Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

DE ONDE VIEMOS? QUEM SOMOS? ONDE ESTAMOS? PARA ONDE VAMOS? COMO QUEREMOS IR?

 
 

As questões iniciais fazem parte da experiência provocativa a quem visita ao Museu do Amanhã no Rio de Janeiro. Ir ao museu é como fazer terapia – ao sair, a sessão continua a te inquietar e você se permite refletir com e além do que viu e sentiu.

Nas narrativas simbólicas e objetivas do museu há um pressuposto básico: estamos intimamente conectados. É o hoje que define e afeta o amanhã.  Como parte indivisível do universo, com nossas ações afetamos e somos afetados de inúmeras formas.

Deste modo, para buscar responder o presente: onde estamos – recorro a dúvida, pois me parece que faz parte desta realidade, não haver respostas claras! É fato, estamos envoltos por incertezas, desesperanças, desequilíbrios ambientais, sociais e existenciais. Não raro, vivemos paradoxalmente: liberdade x escravidão; justiça x vingança; desejo x apatia; vida x morte; abundancia x miséria; conexão x solidão.

É tempo, resgatando Orwel (2009), de “duplipensamento” e de “verdade móvel” – o homem ao se tornar cada vez mais um instrumento, transforma a realidade de acordo com seus próprios interesses e funções. Dito de outro modo, a verdade não é mais um julgamento objetivo acerca da realidade, ela é provada pelo consenso de milhões e guiada por interesses.

Somos capazes de abrigar simultaneamente duas crenças contraditórias e acreditar em ambas. Construímos armas para assegurar a paz; investimos em policiamento armado para ter segurança; preconceito, machismo, misoginia, xenofobia, lgbtfobia, para nos proteger do outro – diferente. É sem dúvida, tempo de crise econômica, ética e ambiental. Sobretudo, porque vivemos uma nova era geológica: o Antropoceno – conceito criado por Paul J. Crutzen (1995), mediante a escala de destruição do meio ambiente, o extermínio dos ecossistemas, em que o homem começa a destruir suas próprias condições de existência no Planeta. Era de individualidade extrema, de nacionalismos, moralismos, de ascensão do conservadorismo que toma o poder no mundo e, no Brasil, não por acaso Bolsonaro e Doria, crescem com popularidade inimagináveis. É tempo de eugenia – limpar a cracolandia; retirar a força “invasores”; clamar pela ditadura – sob a égide do bem contra o mal, dos bons contra os maus.   

Para onde vamos? Talvez ao tomarmos consciência desta realidade (onde estamos), poderíamos pensar que o homem está se desumanizando, rompendo os laços mínimos de civilidade, ou seja, está basicamente se tornando autodestrutível: ambientalmente e nas relações sociais. Basta imaginar que a utilização das armas termonucleares, que existem, poderia acabar com toda a civilização.

Entretanto, quando olhamos para o sorriso das crianças, para a fé inabalável de muitos pais, educadores e o exemplo de tantos que resistiram e continuam a resistir na esperança de um mundo sustentável, de paz e solidariedade, que avança fronteiras e se irmana com todos os povos, tornamos a acreditar na decência humana.

Neste sentido, volto ao Museu do Amanhã e desvendo caminhos que conduzem interativa e amorosamente a um reencontro com quem somos: “[...]vivemos em uma sociedade e pertencemos a família, grupos e comunidades que nos identificamos. Cada cultura possui um repertório de comportamentos comuns, renovados pela história e por experiências coletivas. Fazemos as mesmas coisas de maneiras sempre distintas. Sensações, emoções, gostos, crenças, linguagens e costumes formam um imenso caleidoscópio da riqueza cultural e dos povos. Somos humanos porque formulamos e compartilhamos ideias capazes de transformar a realidade em que vivemos. ” (Fragmentos da experiência de alguns espaços do museu – livre tradução) 

Assim, podemos encontrar indicadores que ajudam pensar:  como queremos ir?  É ainda no museu que reflito sobre o planeta, que inverto a lógica das perguntas e da linearidade do tempo, pois ao final, volto ao começo – de onde viemos? E como uma explosão cósmica, me vejo mais claramente – carbono, hidrogênio, oxigênio, fósforo, cálcio, me vejo planta, animal, rios, florestas, me vejo parte indivisível do universo.

Ainda, nesta conexão e buscando respostas ao questionamento: como queremos ir?  Em uma parede leio: “Nossas ações, por menores que pareçam, são capazes de mudar o mundo. A cada momento fazemos escolhas sobre o nosso modo de vida. Se nos conectarmos com o planeta e uns com os outros, seremos uma ponte para um futuro sustentável.  Cada um de nós faz o seu amanhã. E juntos fizemos os nossos – os amanhãs que queremos. ”

A visita ao Museu do Amanhã me fez enxergar mais longe (apoena, termo de origem tupi-guarani: aquele que vê além do horizonte). Há luz mesmo em meio ao ofuscamento do momento, para vê-la é necessário que nos movimentemos de forma corajosa e humanitária, assim como o Sol e a Terra são finitos, nossa reação pode assegurar a nossa infinidade. 

Comecemos hoje os nossos amanhãs! Para isso, é necessário voltar a “oca e ao churinga” (último e espetacular espaço do museu) e transmitir às futuras gerações o conhecimento e os gestos mais preciosos da humanidade. É como cantar a Canção da Vida e recuperar a capacidade de amar, de criar e viver em harmonia com o Planeta e todas as formas de existência do mundo.

créditos imagem: Totens do Antropoceno (disponibilizada no site do Museu do Amanhã do Rio de Janeiro)

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 19/06/2017 às 17h39 | marisazf@hotmail.com

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Marisa Zanoni Fernandes

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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.
















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