Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

ELEIÇÕES E A ARTE DE SABER QUEM SOMOS

Os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados

Tomo como ponto de partida para esta reflexão a poesia de Oswaldo de Andrade por dois motivos: o primeiro porque acredito que a ARTE de modo geral, nos permite sair das linhas tradicionais de pensamento – o que por si só já se torna imprescindível; o segundo porque esta poesia é parte do manifesto antropofágico – que tinha entre os objetivos, estruturar a cultura nacional. A antropofagia -  metaforicamente parece servir.   

O atual momento eleitoral, tem evidenciado quase antropofagia: as pessoas parecem praticar o canibalismo!  O nível de acirramento parece ter ultrapassado todos os limites: brigas, ódio, ofensas, agressões verbais e físicas em locais públicos e privados, revelam uma selvageria – não aquela de Oswaldo de Andrade, mas uma totalmente desprovida do reconhecimento de pertencimento do povo brasileiro enquanto nação.

Parece, portanto, que o propósito da década de 20/30 de estruturar a cultura nacional, ainda é um desafio, pois necessitaríamos reconhecer os índios, negros, pobres, mulheres, LGBTs. Necessitaríamos descortinar   quem são os “selvagens”, os “escravizados, ” os “ditadores”. Para isso, precisaríamos, portanto, de possibilidades de constituição de cidadania e de processos humanizadores.

 As eleições de fato revelam quem somos, as causas que abraçamos justificam as bandeiras que empunhamos. Talvez seja por isso, que assistimos espantados à revelação sem o mínimo pudor de homofóbicos, defensores da pena de morte, do armamento, da misoginia, racismo e, a maioria o faz, em nome da “Família, Pátria e de Deus”.  A tríade já conhecida e intimamente ligada a moral que geraram os mais vergonhosos episódios da humanidade - como o nazismo.

Antes das eleições a pauta era a falta de emprego, o preço dos combustíveis, a instabilidade da economia e seus reflexos. Hoje, para determinados grupos, não importa as propostas do candidato sobre economia, trabalho, educação, saúde, previdência, segurança, cultura. Importa o discurso e a solução fáceis – matar, prender, banir, esterilizar em nome da moral e o antipetismo. Ideias que rapidamente germinam regadas por anônimos internautas, especialistas em imagens virais que antagoniza extremismos e clamores de mudanças – sem importar quais serão. Nascera, como lembra Mário Assis Ferreira (2017) o quarto poder a “videocracia”.

Esta pratica política não pode caber no nosso horizonte. Urge, portanto, a necessidade da resistência, da sabedoria e da serenidade. Que possamos, neste domingo, lembrar de todos que lutaram e até morreram para que pudemos ir às urnas. Em nome dos que nos antecederem, em nome dos que virão – que a paz possa ser nosso valor e a divergência a possiblidade de avançarmos para um BRASIL de solidariedade e de justiça social.

 

Quadro: Abaporu de tarsília do Amaral (1928)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 06/10/2018 às 19h55 | marisazf@hotmail.com



Marisa Zanoni Fernandes

Assina a coluna Marisa Fernandes

Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

ELEIÇÕES E A ARTE DE SABER QUEM SOMOS

Os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados

Tomo como ponto de partida para esta reflexão a poesia de Oswaldo de Andrade por dois motivos: o primeiro porque acredito que a ARTE de modo geral, nos permite sair das linhas tradicionais de pensamento – o que por si só já se torna imprescindível; o segundo porque esta poesia é parte do manifesto antropofágico – que tinha entre os objetivos, estruturar a cultura nacional. A antropofagia -  metaforicamente parece servir.   

O atual momento eleitoral, tem evidenciado quase antropofagia: as pessoas parecem praticar o canibalismo!  O nível de acirramento parece ter ultrapassado todos os limites: brigas, ódio, ofensas, agressões verbais e físicas em locais públicos e privados, revelam uma selvageria – não aquela de Oswaldo de Andrade, mas uma totalmente desprovida do reconhecimento de pertencimento do povo brasileiro enquanto nação.

Parece, portanto, que o propósito da década de 20/30 de estruturar a cultura nacional, ainda é um desafio, pois necessitaríamos reconhecer os índios, negros, pobres, mulheres, LGBTs. Necessitaríamos descortinar   quem são os “selvagens”, os “escravizados, ” os “ditadores”. Para isso, precisaríamos, portanto, de possibilidades de constituição de cidadania e de processos humanizadores.

 As eleições de fato revelam quem somos, as causas que abraçamos justificam as bandeiras que empunhamos. Talvez seja por isso, que assistimos espantados à revelação sem o mínimo pudor de homofóbicos, defensores da pena de morte, do armamento, da misoginia, racismo e, a maioria o faz, em nome da “Família, Pátria e de Deus”.  A tríade já conhecida e intimamente ligada a moral que geraram os mais vergonhosos episódios da humanidade - como o nazismo.

Antes das eleições a pauta era a falta de emprego, o preço dos combustíveis, a instabilidade da economia e seus reflexos. Hoje, para determinados grupos, não importa as propostas do candidato sobre economia, trabalho, educação, saúde, previdência, segurança, cultura. Importa o discurso e a solução fáceis – matar, prender, banir, esterilizar em nome da moral e o antipetismo. Ideias que rapidamente germinam regadas por anônimos internautas, especialistas em imagens virais que antagoniza extremismos e clamores de mudanças – sem importar quais serão. Nascera, como lembra Mário Assis Ferreira (2017) o quarto poder a “videocracia”.

Esta pratica política não pode caber no nosso horizonte. Urge, portanto, a necessidade da resistência, da sabedoria e da serenidade. Que possamos, neste domingo, lembrar de todos que lutaram e até morreram para que pudemos ir às urnas. Em nome dos que nos antecederem, em nome dos que virão – que a paz possa ser nosso valor e a divergência a possiblidade de avançarmos para um BRASIL de solidariedade e de justiça social.

 

Quadro: Abaporu de tarsília do Amaral (1928)

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 06/10/2018 às 19h55 | marisazf@hotmail.com



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Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.


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