Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

Letargia Social: reflexões acerca da violência

A violência na sociedade é histórica e se apresenta com diferentes faces, trazendo dor, sofrimento, culpa e patologizando o comportamento e as relações entre os sujeitos.

Partindo desta premissa, parece que o atual contexto social exibe sua face mais espantosa: de um lado, o encurtamento das fronteiras ou a planificação do mundo nos permitem comunicar-se, relacionar-se com uma velocidade incrível e de outro, nos distanciamos física e emocionalmente e temos sérias dificuldades de convivência – não é por acaso que uma empresa japonesa produz parceiros virtuais (a esposa virtual para solitários) um “holograma”, substituto das relações pessoais.

Nesta tela, na mesma velocidade que conhecemos as mazelas da vida social e da violência cotidiana - proferidas e preferidas pelos meios de comunicação que tem batido recordes de audiência com essa pauta – nos tornamos indiferentes ao outro.

Das palmadas às grandes guerras me parece que há algo em comum: a dureza e a brutalidade dos seres humanos e do seu processo de civilidade. Laços de civilidade - aí ou aqui - bem próximos de nós, estão sendo rompidos ou até mesmo nunca foram construídos. Isso ocorre boa parte das vezes porque reproduzimos um modelo social perverso, pouco solidário, fato este desencadeador de uma verdadeira letargia social.

Pelas suas características e tomando como referência alguns estudos do campo da psicologia e da psicanálise é que escolhi chamar este contexto de letárgico.

Observo que a violência, tem deixado marcas indeléveis em crianças, jovens, adultos e idosos. Entre outras, destacam-se: a perda de confiança no outro (se o cotidiano da criança está submisso à intolerância, ao rancor, a reações agressivas imprevisíveis, sua capacidade de ligação é prejudicada); a insegurança emocional; medo e retração; apatia – influenciando diretamente nas amizades; sentimento de culpa e baixa autoestima; dificuldade de concentração; estresse emocional – estado de alerta constante. Se a violência for o modelo recorrente, a criança e ou o adolescente podem aceitar a violência como algo natural e replicá-la nas suas relações.

Portanto, se desejamos uma sociedade vivaz e civilizada, o primeiro passo é repudiar com veemência todas as formas de violência, sejam elas entendidas como recursos educativos ou como forma de redimir conflitos.

Neste norte, é preciso combater a violência em todos os ambientes sociais, no entanto, quero destacar aqui dois contextos: o escolar (foco na escola da infância) e o familiar, pois são estruturantes e portadores de grandes responsabilidades com o cuidado e educação dos pequenos.

Para combater a “cultura da violência” é necessário participar não apenas das chamadas “campanhas pela paz” – não basta usar uma roupa branca como símbolo. É preciso condenar radicalmente o uso de castigos físicos sejam eles moderados ou não, por exemplo, “cadeirinhas do pensamento” (tão comuns nas escolas infantis), são formas de humilhação confundidas com formas disciplinares. Portanto, geradoras de violência e isso é inaceitável em um ambiente que tem a função precípua de cuidar e educar.

Infelizmente, essas formas de violências poucas vezes são questionadas ou criminalizadas. Por isso, trago à baila um recente julgado do poder judiciário da comarca de Balneário Camboriú em que o magistrado condenou o município ao pagamento de indenização por danos morais em razão de agressão física (chineladas nas costas em uma criança de 2 anos), cometida por uma por uma professora de uma creche municipal. Mesmo sendo um caso isolado, a condenação e o valor arbitrado, talvez sirvam como alerta e como chamamento para uma ordem mais humana e civilizada entre as pessoas e os vários contextos sociais.

Não podemos aceitar ou praticar nenhuma forma de violência, ela apenas gerará mais violência, pois como lembram Maturana e Verden-Zöller (2004) o SER humano que um humano chega a ser, vai se constituindo ao longo da vida humana que ele vive.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 28/03/2017 às 16h20 | marisazf@hotmail.com

publicidade





publicidade



Marisa Zanoni Fernandes

Assina a coluna Marisa Fernandes

Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.
















Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br