Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Ele...

 

 

             Ele colocou a cabeça no travesseiro e mais uma vez sentiu o perfume dela. Lembrava claramente o dia em que haviam comprado este e outros perfumes, numa lojinha simpática em Paris. Ela havia dito que não poderiam voltar para casa sem trazer perfumes para as melhores amigas. Tinham gastado uma pequena fortuna, mas tinha valido cada centavo. As essências tinham um fixador maravilhoso, e permaneciam no ambiente deixando a casa toda perfumada como se ela tivesse acabado de sair do banho...

Com os olhos fechados, ele revisou e acariciou cada contorno do rosto dela, tirando até aquela mecha de cabelo que caía as vezes sobre os olhos e que ela teimava em tentar prender num coque frouxo. Aquela mecha de cabelo que tinha sido o primeiro toque no rosto dela, anos atrás. A desculpa perfeita para se aproximar da moça séria que estava estudando sozinha na biblioteca da faculdade. Talvez até tenha sido esta mecha a culpada de tudo. Foi ali que ele começou a sentir uma necessidade incontrolável de cuidar dela, de proteger sempre.

 

Ela sorriu levemente naquele dia, com os pequenos olhos verdes escondidos atrás dos óculos de grau que lhe conferiam um ar de nerd. Ficou ruborizada quando encontrou com os olhos dele e pediu desculpas. Foi ali, naquele exato momento, que ele se apaixonou por ela: gente, pedir desculpas por uma mecha do cabelo ter saído do lugar? Naquele instante ele percebeu o quanto ela era frágil, e a necessidade de protegê-la começou a doer no peito dele.

 

Mesmo estando no último ano da faculdade e tendo todos os livros necessários em casa, ele passou a freqüentar a biblioteca sempre no mesmo horário, para poder estar mais próximo dela. Um dia, uma chuva torrencial lhe deu o álibi perfeito para oferecer uma carona e poder saber um pouquinho mais dela. Devagar, ele foi se aproximando, até que por fim durante um café na casa dela, ele pediu a mão dela em casamento. Ela engasgou, tossiu, ficou vermelha como um pimentão e perguntou como, já que eles nem estavam namorando. E ele disse que ela não era mulher para namorar, era mulher para casar. Em poucos meses já estavam casados, ele formado e com um bom emprego e ela em casa, grávida do primeiro filho deles.

 

Os amigos sempre comentavam o casal perfeito que eles formavam... Tinha até a impressão que alguns cobiçavam a mulher dele, por isso preferia que ela ficasse em casa na maior parte do tempo, cuidando dos filhos, da casa, e dele. As pequenas brigas entre eles (sempre por causa da mania dele de continuar protegendo) eram sempre resolvidas com flores, jóias e um pedido de desculpas. Ela então erguia para ele aqueles olhos verdes, e  perdoava. Sempre. Por isso agora ele não sabia o que fazer com aquele ramalhete de rosas vermelhas. Caminhou até a sala... Ela estava usando a pulseira que ele havia dado. Mas não abria mais olhos.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 31/01/2019 às 11h25 | cereshmrc@gmail.com

Ela...

 

 

              Vagarosamente ela secou o corpo com a toalha. Devagar porque ainda sentia dor em vários locais, e tinha receio de deixar as equimoses ainda mais fortes. Ela não queria ir, tinha pedido, suplicado até para ficar em casa com as crianças. Mas ele não aceitou. Pelo menos ela não teria que escolher a roupa para usar, já que ele tinha providenciado um vestido leve e que disfarçava bem as marcas da última noite.

Diante do espelho, começou a passar base e corretivo na face, procurando dar um tom levemente bronzeado. Ele não gostava que ela usasse batom vermelho, nem que passasse o delineador e rímel que realçavam seus olhos. Mas ela também não queria que seus olhos chamassem atenção, assim evitaria comentários desconfortáveis como o da noite anterior. Tinha ido até o portão para pegar a correspondência quando seu olhar cruzou com o da vizinha. Ela abaixou rápido a cabeça, mas a vizinha a chamou pelo nome e perguntou: Tudo bem?

 

“Tudo bem?” –” Sim, tudo ótimo! O dia está lindo, as crianças estão de férias, o jardim cheio de flores... ah, e hoje não apanhei.” Que cara ela faria se ouvisse essa resposta? Mas não, não podia expor o marido. Pessoas importantes como ele não devem ser perturbadas com pequenos problemas domésticos. Além do que, ela tinha pensado bem e chegado a conclusão que ele tinha razão: pra que fazer faculdade, deixando de estar com a família, se ele providenciava tudo que eles precisavam? Era realmente muito egoísmo da parte dela ficar pensando em ter uma profissão. E, mesmo depois de formada, quem iria contratar uma pessoa tão sem graça como ela? Faculdade, emprego, carreira, eram coisas para pessoas fortes, especiais. Sem dúvida alguma, não eram coisas para ela.

 

Com um suspiro, ela pegou o vestido que ele tinha escolhido e vestiu. Do espelho, uma moça jovem e bonita olhou para ela com carinho. Sem dúvida ele tinha um ótimo gosto para roupas. Calçou uma rasteirinha e acariciou a aliança no dedo. Este ano tudo seria diferente. Ele havia prometido tratar dela com mais carinho, tinha até comprado uma pulseira com pingentes com o nome deles e dos filhos para que ela usasse esta noite. Sorriu quando se lembrou dele entregando a caixinha com a jóia escondida num ramalhete de rosas vermelhas. Ela era uma mulher de sorte por ter um marido que não economizava em presentes.

 

Feliz, ela foi ao encontro dele na sala para um drink antes de saírem. Não percebeu o nível do uísque na garrafa. Viu que a gravata dele estava meio fora do lugar e ergueu as mãos para arrumar. Ele também ergueu a mão. A pulseira ficou inerte, caída no chão ao lado do corpo dela. 

 
Escrito por Céres Fabiana Felski, 30/01/2019 às 00h27 | cereshmrc@gmail.com

Abraço a Vida

 

 

               Não lembro exatamente a data, mas creio que eu estava no começo da adolescência quando comecei a prestar atenção nela. Observava silenciosamente, cuidava de cada detalhe, e escrevia notas num caderno que conservo até hoje. Muitas vezes eram frases soltas, notas esparsas, mas as vezes ela rendia poemas, páginas e páginas de considerações. Lembro de momentos em que ela, vaidosa, desfilava altiva e soberana, e eu sentia que me olhava com certo desdém: apesar do fascínio que exercia em mim naquela época, eu sempre tive a plena convicção que para ela eu não representava absolutamente nada.

Mesmo assim, eu persistia. Muitas vezes sentei na varanda de casa, cuidando de não perder nenhum detalhe sequer. Eu me embriagava nela todos os dias. E todas as noites eu adormecia em meio a ressaca para acordar torporosa, cansada, mas pronta para mais um dia de contemplação silenciosa.

O tempo passou, e a admiração que eu tinha pela forma voluptuosa com que ela se apresentava foi sendo lentamente substituída por um leve temor. Ainda tenho o hábito, mais de 30 anos depois, de ficar observando cada detalhe dela, mas hoje tenho a necessidade meio que estranha de tocá-la. Sinto cada vez mais que não posso continuar a  viver nessa relação platônica, o tempo urge e eu preciso resolver esta relação.

Não sei ainda se terei coragem de dar este passo. Declarar meu amor parece-me definitivo demais, e não sei como conseguiria prosseguir diante da possível/provável rejeição dela. Digo isso até porque cada vez que tento me aproximar percebo que ela meio que se esvai entre meus braços...

Talvez eu precise mudar de estratégia, talvez eu a assuste com esta obsessão de ficar analisando cada detalhe... Não sei... mas, só por hoje, eu queria conseguir dar o meu Abraço a Vida.   

 

Ps: se você se identificou com este texto, se você sente-se assim em relação a Vida, procure ajuda! Não tenha medo e nem vergonha. A depressão é uma doença e tem tratamento. Ligue ou mande mensagem para o Abraço a Vida 47-99982-2322. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 13/01/2019 às 13h03 | cereshmrc@gmail.com

Licença Paternidade: de fato e de direito.

 

             Acabei de saber que um amigo se tornou pai no dia 31/12. Pela lei atual, ele tem direito a 05 dias de folga, de licença-paternidade. No serviço público federal e nas empresas que fazem parte do Programa Empresa Cidadã este período é ampliado para 20 dias. E aí começou a discussão: 5 dias são suficientes? Porque a licença-maternidade que é de 04 meses (120 dias) esta sendo discutida e prorrogada para 06 meses (180 dias), a fim de intensificar o vínculo mãe-bebê e facilitar a amamentação até os seis meses de vida. E qual o papel do pai nesta história?


            Muito tem se discutido sobre o papel do pai, sobre o direito de toda criança de ter um pai, sobre alienação parental, etc. Mas se o pai tem o dever de registrar (reconhecer legalmente) o filho, não deveria ter também o direito a uma licença maior? Quando nasce um bebê, nasce também uma mãe e um pai. Porque só a mãe tem o direito de vivenciar esta experiência mais intensamente? Os cinco dias da lei auxiliam para o pai providenciar o registro, dar um suporte para mãe nos primeiros dias, essas coisas. Mas a partir daí é que começa a parte da formação do vínculo pai-bebê: a hora em que ele pode efetivamente curtir a nova vida que chegou.

            Queremos que os pais assumam suas responsabilidades, que participem da vida dos filhos, não? Queremos que exerçam seus deveres, certo? Então porque não lhes dar o direito de permanecer um pouco mais ao lado do filho que chegou? Independente de ser filho biologico ou adotado, é preciso que haja um ajuste a esta nova formação familiar. E, para que isto ocorra de maneira satisfatória, o tempo deve ser respeitado. No mínimo, o tempo deveria ser equiparado ao do serviço federal.
           
               Porque, como diz o ditado: Não basta ser pai, tem que participar.      
 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 02/01/2019 às 20h28 | cereshmrc@gmail.com

A virada do ano dele...

 

 

                Como em todos os anos, ele se preparou para a virada. Alguns dias antes, comprou uma roupa branca, bem confortável, e chinelos para ir a praia saudar o novo ano junto com os amigos de sempre. Espumante na geladeira, bolsa térmica com gelo, cadeira de praia separada. Check list perfeito.

Mas, ao sair do banho e passar pelo espelho algo mudou. Naquele segundo em que normalmente ele nem se apercebia, ele viu um vulto. Quase gritou, mas resolveu olhar de novo. Lá fora, o barulho dos fogos e a música alta dos carros de repente pareceram ser de outro mundo.

Do lado de dentro, o vulto continuava lá, no espelho, num cantinho encolhido. Ele chegou mais perto e viu. Viu um menino de seis ou sete anos de idade, que tremia de medo e tinha uma lágrima escorrendo pela face. O menino chorava em silêncio, num silêncio constrangedor.

Ele sentou ao lado do menino e ficou em silêncio também. E, então, viu nos olhos dele um filme passando. Sem som. Sem legenda. Viu várias crianças rindo enquanto ele tropeçava na escola e caía ao chão. Viu adolescentes apontando o dedo e cochichando enquanto ele passava. Sentiu a dor de um olhar de desapontamento de alguém e o calor do abraço apertado da mãe.

Ficou alguns minutos assim, sentado ao lado do menino, até que por fim estendeu a mão para ele e ofertou um abraço. E, no momento em que sentiu os braços do menino lhe tocando, ele também deixou cair uma lágrima. E acalentou o pequeno com carinho, sem pressa para acabar de se arrumar. Afagou seus cabelos e fez uma anotação mental de não permitir que ninguém jamais voltasse a magoar o menino.

Quando ele voltou a abrir os olhos, o menino tinha ido embora. Faltavam poucos minutos para a virada do ano, e de repente, ele percebeu que já estava pronto. Sim, tinha feito as pazes com o passado e selado um compromisso com o futuro. Levantou do chão, pegou uma foto do menino que estava numa gaveta e pôs no bolso da bermuda.

Neste ano seria tudo diferente. O menino tinha finalmente crescido. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 02/01/2019 às 11h41 | cereshmrc@gmail.com

Sobre a virada do ano...

 

 

              Neste ano ela quis fazer diferente: não usou roupa nova. Cansada de tudo, não quis ir para a praia ver os shows de fogos no céu. Preferiu ficar em casa em silêncio, aquietando o coração pra poder entrar o ano em paz. Com uma roupa já bem usada, daquelas bem confortáveis, de chinelo, ela recebeu o ano novo.

Alguns usaram branco, pela paz. Outros, amarelo, querendo a prosperidade. Vermelho, a procura do amor... Ela vestiu uma roupa velha e confortável, em busca de algo diferente: ela buscava o velho. Se alguns acharam estranho, nada disseram, até porque todos estavam ocupados demais tirando selfies na festa da virada para postar nas redes. Todos estavam extremamente ocupados em postarem fotos felizes, de famílias felizes, de amizades perfeitas, de lugares incríveis.

Ela só queria o velho. Sozinha, quietinha no seu canto, ela fez sua prece. Pediu pelos velhos amigos, aqueles que chegavam a qualquer hora, abriam a geladeira e até faziam a comida. Aqueles que ela recebia de pijama sem precisar ficar com vergonha. Pediu pela velha família, aquela que se reunia em torno da mesa de almoço que virava café da tarde que virava jantar, porque ninguém tinha pressa de ir embora e sempre tinha mais um causo pra contar. Pediu pelos velhos sentimentos, de amor e empatia... pediu pelos velhos costumes, de se olhar nos olhos, de abraçar apertado...

O velho hábito de tomar um café da tarde com os vizinhos enquanto as crianças brincavam na calçada em frente de casa. O velho ritual de fazer bolinho de chuva nos dias cinzentos e úmidos do outono, ou de tomar banho de mangueira nos dias abafados de verão. De ir colher uma fruta no quintal e dividir com os vizinhos quando a colheita era farta...

Aquele velho costume de preparar uma canja pra quem estivesse doente, e levar com uma cesta de pãozinho recém-saído do forno. O cheiro gostoso de café feito no coador misturado com o cheiro de biscoitinhos de maisena assando no forno...

De repente, tudo ficou tão novo que ela se sentiu perdida, absolutamente deslocada e desconfortável. Por isso, optou por roupas e sentimentos velhos. Porque, de repente, ela se sentiu velha demais pra tudo isso.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 01/01/2019 às 16h13 | cereshmrc@gmail.com



1 2 3 4 5 6 7

Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Ele...

 

 

             Ele colocou a cabeça no travesseiro e mais uma vez sentiu o perfume dela. Lembrava claramente o dia em que haviam comprado este e outros perfumes, numa lojinha simpática em Paris. Ela havia dito que não poderiam voltar para casa sem trazer perfumes para as melhores amigas. Tinham gastado uma pequena fortuna, mas tinha valido cada centavo. As essências tinham um fixador maravilhoso, e permaneciam no ambiente deixando a casa toda perfumada como se ela tivesse acabado de sair do banho...

Com os olhos fechados, ele revisou e acariciou cada contorno do rosto dela, tirando até aquela mecha de cabelo que caía as vezes sobre os olhos e que ela teimava em tentar prender num coque frouxo. Aquela mecha de cabelo que tinha sido o primeiro toque no rosto dela, anos atrás. A desculpa perfeita para se aproximar da moça séria que estava estudando sozinha na biblioteca da faculdade. Talvez até tenha sido esta mecha a culpada de tudo. Foi ali que ele começou a sentir uma necessidade incontrolável de cuidar dela, de proteger sempre.

 

Ela sorriu levemente naquele dia, com os pequenos olhos verdes escondidos atrás dos óculos de grau que lhe conferiam um ar de nerd. Ficou ruborizada quando encontrou com os olhos dele e pediu desculpas. Foi ali, naquele exato momento, que ele se apaixonou por ela: gente, pedir desculpas por uma mecha do cabelo ter saído do lugar? Naquele instante ele percebeu o quanto ela era frágil, e a necessidade de protegê-la começou a doer no peito dele.

 

Mesmo estando no último ano da faculdade e tendo todos os livros necessários em casa, ele passou a freqüentar a biblioteca sempre no mesmo horário, para poder estar mais próximo dela. Um dia, uma chuva torrencial lhe deu o álibi perfeito para oferecer uma carona e poder saber um pouquinho mais dela. Devagar, ele foi se aproximando, até que por fim durante um café na casa dela, ele pediu a mão dela em casamento. Ela engasgou, tossiu, ficou vermelha como um pimentão e perguntou como, já que eles nem estavam namorando. E ele disse que ela não era mulher para namorar, era mulher para casar. Em poucos meses já estavam casados, ele formado e com um bom emprego e ela em casa, grávida do primeiro filho deles.

 

Os amigos sempre comentavam o casal perfeito que eles formavam... Tinha até a impressão que alguns cobiçavam a mulher dele, por isso preferia que ela ficasse em casa na maior parte do tempo, cuidando dos filhos, da casa, e dele. As pequenas brigas entre eles (sempre por causa da mania dele de continuar protegendo) eram sempre resolvidas com flores, jóias e um pedido de desculpas. Ela então erguia para ele aqueles olhos verdes, e  perdoava. Sempre. Por isso agora ele não sabia o que fazer com aquele ramalhete de rosas vermelhas. Caminhou até a sala... Ela estava usando a pulseira que ele havia dado. Mas não abria mais olhos.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 31/01/2019 às 11h25 | cereshmrc@gmail.com

Ela...

 

 

              Vagarosamente ela secou o corpo com a toalha. Devagar porque ainda sentia dor em vários locais, e tinha receio de deixar as equimoses ainda mais fortes. Ela não queria ir, tinha pedido, suplicado até para ficar em casa com as crianças. Mas ele não aceitou. Pelo menos ela não teria que escolher a roupa para usar, já que ele tinha providenciado um vestido leve e que disfarçava bem as marcas da última noite.

Diante do espelho, começou a passar base e corretivo na face, procurando dar um tom levemente bronzeado. Ele não gostava que ela usasse batom vermelho, nem que passasse o delineador e rímel que realçavam seus olhos. Mas ela também não queria que seus olhos chamassem atenção, assim evitaria comentários desconfortáveis como o da noite anterior. Tinha ido até o portão para pegar a correspondência quando seu olhar cruzou com o da vizinha. Ela abaixou rápido a cabeça, mas a vizinha a chamou pelo nome e perguntou: Tudo bem?

 

“Tudo bem?” –” Sim, tudo ótimo! O dia está lindo, as crianças estão de férias, o jardim cheio de flores... ah, e hoje não apanhei.” Que cara ela faria se ouvisse essa resposta? Mas não, não podia expor o marido. Pessoas importantes como ele não devem ser perturbadas com pequenos problemas domésticos. Além do que, ela tinha pensado bem e chegado a conclusão que ele tinha razão: pra que fazer faculdade, deixando de estar com a família, se ele providenciava tudo que eles precisavam? Era realmente muito egoísmo da parte dela ficar pensando em ter uma profissão. E, mesmo depois de formada, quem iria contratar uma pessoa tão sem graça como ela? Faculdade, emprego, carreira, eram coisas para pessoas fortes, especiais. Sem dúvida alguma, não eram coisas para ela.

 

Com um suspiro, ela pegou o vestido que ele tinha escolhido e vestiu. Do espelho, uma moça jovem e bonita olhou para ela com carinho. Sem dúvida ele tinha um ótimo gosto para roupas. Calçou uma rasteirinha e acariciou a aliança no dedo. Este ano tudo seria diferente. Ele havia prometido tratar dela com mais carinho, tinha até comprado uma pulseira com pingentes com o nome deles e dos filhos para que ela usasse esta noite. Sorriu quando se lembrou dele entregando a caixinha com a jóia escondida num ramalhete de rosas vermelhas. Ela era uma mulher de sorte por ter um marido que não economizava em presentes.

 

Feliz, ela foi ao encontro dele na sala para um drink antes de saírem. Não percebeu o nível do uísque na garrafa. Viu que a gravata dele estava meio fora do lugar e ergueu as mãos para arrumar. Ele também ergueu a mão. A pulseira ficou inerte, caída no chão ao lado do corpo dela. 

 
Escrito por Céres Fabiana Felski, 30/01/2019 às 00h27 | cereshmrc@gmail.com

Abraço a Vida

 

 

               Não lembro exatamente a data, mas creio que eu estava no começo da adolescência quando comecei a prestar atenção nela. Observava silenciosamente, cuidava de cada detalhe, e escrevia notas num caderno que conservo até hoje. Muitas vezes eram frases soltas, notas esparsas, mas as vezes ela rendia poemas, páginas e páginas de considerações. Lembro de momentos em que ela, vaidosa, desfilava altiva e soberana, e eu sentia que me olhava com certo desdém: apesar do fascínio que exercia em mim naquela época, eu sempre tive a plena convicção que para ela eu não representava absolutamente nada.

Mesmo assim, eu persistia. Muitas vezes sentei na varanda de casa, cuidando de não perder nenhum detalhe sequer. Eu me embriagava nela todos os dias. E todas as noites eu adormecia em meio a ressaca para acordar torporosa, cansada, mas pronta para mais um dia de contemplação silenciosa.

O tempo passou, e a admiração que eu tinha pela forma voluptuosa com que ela se apresentava foi sendo lentamente substituída por um leve temor. Ainda tenho o hábito, mais de 30 anos depois, de ficar observando cada detalhe dela, mas hoje tenho a necessidade meio que estranha de tocá-la. Sinto cada vez mais que não posso continuar a  viver nessa relação platônica, o tempo urge e eu preciso resolver esta relação.

Não sei ainda se terei coragem de dar este passo. Declarar meu amor parece-me definitivo demais, e não sei como conseguiria prosseguir diante da possível/provável rejeição dela. Digo isso até porque cada vez que tento me aproximar percebo que ela meio que se esvai entre meus braços...

Talvez eu precise mudar de estratégia, talvez eu a assuste com esta obsessão de ficar analisando cada detalhe... Não sei... mas, só por hoje, eu queria conseguir dar o meu Abraço a Vida.   

 

Ps: se você se identificou com este texto, se você sente-se assim em relação a Vida, procure ajuda! Não tenha medo e nem vergonha. A depressão é uma doença e tem tratamento. Ligue ou mande mensagem para o Abraço a Vida 47-99982-2322. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 13/01/2019 às 13h03 | cereshmrc@gmail.com

Licença Paternidade: de fato e de direito.

 

             Acabei de saber que um amigo se tornou pai no dia 31/12. Pela lei atual, ele tem direito a 05 dias de folga, de licença-paternidade. No serviço público federal e nas empresas que fazem parte do Programa Empresa Cidadã este período é ampliado para 20 dias. E aí começou a discussão: 5 dias são suficientes? Porque a licença-maternidade que é de 04 meses (120 dias) esta sendo discutida e prorrogada para 06 meses (180 dias), a fim de intensificar o vínculo mãe-bebê e facilitar a amamentação até os seis meses de vida. E qual o papel do pai nesta história?


            Muito tem se discutido sobre o papel do pai, sobre o direito de toda criança de ter um pai, sobre alienação parental, etc. Mas se o pai tem o dever de registrar (reconhecer legalmente) o filho, não deveria ter também o direito a uma licença maior? Quando nasce um bebê, nasce também uma mãe e um pai. Porque só a mãe tem o direito de vivenciar esta experiência mais intensamente? Os cinco dias da lei auxiliam para o pai providenciar o registro, dar um suporte para mãe nos primeiros dias, essas coisas. Mas a partir daí é que começa a parte da formação do vínculo pai-bebê: a hora em que ele pode efetivamente curtir a nova vida que chegou.

            Queremos que os pais assumam suas responsabilidades, que participem da vida dos filhos, não? Queremos que exerçam seus deveres, certo? Então porque não lhes dar o direito de permanecer um pouco mais ao lado do filho que chegou? Independente de ser filho biologico ou adotado, é preciso que haja um ajuste a esta nova formação familiar. E, para que isto ocorra de maneira satisfatória, o tempo deve ser respeitado. No mínimo, o tempo deveria ser equiparado ao do serviço federal.
           
               Porque, como diz o ditado: Não basta ser pai, tem que participar.      
 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 02/01/2019 às 20h28 | cereshmrc@gmail.com

A virada do ano dele...

 

 

                Como em todos os anos, ele se preparou para a virada. Alguns dias antes, comprou uma roupa branca, bem confortável, e chinelos para ir a praia saudar o novo ano junto com os amigos de sempre. Espumante na geladeira, bolsa térmica com gelo, cadeira de praia separada. Check list perfeito.

Mas, ao sair do banho e passar pelo espelho algo mudou. Naquele segundo em que normalmente ele nem se apercebia, ele viu um vulto. Quase gritou, mas resolveu olhar de novo. Lá fora, o barulho dos fogos e a música alta dos carros de repente pareceram ser de outro mundo.

Do lado de dentro, o vulto continuava lá, no espelho, num cantinho encolhido. Ele chegou mais perto e viu. Viu um menino de seis ou sete anos de idade, que tremia de medo e tinha uma lágrima escorrendo pela face. O menino chorava em silêncio, num silêncio constrangedor.

Ele sentou ao lado do menino e ficou em silêncio também. E, então, viu nos olhos dele um filme passando. Sem som. Sem legenda. Viu várias crianças rindo enquanto ele tropeçava na escola e caía ao chão. Viu adolescentes apontando o dedo e cochichando enquanto ele passava. Sentiu a dor de um olhar de desapontamento de alguém e o calor do abraço apertado da mãe.

Ficou alguns minutos assim, sentado ao lado do menino, até que por fim estendeu a mão para ele e ofertou um abraço. E, no momento em que sentiu os braços do menino lhe tocando, ele também deixou cair uma lágrima. E acalentou o pequeno com carinho, sem pressa para acabar de se arrumar. Afagou seus cabelos e fez uma anotação mental de não permitir que ninguém jamais voltasse a magoar o menino.

Quando ele voltou a abrir os olhos, o menino tinha ido embora. Faltavam poucos minutos para a virada do ano, e de repente, ele percebeu que já estava pronto. Sim, tinha feito as pazes com o passado e selado um compromisso com o futuro. Levantou do chão, pegou uma foto do menino que estava numa gaveta e pôs no bolso da bermuda.

Neste ano seria tudo diferente. O menino tinha finalmente crescido. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 02/01/2019 às 11h41 | cereshmrc@gmail.com

Sobre a virada do ano...

 

 

              Neste ano ela quis fazer diferente: não usou roupa nova. Cansada de tudo, não quis ir para a praia ver os shows de fogos no céu. Preferiu ficar em casa em silêncio, aquietando o coração pra poder entrar o ano em paz. Com uma roupa já bem usada, daquelas bem confortáveis, de chinelo, ela recebeu o ano novo.

Alguns usaram branco, pela paz. Outros, amarelo, querendo a prosperidade. Vermelho, a procura do amor... Ela vestiu uma roupa velha e confortável, em busca de algo diferente: ela buscava o velho. Se alguns acharam estranho, nada disseram, até porque todos estavam ocupados demais tirando selfies na festa da virada para postar nas redes. Todos estavam extremamente ocupados em postarem fotos felizes, de famílias felizes, de amizades perfeitas, de lugares incríveis.

Ela só queria o velho. Sozinha, quietinha no seu canto, ela fez sua prece. Pediu pelos velhos amigos, aqueles que chegavam a qualquer hora, abriam a geladeira e até faziam a comida. Aqueles que ela recebia de pijama sem precisar ficar com vergonha. Pediu pela velha família, aquela que se reunia em torno da mesa de almoço que virava café da tarde que virava jantar, porque ninguém tinha pressa de ir embora e sempre tinha mais um causo pra contar. Pediu pelos velhos sentimentos, de amor e empatia... pediu pelos velhos costumes, de se olhar nos olhos, de abraçar apertado...

O velho hábito de tomar um café da tarde com os vizinhos enquanto as crianças brincavam na calçada em frente de casa. O velho ritual de fazer bolinho de chuva nos dias cinzentos e úmidos do outono, ou de tomar banho de mangueira nos dias abafados de verão. De ir colher uma fruta no quintal e dividir com os vizinhos quando a colheita era farta...

Aquele velho costume de preparar uma canja pra quem estivesse doente, e levar com uma cesta de pãozinho recém-saído do forno. O cheiro gostoso de café feito no coador misturado com o cheiro de biscoitinhos de maisena assando no forno...

De repente, tudo ficou tão novo que ela se sentiu perdida, absolutamente deslocada e desconfortável. Por isso, optou por roupas e sentimentos velhos. Porque, de repente, ela se sentiu velha demais pra tudo isso.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 01/01/2019 às 16h13 | cereshmrc@gmail.com



1 2 3 4 5 6 7

Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade