Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

O REI ESTÁ NU: quem pode ver?

 

As crianças, de modo geral, não têm voz e nem voto. São comumente uma presença invisível na vida da comunidade – há pouca crença no seu potencial, na sua inteligência e na sua capacidade para compreender o mundo que a cerca. São vítimas da retórica das normas, dos falsos pudores que os adultos inventam nas famílias, nos meios de comunicação e na educação.

A necessidade de maior atenção aos pequenos insistentemente evocada por psicólogos, médicos, professores, assistentes sociais, pesquisadores das mais diversas áreas, parece não ter eco. Boa parte das crianças brasileiras continuam fora da escola, morando nas ruas, vivendo em condições de extrema pobreza, sendo vítimas de agressões físicas, psicológicas, sexuais, da fome, do trabalho infantil, entre outras inúmeras mazelas que as afetam de modo muito particular.

Esses casos parecem não se tratar de pessoas reais, nem de gente miúda, pois não incomodam e não mobilizam redes sociais, como por exemplo, o modo como reagiram à performance do homem nu, no MAM. Isso denuncia como estamos sem foco, indiferentes aos reais problemas que afetam nossas crianças, apontando descaso da atual sociedade em assegurar que as crianças vivam suas infâncias. 

Somos acríticos! Nos deixamos levar por ondas sensacionalistas e, acredito sobremaneira, pelo medo de perder o que já não temos: identidade civilizatória. Temos medo do nu, porque a nudez revela os equívocos conceituais e o vazio profundo da nossa corporeidade. Voltamos assim, aos remotos tempos de crise reflexiva em que não podemos esperar de boa parte da população algum compromisso com coerência. Em nome da defesa da família (cabe lembrar que grande parte dos abusos físicos, psicológicos e sexuais são cometidos por familiares ou pessoas muito próximas das crianças), criamos inimigos, separamos os bons dos maus e perpetuamos reais abusos contra os pequenos.

O Rei está nu: quem pode ver? As crianças - como no conto de Hans Christian Andersen. São elas que sem os vícios do foco, enxergam sem medo o corpo do outro como um espelho que transcende a imagem convencional de uma sociedade doente, porque não conhece seu próprio corpo e sua corporeidade.

Que possamos por e com elas, superar a alienação, a obediência deslumbrada, a retórica vazia e avançar para o autoconhecimento, que é o fundamento do respeito pelos outros e pelo mundo.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 26/10/2017 às 16h54 | marisazf@hotmail.com

publicidade





publicidade



Marisa Zanoni Fernandes

Assina a coluna Marisa Fernandes

Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.
















Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br