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Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

“MAS VÓ, VÃO MATAR JESUS DE NOVO?” A Páscoa com olhos de criança

Se há algo que gosto muito é valorizar e ouvir atentamente as expressões, interpretações e os questionamentos das crianças. Minha memória guarda inúmeras histórias, pois considero que gente pequena tem um modo muito especial de ver o mundo dos adultos.
 
Nestes dias de comemorações de Páscoa lembrei-me de um garoto de quatro anos que voltara da escola e muito preocupado queria saber da avó se seria Páscoa novamente. Ao respondê-lo - afirmando que sim - ela observou que ele saiu da sua presença cabisbaixo, com ar de preocupação e certa tristeza. Então, ela o indagou: - por que estás preocupado com isso? Ele respondeu: - mas vó vão matar Jesus de novo?
 
A expressão do pequeno pode até nos fazer rir, no entanto, quero levar a sério e me solidarizar com a sua preocupação. Quero me aproximar da sensibilidade deste menino: a passagem bíblica da morte de Jesus é para mim a mais intrigante e mobilizadora história cristã. Justifico minha escolha por dois aspectos: o primeiro porque nela vejo cenas tão presentes no nosso cotidiano, o segundo, porque me identifico com as causas assumidas por Jesus e sobretudo, porque não gosto de ver injustiças.
 
Assim, se observarmos o comportamento humano daquele tempo, parece impossível que o mesmo povo que acolhe Jesus, em poucos dias o abandona e o troca por Barrabás e, como em um ato de confusão e instabilidade mental, o ama e o odeia na mesma intensidade. A possível falta de capacidade de discernimento daquele momento, me parece que chega até nossos dias e como grande tempestade nos provoca dificuldades de enxergar a verdade dos fatos.
 
A morte e a prisão servem de livramento. Não importa o que o sujeito fez, não importa o fato, o que importa é que alguém seja “crucificado” e, assim, continuamos matando Jesus quantas vezes forem necessárias para nos sentirmos mais puros, menos pecadores.
 
Nos tempos de Jesus não havia a capacidade de informações dos dias atuais, no entanto, há semelhanças nos modus operandi da justiça dos homens na premissa – alguém tem que ser crucificado – assim, a humanidade se livrará dos pecados e do mal e a ordem estará reestabelecida.  
 
Neste cenário de morte recorro novamente às crianças, pois são elas que povoam a minha mente e o meu coração como se fossem luzes de esperança, são elas que nos abordam com incomodas perguntas e nos deixam órfãos da lógica das respostas. É fato que não estamos habituados a pensar sobre muitas coisas, apenas repetimos o que nos disseram, temos rituais que se tornam nossas verdades absolutas – sem a chance de qualquer questionamento.
 
Na perspectiva desta gente miúda acredito na capacidade de mudança, de crença e ressureição de um novo tempo, não como um milagre, (se bem que ele seria bem-vindo), mas como um esforço coletivo de autocrítica e de consciência que se distancia do sentimento de vingança que apenas enche os corações de ódio.
 
Acredito na capacidade de reinventarmos uma nova e equilibrada ordem que talvez precisa se voltar à cena da morte de Jesus e se espelhar em alguns exemplos contra majoritários daquele povo – entre eles - Maria e Verônica que se compadeceram, choraram e nunca abandonaram a Jesus, sobretudo, porque abriram-se para outros olhares, outras perspectivas de justiça antes de meros julgamentos.
 
Que a Páscoa nos traga esta convicção: vale a pena ouvir as crianças, vale a pena ver com olhos de criança e romper com padrões e estereótipos de comportamentos que tem gerado morte. É preciso sair do lugar comum, pois o momento exige mais solidariedade, mais amorosidade e mais gente que ama a verdadeira justiça.
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 13/04/2017 às 18h32 | marisazf@hotmail.com

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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.
















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