Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Sobre artistas locais

 

                Neste último domingo estive na abertura do Festival da Canção, no Teatro Bruno Nitz e preciso confessar que foi uma experiência inesquecível. É impressionante a quantidade e a qualidade dos talentos que convivem conosco diariamente e que não nos apercebemos.

            Infelizmente ainda temos o hábito de importar culturas, conhecemos artistas internacionais e até falamos deles com familiaridade e não vemos o artista que trabalha ao nosso lado, na  mesma repartição, ou que mora na mesma rua, na mesma cidade. Da mesma forma que nos comove a fome do outro lado do oceano mas ignoramos quem bate a nossa porta pedindo comida... Aplaudimos e economizamos para ir no show do cantor internacional, mas não vamos assistir nossos artistas locais mesmo sendo de graça!

 

            Voltando ao festival, a cada noite 15 talentos se apresentam e recebem os votos da platéia. Quatro são escolhidos por um júri técnico e um pelo voto dos expectadores. Hoje a grande final, com os 15 selecionados nos três dias de festival.

 

            Mas  uma música que mexeu especialmente com meu coração. Não foi selecionada, não está na final de hoje, mas quero voltar a ouvir a voz suave de um compositor do bairro da Barra, filho de pescador, com a música “Ainda somos um”.  

     

       Rodrigo Freitas, ainda está ecoando em minha cabeça o “fechar os olhos e enxergar”. Sim, meus amigos, é preciso fechar os olhos para enxergar com o coração.

 

 

“É de viver dividir

é de se ver, se orgulhar

a cada ser um pouco de si

a cada qual, um pouco dá

 

De florecer, invadir

Se permitir, deixar levar

recomeçar, reconstruir

fechar os olhos e enxergar

 

A vida que todo dia nasce dentro de si

e morre se não quer deixar sair

é feliz quem sabe ser o que se é

com todos os defeitos,

com todas as verdades

é feliz quem sabe ser feliz.

 

Somos inteiros pela metade

e tão completos em cada parte

e ainda somos um

 

buscando versos e melodias

buscando formas e poesia

e ainda somos vida.”

 

(Rodrigo Freitas em Ainda somos um)

Escrito por Céres Fabiana Felski, 05/12/2018 às 12h13 | cereshmrc@gmail.com

Sobre chás e depressão

 

 

             Mais um. Inevitável a gente questionar. Poxa, será que ninguém notou? Ninguém percebeu os pedidos de socorro? Lembrei de duas amigas que encontrei recentemente em momentos diferentes. E, como é rotina, perguntei: “Tudo bem?” Normal, né? A gente sempre pergunta pras pessoas “como vai?”...  Mas elas me responderam: “Não, eu não estou bem.” Depois do primeiro segundo de surpresa, veio aquela sensação agradável de entender que elas sabem que eu me importo de verdade, que não precisam mentir para mim.  E eu me lembrei das tantas vezes em que eu mesma dei esta resposta...

          Tente você fazer isso, dar uma resposta inesperada para as pessoas que te perguntam como vai. Fale realmente como você está, e esteja preparado para receber respostas reais quando você cumprimentar alguém. Ou diga simplesmente “Oi”. Acho que está mais do que na hora de deixarmos as formalidades de lado.

          Lembro de uma ocasião em que disse que eu convivo idilicamente com a solidão. Sim, porque é melhor estar só do que acompanhado de protocolos, etiquetas e discursos vazios. Quando estou triste, não quero que me digam nada, preciso apenas de um abraço apertado e a certeza de que se eu precisar, vou poder contar com alguém.

           Tenho amigos assim. Pode passar anos sem nos falarmos, mas se eu mandar mensagem pedindo ajuda tenho certeza que estarão do meu lado. Sem me julgar, sem discursos prontos nem frases vazias de emoção. Um abraço, um chá, uma presença serena na minha solitude.

            E não se preocupe. Minha depressão é minha. Só minha. Ela não veio por algo que você fez ou deixou de fazer. VOCÊ NÃO TEM CULPA DO MEU SOFRIMENTO. Fica tranqüilo, tá? A gente só precisa saber que você entende e apóia. Pode estender seu braço e oferecer aquele abraço silencioso.

           Tenha sempre na cozinha uma chaleira pronta pra uma xícara de chá e um ombro amigo. Pode ter certeza que um dia alguém vai bater na sua porta pedindo por isso. E ouvir atentamente pode ser a sua melhor ajuda. Uma única xícara de chá pode salvar uma vida.

        Tem uma música do Osvaldo Montenegro que diz “gente, como vai quer dizer oi, ninguém quer saber como você vai”. Desculpe,  Osvaldo, sou sua fã, mas como vai” não quer dizer "oi". 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 22/11/2018 às 11h15 | cereshmrc@gmail.com

Mentiras cotidianas

            

             É mentira. Disseram que quem pensa em se matar é porque “é fraco”.  Você já tentou imaginar a coragem necessária para pôr fim ao que se conhece apostando no absolutamente desconhecido território da morte? É mentira, sim.

            Uma mentira disfarçada de autoconfiança, travestida de pseudo-superioridade. Diagnóstico mais claro, impossível: o mundo sofre de falta de empatia. Somos todos doutores especialistas em tudo: sabemos tudo de futebol, de política, de religião. Ninguém mais se lembra daquela máxima que dizia que “futebol, política e religião não se discute”. Discute-se tudo. E, pós graduados em facebook e whatts app, julgamos e sentenciamos tudo. E pior: executamos.

       E depois, com ares de condescendência, observamos as pessoas que saltam de prédios, de pontes, sem ao menos nos questionarmos sobre nosso papel neste teatro de horrores. Quantas vezes servimos de trampolim ao invés de paraquedas? Quando foi a última vez que paramos para ouvir o outro sem julgamentos?

             Por um mundo que tenha mais seres humanos e menos doutores de internet.

            Por mais mãos estendidas e menos dedos apontados.          

            Depressão não é frescura nem fraqueza.

        

 

“empatia (s.f.)

não é sentir pelo outro, mas sentir com o outro. quando a gente lê o roteiro de outra vida. é ser ator em outro palco. é compreender. é não dizer "eu sei como você se sente". é quando a gente não diminui a dor do outro. é descer até ao fundo do poço e fazer companhia pra quem precisa. não é ser herói, é ser amigo. 
é saber abraçar a alma.

 

João Doederlein

 

 

           

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/11/2018 às 09h09 | cereshmrc@gmail.com

Uma reflexão necessária

              

             Hoje é dia da bandeira na Argentina: feriado nacional, homenagens a bandeira, cerimônias e o tradicional discurso do presidente na Praça da Bandeira, em Rosário. Tudo isto acontece sempre, e, neste ano, concomitantemente a copa do mundo, o sentimento nacional é muito maior.

Porém tudo isto ocorre também no momento em que o país está quebrado, com a moeda cada vez mais desvalorizada, com o dólar chegando a quase 30 pesos. Ontem foi anunciado um aumento de 25% para os caminhoneiros, porém não aplacou o sentimento da população. O que se vê hoje é revolta e manifestações onde deveria haver um belo cerimonial.

Pior, pela primeira vez o presidente não fará seu pronunciamento nesta data. O que se diz na imprensa é que o presidente está com medo de sair as ruas. Sem entrar no mérito da questão, sem querer discutir política partidária, há que se repensar muito sobre como estamos conduzindo as relações humanas. Algo sem dúvida está muito errado quando uma pessoa que foi escolhida pelo povo, não consegue encarar os que o conduziram ao poder.

Aliás, este é apenas mais um exemplo de como estamos definitivamente à deriva. Não temos mais quem represente a nação com orgulho, com garra. Todos apenas pensam em se autopromover, em aumentar seu patrimônio ou seu prestígio. Mas no povo mesmo, no país, ninguém pensa.

Isso me faz recordar das aulas de Educação Moral e Cívica, de cantar o Hino Nacional todos os dias, com o coração cheio de orgulho. Lembro de meu avô, que foi lutar na Italia durante a Segunda Guerra, e junto com muitos outros, ofereceu sua vida para defender o país.

Hoje não temos mais heróis. Que pena.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 20/06/2018 às 14h47 | cereshmrc@gmail.com

Padrões e Preços

                  Quando os jovens  escolhem a profissão que irão seguir, quando prestam vestibular, não tem a menor dimensão do que os aguarda. Embora existam cursinhos pré-vestibulares, serviços de orientação vocacional, testes, faculdades que oferecem aulas sobre os cursos a fim de auxiliar na escolha, nada prepara para a vida real. Nada.

                Por melhores e bem intencionados que sejam os pais e mães, por mais sólida que seja a estrutura familiar, que se tenha condições socioeconômicas ideais, mesmo assim o jovem formando não sabe o mundo que o aguarda.

                Ninguém prepara o estudante de pedagogia para lidar com a sua própria frustração frente a burocracia do sistema que o impedirá de fornecer o melhor para seus alunos. Tampouco passa pela cabeça do futuro médico que um dia acabará inevitavelmente pela situação de ter que escolher a qual paciente dar a chance da vida. Ou que talvez tenha que usar todo o seu conhecimento para salvar a vida de um assassino, e tampouco que poderá ter que lidar com a sua própria impotência frente a doença de um ente querido.

                E isto falando apenas do exercício profissional. E o preço indireto de cada escolha? Porque, na maioria das vezes, não se escolhe apenas uma carreira, mas sim um estilo de vida. Profissões “de sucesso” pressupõem uma conduta pessoal correspondente. Espera-se, na área da saúde, que sejam todos como sacerdotes: trabalhem por amor, não visem o lucro, e ao mesmo tempo, que paguem mais caro por serem “bem sucedidos”. Na área do direito, espera-se que tenham todas as respostas e soluções para todo tipo de problema. E assim por diante.

                E tanto a sociedade cobra certas posturas e posicionamentos, que o profissional acaba por ele mesmo se cobrar as mesmas posturas e posicionamentos. E, quando tudo isto se torna um padrão comportamental obrigatório, o que resta? A frustração. Sim, porque ninguém é perfeito (e nem vamos considerar o conceito de perfeição, que por si só já é relativo), e ao mesmo tempo todos são obrigados a conviver consigo mesmos.

                E, ao aceitar este padrão comportamental como algo natural, o indivíduo se cobra e cobra ao outro, ao mesmo tempo que se exime da responsabilidade de causar ao outro a mesma dor e frustração que sente, já que é “a sociedade” que determina o padrão. Senhoras e senhores, desculpem mas é preciso dar uma péssima notícia: A SOCIEDADE SOMOS NÓS. E consequentemente, somos ao mesmo tempo vítimas e algozes. Causamos ao outro a mesma dor que nos causam. Fechar os olhos e ouvidos não faz calar os clamores.

                Lamentavelmente, evoluímos tanto em vários aspectos, mas cada vez somos menos HUMANOS.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 16/06/2018 às 12h53 | cereshmrc@gmail.com

A elegância do inverno...

Então parece que o inverno chegou. A gente começou a tirar os cobertores do guardaroupa, colocar os casacos no sol, lavar os pijamas compridos… ressuscitamos as pantufas, as meias e botas! Na televisão, anunciam a noite mais fria do ano. Nos jornais, previsões de safras de tainhas. O sol tem nascido mais tarde (acho que até ele tem preguiça de levantar com este friozinho), e se posto mais cedo. O cardápio agora inclui sopas de todo tipo, chocolate quente, pinhão… 

Desde criança, sempre achei o inverno chique. Se o verão é sensual, com decotes, fendas, transparências, o inverno tem uma elegância natural com seus casacões, echarpes, xales… Até caminhar na praia me parece mais gostoso no inverno do que no verão. O clima frio me traz um tipo de magia, uma disposição diferente, um jeito diferente de olhar a vida.

Por outro lado, inicia-se a temporada das doenças respiratórias, das gripes e resfriados, que se propagam rapidamente já que as janelas permanecem fechadas nas casas, escolas, ônibus, etc… E isto até porque as pessoas tem a falsa ideia de que isso protege do “vento frio”, quando na verdade aumenta a concentração de vírus e a transmissão de doenças.

Resumindo, descobri que estive enganada a vida toda: chique mesmo é ter o coração aquecido, com um abraço acolhedor como aquele sofá velho da sala de televisão que já tem um cobertor jogado e algumas marcas de pipocas de quem já deu muitas risadas com os amigos de verdade. Elegância vem de dentro, através de pequenas atitudes. Talvez por isso o inverno hoje me pareça tão frio.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 23/05/2018 às 14h54 | cereshmrc@gmail.com



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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Sobre artistas locais

 

                Neste último domingo estive na abertura do Festival da Canção, no Teatro Bruno Nitz e preciso confessar que foi uma experiência inesquecível. É impressionante a quantidade e a qualidade dos talentos que convivem conosco diariamente e que não nos apercebemos.

            Infelizmente ainda temos o hábito de importar culturas, conhecemos artistas internacionais e até falamos deles com familiaridade e não vemos o artista que trabalha ao nosso lado, na  mesma repartição, ou que mora na mesma rua, na mesma cidade. Da mesma forma que nos comove a fome do outro lado do oceano mas ignoramos quem bate a nossa porta pedindo comida... Aplaudimos e economizamos para ir no show do cantor internacional, mas não vamos assistir nossos artistas locais mesmo sendo de graça!

 

            Voltando ao festival, a cada noite 15 talentos se apresentam e recebem os votos da platéia. Quatro são escolhidos por um júri técnico e um pelo voto dos expectadores. Hoje a grande final, com os 15 selecionados nos três dias de festival.

 

            Mas  uma música que mexeu especialmente com meu coração. Não foi selecionada, não está na final de hoje, mas quero voltar a ouvir a voz suave de um compositor do bairro da Barra, filho de pescador, com a música “Ainda somos um”.  

     

       Rodrigo Freitas, ainda está ecoando em minha cabeça o “fechar os olhos e enxergar”. Sim, meus amigos, é preciso fechar os olhos para enxergar com o coração.

 

 

“É de viver dividir

é de se ver, se orgulhar

a cada ser um pouco de si

a cada qual, um pouco dá

 

De florecer, invadir

Se permitir, deixar levar

recomeçar, reconstruir

fechar os olhos e enxergar

 

A vida que todo dia nasce dentro de si

e morre se não quer deixar sair

é feliz quem sabe ser o que se é

com todos os defeitos,

com todas as verdades

é feliz quem sabe ser feliz.

 

Somos inteiros pela metade

e tão completos em cada parte

e ainda somos um

 

buscando versos e melodias

buscando formas e poesia

e ainda somos vida.”

 

(Rodrigo Freitas em Ainda somos um)

Escrito por Céres Fabiana Felski, 05/12/2018 às 12h13 | cereshmrc@gmail.com

Sobre chás e depressão

 

 

             Mais um. Inevitável a gente questionar. Poxa, será que ninguém notou? Ninguém percebeu os pedidos de socorro? Lembrei de duas amigas que encontrei recentemente em momentos diferentes. E, como é rotina, perguntei: “Tudo bem?” Normal, né? A gente sempre pergunta pras pessoas “como vai?”...  Mas elas me responderam: “Não, eu não estou bem.” Depois do primeiro segundo de surpresa, veio aquela sensação agradável de entender que elas sabem que eu me importo de verdade, que não precisam mentir para mim.  E eu me lembrei das tantas vezes em que eu mesma dei esta resposta...

          Tente você fazer isso, dar uma resposta inesperada para as pessoas que te perguntam como vai. Fale realmente como você está, e esteja preparado para receber respostas reais quando você cumprimentar alguém. Ou diga simplesmente “Oi”. Acho que está mais do que na hora de deixarmos as formalidades de lado.

          Lembro de uma ocasião em que disse que eu convivo idilicamente com a solidão. Sim, porque é melhor estar só do que acompanhado de protocolos, etiquetas e discursos vazios. Quando estou triste, não quero que me digam nada, preciso apenas de um abraço apertado e a certeza de que se eu precisar, vou poder contar com alguém.

           Tenho amigos assim. Pode passar anos sem nos falarmos, mas se eu mandar mensagem pedindo ajuda tenho certeza que estarão do meu lado. Sem me julgar, sem discursos prontos nem frases vazias de emoção. Um abraço, um chá, uma presença serena na minha solitude.

            E não se preocupe. Minha depressão é minha. Só minha. Ela não veio por algo que você fez ou deixou de fazer. VOCÊ NÃO TEM CULPA DO MEU SOFRIMENTO. Fica tranqüilo, tá? A gente só precisa saber que você entende e apóia. Pode estender seu braço e oferecer aquele abraço silencioso.

           Tenha sempre na cozinha uma chaleira pronta pra uma xícara de chá e um ombro amigo. Pode ter certeza que um dia alguém vai bater na sua porta pedindo por isso. E ouvir atentamente pode ser a sua melhor ajuda. Uma única xícara de chá pode salvar uma vida.

        Tem uma música do Osvaldo Montenegro que diz “gente, como vai quer dizer oi, ninguém quer saber como você vai”. Desculpe,  Osvaldo, sou sua fã, mas como vai” não quer dizer "oi". 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 22/11/2018 às 11h15 | cereshmrc@gmail.com

Mentiras cotidianas

            

             É mentira. Disseram que quem pensa em se matar é porque “é fraco”.  Você já tentou imaginar a coragem necessária para pôr fim ao que se conhece apostando no absolutamente desconhecido território da morte? É mentira, sim.

            Uma mentira disfarçada de autoconfiança, travestida de pseudo-superioridade. Diagnóstico mais claro, impossível: o mundo sofre de falta de empatia. Somos todos doutores especialistas em tudo: sabemos tudo de futebol, de política, de religião. Ninguém mais se lembra daquela máxima que dizia que “futebol, política e religião não se discute”. Discute-se tudo. E, pós graduados em facebook e whatts app, julgamos e sentenciamos tudo. E pior: executamos.

       E depois, com ares de condescendência, observamos as pessoas que saltam de prédios, de pontes, sem ao menos nos questionarmos sobre nosso papel neste teatro de horrores. Quantas vezes servimos de trampolim ao invés de paraquedas? Quando foi a última vez que paramos para ouvir o outro sem julgamentos?

             Por um mundo que tenha mais seres humanos e menos doutores de internet.

            Por mais mãos estendidas e menos dedos apontados.          

            Depressão não é frescura nem fraqueza.

        

 

“empatia (s.f.)

não é sentir pelo outro, mas sentir com o outro. quando a gente lê o roteiro de outra vida. é ser ator em outro palco. é compreender. é não dizer "eu sei como você se sente". é quando a gente não diminui a dor do outro. é descer até ao fundo do poço e fazer companhia pra quem precisa. não é ser herói, é ser amigo. 
é saber abraçar a alma.

 

João Doederlein

 

 

           

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/11/2018 às 09h09 | cereshmrc@gmail.com

Uma reflexão necessária

              

             Hoje é dia da bandeira na Argentina: feriado nacional, homenagens a bandeira, cerimônias e o tradicional discurso do presidente na Praça da Bandeira, em Rosário. Tudo isto acontece sempre, e, neste ano, concomitantemente a copa do mundo, o sentimento nacional é muito maior.

Porém tudo isto ocorre também no momento em que o país está quebrado, com a moeda cada vez mais desvalorizada, com o dólar chegando a quase 30 pesos. Ontem foi anunciado um aumento de 25% para os caminhoneiros, porém não aplacou o sentimento da população. O que se vê hoje é revolta e manifestações onde deveria haver um belo cerimonial.

Pior, pela primeira vez o presidente não fará seu pronunciamento nesta data. O que se diz na imprensa é que o presidente está com medo de sair as ruas. Sem entrar no mérito da questão, sem querer discutir política partidária, há que se repensar muito sobre como estamos conduzindo as relações humanas. Algo sem dúvida está muito errado quando uma pessoa que foi escolhida pelo povo, não consegue encarar os que o conduziram ao poder.

Aliás, este é apenas mais um exemplo de como estamos definitivamente à deriva. Não temos mais quem represente a nação com orgulho, com garra. Todos apenas pensam em se autopromover, em aumentar seu patrimônio ou seu prestígio. Mas no povo mesmo, no país, ninguém pensa.

Isso me faz recordar das aulas de Educação Moral e Cívica, de cantar o Hino Nacional todos os dias, com o coração cheio de orgulho. Lembro de meu avô, que foi lutar na Italia durante a Segunda Guerra, e junto com muitos outros, ofereceu sua vida para defender o país.

Hoje não temos mais heróis. Que pena.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 20/06/2018 às 14h47 | cereshmrc@gmail.com

Padrões e Preços

                  Quando os jovens  escolhem a profissão que irão seguir, quando prestam vestibular, não tem a menor dimensão do que os aguarda. Embora existam cursinhos pré-vestibulares, serviços de orientação vocacional, testes, faculdades que oferecem aulas sobre os cursos a fim de auxiliar na escolha, nada prepara para a vida real. Nada.

                Por melhores e bem intencionados que sejam os pais e mães, por mais sólida que seja a estrutura familiar, que se tenha condições socioeconômicas ideais, mesmo assim o jovem formando não sabe o mundo que o aguarda.

                Ninguém prepara o estudante de pedagogia para lidar com a sua própria frustração frente a burocracia do sistema que o impedirá de fornecer o melhor para seus alunos. Tampouco passa pela cabeça do futuro médico que um dia acabará inevitavelmente pela situação de ter que escolher a qual paciente dar a chance da vida. Ou que talvez tenha que usar todo o seu conhecimento para salvar a vida de um assassino, e tampouco que poderá ter que lidar com a sua própria impotência frente a doença de um ente querido.

                E isto falando apenas do exercício profissional. E o preço indireto de cada escolha? Porque, na maioria das vezes, não se escolhe apenas uma carreira, mas sim um estilo de vida. Profissões “de sucesso” pressupõem uma conduta pessoal correspondente. Espera-se, na área da saúde, que sejam todos como sacerdotes: trabalhem por amor, não visem o lucro, e ao mesmo tempo, que paguem mais caro por serem “bem sucedidos”. Na área do direito, espera-se que tenham todas as respostas e soluções para todo tipo de problema. E assim por diante.

                E tanto a sociedade cobra certas posturas e posicionamentos, que o profissional acaba por ele mesmo se cobrar as mesmas posturas e posicionamentos. E, quando tudo isto se torna um padrão comportamental obrigatório, o que resta? A frustração. Sim, porque ninguém é perfeito (e nem vamos considerar o conceito de perfeição, que por si só já é relativo), e ao mesmo tempo todos são obrigados a conviver consigo mesmos.

                E, ao aceitar este padrão comportamental como algo natural, o indivíduo se cobra e cobra ao outro, ao mesmo tempo que se exime da responsabilidade de causar ao outro a mesma dor e frustração que sente, já que é “a sociedade” que determina o padrão. Senhoras e senhores, desculpem mas é preciso dar uma péssima notícia: A SOCIEDADE SOMOS NÓS. E consequentemente, somos ao mesmo tempo vítimas e algozes. Causamos ao outro a mesma dor que nos causam. Fechar os olhos e ouvidos não faz calar os clamores.

                Lamentavelmente, evoluímos tanto em vários aspectos, mas cada vez somos menos HUMANOS.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 16/06/2018 às 12h53 | cereshmrc@gmail.com

A elegância do inverno...

Então parece que o inverno chegou. A gente começou a tirar os cobertores do guardaroupa, colocar os casacos no sol, lavar os pijamas compridos… ressuscitamos as pantufas, as meias e botas! Na televisão, anunciam a noite mais fria do ano. Nos jornais, previsões de safras de tainhas. O sol tem nascido mais tarde (acho que até ele tem preguiça de levantar com este friozinho), e se posto mais cedo. O cardápio agora inclui sopas de todo tipo, chocolate quente, pinhão… 

Desde criança, sempre achei o inverno chique. Se o verão é sensual, com decotes, fendas, transparências, o inverno tem uma elegância natural com seus casacões, echarpes, xales… Até caminhar na praia me parece mais gostoso no inverno do que no verão. O clima frio me traz um tipo de magia, uma disposição diferente, um jeito diferente de olhar a vida.

Por outro lado, inicia-se a temporada das doenças respiratórias, das gripes e resfriados, que se propagam rapidamente já que as janelas permanecem fechadas nas casas, escolas, ônibus, etc… E isto até porque as pessoas tem a falsa ideia de que isso protege do “vento frio”, quando na verdade aumenta a concentração de vírus e a transmissão de doenças.

Resumindo, descobri que estive enganada a vida toda: chique mesmo é ter o coração aquecido, com um abraço acolhedor como aquele sofá velho da sala de televisão que já tem um cobertor jogado e algumas marcas de pipocas de quem já deu muitas risadas com os amigos de verdade. Elegância vem de dentro, através de pequenas atitudes. Talvez por isso o inverno hoje me pareça tão frio.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 23/05/2018 às 14h54 | cereshmrc@gmail.com



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Céres Fabiana Felski

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Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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