Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Gente de verdade

             

               Eu queria pedir a você apenas um favor: fecha teus olhos e fica em silêncio um minutinho. Só um minuto, nada mais. Acho que este é o tempo suficiente pra você ouvir. E daí, talvez você entenda do que a gente tem falado,  tudo que o mundo está passando, tudo o que a gente tem calado... A gente vive num barulho ensurdecedor. É uma barulheira lá fora, um caos dentro da mente... os pensamentos se atropelam freneticamente e a gente acaba assim. Surdo.

Quanto tempo faz que você não ouve o seu coração? Olha que ele tem pedido socorro várias vezes... Você bem sabe como ele tem sofrido ultimamente. Apanha de todo jeito: volta e meia uma palavra atirada acerta bem naquele pontinho doloroso. Mas você finge que não ouviu. Você cala. Você está ficando mestre nesta arte de disfarçar, né? Eu até posso concordar com você que é mais fácil assim, fazendo de conta que não percebeu. Mas as feridas vão ficando, viu? E, de repente, quando você percebe, já não tem dor porque não tem mais sentimento... Já não dói mais nem fora, nem dentro... 

Faz tempo, né? Lembra da última vez que você ouviu seu irmão? Não, né... sei, a gente anda bem egoísta ultimamente. A gente só pensa em ser feliz, em ser melhor, em ser mais. Mais tudo. Menos humano. Porque gente de verdade também tem momentos de fraqueza, tem momentos de depressão, e até momentos de raiva. Gente de verdade as vezes bate, as vezes apanha, e noutras, corre junto.

Lembra quando você era bem criança e corria junto com os amiguinhos de mãos dadas? Gente de verdade é assim. Tem hora que se abraça e corre juntinho. Rindo. Dando gargalhada. Porque gente de verdade sabe que a vida é passageira, que num minuto estamos aqui e no outro fomos embora. Viramos apenas lembrança. E gente de verdade quer ser lembrança boa na vida dos outros. Gente de verdade quer levar lembranças boas da vida...

Porque no final, tudo se resume a isso: ao que você pode carregar com você. Ao que ninguém pode te roubar. Então, por isso te peço apenas este favor: fecha teus olhos e escuta teu coração. E escolhe fazer o que ele te mandar. Porque o mundo precisa disso: de gente de verdade.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 18/11/2017 às 11h51 | cereshmrc@gmail.com

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No espelho do tempo

Tem dias que a gente não se reconhece no espelho. E, a medida que o tempo passa, parece que isso fica cada vez mais frequente. Deve ser por isso que faz tempo que evito o espelho. Sempre critiquei as pessoas que conversavam sem olhar nos olhos, e agora me vejo fazendo o mesmo: não consigo fitar meus próprios olhos no espelho. Nas últimas vezes em que o fiz, encontrei um olhar cansado, mas, mais que isso, um olhar acusador. Sim, meu próprio olhar me acusa. Lembro que na primeira vez que isso aconteceu eu tentei disfarçar, fingir que não era comigo… procurei focar numa nova ruga no canto da pálpebra, num fio de cabelo branco… Depois disso, passei a me encarar com uma certa desconfiança, um temor, e até mesmo um respeito. Encarar é modo de dizer, na verdade, procurei mudar a perspectiva e cheguei mesmo a culpar meus óculos, que talvez já tivessem que ser trocados. As luzes auxiliares já não são mais acendidas, de forma que a suave penumbra que me sombreia a face me impeça de viver este momento constrangedor.

A louca do espelho me acusa. Sem a menor piedade, ela me despe das armaduras da reserva e da maquiagem, e escancara o resultado do tempo e do que ele fez comigo. Ele? … sorrio amargamente… a louca não me culpa pelo tempo. Ela apenas comanda o desfile implacável dos sonhos atropelados pela rotina a que nos obrigamos. A louca despe-me. E me obriga a ver o que não quero. Os sorrisos forçados, as lágrimas represadas, as verdades engolidas. Tudo isto sufoca-me, asfixia. E a louca ri-se de mim!

Através de uma pequena fresta, vejo o sol. Vejo a criança que fui, a inocência passeia serenamente de braços dados com a alegria. Calo. Não há o que dizer. Não há o que fazer agora. Apenas conviver com a realidade fria do que fiz comigo. Sob a penumbra, fragmentos de sonhos abandonados agonizam silenciosamente, enquanto o tempo, este algoz, ri-se desavergonhadamente.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 03/11/2017 às 15h13 | cereshmrc@gmail.com

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Quem matou a nossa infância?

Quando um adolescente atira nos colegas como ocorreu na semana passada, prontamente a explicação dada foi que ele sofria bulling. O agressor passou a ser vítima e uma das vítimas passou a ser agressor. Mas será que são estes mesmo os papéis? É muito fácil julgar, condenar, rotular.

Numa pesquisa rápida no Google sobre o tema, aparecem milhares de resultados. E, a um olhar mais atento, é possível perceber que estes números vem aumentando perigosamente. Claro que hoje a informação é praticamente instantânea, e sempre tem alguém filmando e divulgando imediatamente os fatos, o que poderia, teoricamente, responder pelo aumento de casos. Mas a verdade é que nossas crianças mudaram. Ou será que fomos nós que mudamos?

Lembro que quando eu era criança tive vários apelidos, porque era magra demais, baixinha, etc. Na minha turma de escola tinha o "quatro olhos", o "pintor de rodapé", o "salva vidas de aquário", etc. Havia brigas entre nós, mas nada sério demais. Até porque todas as brigas acabavam quando batia o sino do final da aula e a gente sabia que só enfrentaria o "inimigo" novamente no dia seguinte. Lembro inclusive de uma vez que a minha turma recebeu uma suspensão de um dia, e quando cheguei em casa a minha mãe me botou de castigo por isso. Talvez eu esteja velha demais, mas naquela época a gente respeitava professor, policial, padre, médico... Ensinavam pra gente a respeitar os mais velhos, a ficar quieto na igreja, a usar as "palavrinhas mágicas". 

Hoje o que vemos são crianças que são criadas por terceiros porque os pais não tem tempo para isso. Não tem tempo porque tem que trabalhar pra trocar o carro, pra pagar a escola particular, o plano de saúde, essas coisas. E, diante de tudo isso, a função de educar acaba sendo delegada a escola. Por outro lado, como estes pais ficam pouco tempo com seus filhos, não querem também entrar em conflito e retiram da escola a autoridade assim que algo os desagrade.

Se educar é função da família e a escola cabe ensinar, faz parte do papel da sociedade também fiscalizar para que não haja desvios. Isto porque educar é muito mais complexo, exige vivência, exemplo. Não adianta dizer que roubar é feio e ficar com o troco excedente do mercado... Não adianta fazer os filhos irem a igreja, fazer comunhão, etc e fingir que não vê quando alguém pede um prato de comida, ou jogar o carro em cima do motorista da frente pra ele mudar de pista. 

E daí, a criança que vive este dia a dia vê nas redes sociais as típicas famílias de comercial de margarina: todo mundo lindo e feliz, num lar perfeito. Bem, este lar perfeito não está ao alcance dela, mas ela pode ser famosa. Como? Me diga ai quem é o prêmio nobel da paz. Mas todo mundo sabe o nome dos serial killers. O próprio adolescente atirador do inicio do texto refere que se inspirou em outros massacres provocados por outros adolescentes. Por que não estamos enxergando o que está acontecendo com nossas crianças? Por que ninguém está ouvindo seus gritos de socorro? Quanto mais elas terão que gritar para que ouçamos?

Quando a sociedade se esvazia de valores, a infância se perde. Que esta reflexão nos leve a mudar, porque nossas crianças merecem um mundo melhor e real, onde elas possam ser crianças de novo. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 24/10/2017 às 11h14 | cereshmrc@gmail.com

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Chega de rótulos!

Como hoje estou sem voz, com a garganta doendo, tenho lido e pensado muito. No fim de semana encontrei a esposa de um primo que foi me apresentar pra uma outra pessoa e disse: “Essa aqui também é do movimento feminista.”. A outra me olhou cheia de orgulho e eu acabei com a alegria dizendo que não sou feminista. Sou a favor de direitos humanos. De direitos animais. Sou a favor de direitos. E de deveres. Ponto.

Não entendo porque as pessoas tem esta necessidade absurda de rotular os outros. Você é oposição, eu sou governo. Ela é gorda, ele é magro. Ela é negra, ele é loiro. Ela é pobre, a outra é rica. Desculpa ai, mas esses rótulos são definidos com base em que conceito? Onde estão os parâmetros? É normatizado via ABNT?

Tentei então aproveitar pra tentar classificar meus amigos: tenho quantos amigos negros? Quantos brancos? Quantos gays? Quantos bonitos? Quantos homens? Quantos mulheres? E daí vi que não tinha como fazer as contas também porque não sei qual o parâmetro que deveria utilizar... Eu me considero gorda, mas muitos me consideram magra. Eu me considero feia, mas depende do dia, tem dia que me sinto top model. Eu ainda não sei se sou branca ou negra. Afinal, nesta terra tupiniquim, quem pode declarar sem medo que não tem qualquer mistura racial?

Além disso, as vezes esse excesso de mimimi faz com que eu me sinta homem: dizem que mulher é que gosta de complicar tudo. Viu? É rótulo demais... é “achismo” em excesso... é overdose de julgamento.

Que diferença faz na minha vida se você me acha gorda ou magra? Branca ou negra? Gay ou hetero? A minha felicidade está em mim, eu somente sou responsável pelas minhas atitudes, e somente por elas eu posso responder. Se você não está feliz com o que vê, com o que ouve, com as pessoas, isso diz unicamente respeito a você. Não podemos basear nossas atitudes com base nas das outras pessoas. Não podemos viver na base do “olho por olho, dente por dente”.

Tudo bem, eu concordo. Não tem como amar todo mundo. Mas a gente pode começar a mudar de atitude simplesmente não odiando. Não julgando. Não fazendo aos outros o que não desejamos para nós. E não venha me dizer que a atitude de uma pessoa sozinha não vai mudar o mundo. Lembre-se do cupim. Basta um desses pequenos insetos trabalhando incansavelmente em silêncio para derrubar uma casa.

Ótima semana, meus queridos!

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 17/10/2017 às 14h50 | cereshmrc@gmail.com

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Um sentimento chamado Gratidão

               

              Na semana passada, através do amigo Hang Ferrero, recebi o convite para ser jurada no Concurso de Poesia da Educação Infantil “Ser Criança: em prosa e versos”, promovido pela Secretaria de Educação de Itajaí. Devo confessar que o primeiro sentimento que me veio ao peito foi de alegria. Sim, porque não deixa de ser uma forma de reconhecimento de um trabalho de anos. De anos? Sim, e daí veio o segundo sentimento: Saudade.

Sentar numa sala, com vários poemas para ler, remeteu-me imediatamente ao início dos anos 80, precisamente a 1981, quando ganhei o primeiro concurso de poesia, na Escola Básica Dom Afonso Niehues, em Cordeiros (hoje colégio). Lembrar deste primeiro concurso fez-me voltar ainda mais no tempo, sentada na sala de aula do Colégio São José, na quinta série. Embora talvez seja bem difícil de acreditar, eu era uma criança tímida. Ficava ruborizada a toa, e talvez por isso comecei a expressar meus sentimentos através da poesia.

Escrevia, escrevia, e não mostrava. Um dia, uma professora de português, a Laureci Peixer, chamou-me para conversar. Após elogiar minhas redações, ela acabou por me convencer a mostrar mais do que escrevia, e passou naquele momento a ser minha “mentora”. De criança medrosa, tímida, fui aos poucos me transformando numa pessoa mais segura, mais desinibida. Por fim, acabei por ser a oradora oficial em vários momentos.

Saudosismo? Sim. Inevitável revisitar memórias neste momento. Talvez ela não saiba, mas mudou minha vida de tal forma que, mesmo depois de quase 40 anos, seu nome está gravado na minha história. Sempre que me perguntam sobre o início, lembro dela, e faço uma anotação mental de agradecimento.

No fim da semana, a notícia trágica do incêndio numa creche em Minas Gerais novamente mexeu nos meus sentimentos. Sendo mineira de nascimento, sendo mãe, meu coração sofreu junto. E a história da professora Heley chamou-me a atenção. De forma literal, uma professora muda o destino. E de várias crianças. Infelizmente se tornou uma das vítimas, mas nunca será esquecida por vários alunos.

Nesta segunda feira, teremos a divulgação do resultado do concurso, juntamente com o início da comemoração do dia das crianças e dos professores. Estarei lá novamente, ao lado do amigo, colega de profissão e de amores (a saúde e a cultura), Hang, e da minha afilhada literária, Luísa (que dia 09/11 estará lançando seu primeiro livro, aos 08 anos de idade). Talvez para algumas pessoas seja apenas um concurso. Pra mim é um mergulho na minha história, no balanço frouxo e desordenado de muitas emoções. Mais que isso, ouso dizer que uma forma de agradecer. Agradecer a criança que fui, e aos professores que me tornaram o que sou.

Saudade neste caso pode ser traduzida como Gratidão. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 08/10/2017 às 21h45 | cereshmrc@gmail.com

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Sobre fé e crimes

Não consigo me conter. Preciso falar de novo, gritar pra ver se alguém ouve. Até quando teremos crimes cometidos pela fé? Não consigo entender. Juro. Que Deus é esse (seja ele muçulmano, católico, evangélico, umbandista, o que for) que exige sacrifícios humanos? Que Deus é esse que precisa humilhar, subjugar? 

Há uma necessidade absurda de se ter razão. Notem que as verdades absolutas individuais não precisam apenas ser aceitas pelo indivíduo, mas reconhecidas pela sociedade como um todo para que estejamos satisfeitos. Ou seja, precisamos impor a nossa opinião. Não conseguimos mais respeitar o espaço do outro, a opção do outro. E ainda alguns utilizam o famoso "livre arbítrio" para justificar suas acusações. Ora, se eu posso usar o livre arbítrio para me expressar, por que o outro não pode? Ou, se o outro tem o livre arbítrio para decidir pecar (segundo as minhas convicções), por que eu não uso o mesmo livre arbítrio para não julgar? Por que, em nome de Deus, podendo amar, estamos escolhendo não apenas odiar, mas disseminar o ódio?

Sou obrigada a encerrar esta conversa com a letra da música escrita por Ricardo Arjona e que resume tudo:

"Jesus é Verbo, não substantivo
 
Jesus é mais que uma simples e uma humana teoria,
o que faz meu irmão lendo a Bíblia todo dia?
se o que está escrito se resume em amor, é melhor traduzir assim:
Jesus meus irmãos é verbo não substantivo.
Jesus é mais que um templo de luxo com tendência barroca,
ele sabe que a riqueza da alma é o maior dos tesouros
se você quer saber a verdade procure a resposta no seu dia-dia
Jesus meus irmãos é verbo não substantivo.
Jesus é mais que um grupo de senhoras de pesada consciência
que querem ir para o céu pagando penitências,
falando da vida alheia, ditando o que é certo, fazendo intrigas
Jesus meus irmãos é verbo não substantivo.
Jesus merece bem mais que palavras bonitas
ele sabe de tudo o que existe por detras das cortinas.
Jesus é mais que uma imagem no altar pra salvar os pecados:
Jesus meus irmãos é verbo não substantivo.
Jesus transformará em atos todos os sermões,
ele sabe que o inferno esta cheio de boas intenções,
ele sabe das armas que matam, que cravam espinhos em nome da rosa:
Jesus meus irmãos é verbo não substantivo.
Jesus não entende porque os poderosos lhe aplaudem,
não sabe porque a esperança é amiga da fraude,
será que Jesus bate palma pra quem fica rico explorando a fé?
Jesus meus irmãos é verbo não substantivo.
Senhores, não dividam a fé, as fronteiras são para os países.
Neste mundo há mais religiões que meninos felizes.
Jesus se torne mais visivel
e deixe que os cegos lhe toquem as mãos, 
Jesus meus irmãos é verbo não substantivo.
Jesus não me sinto vestido com o amor que te professo,
eu tenho a consciência tranquila por isso não me confesso.
Rezando 2 padres nossos um assassino não revive seus mortos,
Jesus meus irmãos é verbo não substantivo.
Jesus não desça ainda na Terra, fique no paraíso
porque todos que pensaram como tu não acharam saída,
tentaram mudar esse mundo mas foram vencidos pelos leões
morreram com sorrisos nos lábios porque foram VERBO não SUBSTANTIVO."
Escrito por Céres Fabiana Felski, 03/10/2017 às 10h52 | cereshmrc@gmail.com

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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)
















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