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Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

"A creche não é cabideiro"

: a volta à escola como um processo de ambientamento para crianças e famílias

A provocação do título inicial, emprestada do pedagogo e desenhista italiano Francesco Tonucci, objetiva refletir sobre as representações e práticas que temos sobre o ingresso ou retorno das crianças à escola.

As mudanças que tanto desejamos na educação necessitam que os pais e a sociedade compreendam que a escola é um espaço complementar na tarefa de cuidar e educar seus filhos. Devem identificar as funções de cada um destes contextos (família e escola), trabalhando de forma compartilhada e corresponsável, ou seja, jamais na ideia, muito presente hoje, de substituição de papeis, ou de “cabideiro” – depósito. A escola e família são dois contextos fundamentais para desenvolvimento e para trajetória de vida das pessoas.

Se partirmos desta compreensão, o período que antecede a entrada ou o retorno à escola deverá ser de muito diálogo entre o ambiente educativo, os pais e, particularmente, entre estes e a criança/aluno. Pais seguros, bem informados sobre o funcionamento da escola, da organização física e pedagógica, terão condições de auxiliar seus filhos e de apoiá-los de forma qualitativa: sem ansiedade e medos, encorajando-os a lidarem com o novo ambiente – que afinal deverá apenas ser novo e não desconhecido. O desconhecido pode causar medo e o novo expectativas/desafios.

De modo geral, devemos ter uma atenção especial com à educação infantil, pois é o primeiro ambiente extrafamiliar da criança. Esta experiência é complexa não só para a criança, mas também para os pais. Portanto, antecipar e preparar este momento com os pais e as figuras de referência da criança (avós, cuidadores), é uma tarefa que as escolas devem ter como prioridade, pois eles serão os mediadores da transição casa – escola.

Definir um período para o ambientamento é um ato de respeito à criança e de reconhecimento dos seus direitos – de ser acolhida, amparada e apoiada no processo de ampliação da sua rede social. Quando um filho vê sua mãe chorando ao deixá-lo na creche/escola qual a leitura que fará do ambiente? Terá segurança? Não ficará ansioso? Ou quando um pai precisa “fugir”, esconder-se do filho pequeno, sem se despedir ao deixá-lo na escola - como a criança reagirá ao ver-se sozinha com “estranhos”? Certamente, estas situações podem gerar sentimentos de abandono e impactarão nos relacionamentos que terá na escola, no tempo de choro, no tempo de aceitação do espaço e nas interações com as múltiplas situações do ambiente coletivo, bem como na construção do sentimento de pertencimento (aspecto estruturante da vida em sociedade) e, é claro, no seu desempenho geral.

Há, no meu entendimento, um descaso com o processo de entrada na escola dos pequenos. O sofrimento gerado para os pais e, em especial, para as crianças é desconsiderado, há inclusive mães que aproveitam este momento para efetuar o desmame, a retirada da chupeta, das fraldas, acrescentando situações novas que conturbam ainda mais o momento. Ainda, há uma crença que o choro é apenas “manha”, que chorar faz parte do universo infantil. O choro é uma linguagem entre tantas, é uma forma de comunicação, portanto, não podemos admitir que crianças chorem prolongadas horas e dias na escola sem que possamos acolhê-las e, isso lamentavelmente tem sido o som e a tônica, quase naturalizada, em muitas escolas da infância no início das atividades.

Defendo que o período de ambientamento deveria ser obrigatório. Estar no currículo, calendário escolar e no calendário de férias dos pais. Digo isso, porque é necessário que os pais e a escola reservem e dediquem tempo para este importante momento. Preparar inserções gradativas no novo ambiente, alternar tempo de presença dos pais, preparar o ambiente escolar com algumas referências da família, da cultura da criança, (fotografias, objetos pessaois), prever encontros entre pais e professores antecipadamente, terem momentos de diálogos sobre a criança, sobre o ambiente escolar, também auxiliará nesta transição que poderá ser menos dolorosa e, acima de tudo, mais humana e respeitosa com os pequenos, com suas famílias e com os professores.

O desconhecimento da importância do início ou retorno à escola pode ser então percebido quando nos perguntamos: quantas oportunidades os pais tem para falarem das suas angústias, do sentimento de culpa em deixar seu filho na escola? Quantas vezes a escola convidou os pais para entrarem na sala de aula? Quando compartilham suas experiências de paternidade com outros pais? O que a escola informa sobre seus professores? Como preparam a chegada das crianças e dos alunos?

A falta destes momentos de diálogo e conhecimento podem levantar alguns alertas:

- conhecer a escola apenas no momento da matricula e no primeiro dia de aula – gera insegurança e falta de informação para passar a criança;

- não conversar e não conhecer os futuros professores – gera ansiedade;

- fazer a inserção abrupta - não reservar tempo para esta transição, como por exemplo, tirar férias, organizar a agenda, para estar disponível – gera sentimento de abandono;

- chorar ao deixar a criança – passa a mensagem que o lugar não é bom;

- deixar a criança chorando na escola – gera sofrimento, pois ela deve ser amparada, ser acalentada;

- exagerar nas formas de despedida – sair, voltar, ficar escondido na escola “olhando de longe”- gera dúvidas e insegurança sobre o ambiente.

Entrar na sala, no espaço educativo é importante, principalmente para os bebês, mas a presença deve ser planejada bem como o papel que os pais irão desempenhar ao permanecerem na sala. A presença em sala deve progressivamente ser alternada e não pode gerar dependência da criança e sim apoio à sua capacidade de se relacionar com outros pares. É certo que ao tempo em que os pais e os professores vão familiarizando-se entre si, vão criando vínculos, a criança se beneficiará muito.

Qualquer pessoa quando entra pela primeira vez em um ambiente sente-se de certa forma insegura, desconfortável, precisa rapidamente buscar referências físicas e afetivas para permanecer naquele lugar. Com a escola e a criança não é diferente - ela representa para criança um novo e desconhecido contexto. Precisa construir laços e sentimento de pertencimento. Por isso a importância que damos a antecipação e planejamento deste momento, evitando experiências negativas que influenciarão na autonomia, confiança e aprendizagem da criança.

É necessário reconhecer e respeitar a individualidade de cada criança, pois cada um tem seu tempo de ambientamento, no entanto, há sinais e comportamentos que revelam se a criança não está ambientada: chora em demasia, não se alimenta, não explora os espaços, não se relaciona com outras crianças, fica apática por períodos muito prolongados. É preciso então investir neste tempo, os professores e os pais precisam registrar estes fatos e comportamentos, de forma tranquila corresponsabizar-se no apoio à criança, respeitar seus desejos, importar-se com seu choro, suas falas, seus desejos, valorizar os seus sentimentos bem como acreditar na sua competência para a ampliação do processo de socialização.

Precisamos refletir sobre o conceito de adaptar-se – significa aceitar uma estrutura já defina, moldar-se a ela – ligada a ideia de cabideiro. Já ambientar-se - significa fazer e sentir-se parte do contexto. O ambiente e as pessoas estão, neste conceito, implicados com o sujeito, por isso, são organizados para apoiar esta transição. A inserção de uma criança na escola, ou o retorno à escola, requer cautela e uma organização que leve em consideração tanto as crianças quanto as suas famílias, sem esquecer que cada sujeito experimenta os próprios apegos, limites e possibilidades.

O “cabideiro” deixemos para as velhas práticas educativas. A escola ideal precisa ser exercida hoje e um bom começo - fará toda diferença.

"A creche não é um cabideiro”- Tonucci
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 01/02/2017 às 15h41 | marisazf@hotmail.com

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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.
















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