Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Vamos falar de saudade?

                   Hoje, eu estava vindo para o trabalho, passando na avenida das Flores, e ouvindo rádio como faço todos os dias. Normalmente, utilizo o trajeto casa-trabalho para organizar meu dia, checar as pendências e definir as prioridades. O rádio fica ligado mas nem sei em que estação está sintonizado, e só presto atenção as vezes, quando alguma noticia referente ao trabalho é mencionada (isso se eu não estiver totalmente concentrada em meus pensamentos e conseguir captar). No trajeto trabalho-casa, a situação é bem diferente: utilizo os primeiros 2 a 3 km fazendo um check list mental das atividades do dia, e o restante do tempo "desvisto" a médica, e, com o rádio alto, canto pra relaxar e chegar em casa mais leve.

                   Acho que adquiri este hábito quando fazia plantão em uti (unidade de terapia intensiva), em que saía do plantão emocionalmente exausta. Sim, médico sofre, viu? A gente põe uma máscara de profissionalismo quando fala com os familiares, e a gente quase se convence de que sabe separar as coisas. Mas não é bem assim. Muitas vezes, a equipe chora em silêncio quando perde um paciente. Muitas vezes alguém da equipe se emociona ao ver alguma história, até se identificando com alguma situação.

 

E, pode parecer história de rede social, mas eu já atendi um familiar meu em parada cardíaca. Isso aconteceu há muito tempo, durante o transporte entre clínica e hospital.  No primeiro segundo, eu gritei: "Tio"! mas em seguida a médica surgiu, tomou conta da situação e reanimou o paciente, entregando ele estável ao hospital de destino.

 

                      Nessa época, eu chegava em casa, descia do carro e sentava na calçada de casa, olhando a grama, mexendo nas flores, catando matinho. Eu precisava destes minutos para poder entrar em casa e ser a mãe que minha filha precisava. Para poder diminuir meu nivel de estresse e brincar com ela, rir das coisas de criança, ver desenho animado... Até pra poder dar aquele abraço apertado sem a dor sentida pelas mães que não podiam mais abraçar seus filhos.

 

Mas voltando ao hoje, do nada, uma propaganda me chamou atenção. A música da propaganda de uma joalheria me transportou imediatamente há uns 15 anos atrás. Olhei pelo retrovisor e cheguei a ver no banco de trás do carro a Ju, a Duda e a Teo. Rindo, ou melhor gargalhando enquanto cantavam junto a música da propaganda.

                    Por isso hoje falo de saudade. E, sem querer fazer propaganda, hoje percebi que a música da tal loja fala a verdade. "Se você quer magia, a ... tem.".

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 26/09/2017 às 13h49 | cereshmrc@gmail.com

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A violência nossa de cada dia

Neste final de semana, ocorreu mais um caso de violência na nossa cidade. Um jovem saiu de uma balada em Balneário Camboriu e foi levar os amigos em casa. Após deixar os amigos, foi rendido por um outro e agredido a tijoladas. O alvo era o carro dele, um Fiat Strada, que estava sem seguro (assim como o de várias pessoas no nosso país, na crise atual). Não contente em derrubar o proprietário do veículo, o agressor continuou desferindo golpes na cabeça da vítima, até que moradores da região acorreram. Com afundamento de crânio, o jovem foi atendido no pronto socorro e, felizmente, não teve nenhuma complicação mais grave. 

Sabe o que mais me apavora nisso tudo? É que já lemos este tipo de notícia com naturalidade, já faz parte de nosso cotidiano e nem nos surpreendemos mais... A violência já está tão inserida na nossa realidade, que simplesmente encaramos como "mais um..." e nada fazemos. Novamente, como em vários casos, o jovem agredido não tem familiares no estado, é uma pessoa de bem, e ainda estava ajudando os amigos. Ele não esboçou reação (até porque não teve como, já que foi agredido pelas costas), e mesmo caído continuou a receber tijoladas na cabeça. Teria morrido, senão fosse a vizinhança acordar e chamar por socorro. 

Cerca de 30 horas depois o agressor é encontrado com a namorada passeando com o carro da vítima. Tenta fugir, mas é contido pelos policiais que  prendem o casal. A garota alega que o rapaz disse a ela que havia comprado o carro na cidade vizinha. Ele acaba confessando o crime. Os dois estão detidos. Para infelicidade deles, o jovem agredido não perdeu a consciência e pode reconhecer seu agressor. 

De tudo isso, duas coisas me consolam: ainda existem pessoas de bem que não se calam diante de um crime, salvando a vida do jovem. Nossa polícia militar, tão criticada, tão mal remunerada, conseguiu não apenas prender o agressor como recuperar o veículo em poucas horas. Sem dúvida, Deus existe e cuida de seus filhos. 

Agradeço aos vizinhos que salvaram nosso amigo, aos policiais que agiram com rapidez e eficiencia, e ao pronto socorro do Hospital Marieta (Enf Alex, Dr Evandro Grutzmacher, Dr Marcos Costa, e equipe) que deram um atendimento não apenas competente, mas humanizado. 

Sem dúvida, ainda vale a pena lutar. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 25/09/2017 às 13h26 | cereshmrc@gmail.com

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Precisamos falar sobre isso.

Mais uma vez vou pedir desculpas. Desculpem, mas considero um absurdo ter que falar sobre isso. Homossexualismo. Tempos atrás uma amiga me mandou um vídeo do youtube em que as pessoas na rua eram entrevistadas se achavam que ser gay era uma questão de escolha. As que respondiam que sim eram então arguidas em que momento elas próprias decidiram ser heterossexuais. Sim, porque se eu escolho ser gay, então também posso escolher ser hetero, não? Ah, não? Então vamos além: como foi que começou esta caça às bruxas mesmo? Em que momento foi que paramos de nos preocupar conosco e com nossas vidas pra passar a cuidar das vidas de terceiros? 

Vejo hoje uma necessidade imensa, insana, de julgamentos. Você não dá uma moeda pra alguém que te pede porque você julga que ele vai gastar com drogas. Você vê uma pessoa correndo na rua, e conforme a roupa você já julga que é um ladrão. Você vê duas pessoas juntas de diferentes idades e julga que são pai e filho. Vê uma pessoa acima do peso e julga que é sedentária. Inclusive, você julga que a roupa está inadequada. "Essa roupa não te favorece." "Essa cor não fica bem pra você." "Por que você não tenta fazer uma bariátrica?" Não é assim?

Não nos preocupamos, nem nos questionamos em nenhum momento se a pessoa é feliz. Mais que isso, não paramos pra pensar o porquê de aquilo nos incomodar. Outro dia eu vi um post no facebook dizendo "Eu tenho um amigo negro e tenho orgulho disso." Desculpem, mas eu não. Não tenho amigo negro? Não me orgulho? Não. Amigo é amigo. Nunca parei pra pensar quantos amigos tenho que são negros, loiros, pardos, amarelos, gordos, magros, altos, baixos, gays, heteros, bissexuais, homens, mulheres, espíritas, evangelicos, católicos, etc... Amigo é amigo. Não precisa ser catalogado. E juro que não consigo entender essa necessidade que as pessoas tem em rotular as outras. 

Você já pensou como é complicado ser feliz? Tudo o que você precisa? Quantas atribuições você tem? Quantas pessoas dependem diretamente de você? Eu pelo menos acho que ser feliz é uma coisa extremamente complexa. No meu conceito de felicidade, eu preciso estar bem de saúde (e pra isso preciso me alimentar direito, praticar atividade física, etc), mentalmente (ter acesso a cultura, bons livros, boa música), não me estressar com tempo e prazo, evitar roupas apertadas e saltos altos, preciso poder olhar o mar sossegada, boas noites de sono, que minha família esteja bem também... Sem contar o trabalho. Trabalhar fazendo algo que goste, gostando de ir para o trabalho. 

Bom, com tantas variáveis no conceito de felicidade, ainda achar tempo para se preocupar com a vida dos outros é uma coisa absurda. Eu penso que seja. Ou então podemos simplesmente nos lembrar que não somos Deus e não temos o direito de julgar e nem de condenar ninguém. E ai, neste caso, vale outro post que vi: Não tenho tempo para odiar ninguém, estou ocupado demais sendo feliz.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/09/2017 às 10h28 | cereshmrc@gmail.com

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Sobre os modismos em saúde

                Vamos começar deixando bem claro: não sou nutricionista, nem nutróloga. Fiz uma especialização em Nutrição Parenteral há muitos anos atrás, mas isto se aplica apenas a uma dieta especial, que é administrada na veia, em pacientes gravemente enfermos que não podem receber a dieta por via oral.

                 Eu não sei vocês, mas eu ando achando que este nosso mundo anda muito cheio de extremismos, de excessos. Qual a dieta da moda? Low carb? Paleo? E aquela dieta do tipo sanguíneo? Restrição de gluten... jejum intermitente... Não sei como as pessoas não precisam de ansiolíticos cada vez que vão ter que escolher um prato num cardápio.

                 Talvez eu já esteja muito velha (26 anos de formada podem caracterizar velhice?), mas continuo achando que na alimentação, como em tudo na vida, o que a gente precisa mesmo é ter bom senso. Embora este não pareça ser um item em moda ultimamente, me atrevo a dizer que é o que mais está faltando no mundo.

                    Quem já assistiu alguma palestra minha sabe o que sempre falo: Deus nos fez perfeitos num mundo perfeito, certo? Cada alimento no mundo que Ele criou tem a quantidade certa de sal, de açucar, de água... E nós, eternamente insatisfeitos, criamos as compotas, as frituras, modificamos todos os alimentos e ainda criamos a roda, e com ela, o sedentarismo e a obesidade. Daí a conclusão óbvia: nós inventamos as doenças! Com todos os nossos modismos, de fast food, de comidas industrializadas, de cada vez mais adição de produtos quimicos...

                     E tudo isso começa cedinho: quando os bebês nascem. A criança nasce sem paladar, e este é desenvolvido com base no que ofertamos a ela. Então, pra que adicionar açúcar na mamadeira? Aliás, bebê tem que mamar no peito, com amamentação exclusiva pelo menos até os seis meses de idade. É ele que fornece as informações e os anticorpos que a criança vai precisar para se proteger, e até mesmo evitar alergias futuras. É o leite materno que dá as primeiras informações para a maturação do sistema imunológico.

                    Vindo na contramão de todo este processo, a agricultura orgânica vem começando a se destacar no mercado alimentício. Os alimentos orgânicos não são perfeitos na estética, a exemplo das modelos de capa de revista: na vida real, não tem fotoshop. Posso até ilustrar isso com uma situação que ocorreu lá em casa. Comprei uns tomates no mercado e deixei na geladeira. Fui passar uns dias fora, e quando voltei (duas semanas depois) eles estavam intactos. Isso é normal? Você há de convir que não, né? Mesmo na geladeira, ele deveria ter se deteriorado. Mas ele estava intacto. Usei? Óbvio que não. No meu corpo não cabe mais agrotóxicos, conservantes, estabilizantes, etc.

                    Então, meus amigos, vamos aderir a uma nova dieta: a do bom senso. Não é natural, não pode ser bom. Junto com o amor, a natureza ainda nos oferece as melhores opções. Cultivem uma hortinha em casa, ensinem a seus filhos de onde vem os alimentos. Lembrem que a nossa maior responsabilidade é com o futuro que deixaremos para nossos descendentes.

                    Boa semana!

Escrito por Céres Fabiana Felski, 18/09/2017 às 09h46 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - parte 13 - FINAL

Epílogo

Vendo Beatriz entrar no salão, vestida com a beca preta com a faixa verde do curso de Farmácia e Bioquímica, Cauê e Fernanda não conseguiram conter o choro. Linda, com uma maquiagem que realçava seus belos olhos, e com uma sandália de salto altíssimo, sua beleza se tornava ainda mais estonteante. Se todos ali presentes viam uma mulher maravilhosa, eles viam a menina vitoriosa, que conseguira superar todos os obstáculos causados pela presença do diabetes na sua vida.

Junto deles, Gustavo, o namorado de Beatriz, estava mais do que empolgado. Iria aproveitar aquela ocasião para pedir formalmente a mão dela em casamento para Cauê. A aliança que trazia escondida no bolso do paletó parecia ter vida própria, e querer saltar direto para a mão da sua eleita.

Os planos para a vida a dois já estavam sendo feitos há algum tempo, e incluíam uma pausa antes de pensarem em ter filhos para, talvez, pensar em um transplante de pâncreas. Talvez porque, já que tudo estava indo tão bem, sem nenhuma complicação, e com eles tão adaptados, o transplante era realmente apenas mais uma opção.

Fernanda sorriu, entre as lágrimas. Seu pequeno menino, Cauê, tinha lhe surpreendido mais uma vez. Sentiu seu coração de mãe feliz ao ver o filho realizado, principalmente tendo que cumprir o papel de pai e mãe. Beatriz iniciava uma nova jornada em sua vida hoje. Cauê também.

A partir da próxima semana, novos temas em saúde. Se você quiser participar, envie sua dúvida para o email cereshmrc@gmail.com.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 09/09/2017 às 11h38 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - parte 12

Entre risadas e brincadeiras, a tarde passou voando, e quando Cauê chegou para buscar a filha, encontrou uma menina de faces coradas e lábios levemente lambuzados de chocolate. Quando ia falar algo, Fernanda se adiantou e entregou à menina um pedaço de bolo diet que elas haviam feito para que servisse ao pai.

Realmente, ele teve que dar a mão à palmatória: o sabor era idêntico ao bolo normal. Isso deixou seu coração mais tranquilo pela filha, e vê-la sorrindo e pulando ao redor da avó, apenas confirmou. Viu as balas que Fernanda havia comprado e mais uma vez orientou a filha que, mesmo sendo diet, não podia ser consumido em exagero, pois também poderia causar mal ao seu organismo.

Tinha medo de se tornar um pai chato, daqueles que ficam só chamando a atenção o tempo todo, mas tinha muito mais medo de perder o melhor presente que a vida havia lhe dado: a pequena Beatriz.

Depois de três semanas, como planejado, retornaram ao Dr. Marcoti. O médico, feliz por ver a menina tão bem, deu-lhe um abraço enorme e um pirulito. Diet, claro. Depois de avaliar o peso e a altura de Bia, ele explicou a Cauê que ela havia recuperado bem o que havia perdido durante o estágio inicial da doença, em que não estava sob tratamento.

O importante agora era manter o desenvolvimento adequado. Monitorar com rigor não apenas o ganho de peso, mas também o desenvolvimento do aparelho reprodutor, por exemplo. Assim, deveriam estar atentos ao início do surgimento das mamas, dos pelos, etc.

Tudo isso seria igual se fosse num menino, o aparecimento dos caracteres sexuais inicia em torno dos oito aos nove anos, e deve ser monitorado em todos os pacientes que possuem diabetes, a fim de que possam ter uma vida adulta normal.

Cauê e Fernanda ficaram felizes. Tudo estava correndo como esperado. Só o que os deixou levemente preocupados foi o fato de que isso poderia a vir a afetar a vida da menina no futuro. Mas, um passo de cada vez, como disse o Dr. Marcoti. E, se o diabetes estivesse bem controlado, dificilmente ela teria com o que se preocupar.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 01/09/2017 às 09h51 | cereshmrc@gmail.com

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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)
















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