos e esvaziamos o sentido das próprias crianças. Embrutecemos o gesto, alinhamos o andar e erguemos a cabeça de tal modo que só enxergamos a vida de um ângulo: de cima.

E de cima, do alto do nosso corpo adulto, enxergamos as crianças também pela metade, apenas por uma parte.

Perdemos nós, perdem elas… Nos diminuímos e nos moldamos às normas adultocêntricas que empobrecem a existência, encurtam as relações pessoais, interpessoais e, sobretudo, intergeracionais.

Que tal ver a vida por inteiro? Este me parece ser um exercício imprescindível e, como o amor anunciado por Mia Couto, não pode se desempenhar sozinho. Precisa ser compartilhado, com as crianças, com sua insistente curiosidade de descobrir o mundo, com suas lógicas inusitadas e
criativas, com sua energia e abertura à vida, que a sisudez adulta insiste em rotular como agitação.

Acredito que precisamos aprender com as crianças e com elas reinventar nossa infância, ressignificar nossas agendas e propostas educativas, rompendo com as formas apressadas de produtividade e resultados que mascaram o papel dos adultos e roubam o protagonismo, a curiosidade e a beleza da imprevisibilidade das crianças e do seu processo de aprendizagem.

Que o modo como as crianças veem a vida e o mundo que as cerca, como revelam os incômodos e as suas necessidades, venha como água corrente, como aquele choro que lava a alma, que nos leve como correnteza (isso exige pressa) para um novo conceito de criança e, quem sabe, de adulto, de gente.

Não haverá futuro sem antes recuperarmos o processo civilizatório com as crianças, um processo que começa em nós mesmos, com a criança que nos institui e com as próprias crianças, que nos provoca a olhar mais vagarosamente o tempo, mais respeitosamente a natureza, mais criativamente as cores, mais prazerosamente a chuva…

Sejamos criancistas! Reinventemos o modo de vê-las, de educá-las.

Contudo, me parece que esse exercício só será possível se abaixarmos os olhos, inclinarmos a cabeça e abrirmos nossa mente às crianças, se escutarmos suas vozes, suas múltiplas linguagens, se reconhecermos suas capacidades… Quem sabe assim nos encontraremos mais tranquilamente com nós mesmos, com o passado, com o presente e com a possiblidade de futuro.

Vejo tanta gente ocupando as crianças, preenchendo suas agendas com atividades, silenciando-as com celulares e tablets. São imbuídas em um projeto utilitarista e consumista de educação que mais parecem “disfarces” que encobrem a falta de conhecimento e sensibilidade sobre os processos de desenvolvimento e aprendizagem dos pequenos e que tornam as crianças presenças ausentes em casa, na escola, na rua… Nesta então já não ouvimos suas vozes, seus movimentos… a rua definitivamente está mais triste.

Criancice, pode-se dizer, é uma possibilidade de refazer a humanidade em nós.

foto: Elisangela Ganzala Mariano Peiter

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 07/02/2020 às 16h50 | marisazf@hotmail.com

O VENTO E A BRISA

Há muito tempo construí uma imagem e uma relação um tanto conturbadas com o vento. Sim com vento! Ele parece sempre desarrumar, desorganizar, desajeitar. Fraco ou forte, mexe por onde passa. Costumo reclamar dessa situação. Sinto certo desconforto e a sensação que algo está errado se há vento.

Janeiro 2020 verão na República Dominicana. Venta forte. Venta insistentemente. A paisagem de areias brancas e águas azuis é contrastada como em um passe de mágica: sol e chuva, nuvens escuras e céu límpido, calor e arrepios de frio. Inúmeras sensações que perpassam o meu corpo. Sensações provocadas pela minha mente e pelas significações construídas ao longo dos tempos que geram, a exemplo do vento, burburinhos e inquietudes.

Recorro ao papel - quero registrar este momento, quem sabe assim, dividir com outros minhas memórias, minhas inquietudes e experiências.

As pessoas que vejo estão de férias como eu. Algumas é claro, pois há inúmeras trabalhando para que outras (nós) estejam de férias. Bem, é delas que me aproximo e é com elas que procuro conhecer este lugar. Contudo, é sobre o vento que os dominicanos gentilmente me contam. Converso prioritariamente com as mulheres.  Acredito que elas sejam mais sensíveis ao tema. Seriam essas mulheres como Ada Mónzon?

Na maioria das vezes, são elas, anônimas trabalhadoras que escondem sua cor, seus corpos nos uniformes, seus cabelos embaixo de toucas e lenços e quando esses ficam à vista, os vejo majoritariamente alisados.

Não é difícil perceber as marcas e a negação da cultura e da identidade. Historicamente, e por aqui não é diferente, aos negros lhes foi negada e desqualificada sua beleza, sua cor, suas crenças. Raízes arrancadas e transformadas como lisos cabelos em uma formação uniforme - alinhada ao gosto exterior.

As marcas da perversa colonização europeia se fazem sentir como um vento forte que invade e, sem permissão, muda o cenário, altera a rota.

Yorquídea jovem dominicana, na simpatia e delicadeza da própria flor que lhe dá o nome, me diz que o tempo é assim por aqui:  pelo menos uma semana no mês tem brisa.

Brisa para mim, sempre significou algo suave, acalentador. Como construí este conceito?  Será que contagiada pela canção “Brisa” de Iza? Ou será que a força e constância do vento te faz vê-lo como brisa?

Me permito então, reconstruir os significados para ver se melhora minha relação com estes ventos insistentes e fortes.

As páginas que tento escrever insistentemente se movem pela força da brisa na tentativa de fechar, virar, trocar a direção. Confesso que preciso manter esforço para permanecer nelas e, talvez assim, compreender e experimentar uma nova relação com esse fenômeno natural.

Deixo percorrer em mim a brisa com sua intensa suavidade e encontro, metaforicamente, a contradição da força natural que movimenta a vida e o tempo. E no virar e revirar das folhas das arvores, das páginas dos livros, permito-me deslizar com ela para verso e reverso, me banhar nos movimentos ondulares das águas e exercitar as pazes com o vento.

Neste exercício, a brisa se mostra mais generosa com a paisagem do que meus empoeirados olhos e empobrecida visão sobre o contexto. Mostra faces, sons e focos que não veríamos ou não teríamos sem ela.

Paro um instante. Desperta em mim um pensamento óbvio: não é somente a direção do vento ou da brisa que importa, mas os significados que atribuímos ao mundo que nos cerca. Estamos demasiadamente envolvidos em um turbilhão de informações. Rotinas narcisistas de trabalho e produtividade que nos afastam das pequenas observações e limitam nossa vida e a nossa relação com a natureza. Aliás, é o ócio tão desprezado pelo mundo produtivo que neste momento me permite olhar, contemplar e ressignificar.

Acredito que boa parte das vezes fiquei olhando o vento com olhos avessos ou na contraposição dele. Hoje quero ficar a favor deste vento. Quero transformá-lo em brisa. Na brisa que suaviza, reorganiza. Na brisa como um chamado que bate à sua janela e te convida a abri-la. Te convida ver além daquilo que cristalizamos e que, de algum modo, nos fez e nos faz recusar, recuar do movimento e da própria vida em movimento.

Que venham os ventos, serão, como brisas que refrescam os quentes dias de verão, trazem o sol depois da chuva e nos permitem enrolar-se, entregar-se em um movimento fecundo de descobertas, de deleites e de significativas interações.

Isso tudo, me parece imprescindível em tempos de descaso com a pluralidade da vida e dos ecossistemas. Urgente mediante dos furacões neonazistas que aterrorizam sentido da existência. Alerta é pouco. Disparemos sobre eles as sirenes e alertas meteorológicos: furacões definitivamente não são brisas.

Volto meus olhos então para as palmeiras. De longos e finos troncos aparentemente frágeis que se entregam naturalmente ao balaço da brisa e indicam a direção, para quem sabe, uma tomada de posição.

Nós podemos nos recolher, nos enclausurar. Fechar as janelas, fugir da brisa. Mesmo assim, ela estará lá a nós chamar, a nos convocar a enxergá-la, senti-la ou a enfrentá-la.  Se dermos ouvidos a esse e a tantos outros chamamentos silenciados, podemos protagonizar uma nova relação, uma nova confrontação com as forças da nossa realidade, que sem o devido enfrentamento, podem se tornar destino que devasta nossas vidas.

Não importa o quanto podemos envergar, me parece que o que mais importa é a capacidade de resistir e voltarmos ao prumo. Fiquemos mais atentos aos alertas. Mais disponíveis a vida e a brisa!

 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 20/01/2020 às 22h40 | marisazf@hotmail.com



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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.














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AS NOVAS COREOGRAFIAS SOCIAIS, O ESPAÇO ESCOLAR E A SAUDADE

O espaço escolar, da Creche ao Ensino Superior, sempre foi povoado por múltiplas vozes e sonoridades e, sobretudo, por múltiplos encontros. Risos, conversas, o choro, os burburinhos dos grupos, o atrito das rodas das mochilas, o arrastar das carteiras, o calor do abraço, as rodas de conversa, os grupos de amigos, os colegas, os professores .... Como viver sem eles? Como lidar sem essa imaterialidade? Como se situar nessa nova coreografia social?

É certo que o silêncio e o isolamento desses últimos meses têm afetado a todos e de modo profundo – aos professores, aos alunos e às famílias. Acostumamo-nos com as sonoridades, com a arquitetura dos prédios escolares, com a organização das salas, com o calendário escolar, com a constituição dos dias letivos, com a mecânica disciplinar dos horários. Em um engendramento quase que automatizado, naturalizamos o modo de enxergar os corpos e a ocupação do espaço escolar – essa coreografia materializada nas filas, nas áreas para circular, parar, correr, brincar, sentar-se – agora também inabitada, silenciada. Percebemos que não sabemos viver sem elas, sem eles. Sem os sons e as pessoas que habitam o espaço escolar, sem a rotina, a dinâmica pedagógica e social da escola, sofremos! Sentimos saudades.

Desse modo, o isolamento social forçado pela pandemia da COVID-19 revela uma das mais perversas faces - exponencia o sofrimento. Afeta as crenças, os valores, as instituições, o sistema financeiro, o mundo do trabalho, as relações sociais. Como uma tempestade nos desloca do eixo, reconfigura a casa, a escola, os espaços físicos e nosso interior.  

É fato que a escola foi absorvendo inúmeros papéis e, desde a existência da tradição pedagógica, que tem sua origem no século XII, tem uma série de medidas: legislativas, cientificas, metodológicas, filosóficas, econômicas, apenas para citar algumas, por meio das quais impactam na sua função e no modo como a sociedade a define. Em que medida a escola de hoje tem contribuído? Qual o papel dos professores? Qual a função da escola para a sociedade e para as famílias?  Qual o papel da família na partilha da educação dos filhos? O que é preciso saber para ensinar de agora em diante?

Em um contexto altamente complexo e em meio a uma tomada de decisões emergenciais de segurança e de saúde pública, estamos longe da possiblidade de respostas conclusivas. No entanto, parece que assistimos, em escala internacional, a uma necessidade de reconceitualização da escola, do espaço escolar, mas não só. Há uma necessidade de reconceitualização da vida, da vida em comunidade e do próprio processo civilizatório.

Não é de hoje que vivemos isolados e afastados do compromisso coletivo de cuidar, de ensinar e de educar as crianças, os jovens e os adultos. Não é de hoje que muitas famílias transferiram suas funções para a escola; que a sociedade trata os problemas sociais, sobretudo, das profundas desigualdades econômicas e culturais, de modo simplista e deslocado. Não é de hoje que ciência, o conhecimento científico – fonte precípua de atuação da escola – vem sendo atacada com movimentos que deslegitimam a autoridade pedagógica e científica e aprofundam o distanciamento entre a escola e as famílias. Não é de hoje que a violência e a exclusão social chegam desnudadas ao espaço escolar e não encontram estrutura física, pedagógica e emocional para acolhê-las, tampouco a escola encontra no conjunto da sociedade processos de corresponsabilização com a transformação desse cenário. Vivemos isolados em estruturas arquitetônicas que enclausuram corpos e cerceiam a liberdade, a criatividade e a solidariedade. A distância foi reconfigurada ou, talvez agora, tornou-se estatizada – normatizada pelo Estado, por isso, então, mais visível.

Reconceituar esses e outros tantos cenários é também a possiblidade de enxergar, nesse mais amplo e visível isolamento, o quanto padecemos de proximidades, de partilha de corresponsabilização. De coreografias sociais implicadas à vida coletiva. Necessitamos um reencontro, um entrelaçamento com as famílias e com o conjunto da sociedade para assegurar não apenas a nossa sobrevivência, mas existência humana e a função social dos espaços educativos.

 É tempo de reconfigurar o ambiente escolar, ampliar experiências de espaços ao ar livre e nas áreas verdes; organizar as salas com menos alunos, mais arejadas e interconectadas; espaços abertos à participação das famílias, da comunidade. Uma coreografia capaz de sustentar relações e interações seguras, diversificadas e respeitosas com as especificidades do coletivo de sujeitos que compõem esses espaços. Um contexto educativo com materiais alternativos, com uso de tecnologias e estratégias que aproximem os envolvidos e desafiem a pensar, a protagonizar uma nova e qualitativa relação com o conhecimento e sua função transformadora. Um ambiente que reconfigure o lugar da mediação pedagógica, a imagem dos professores capaz de sustentar uma motivação profissional potente, uma perspectiva bioecológica(BROFENBRENNER, 1997) de educação que compreenda a interconexão das múltiplas esferas – ambientais, sociais, emocionais, econômicas, culturais do desenvolvimento humano.

Reconhecer a necessidade de reconfiguração acredito ser um caminho para buscar novos modos de relacionarmo-nos com o meio onde vivemos, com as pessoas que nos cercam e, sobretudo, conosco. Com a casa interna – tão cheia de medos, de angústias, tão carente de afeto. Uma nova forma de experimentação, exercida, como diz Larrosa (2007), por meio do que nos passa, do que nos desacomoda e tem a ver com a criação de uma ética, de uma escolha por um novo modo de vida. Essa postura abre-se para a sociedade como um todo, conectando-se intimamente e preservando a vida em todas as dimensões.

Tomar consciência dessa nova realidade é um movimento que precisa ser exercido individual e coletivamente, sob pena de não termos memórias para projetar e imaginar o futuro. O silêncio das escolas não poderá ter sido em vão. O isolamento, tampouco. É preciso ousadia, coragem para enxergar o impacto do distanciamento no aprofundamento das desigualdades sociais e do papel da escola como um espaço de humanização, proteção, partilha e construção de conhecimento. Um espaço de múltiplas e qualitativas coreografias de vida e de encontros.  

É possível juntos coreografarmos um novo e mais generoso contexto social e escolar, pois há, entre tantos sentimentos, a saudade, que é um tênue, mas poderoso fio que sustenta o desejo de nossa proximidade, de nossa humanidade.

 Imagem: autor desconhecido

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 29/06/2020 às 16h28 | marisazf@hotmail.com

MORTE E VIDA

 

O percurso existencial é como um intenso pulsar, envolto de surpresas e imprevisibilidade. 

Do nascer até o fim de nossos dias, não há como negar o cintilar das luzes, a inebria escuridão que sobressalta nossos olhos, as centelhas que agitam o corpo e a vida, que muitas vezes busca subterfúgios, nos mais profundos devaneios, para se proteger. Para continuar a existir.

Irrompendo o silêncio, anunciamos a chegada ao mundo externo.  Continuamos nossa dança existencial embalados por múltiplos ritmos. Descobrimos o riso, o colo, o olhar, a poesia... Somos impelidos a trilhar caminhos, crescer, mudar de rotas, refazer as malas, recolher as dores, reinventar o jeito de caminhar.

E quem imaginaria que chegaríamos tão longe? Quem imaginaria que se avizinharia cenas com tantas mortes, tantas pessoas enclausuradas, tantos sorrisos ocultos, tantas vozes abafadas, tantos abraços impedidos e tantos funerais solitários? 

A quarentena que passamos parece se assemelhar aquela vivida por um certo jovem galileu, ou aquela bem mais recente, vivida por crianças, jovens, idosos que estão à margem da sociedade. Aqueles que vivem ou sobrevivem como órfãos da humanidade.  

Uma comunidade produtora de órfãos. Que anda em um ritmo tão frenético que não é capaz de perceber quem habita a rua, os viadutos, as praças. Aquele que dorme sobre o papelão, o banco, o terreno vazio.  Aqueles, de corpos enrolados em seus cobertores como crisálidas, que parecem ensaiar o voo da vida e da invisibilidade.

A quarentena em meio a quaresma cristã, revela uma face de um forçoso isolamento social, que espantosamente vivíamos sem perceber. Também é reveladora de outras invisibilidades daqueles que aqui habitam. Os mares, parecem que abriram espaço a vida marinha. A poluição do ar reduziu sensivelmente - o céu e as águas estão mais azuis.  

Em meio a tantas contradições e incertezas, parece que temos um caminho possivel para reestabelecer a relação com o planeta, com a economia, com o consumo, com a saúde púbica, com o papel do Estado, com as relações sociais e conosco.  Reinventar o modo de trabalhar, de estudar, de educar os filhos e cuidar das gerações futuras.

Nesses tempos de imprevisibilidade apenas surge o desejo de sobreviver? Ou seria melhor, de ressuscitar?

Acredito que, simbolicamente, o chamamento é a passagem da morte à vida. A vida plena de significado existencial.  E, neste novo ambiente, é necessário desacelerar o egoísmo, silenciar, encontrar-se consigo mesmo, levantar-se do abismo que criamos. Encontrar no sopro da vida, a força e a esperança de enfrentar a morte. Alavancar conhecimentos que de fato salvam vidas e que alicerçam estruturas emocionais e de humanidade.

Esse periodo exige mais do que criatividade. Exige voltar e aprender viver em comunidade – aquela que cuida de si e do outro e que mesmo a distância, se faz sentir em gestos de generosidade e de partilha.

Façamos um ensaio sobre a lucidez, para lembrar Saramago. A viagem não será mais a mesma. O mundo não será mais o mesmo. Eu, você, não seremos mais os mesmos. Haveremos de sair da morte à vida.  Então,  se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. (SARAMAGO).

 Feliz Passagem!

créditos da imagem: Aline Pascholati

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 12/04/2020 às 11h33 | marisazf@hotmail.com

Capitão Moleque e a Batalha da Coroa

Era uma vez… em um reino não tão distante, uma grande pandemia havia gerado uma enorme confusão.

O tal reino era comandado por um capitão lá não muito confiável. Já havia, durante a juventude, sido expulso de um exército por mau comportamento, mas fazia graça. Falava em uma língua estranha que curiosamente muitos gostavam e até aplaudiam.

As notícias da pandemia vinham de toda parte e se espalhavam na velocidade da luz, anunciando o terror do tal vírus, que alguns chamavam de coroa, outros de corona, mas o que todos comentavam é que era muito contagioso, se propagava rapidamente e, pior, ceifava muitas vidas.

Assustada, boa parte da população aceitava as orientações dos especialistas – magos, bruxas, curandeiras, essa gente que gostava de pesquisar, fazer experiências. De fato, eram pessoas estranhas que poucos conheciam naquele reino, falavam que o que eles faziam era algum tipo de balbúrdia. Os mais antigos os chamavam de cientistas – pessoas que usam a ciência para encontrar fórmulas para tratamento e cura de doenças.

Esses diziam:

— O melhor a fazer é ficar em casa até o inverno passar.

Alguns comentavam:

— Até o inverno? Isso é muito tempo.

Outros contestavam:

—Isolamento social? Isso só pode ser brincadeira ou coisa daqueles caras vermelhas.

Para muitos aqueles dias eram inacreditáveis. Impensáveis.

Bem, havia ainda aqueles que achavam uma boa ideia ficar em casa. Se reencontrar com os filhos, cozinhar, cuidar das plantas, dos animais…

Até que então, os ventos sacudiram as longas cabeleiras dos cobradores de impostos, os donos da casa grande. Eles achavam um absurdo as pessoas não trabalharem. Pegaram suas marionetes e foram às ruas conclamar:

— Saiam de casa! O reino não pode parar!

Outros repetiam:

— O reino vai falir! Como comeremos? Como pagaremos as contas?

Havia alguns ainda mais insanos, que não tinham nem tanto cabelo nem juízo, que em plena praça pública também anunciavam para todos ouvirem:

— Vai morrer gente, sim, e daí? Um dia todos morrerão.

A população então ficou mais confusa e assustada e se dividia: tinha os que acreditavam que deveriam sair para o trabalho. Afinal, durante toda a vida só fizeram trabalhar pelo pão de cada dia. Nunca haviam pensado em outra forma de existência.

Esses eram então ainda mais encorajados pelo rei, que aparecia de vez em quando no meio do povo, com a cara um tanto pálida, olhos esbugalhados, e com sua linguagem estranha dizia:

— Sejam homens e não moleques! É só uma gripezinha! O nosso reino não pode parar!

Os moleques já não compreendiam a comparação e muitas meninas também não entendiam por que não poderia o rei dizer: — Sejam corajosos como uma mulher! 

O tumulto e o medo pareciam não ter fim.

Mas, em alguns lugares do reino, bem, bem distante do rei e dos cobradores de impostos, uma magia estava acontecendo. As pessoas, estavam descobrindo o prazer de ficar com os filhos. Cantavam para os vizinhos, liam histórias, falavam de outras guerras e doenças e como outros reinos encontraram a cura. Passaram a dividir os alimentos e, mesmo sem se tocarem, passaram a compartilhar dores e alegrias que os aproximavam como nunca. 

Os pais, as mães, os filhos e até os netos se encarregaram de proteger os idosos. Dividiam as tarefas de casa e faziam juntos as lições da escola. Sim, naquele lugar, o tal vírus fez as pessoas descobrirem que as escolas e os educadores existiam e que eram muito legais.

Essas pessoas estavam tão envolvidas em cuidar de si e dos outros que descobriram que sobreviveriam com a partilha, a solidariedade e, é claro, ouvindo as orientações daquele povo da ciência. Aqueles que pareciam bruxos e curandeiros…

Então, selaram um acordo: depois que tudo isso passasse os estudiosos, os cientistas, as escolas, o afeto e a partilha teriam lugar de destaque naquele reino. 

Mas, antes, é claro, teriam de resolver o problema do rei, que já aparentava muito doente, emocionalmente abalado, até parecia digno de pena. Ou seria a hora de lhe tirar a pena? Assim, não faria leis e decretos de morte, pois as pessoas amavam viver. 

Aquele reino não tão distante também resolveu registrar a sua história para as gerações futuras.

Qualquer semelhança pode ser mera coincidência - tá okei?

 

*para acessar o texto ilustrado, clique aqui!

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 08/04/2020 às 11h53 | marisazf@hotmail.com

INSTINTO E A RAZÃO DE SER: covid

 

A existência humana sempre exigiu esforço, resiliência, dedicação. Isso porque parece que há uma linha no horizonte que nos faz percorrer caminhos, enfrentar desafios buscar novas terras, novos mares ...  E como isso fez a humanidade ir longe.

Instinto aventureiro?  Instinto de ter? Ou será a razão que fez com que chegássemos até aqui?

É certo que o instinto de sobrevivência foi rapidamente, sobretudo, por algumas culturas, substituído pelo desejo de conhecer, descobrir, inventar, dominar, reconstruir a realidade e, assim, as necessidades, a limitação entre o bem e o mal e a relação com a Terra, com as pessoas.

Na linha dos desejos, perdemos o bom senso e nos tornamos desejosos de poder e de acúmulo. Inventamos guerras, fronteiras e mais poder. Criamos homens quase deuses que fazem o mundo girar sob suas regras.  E como estamos girando em uma velocidade frenética nesses últimos dias! Se é observável o feito desses homens – quase deuses – também é observável o caos em que nos encontramos.

Isolados, afastados física, emocional e materialmente. Vivemos com medo.  Se o processo de humanização se dá na relação com outros humanos, faz algum tempo que vivemos distantes desta premissa. Basta olhar para os morros, os guetos, os muros, muralhas físicas e sociais –  arquitetadas e que há muito tempo   nos afastam. Nos separam. E o que de fato enxergamos? Muitas vezes nada além do nosso próprio umbigo.

E por falar em umbigo, parece contraditório o estado em que vivemos: viemos ao mundo unidos por um cordão que nutre, desenvolve e possibilita a vida. Por mais que sejamos separados de nossas mães, abruptamente ao nascer, somos totalmente dependentes da sua proteção e do seu cuidado.  As marcas desta convivência carregamos por toda a existência.  Marcados somos e carregamos as marcas como uma chaga, como a porta de entrada à vida e de saída ao mundo. Que tal olhar mais atentamente ao formato do umbigo?  Como elo, sem começo, sem fim.  Como casa e terra que nos traz a vida e gera a vida, fornece alimento e anuncia proteção. Como chaga de pertencimento.

Hoje a ordem é ficar em casa. Ficar distante do outro: não beije, não abrace.  Não visite e não tenha contato físico.

Por que parece tão estranho? Por que o momento nos deixa em pânico?  Medo de morrer?  Sabemos que, a cada dois minutos e meio, uma criança morre por não ter acesso à água potável e por falta de condições básicas de higiene, de alimentação. Essas mortes são escamoteadas cotidianamente. Por que elas não nos contagiam?

Medo de tocar? De abraçar com amorosidade e entrega?  Isso é cena comum para tantas pessoas que apenas passam desapercebidas pela multidão. Outras cotidianamente são distanciadas pela cor, pela condição sexual, pela pobreza.

Medo de crise econômica? Quem ela afetará? No Brasil, segundo relatório da ONU/2019, 1% da população mais rica, concentra 28,3% da renda total do país. Caímos no ranking do IDH e aumentamos a desigualdade social nos últimos dois anos. E para mudar isso, não há um plano de governo, um representante público que saia de seus escritórios e gabinetes mediante ao limbo social que multidões se encontram, dando ordens: reparta o pão, abrace as pessoas, seja solidário, estenda a mão ao vizinho, não acredite que a desigualdade social seja resultado das próprias pessoas excluídas – no jargão de que são “vagabundos”. Imagine um poder público mobilizando recursos e políticas públicas humanitárias, anunciando e exercendo solidariedade e trabalhando incansavelmente em prol dos menos favorecidos – como seria nossa realidade?

Enquanto o governo não faz a sua parte, façamos a nossa. Lutemos, afrontemos a ordem comum estabelecida, nos posicionemos crítica, racional e amorosamente mediante o mundo. Dê esmolas, dê pão a quem tem fome, dê abrigo, casa....

Hoje a linha do horizonte apenas aponta para uma outra guerra – a do Covid19 . Eu não quero menosprezar a gravidade do momento como faz de modo irresponsável o (des) governo, mas quem sabe, neste momento, possamos dar um novo sentido à vida. Compreender a interdependência com outras vidas e com o próprio planeta.

Hoje ajudar a salvar vidas é também se recolher, mas não ficar só. É inquietar-se no próprio recolhimento. É enxergar aqueles que não tem casa para retornar, não tem recursos para armazenar mantimentos – aliás aqueles que sempre tiveram seus “armários” e, sobretudos, seus estômagos vazios. Essa pandemia vai revelar a mais dura face na pobreza material e também naqueles pobres de espírito e de consciência social.

Espero que antes de morrermos, resinifiquemos nossas empobrecidas vidas.  Afrontemos os modelos econômicos que geram pobreza, desigualdade e violência. Controlemos a ambição desenfreada que aniquila o planeta, seus preciosos recursos e sua exuberante beleza. Modelos geradores de poluição e agitação diária que encobrem como uma cortina nebulosa nossa visão, os nossos corpos e outras vidas.   

Paremos. Passemos valorizar o estreitamento do afeto, o papel do estado na seguridade e justiça social.  Retomemos abraço, aquele que vai além, do toque físico:  que cura fome, a miséria, a violência e o ódio que esvazia nosso senso de pertencimento e toma conta de tantos corações.

Voltemos para a casa da humanidade. Conscientemente. Urgentemente. Enxerguemos a nova razão de SER HUMANO – um convite a vida.

 A criação - detalhe-   Michelangelo (1510) 

 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 22/03/2020 às 11h53 | marisazf@hotmail.com

CRIANCICE

 “Criancice é como o amor, não se desempenha sozinha”. Tomo emprestada a afirmação de Mia Couto, da obra O fio das missangas (2009, p.113), pois me parece impossível pensar a vida, o processo civilizatório, sem contemplar a infância, a criancice.

Vivemos correndo do tempo, da idade, da infância. Há um insistente movimento que nos apressa a sair dela: da fase que, para muitos, tudo falta. Não falam, não controlam os movimentos, não leem, não refletem. Não, não, não… Os “nãos” ecoam como alarmes estridentes que anunciam a saída dos sonhos, da fantasia, do chorar, do brincar, do sorrir por pouco, do contemplar as pegadas de um cão, o caminho das formigas, o voo das borboletas (há tempos também não as vejo).

De férias ou a trabalho, são elas – as crianças e seus movimentos, suas diversões, seus choros, seus conflitos, suas gargalhadas, seus gritos, suas habilidades – que me tocam, me chamam a atenção. Não consigo ficar inerte.

Me aproximo desses movimentos e logo me vem à mente o que poderíamos fazer, enquanto pais, avós, tios, educadores, vizinhos e sociedade, para assegurar a criancice? O que poderíamos fazer para assegurar a infância não só para as crianças, mas dentro de nós mesmos?

É fato que apressamos as crianças expulsando a infância de suas vidas do mesmo modo que expulsamos de dentro de nós a criança e a infância que em nós habita. A cada gesto mais sereno, menos complicado, a cada riso mais solto e espontâneo, a cada mergulho mais sensível na vida, somos impelidos a retornar, a desabitar a criança presente. Será pelo medo de não sermos reconhecidos como pessoas? Como alguém de valor?

Desse modo, esvaziamos a nós mesmos e esvaziamos o sentido das próprias crianças. Embrutecemos o gesto, alinhamos o andar e erguemos a cabeça de tal modo que só enxergamos a vida de um ângulo: de cima.

E de cima, do alto do nosso corpo adulto, enxergamos as crianças também pela metade, apenas por uma parte.

Perdemos nós, perdem elas… Nos diminuímos e nos moldamos às normas adultocêntricas que empobrecem a existência, encurtam as relações pessoais, interpessoais e, sobretudo, intergeracionais.

Que tal ver a vida por inteiro? Este me parece ser um exercício imprescindível e, como o amor anunciado por Mia Couto, não pode se desempenhar sozinho. Precisa ser compartilhado, com as crianças, com sua insistente curiosidade de descobrir o mundo, com suas lógicas inusitadas e
criativas, com sua energia e abertura à vida, que a sisudez adulta insiste em rotular como agitação.

Acredito que precisamos aprender com as crianças e com elas reinventar nossa infância, ressignificar nossas agendas e propostas educativas, rompendo com as formas apressadas de produtividade e resultados que mascaram o papel dos adultos e roubam o protagonismo, a curiosidade e a beleza da imprevisibilidade das crianças e do seu processo de aprendizagem.

Que o modo como as crianças veem a vida e o mundo que as cerca, como revelam os incômodos e as suas necessidades, venha como água corrente, como aquele choro que lava a alma, que nos leve como correnteza (isso exige pressa) para um novo conceito de criança e, quem sabe, de adulto, de gente.

Não haverá futuro sem antes recuperarmos o processo civilizatório com as crianças, um processo que começa em nós mesmos, com a criança que nos institui e com as próprias crianças, que nos provoca a olhar mais vagarosamente o tempo, mais respeitosamente a natureza, mais criativamente as cores, mais prazerosamente a chuva…

Sejamos criancistas! Reinventemos o modo de vê-las, de educá-las.

Contudo, me parece que esse exercício só será possível se abaixarmos os olhos, inclinarmos a cabeça e abrirmos nossa mente às crianças, se escutarmos suas vozes, suas múltiplas linguagens, se reconhecermos suas capacidades… Quem sabe assim nos encontraremos mais tranquilamente com nós mesmos, com o passado, com o presente e com a possiblidade de futuro.

Vejo tanta gente ocupando as crianças, preenchendo suas agendas com atividades, silenciando-as com celulares e tablets. São imbuídas em um projeto utilitarista e consumista de educação que mais parecem “disfarces” que encobrem a falta de conhecimento e sensibilidade sobre os processos de desenvolvimento e aprendizagem dos pequenos e que tornam as crianças presenças ausentes em casa, na escola, na rua… Nesta então já não ouvimos suas vozes, seus movimentos… a rua definitivamente está mais triste.

Criancice, pode-se dizer, é uma possibilidade de refazer a humanidade em nós.

foto: Elisangela Ganzala Mariano Peiter

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 07/02/2020 às 16h50 | marisazf@hotmail.com

O VENTO E A BRISA

Há muito tempo construí uma imagem e uma relação um tanto conturbadas com o vento. Sim com vento! Ele parece sempre desarrumar, desorganizar, desajeitar. Fraco ou forte, mexe por onde passa. Costumo reclamar dessa situação. Sinto certo desconforto e a sensação que algo está errado se há vento.

Janeiro 2020 verão na República Dominicana. Venta forte. Venta insistentemente. A paisagem de areias brancas e águas azuis é contrastada como em um passe de mágica: sol e chuva, nuvens escuras e céu límpido, calor e arrepios de frio. Inúmeras sensações que perpassam o meu corpo. Sensações provocadas pela minha mente e pelas significações construídas ao longo dos tempos que geram, a exemplo do vento, burburinhos e inquietudes.

Recorro ao papel - quero registrar este momento, quem sabe assim, dividir com outros minhas memórias, minhas inquietudes e experiências.

As pessoas que vejo estão de férias como eu. Algumas é claro, pois há inúmeras trabalhando para que outras (nós) estejam de férias. Bem, é delas que me aproximo e é com elas que procuro conhecer este lugar. Contudo, é sobre o vento que os dominicanos gentilmente me contam. Converso prioritariamente com as mulheres.  Acredito que elas sejam mais sensíveis ao tema. Seriam essas mulheres como Ada Mónzon?

Na maioria das vezes, são elas, anônimas trabalhadoras que escondem sua cor, seus corpos nos uniformes, seus cabelos embaixo de toucas e lenços e quando esses ficam à vista, os vejo majoritariamente alisados.

Não é difícil perceber as marcas e a negação da cultura e da identidade. Historicamente, e por aqui não é diferente, aos negros lhes foi negada e desqualificada sua beleza, sua cor, suas crenças. Raízes arrancadas e transformadas como lisos cabelos em uma formação uniforme - alinhada ao gosto exterior.

As marcas da perversa colonização europeia se fazem sentir como um vento forte que invade e, sem permissão, muda o cenário, altera a rota.

Yorquídea jovem dominicana, na simpatia e delicadeza da própria flor que lhe dá o nome, me diz que o tempo é assim por aqui:  pelo menos uma semana no mês tem brisa.

Brisa para mim, sempre significou algo suave, acalentador. Como construí este conceito?  Será que contagiada pela canção “Brisa” de Iza? Ou será que a força e constância do vento te faz vê-lo como brisa?

Me permito então, reconstruir os significados para ver se melhora minha relação com estes ventos insistentes e fortes.

As páginas que tento escrever insistentemente se movem pela força da brisa na tentativa de fechar, virar, trocar a direção. Confesso que preciso manter esforço para permanecer nelas e, talvez assim, compreender e experimentar uma nova relação com esse fenômeno natural.

Deixo percorrer em mim a brisa com sua intensa suavidade e encontro, metaforicamente, a contradição da força natural que movimenta a vida e o tempo. E no virar e revirar das folhas das arvores, das páginas dos livros, permito-me deslizar com ela para verso e reverso, me banhar nos movimentos ondulares das águas e exercitar as pazes com o vento.

Neste exercício, a brisa se mostra mais generosa com a paisagem do que meus empoeirados olhos e empobrecida visão sobre o contexto. Mostra faces, sons e focos que não veríamos ou não teríamos sem ela.

Paro um instante. Desperta em mim um pensamento óbvio: não é somente a direção do vento ou da brisa que importa, mas os significados que atribuímos ao mundo que nos cerca. Estamos demasiadamente envolvidos em um turbilhão de informações. Rotinas narcisistas de trabalho e produtividade que nos afastam das pequenas observações e limitam nossa vida e a nossa relação com a natureza. Aliás, é o ócio tão desprezado pelo mundo produtivo que neste momento me permite olhar, contemplar e ressignificar.

Acredito que boa parte das vezes fiquei olhando o vento com olhos avessos ou na contraposição dele. Hoje quero ficar a favor deste vento. Quero transformá-lo em brisa. Na brisa que suaviza, reorganiza. Na brisa como um chamado que bate à sua janela e te convida a abri-la. Te convida ver além daquilo que cristalizamos e que, de algum modo, nos fez e nos faz recusar, recuar do movimento e da própria vida em movimento.

Que venham os ventos, serão, como brisas que refrescam os quentes dias de verão, trazem o sol depois da chuva e nos permitem enrolar-se, entregar-se em um movimento fecundo de descobertas, de deleites e de significativas interações.

Isso tudo, me parece imprescindível em tempos de descaso com a pluralidade da vida e dos ecossistemas. Urgente mediante dos furacões neonazistas que aterrorizam sentido da existência. Alerta é pouco. Disparemos sobre eles as sirenes e alertas meteorológicos: furacões definitivamente não são brisas.

Volto meus olhos então para as palmeiras. De longos e finos troncos aparentemente frágeis que se entregam naturalmente ao balaço da brisa e indicam a direção, para quem sabe, uma tomada de posição.

Nós podemos nos recolher, nos enclausurar. Fechar as janelas, fugir da brisa. Mesmo assim, ela estará lá a nós chamar, a nos convocar a enxergá-la, senti-la ou a enfrentá-la.  Se dermos ouvidos a esse e a tantos outros chamamentos silenciados, podemos protagonizar uma nova relação, uma nova confrontação com as forças da nossa realidade, que sem o devido enfrentamento, podem se tornar destino que devasta nossas vidas.

Não importa o quanto podemos envergar, me parece que o que mais importa é a capacidade de resistir e voltarmos ao prumo. Fiquemos mais atentos aos alertas. Mais disponíveis a vida e a brisa!

 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 20/01/2020 às 22h40 | marisazf@hotmail.com



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Marisa Zanoni Fernandes

Assina a coluna Marisa Fernandes

Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.