Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Mais um assassinato.

 

 

           Eu queria ter escrito antes mas não consegui. A dor foi tão forte que ainda tenho dificuldade em lidar com a situação, na verdade, choro enquanto escrevo. Ler, na capa do jornal, que os moradores de rua que ficavam sob uma marquise foram retirados do local e o seu cachorro (com as vacinas em dia, superbem tratado) foi encaminhado para o abrigo animal  me apunhalou a alma. Há um bom tempo fazemos um trabalho com eles, conversando, levando apoio. Cansei de parar lá, sozinha, as vezes a noite, para conversar com eles e NUNCA me senti agredida ou em perigo. Pelo contrário, sempre recebemos um sorriso e um aceno ao passar de carro pelo local.

              Tenho medo, confesso, dessas pessoas sentadas em seus gabinetes com um alvará concedido pelo voto popular e que se julgam acima de todos e até da própria constituição. Sim, porque onde fica o direito de ir e vir? Existem pessoas mal intencionadas morando nas ruas? Sim, existem. Mas a grande maioria dos criminosos mora em casas (ou em condomínios fechados, apartamentos de alto luxo, etc...). 
                Mas parece que agora impera o regime segregatório. Vamos banir as pessoas que são “diferentes” para longe dos olhos. Tudo o que nos faz mal ver, vamos esconder, combinado? Com certeza é mais fácil banir da visão os moradores de rua, os deficientes (e esqueçam aquele discurso lindo de inclusão, agora eles não podem mais frequentar ambientes de pessoas “normais”), do que ter que lidar diariamente com a responsabilidade do Estado perante eles. Sem dúvida é melhor esconder debaixo do tapete. Assim as visitas (turistas) pensam que somos evoluídos. Pensam que somos bons. 
               E, neste patamar de coisas, torna-se certo (ou “legal”) retirar os filhos de uma família de ciganos porque estão nas ruas, mesmo que estejam com os pais, no estilo de vida cigano (nômade por natureza). Talvez falte a estas pessoas dos gabinetes um conhecimento básico de história, de costumes. Ou apenas falte respeito mesmo. Bom senso. Humanidade. 
            Tenho muito medo do rumo que as coisas estão tomando. Este é um daqueles momentos em que me questiono o sentido da vida. E que, tristemente, compreendo porque tantos tem desistido dela. Há 04 dias estou de luto. Mais uma vez assassinaram os direitos humanos e ninguém fez nada para evitar.
Escrito por Céres Fabiana Felski, 13/04/2019 às 14h49 | cereshmrc@gmail.com

Sobre feminicidios...

Há mais de 20 anos eu morava em Joinville, no último andar de um edificio próximo ao centro da cidade. Uma noite eu acordei no meio da madrugada com gritos, fui até o banheiro e percebi que vinham do apartamento ao lado, onde morava um casal jovem com o filho recém-nascido. Interfonei para a síndica, e, em menos de 15 minutos TODAS as mulheres do prédio estavam no corredor. Tocamos a campainha e o marido ficou branco quando viu aquele monte de mulher na porta exigindo ver e falar com a esposa dele. Não houve mais gritos. Em poucos dias eles se mudaram do prédio e ela procurou a síndica para agradecer a intervenção e dizer que, ao ver que não estava só, encontrou força para por fim a uma relação abusiva.

Sempre que acontece um novo caso de feminicidio (e infelizmente cada vez acontece mais), os relatos incluem várias brigas e agressões presenciadas/ouvidas/constatadas por vizinhos, amigos, até parentes. E sempre as pessoas comentam, mas não interferem. A velha máxima de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” continua dominando.

Sou mulher, sou mãe de mulher, tenho irmãs mulheres. Vivo com este peso: o medo de que uma de nós seja agredida um dia e que NINGUÉM ajude. Que ninguém ouça nossos gritos, ou que, ouvindo, prefira não se meter. Ou até, numa versão mais moderna e repulsiva, fique a postos para fazer uma transmissão ao vivo nas redes sociais ou para ser o primeiro a postar as fotos.

Assusta ver que cada vez mais mulheres são mortas com requintes de crueldade pelos parceiros em quem elas um dia confiaram, a quem elas amaram. E que, do seu jeito, as tenham amado também. Mas me apavora muito mais a morbidez e frieza dos que veem e nada fazem. E nada dizem.

Acho que vale recordar também que, perante a lei, quem tem conhecimento de um crime e se cala passa a ser cúmplice. E que todos tem uma mãe/irmã/filha/sobrinha/prima. Por cada mulher que amamos, por cada uma de nós, eu suplico: NÃO SE CALEM MAIS.  

Escrito por Céres Fabiana Felski, 03/04/2019 às 09h00 | cereshmrc@gmail.com

Obrigada, Mafê Probst!

               

                Uma das coisas legais de escrever é que a gente presta muito mais atenção a tudo o que lê. E não apenas isso, não apenas ler: a gente tenta entender o que o outro escreveu. Coisas que parecem ter um sentido para quem lê, e que no entanto quem escreveu pensou em algo totalmente diferente. Acontece bastante isso comigo, escrevo uma coisa e vem alguém comentar  o que sentiu lendo, e era algo muitas vezes que eu nem imaginava. Confesso que essa perspectiva me deixou bem mais atenta ao escrever, mais preocupada com o que pode ser interpretado.

Tem  escritores que chegam a usar um “fotoshop” do texto para que ele fique como o leitor espera. Tipo aquela coisa de escrever por encomenda: textinho pro dia do professor, pro aniversário da amiga, etc. Uma literatura basicamente comercial, digamos. Tem seu valor, não nego, mas não creio que reflita a alma de quem escreveu.

Eu sou consumidora fiel de escritores viscerais. Tenho verdadeira paixão por textos que tenham sido forjados no calor da emoção e que não raro venham tingidos de sangue e lágrimas. Textos que tenham passado por uma gestação e tenham sido paridos com o amor que parimos os filhos.

Hoje li um texto destes. Não aguentei. Na mesma hora mandei uma mensagem pra autora, minha parceira-amiga-madrinha literária, a Mafê Probst. Sangrei lendo cada palavra. Aplaudi. Se eu já a admirava, hoje agradeço a ela por ter, com este texto, nos permitido ser imperfeitos. Eu que me julgava escritora fiquei sem palavras. Obrigada, Mafê.

 

"Desde pequena eu sabia que tinha uma perda auditiva leve e isso nunca me incomodou, tampouco atrapalhou. Fazia acompanhamentos periódicos e sempre esteve tudo bem. Até que eu parei de acompanhar, sabe? Sei lá, não via sentido.

.

Ano passado, minha mãe pediu, encarecidamente, que eu voltasse na otorrino para verificar minha audição. Bufei, revirei os olhos, mas fui. O que a mãe não pede sorrindo que eu não faço? Marquei horário, fiz audiometria e, bom, a coisa não estava tão "tudo bem" assim.

.

O diagnóstico caiu como uma bomba no meu colo. Eu deixava de ter 'só uma perda auditiva' para me enquadrar como deficiente auditiva unilateral e, diante de tal quadro, fez-se necessário o uso de aparelhos auditivos.

.

Não consigo mensurar pra vocês o tanto que chorei aquele dia, aquela noite, aquela semana. Foram seis dias até que eu fizesse o teste no aparelho (igual ao da foto, que postei anterior) e, bem, me vi maravilhada. Eu não fazia ideia que eu escutava tão mal e tão pouco, sabe?

.

Coloquei os aparelhos em setembro. Fiz testes até dezembro, quando consegui um empréstimo para comprá-los. Eu ainda tinha vergonha de falar abertamente para as pessoas, eu escondia o aparelho entre os cabelos, eu corava quando me perguntavam "o que é isso?".

.

Agora não. Faz parte de mim, sabe? É um detalhe tão bobo e tão meu. Me abriu um mundo de possibilidades, descobri sons que eram inaudíveis para mim. O piar dos passarinhos que é mais alto do que eu supunha, a chave que bate, irritantemente, enquanto dirijo e a educação que volta, porque antes eu não ouvia quando as pessoas falavam comigo — era tachada de distraída e mal educada, mas na verdade era só surdinha mesmo.

.

Abracei minha condição. Sou completa diante da imperfeição e, felizmente, tenho meios para contornar. Agora tudo é música— até me acostumar. E tomara que eu jamais me acostume e fique sempre fazendo dança com cada som novo que aparece aos meus ouvidos..."

 

#relatosdamafê #MafêProbst  #deficienciaauditiva #dau #widex

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 22/03/2019 às 21h02 | cereshmrc@gmail.com

Vai ter Dia da Mulher, sim!

Na semana passada, ao participar da reunião sobre a construção das Políticas Públicas voltadas à Mulher, vários filmes passaram na minha cabeça. Lembrei de uma situação em que a esposa de um paciente veio me comunicar o óbito dele. Casados há mais de 50 anos, enquanto soluçava ela me dizia: "Um homem tão bom, nunca ergueu a mão pra mim...". Essa história faz anos que aconteceu, mas ficou gravada na minha cabeça e no meu coração: como uma pessoa pode ver como vantagem, como adjetivo, não ser agredida por seu parceiro?

Isto me remete também a situação tão discutida na psicanálise, na qual o agressor só existe porque alguém aceita fazer o papel da vítima. Por isso, combater a violência contra a mulher é muito mais complexo do que prender/punir/castrar o agressor. É preciso que a mulher se re-signifique, porque senão ela vai continuar sendo vítima em outras situações. Com efeito, esta mulher não é vítima só no relacionamento conjugal. O padrão de comportamento não está restrito às dimensões físicas da casa. É a mulher que aceita que o mercado de trabalho pague menos a ela do que ao homem na mesma função. É a mulher que justifica o comportamento do parceiro porque "é melhor estar casada do que largada". Aquela que aceita a premissa de mulher deve ser "bela, recatada e do lar".

Outro filme: estou na farmácia, paro na frente dos preservativos e pergunto a minha filha se precisa comprar. A atendente da farmácia (que já nos atende há anos), emite um pequeno comentário: "Ainda bem que não preciso me preocupar com isso, tenho dois meninos." Quase engasgo e, não resistindo, respondo: "Você deveria se preocupar muito mais que eu, porque se minha filha engravida eu ganho um neto, mas se teu filho engravida uma moça, tu podes nem ficar sabendo de ter um neto."

Anos atrás, assisti a uma psicóloga falando sobre a diferença na criação dos filhos. Porque o menino é criado dizendo: "Isto é o seu pênis, com ele você vai mandar no mundo." E as meninas ouvem: "Você tem que cuidar pra não mostrar a calcinha, só para seu marido." E este padrão é repetido continuamente por mulheres!

Basta uma olhada nos comentários nas notícias de violência e é possível perceber como a própria mulher transforma a vítima em culpada: "também, com essa roupa..." , "como assim, no primeiro encontro?", "isso não é lugar pra mulher ir", etc... E daí você se depara com a realidade de que a mulher não apenas aceita o discurso machista mas o reproduz perpetuando a situação.

No mês da mulher, a Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC) está veiculando vários vídeos que abordam os diferentes tipos de violência e o papel da mulher. Vale a pena entrar no site e conferir o trabalho. E, por tudo isso, acredito que as políticas de enfrentamento a violência contra a mulher devem obrigatoriamente passar pela re-significação do papel da mulher na sociedade/vida/familia. Que as mulheres realmente se empoderem, e que sejam solidárias entre si.

Sonho com o momento em que não precisemos mais ter um DIA DA MULHER pra lembrar disso.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 06/03/2019 às 10h22 | cereshmrc@gmail.com

Só por hoje!

 

         Muitas vezes me pego questionando a necessidade que temos de postergar a vida. Começar a dieta na segunda feira, começar o ano depois do carnaval, entrar na academia no ano que vem, e por aí vai. Vivemos construindo castelos no ar através de planos para iniciar depois. Sempre depois. Depois da prova, depois do casamento, depois que os filhos crescerem, depois que aposentarmos... 

           Pode-se quase dizer que deixamos a vida em suspenso.  Com efeito, nós mesmos nos auto-castramos. Não nos consideramos merecedores do privilégio de viver hoje! Sabe aquele curso de teatro que sempre foi o sonho da sua vida fazer? Por que não hoje? Por que ter que esperar que as crianças cresçam para fazer aquela viagem de férias? Viajar com as crianças pequenas também te dará vivencias incríveis, e lembranças que ficarão na memória delas. 

           Não. Vivemos julgando os outros e nós mesmos, e condenando a cada dia. Meu vizinho está pintando a casa dele e mudando a fachada. Então agora vou ter que investir o dinheiro que estava guardando para aquele curso na pintura da minha casa também para não ficar feia. Ou, pior, como não tenho condições de pintar, vou ficar dentro de casa o máximo possível para que não me vejam e não precise falar sobre a minha.  

           Minha casa tem umas marcas com história: aquele pé de jabuticaba que ninguém pode pegar porque as frutas são das currequinhas. Um móbile de peixes de cerâmica (alguns já beliscados) que comprei num fim de semana em São Francisco do Sul, quando minha filha ainda era pequena. Um armário com os pés com marcas de quando a Prada (uma de nossas cachorrinhas) era pequena e roía os móveis para coçar os dentes. Uns quadrinhos artesanais da pré-escola da minha filha. Acho lindo casas decoradas por arquitetos, com tudo planejado e combinando. Mas acho muito mais vivo ter uma casa com história. Uma casa viva.

           Gosto de pensar que minha casa tem vida, que é feita de pequenas histórias que vou amealhando no decorrer dos dias. Cada tijolinho representa um instante em que vivi efetivamente. E, por sua vez,  cada instante de vida vivida tem o peso de anos, e serve de fundamento para as histórias que ainda virão, construidas com afeto e dedicação. Assim me tornei uma legitima acumuladora: aprendi a  colecionar momentos.

          Falando em casa, em vidas suspensas, hoje faz um mês que participo do Abraço a Vida. Posso dizer que cada dia aprendo mais um motivo para viver e para viver hoje. O passado já se foi, o futuro não chegou, eu só tenho de fato o HOJE. E todos os dias, quando acordo, repito o meu mantra: só por hoje eu vou viver.  E, a cada dia, minha coleção de momentos vai ficando mais colorida, porque também aprendi que as histórias que ajudo a escrever também me constroem. 

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 01/03/2019 às 12h44 | cereshmrc@gmail.com

É sobre EXISTIR (por Nívia Medeiros)

E é tomando conhecimento de mais um caso de ideação suicida, que me vejo ouvindo gritar silenciosamente e prestando atenção naquela fala adolescente, carregada de angústia e de falta de sentido de vida.

Ouço com atenção a resposta quando pergunto o por quê da vontade de morrer, e por vezes recebo respostas que giram em torno de situações, aparentemente resolutíveis: namoros que se acabaram ou que nem começaram pela não aceitação da outra parte, a nota baixa naquela matéria específica, a separação dos pais que fez desmoronar a qualidade de vida (e não apenas a material, mas a conformação familiar) tida até então, o bullyng  sofrido na escola ou muitas vezes na própria família, enfim, são tantas questões... porém, todas advindas de um lugar: o Não existir!

A dor sofrida por estes adolescentes vem de uma situação que o faz sentir-se não existente em seu mundo, seja em casa, na escola, na sociedade! A dor vem de uma intolerância à frustração, e naquele momento a única saída se encontra na corda, na sacada bem lá no alto do prédio, no veneno ou em outras formas que matariam aquela parte que dói. Digo matar aquela parte que dói, porque estes adolescentes estão realmente em sofrimento, e, por não suportar a dor do não existir, tentam de qualquer forma se livrar dela, mesmo que para isso paguem o preço altíssimo de abandonarem suas vidas! Matar a dor passa a ser o objetivo prioritário.

Os tantos relatos convergem sempre em um mesmo ponto: muitas vezes emitiram sinais de alerta através de mudanças em seus hábitos. Noites de insonia ou sono em demasia, falta de apetite ou fuga para doces (que por vezes são a possibilidade mágica de prazer imediato), auto agressões como cortes no próprio corpo ou fugas de casa, a reclusão ao quarto que inviabiliza o contato com a família, entre outras tantas mais... As "tentativas de existência" são muitas, mas nem sempre quem está ao redor consegue se aperceber delas e de seu significado, pois muitas vezes esses sintomas são confundidos com sintomas da própria adolescência! É preciso estar muito atento à qualquer mudança no padrão comportamental, principalmente nesse período de adolescência, onde as tantas mudanças físicas e hormonais nem sempre são comportadas por uma mente ainda em amadurecimento.

É possivel perceber, através dos relatos, a presença de mentes muito frágeis habitando corpos desproporcionalmente fortes. De onde vem essa fragilidade mental ainda é incerto, mas ao longo do diálogo, algumas pistas vão aparecendo e mostrando que a falta de frustração durante a infância, pode ter contribuído de forma  opulenta para a fragilidade psíquica. E ao prosseguir com a investigação, sem demora aparecem muitos “SIM” e quase inexistentes “NÃO” ao longo do desenvolvimento infantil e adolescente. São os NÃOs que os pais não conseguem dizer aos filhos, acreditando que estão fazendo o melhor por eles, que na verdade acabam por privá-los de aprender a suportar as frustações. São pequenas coisas, aparentemente insignificantes, como a permissividade de dormir no quarto dos pais por muito tempo (não confrontando aquela mente com seus medos e os privando de sentir capaz de derrotar o inimigo imaginário),  o brinquedo que veio sem motivo e muitas vezes sem desejo, pois não se significa mais as datas comemorativas, então para que esperar? O desejo é decapitado levando consigo a tolerância da espera, de contar os dias, os meses para receber o tão esperado “presente”!

E é também na falta de atividade dentro da própria estrutura familiar que se instala a sensação de inutilidade:  quando muitos pais acham que estão proporcionando uma boa qualidade de vida aos filhos, mas estão na verdade os privando de se sentirem úteis, quando não solicitam que arrumem uma mesa, por exemplo, ou lavem uma louça ou até mesmo arrumem suas camas. O adolescente vai se vendo inútil e inexistente, em um mundo que nós mesmos criamos, como todos os nossos sintomas. É louvável que se ofereça aos filhos a oportunidade de evitar algumas privações que tivemos, mas não podemos esquecer o papel que elas tiveram no crescimento individual de cada um.

Talvez a ressignificação da vida passe por aí, por entender que cada um desempenha um papel fundamental na estrutura familiar, e que este papel seja intransferível. O existir não se resume na pura existencia física do individuo, mas na sua atividade no meio em que está situado, em cada ato em que ele pode ser autor de sua própria historia, pode ser visto diante das suas escolhas e tambem reconhecido por elas.

Nestes tempos modernos em que claramente existimos atraves das redes sociais por exemplo, é urgente que voltemos a constatar que a verdadeira existencia se dá no campo do Real, nos momentos face a face, cuja significação perpassa pela escuta de um Ser que tem a necessidade de ser visto e ouvido!

por Nívia Medeiros

Psicóloga Clínica 

psiconivia@hotmail.com

Escrito por Céres Fabiana Felski, 26/02/2019 às 11h27 | cereshmrc@gmail.com



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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Mais um assassinato.

 

 

           Eu queria ter escrito antes mas não consegui. A dor foi tão forte que ainda tenho dificuldade em lidar com a situação, na verdade, choro enquanto escrevo. Ler, na capa do jornal, que os moradores de rua que ficavam sob uma marquise foram retirados do local e o seu cachorro (com as vacinas em dia, superbem tratado) foi encaminhado para o abrigo animal  me apunhalou a alma. Há um bom tempo fazemos um trabalho com eles, conversando, levando apoio. Cansei de parar lá, sozinha, as vezes a noite, para conversar com eles e NUNCA me senti agredida ou em perigo. Pelo contrário, sempre recebemos um sorriso e um aceno ao passar de carro pelo local.

              Tenho medo, confesso, dessas pessoas sentadas em seus gabinetes com um alvará concedido pelo voto popular e que se julgam acima de todos e até da própria constituição. Sim, porque onde fica o direito de ir e vir? Existem pessoas mal intencionadas morando nas ruas? Sim, existem. Mas a grande maioria dos criminosos mora em casas (ou em condomínios fechados, apartamentos de alto luxo, etc...). 
                Mas parece que agora impera o regime segregatório. Vamos banir as pessoas que são “diferentes” para longe dos olhos. Tudo o que nos faz mal ver, vamos esconder, combinado? Com certeza é mais fácil banir da visão os moradores de rua, os deficientes (e esqueçam aquele discurso lindo de inclusão, agora eles não podem mais frequentar ambientes de pessoas “normais”), do que ter que lidar diariamente com a responsabilidade do Estado perante eles. Sem dúvida é melhor esconder debaixo do tapete. Assim as visitas (turistas) pensam que somos evoluídos. Pensam que somos bons. 
               E, neste patamar de coisas, torna-se certo (ou “legal”) retirar os filhos de uma família de ciganos porque estão nas ruas, mesmo que estejam com os pais, no estilo de vida cigano (nômade por natureza). Talvez falte a estas pessoas dos gabinetes um conhecimento básico de história, de costumes. Ou apenas falte respeito mesmo. Bom senso. Humanidade. 
            Tenho muito medo do rumo que as coisas estão tomando. Este é um daqueles momentos em que me questiono o sentido da vida. E que, tristemente, compreendo porque tantos tem desistido dela. Há 04 dias estou de luto. Mais uma vez assassinaram os direitos humanos e ninguém fez nada para evitar.
Escrito por Céres Fabiana Felski, 13/04/2019 às 14h49 | cereshmrc@gmail.com

Sobre feminicidios...

Há mais de 20 anos eu morava em Joinville, no último andar de um edificio próximo ao centro da cidade. Uma noite eu acordei no meio da madrugada com gritos, fui até o banheiro e percebi que vinham do apartamento ao lado, onde morava um casal jovem com o filho recém-nascido. Interfonei para a síndica, e, em menos de 15 minutos TODAS as mulheres do prédio estavam no corredor. Tocamos a campainha e o marido ficou branco quando viu aquele monte de mulher na porta exigindo ver e falar com a esposa dele. Não houve mais gritos. Em poucos dias eles se mudaram do prédio e ela procurou a síndica para agradecer a intervenção e dizer que, ao ver que não estava só, encontrou força para por fim a uma relação abusiva.

Sempre que acontece um novo caso de feminicidio (e infelizmente cada vez acontece mais), os relatos incluem várias brigas e agressões presenciadas/ouvidas/constatadas por vizinhos, amigos, até parentes. E sempre as pessoas comentam, mas não interferem. A velha máxima de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” continua dominando.

Sou mulher, sou mãe de mulher, tenho irmãs mulheres. Vivo com este peso: o medo de que uma de nós seja agredida um dia e que NINGUÉM ajude. Que ninguém ouça nossos gritos, ou que, ouvindo, prefira não se meter. Ou até, numa versão mais moderna e repulsiva, fique a postos para fazer uma transmissão ao vivo nas redes sociais ou para ser o primeiro a postar as fotos.

Assusta ver que cada vez mais mulheres são mortas com requintes de crueldade pelos parceiros em quem elas um dia confiaram, a quem elas amaram. E que, do seu jeito, as tenham amado também. Mas me apavora muito mais a morbidez e frieza dos que veem e nada fazem. E nada dizem.

Acho que vale recordar também que, perante a lei, quem tem conhecimento de um crime e se cala passa a ser cúmplice. E que todos tem uma mãe/irmã/filha/sobrinha/prima. Por cada mulher que amamos, por cada uma de nós, eu suplico: NÃO SE CALEM MAIS.  

Escrito por Céres Fabiana Felski, 03/04/2019 às 09h00 | cereshmrc@gmail.com

Obrigada, Mafê Probst!

               

                Uma das coisas legais de escrever é que a gente presta muito mais atenção a tudo o que lê. E não apenas isso, não apenas ler: a gente tenta entender o que o outro escreveu. Coisas que parecem ter um sentido para quem lê, e que no entanto quem escreveu pensou em algo totalmente diferente. Acontece bastante isso comigo, escrevo uma coisa e vem alguém comentar  o que sentiu lendo, e era algo muitas vezes que eu nem imaginava. Confesso que essa perspectiva me deixou bem mais atenta ao escrever, mais preocupada com o que pode ser interpretado.

Tem  escritores que chegam a usar um “fotoshop” do texto para que ele fique como o leitor espera. Tipo aquela coisa de escrever por encomenda: textinho pro dia do professor, pro aniversário da amiga, etc. Uma literatura basicamente comercial, digamos. Tem seu valor, não nego, mas não creio que reflita a alma de quem escreveu.

Eu sou consumidora fiel de escritores viscerais. Tenho verdadeira paixão por textos que tenham sido forjados no calor da emoção e que não raro venham tingidos de sangue e lágrimas. Textos que tenham passado por uma gestação e tenham sido paridos com o amor que parimos os filhos.

Hoje li um texto destes. Não aguentei. Na mesma hora mandei uma mensagem pra autora, minha parceira-amiga-madrinha literária, a Mafê Probst. Sangrei lendo cada palavra. Aplaudi. Se eu já a admirava, hoje agradeço a ela por ter, com este texto, nos permitido ser imperfeitos. Eu que me julgava escritora fiquei sem palavras. Obrigada, Mafê.

 

"Desde pequena eu sabia que tinha uma perda auditiva leve e isso nunca me incomodou, tampouco atrapalhou. Fazia acompanhamentos periódicos e sempre esteve tudo bem. Até que eu parei de acompanhar, sabe? Sei lá, não via sentido.

.

Ano passado, minha mãe pediu, encarecidamente, que eu voltasse na otorrino para verificar minha audição. Bufei, revirei os olhos, mas fui. O que a mãe não pede sorrindo que eu não faço? Marquei horário, fiz audiometria e, bom, a coisa não estava tão "tudo bem" assim.

.

O diagnóstico caiu como uma bomba no meu colo. Eu deixava de ter 'só uma perda auditiva' para me enquadrar como deficiente auditiva unilateral e, diante de tal quadro, fez-se necessário o uso de aparelhos auditivos.

.

Não consigo mensurar pra vocês o tanto que chorei aquele dia, aquela noite, aquela semana. Foram seis dias até que eu fizesse o teste no aparelho (igual ao da foto, que postei anterior) e, bem, me vi maravilhada. Eu não fazia ideia que eu escutava tão mal e tão pouco, sabe?

.

Coloquei os aparelhos em setembro. Fiz testes até dezembro, quando consegui um empréstimo para comprá-los. Eu ainda tinha vergonha de falar abertamente para as pessoas, eu escondia o aparelho entre os cabelos, eu corava quando me perguntavam "o que é isso?".

.

Agora não. Faz parte de mim, sabe? É um detalhe tão bobo e tão meu. Me abriu um mundo de possibilidades, descobri sons que eram inaudíveis para mim. O piar dos passarinhos que é mais alto do que eu supunha, a chave que bate, irritantemente, enquanto dirijo e a educação que volta, porque antes eu não ouvia quando as pessoas falavam comigo — era tachada de distraída e mal educada, mas na verdade era só surdinha mesmo.

.

Abracei minha condição. Sou completa diante da imperfeição e, felizmente, tenho meios para contornar. Agora tudo é música— até me acostumar. E tomara que eu jamais me acostume e fique sempre fazendo dança com cada som novo que aparece aos meus ouvidos..."

 

#relatosdamafê #MafêProbst  #deficienciaauditiva #dau #widex

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 22/03/2019 às 21h02 | cereshmrc@gmail.com

Vai ter Dia da Mulher, sim!

Na semana passada, ao participar da reunião sobre a construção das Políticas Públicas voltadas à Mulher, vários filmes passaram na minha cabeça. Lembrei de uma situação em que a esposa de um paciente veio me comunicar o óbito dele. Casados há mais de 50 anos, enquanto soluçava ela me dizia: "Um homem tão bom, nunca ergueu a mão pra mim...". Essa história faz anos que aconteceu, mas ficou gravada na minha cabeça e no meu coração: como uma pessoa pode ver como vantagem, como adjetivo, não ser agredida por seu parceiro?

Isto me remete também a situação tão discutida na psicanálise, na qual o agressor só existe porque alguém aceita fazer o papel da vítima. Por isso, combater a violência contra a mulher é muito mais complexo do que prender/punir/castrar o agressor. É preciso que a mulher se re-signifique, porque senão ela vai continuar sendo vítima em outras situações. Com efeito, esta mulher não é vítima só no relacionamento conjugal. O padrão de comportamento não está restrito às dimensões físicas da casa. É a mulher que aceita que o mercado de trabalho pague menos a ela do que ao homem na mesma função. É a mulher que justifica o comportamento do parceiro porque "é melhor estar casada do que largada". Aquela que aceita a premissa de mulher deve ser "bela, recatada e do lar".

Outro filme: estou na farmácia, paro na frente dos preservativos e pergunto a minha filha se precisa comprar. A atendente da farmácia (que já nos atende há anos), emite um pequeno comentário: "Ainda bem que não preciso me preocupar com isso, tenho dois meninos." Quase engasgo e, não resistindo, respondo: "Você deveria se preocupar muito mais que eu, porque se minha filha engravida eu ganho um neto, mas se teu filho engravida uma moça, tu podes nem ficar sabendo de ter um neto."

Anos atrás, assisti a uma psicóloga falando sobre a diferença na criação dos filhos. Porque o menino é criado dizendo: "Isto é o seu pênis, com ele você vai mandar no mundo." E as meninas ouvem: "Você tem que cuidar pra não mostrar a calcinha, só para seu marido." E este padrão é repetido continuamente por mulheres!

Basta uma olhada nos comentários nas notícias de violência e é possível perceber como a própria mulher transforma a vítima em culpada: "também, com essa roupa..." , "como assim, no primeiro encontro?", "isso não é lugar pra mulher ir", etc... E daí você se depara com a realidade de que a mulher não apenas aceita o discurso machista mas o reproduz perpetuando a situação.

No mês da mulher, a Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC) está veiculando vários vídeos que abordam os diferentes tipos de violência e o papel da mulher. Vale a pena entrar no site e conferir o trabalho. E, por tudo isso, acredito que as políticas de enfrentamento a violência contra a mulher devem obrigatoriamente passar pela re-significação do papel da mulher na sociedade/vida/familia. Que as mulheres realmente se empoderem, e que sejam solidárias entre si.

Sonho com o momento em que não precisemos mais ter um DIA DA MULHER pra lembrar disso.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 06/03/2019 às 10h22 | cereshmrc@gmail.com

Só por hoje!

 

         Muitas vezes me pego questionando a necessidade que temos de postergar a vida. Começar a dieta na segunda feira, começar o ano depois do carnaval, entrar na academia no ano que vem, e por aí vai. Vivemos construindo castelos no ar através de planos para iniciar depois. Sempre depois. Depois da prova, depois do casamento, depois que os filhos crescerem, depois que aposentarmos... 

           Pode-se quase dizer que deixamos a vida em suspenso.  Com efeito, nós mesmos nos auto-castramos. Não nos consideramos merecedores do privilégio de viver hoje! Sabe aquele curso de teatro que sempre foi o sonho da sua vida fazer? Por que não hoje? Por que ter que esperar que as crianças cresçam para fazer aquela viagem de férias? Viajar com as crianças pequenas também te dará vivencias incríveis, e lembranças que ficarão na memória delas. 

           Não. Vivemos julgando os outros e nós mesmos, e condenando a cada dia. Meu vizinho está pintando a casa dele e mudando a fachada. Então agora vou ter que investir o dinheiro que estava guardando para aquele curso na pintura da minha casa também para não ficar feia. Ou, pior, como não tenho condições de pintar, vou ficar dentro de casa o máximo possível para que não me vejam e não precise falar sobre a minha.  

           Minha casa tem umas marcas com história: aquele pé de jabuticaba que ninguém pode pegar porque as frutas são das currequinhas. Um móbile de peixes de cerâmica (alguns já beliscados) que comprei num fim de semana em São Francisco do Sul, quando minha filha ainda era pequena. Um armário com os pés com marcas de quando a Prada (uma de nossas cachorrinhas) era pequena e roía os móveis para coçar os dentes. Uns quadrinhos artesanais da pré-escola da minha filha. Acho lindo casas decoradas por arquitetos, com tudo planejado e combinando. Mas acho muito mais vivo ter uma casa com história. Uma casa viva.

           Gosto de pensar que minha casa tem vida, que é feita de pequenas histórias que vou amealhando no decorrer dos dias. Cada tijolinho representa um instante em que vivi efetivamente. E, por sua vez,  cada instante de vida vivida tem o peso de anos, e serve de fundamento para as histórias que ainda virão, construidas com afeto e dedicação. Assim me tornei uma legitima acumuladora: aprendi a  colecionar momentos.

          Falando em casa, em vidas suspensas, hoje faz um mês que participo do Abraço a Vida. Posso dizer que cada dia aprendo mais um motivo para viver e para viver hoje. O passado já se foi, o futuro não chegou, eu só tenho de fato o HOJE. E todos os dias, quando acordo, repito o meu mantra: só por hoje eu vou viver.  E, a cada dia, minha coleção de momentos vai ficando mais colorida, porque também aprendi que as histórias que ajudo a escrever também me constroem. 

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 01/03/2019 às 12h44 | cereshmrc@gmail.com

É sobre EXISTIR (por Nívia Medeiros)

E é tomando conhecimento de mais um caso de ideação suicida, que me vejo ouvindo gritar silenciosamente e prestando atenção naquela fala adolescente, carregada de angústia e de falta de sentido de vida.

Ouço com atenção a resposta quando pergunto o por quê da vontade de morrer, e por vezes recebo respostas que giram em torno de situações, aparentemente resolutíveis: namoros que se acabaram ou que nem começaram pela não aceitação da outra parte, a nota baixa naquela matéria específica, a separação dos pais que fez desmoronar a qualidade de vida (e não apenas a material, mas a conformação familiar) tida até então, o bullyng  sofrido na escola ou muitas vezes na própria família, enfim, são tantas questões... porém, todas advindas de um lugar: o Não existir!

A dor sofrida por estes adolescentes vem de uma situação que o faz sentir-se não existente em seu mundo, seja em casa, na escola, na sociedade! A dor vem de uma intolerância à frustração, e naquele momento a única saída se encontra na corda, na sacada bem lá no alto do prédio, no veneno ou em outras formas que matariam aquela parte que dói. Digo matar aquela parte que dói, porque estes adolescentes estão realmente em sofrimento, e, por não suportar a dor do não existir, tentam de qualquer forma se livrar dela, mesmo que para isso paguem o preço altíssimo de abandonarem suas vidas! Matar a dor passa a ser o objetivo prioritário.

Os tantos relatos convergem sempre em um mesmo ponto: muitas vezes emitiram sinais de alerta através de mudanças em seus hábitos. Noites de insonia ou sono em demasia, falta de apetite ou fuga para doces (que por vezes são a possibilidade mágica de prazer imediato), auto agressões como cortes no próprio corpo ou fugas de casa, a reclusão ao quarto que inviabiliza o contato com a família, entre outras tantas mais... As "tentativas de existência" são muitas, mas nem sempre quem está ao redor consegue se aperceber delas e de seu significado, pois muitas vezes esses sintomas são confundidos com sintomas da própria adolescência! É preciso estar muito atento à qualquer mudança no padrão comportamental, principalmente nesse período de adolescência, onde as tantas mudanças físicas e hormonais nem sempre são comportadas por uma mente ainda em amadurecimento.

É possivel perceber, através dos relatos, a presença de mentes muito frágeis habitando corpos desproporcionalmente fortes. De onde vem essa fragilidade mental ainda é incerto, mas ao longo do diálogo, algumas pistas vão aparecendo e mostrando que a falta de frustração durante a infância, pode ter contribuído de forma  opulenta para a fragilidade psíquica. E ao prosseguir com a investigação, sem demora aparecem muitos “SIM” e quase inexistentes “NÃO” ao longo do desenvolvimento infantil e adolescente. São os NÃOs que os pais não conseguem dizer aos filhos, acreditando que estão fazendo o melhor por eles, que na verdade acabam por privá-los de aprender a suportar as frustações. São pequenas coisas, aparentemente insignificantes, como a permissividade de dormir no quarto dos pais por muito tempo (não confrontando aquela mente com seus medos e os privando de sentir capaz de derrotar o inimigo imaginário),  o brinquedo que veio sem motivo e muitas vezes sem desejo, pois não se significa mais as datas comemorativas, então para que esperar? O desejo é decapitado levando consigo a tolerância da espera, de contar os dias, os meses para receber o tão esperado “presente”!

E é também na falta de atividade dentro da própria estrutura familiar que se instala a sensação de inutilidade:  quando muitos pais acham que estão proporcionando uma boa qualidade de vida aos filhos, mas estão na verdade os privando de se sentirem úteis, quando não solicitam que arrumem uma mesa, por exemplo, ou lavem uma louça ou até mesmo arrumem suas camas. O adolescente vai se vendo inútil e inexistente, em um mundo que nós mesmos criamos, como todos os nossos sintomas. É louvável que se ofereça aos filhos a oportunidade de evitar algumas privações que tivemos, mas não podemos esquecer o papel que elas tiveram no crescimento individual de cada um.

Talvez a ressignificação da vida passe por aí, por entender que cada um desempenha um papel fundamental na estrutura familiar, e que este papel seja intransferível. O existir não se resume na pura existencia física do individuo, mas na sua atividade no meio em que está situado, em cada ato em que ele pode ser autor de sua própria historia, pode ser visto diante das suas escolhas e tambem reconhecido por elas.

Nestes tempos modernos em que claramente existimos atraves das redes sociais por exemplo, é urgente que voltemos a constatar que a verdadeira existencia se dá no campo do Real, nos momentos face a face, cuja significação perpassa pela escuta de um Ser que tem a necessidade de ser visto e ouvido!

por Nívia Medeiros

Psicóloga Clínica 

psiconivia@hotmail.com

Escrito por Céres Fabiana Felski, 26/02/2019 às 11h27 | cereshmrc@gmail.com



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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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