Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

É como se fosse doce - parte 11

Todos conversaram alegremente, e a menina provou e escolheu os alimentos que mais tinha gostado. Pediu para a avó os nomes das folhas que não conhecia, e disse que preferia o arroz branco, mas do jeito que a avó tinha feito o integral, tinha ficado bem parecido. Fernanda olhou feliz para a neta. Tinha conversado com Cauê para que eles almoçassem com ela sempre, pois estava aposentada, tinha tempo para ficar fazendo refeições coloridas e cheias de graça para atrair a atenção da neta.

Sem dúvida, almoçar na casa de Fernanda facilitaria muito para todos, inclusive para ela que estaria segura do alimento fornecido à neta e feliz de estar participando do tratamento. Desta forma, Cauê não se opôs, enquanto se servia de mais uma porção de arroz integral com legumes, disse que então, até que tudo se estabilizasse, almoçariam ali.

A sobremesa veio na forma de uma salada de frutas bem gostosa, com as frutas bem picadinhas como só a vó Fernanda sabia fazer. Pena foi não poder repetir, mas para evitar a tentação, Fernanda já havia feito a dose ideal e trazido a mesa somente a taça de cada um. Não havia sobras para um segundo tempo.

Bia pediu, então, para ficar com a avó durante a tarde, e pediu com uma carinha tão meiga que Cauê não teve como negar.  Ligou para casa e pediu para sua ajudante que aproveitasse para dar uma boa limpeza no quarto de Bia, para preparar para seu retorno à noite.

Já Bia, naturalmente, tinha más intenções ao pedir para ficar com a avó. Assim que o pai saiu, ela correu para os braços de Fernanda e pediu para que ela fizesse um bolo de chocolate. Fernanda deu uma parada para pensar e correu para a internet. Pediu à Bia que a ajudasse a achar uma receita de bolo de chocolate diet. Achada a receita, fizeram a lista do que tinham que comprar e foram ao mercado.

Como o mercado era bem pertinho de casa, não precisavam nem ir de carro. E, afinal, era pouco o que faltava, apenas açúcar diet, ou adoçante culinário. Mas Fernanda queria caminhar um pouco com a neta no mercado e mostrar a ela a quantidade de coisas que havia que ela podia comer, com moderação, mas podia.

Bia ficou feliz. Tinha até bala sem açúcar! Gelatina! Pudim! Tinha chocolate diet, mas este a nutricionista tinha falado para evitar devido ao excesso de gordura. Neste caso, melhor comer chocolate normal (com alto teor de chocolate, não achocolatado) em menor quantidade.

Depois de comprar umas balas diet para a neta e o necessário para o bolo, foram para casa felizes. A casa e a cozinha foram inundadas por risos e gargalhadas que nem de longe lembravam o stress vivido há pouco mais de dois dias, quando Bia ainda estava internada.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 28/08/2017 às 11h40 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - parte 10

Pediu à professora que tomasse um cuidado especial com a alimentação, evitando ao máximo possível os refrigerantes e dando preferência aos sucos naturais. Também deveriam ser evitados os alimentos industrializados e processados, como presuntos, requeijões, etc. O lanche ideal deveria conter uma fruta, uma fonte de carboidrato (que poderia ser pão integral), e proteínas, que poderia ser queijo branco ou ricota, por exemplo.

Claro que nos aniversários ficaria difícil limitar muito, mas seria interessante até mesmo trabalhar com o resto da turma a fim de estimular uma alimentação saudável para todos. Na verdade, as cantinas das escolas já possuem por lei a obrigação de oferecer somente salgados assados, já visando uma melhora na qualidade dos alimentos ofertados.

Mas lembrou também à professora que, conforme tinha sido explicado para ele pela equipe, o fator emocional era muito importante, então tanto estados de tristeza como os de muita alegria poderiam desencadear uma descompensação. Por isso a importância de ficar de olho principalmente nas variações de humor, bem como na quantidade água que ela ingeria e na frequência com que ia ao banheiro urinar.

Com vários anos de experiência no magistério, a professora Sandra apenas sorriu, tranquila. Tinha visto várias, inúmeras vezes, pais preocupados irem conversar sobre alguma particularidade dos filhos. Ela mesma tinha história de diabetes na família, e não era segredo para ela os cuidados necessários. Também conhecia sua turma, e sabia que cada vez mais os pequenos buscavam uma alimentação mais natural, como que instintivamente. Os últimos aniversários já tinham sido mais lights, com frutas, sucos, sanduíches naturais. Claro que sempre havia espaço para o bom e velho brigadeiro, mas não havia exagero.

Quando Cauê chegou na casa da mãe para almoçar, encontrou Fernanda atarefada na cozinha. Tinha feito um almoço especial para a neta, com um pouquinho de tudo para que ela pudesse provar vários alimentos. Uma salada bem colorida encontrava-se no centro da mesa, com folhas de vários tipos e cores. Outro prato com tomates, cenouras, pepinos... couve-flor cozida bem quentinha. Couve-manteiga refogada com alho e cebola bem picadinhos. Arroz integral, feijão bem cheiroso. E um frango grelhado daqueles que fazia a neta ficar com a boca cheia de água!

Bia não se conteve e deu um abraço apertado na vó. A mesa estava linda, e iria provar os alimentos, afinal estava morrendo de fome! Fernanda notou o apetite da neta e um leve tremor nas mãos. Falou para o filho que imediatamente fez o teste de glicose e verificou que estava baixo. Conforme orientação da nutricionista, como já estava próximo do horário do almoço, resolveram antecipar a refeição e sentar logo à mesa. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 18/08/2017 às 08h44 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - parte 9

               

                 Dr. Marcoti chegou no quarto no início da noite, quando todos já estavam ansiosos achando que ele não viria mais. Olhou para Beatriz de vestidinho e com a boneca no colo, e perguntou onde ela achava que ia sem dar um beijo nele! Beatriz sorriu e deu um beijo tímido no médico.

                Mais uma vez ele explicou a Cauê os cuidados que teria que ter, que deveria ligar em qualquer dúvida, e que gostaria que voltassem em seu consultório em uma semana com a agendinha com os resultados dos exames. Lembrou da importância de conversar sobre a situação na escola de Beatriz, orientando as professoras sobre como agir e para entrar em contato com a equipe do hospital, se necessário.

                Explicou que o hospital mantinha um grupo de apoio à criança diabética, onde tinham acompanhamento de enfermeiras, nutricionistas, psicólogas, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, enfim, o que fosse necessário para auxiliar a criança e a família a lidar com a situação. Neste contexto, a equipe da escola poderia entrar em contato com o grupo a fim de obter informações também.

                Dito isto, apertou a mão de Cauê, abraçou Fernanda e jogou um beijo para Beatriz. Deixou a receita da insulina e um bilhetinho atrás dela: “Não se esqueça que tudo tem uma compensação, agora você vai ter tudo especial para você! ”

 

 

                Naquela noite, Cauê colocou o relógio para despertar às 3 horas para fazer o teste de glicose, que felizmente estava de acordo. Assim, puderam voltar a dormir tranquilos. Acordaram cedo, no horário habitual, e primeiro fizeram o teste, depois, Cauê aplicou a insulina em Beatriz. Feito isto, a menina foi se arrumar enquanto o pai arrumava o café da manhã.

                Iriam juntos à escola para poder conversar com as professoras sobre os cuidados que ela teria a partir de agora. Passariam na farmácia e comprariam um outro aparelho de teste que ficaria sempre na mochila de Bia, assim não teria risco de esquecerem em casa.

                Bia estava ansiosa. Muita coisa havia mudado e queria mostrar para a professora e para os colegas como ela sabia fazer os testes e até aplicar a insulina sozinha. Cauê havia explicado que ela poderia aplicar sozinha, mas sob supervisão, ou seja, um adulto teria que ver a dosagem necessária e preparar a seringa para que ela aplicasse. Na verdade, Bia aplicava a insulina com uma caneta, o que era bem mais fácil, mas mesmo assim, somente podia aplicar com um adulto perto.

                Isto porque havia todos os cuidados, aplicar no local correto, cuidar da dosagem para não ter riscos de ficar com a glicose muito baixa ou muito alta, e até cuidar para não se machucar. Cauê explicou tudo isto à professora, mas também explicou que ela só teria que fazer um teste na escola após o lanche do intervalo, e que não seria necessário corrigir caso ela seguisse as orientações dadas pela nutricionista.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 11/08/2017 às 11h42 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - continuação

                  De acordo com a idade de Bia, os testes deveriam ficar em torno de 80 a 150 em jejum, menor que 190 duas horas após as refeições, entre 100 a 180 antes de deitar, e maior que 100 às 3 horas da manhã. É importante fazer o teste na madrugada porque na criança é mais difícil ver os sintomas de hipoglicemia (glicose baixa), e ela pode causar danos neurológicos irreversíveis se não for corrigida rapidamente.

                A enfermeira Janete mostrou para a menina e o pai a quantidade de insulina que seria aplicada todas as manhãs, e pediu ao pai que fizesse a picada simulando uma aplicação. Cauê tremeu. Nunca havia segurado uma seringa antes. Olhou então nos olhos da filha, que estava esperando ansiosa pela atitude dele, e tentando disfarçar a dor no peito, aplicou a picada conforme a enfermeira orientara.

               Filho é incrível. Quando a gente acha que não tem mais forças para nada, eles nos levantam de um jeito que ninguém mais conseguiria. Bia olhou para o pai e disse que estava orgulhosa que ele já sabia aplicar injeção, e que a dele tinha sido mais legal que a da outra enfermeira.

                Cauê sorriu com os olhos marejados... beijou a filha com amor, e agradeceu a Deus por ter este presente ao seu lado. Tudo valia a pena para ter este sorriso lindo de volta, para que ela pudesse voltar a ser a menina alegre e disposta que sempre fora.

 

                Fernanda chegou para ficar com a neta e viu que tinha algo diferente no ar. Viu um ar de cumplicidade entre pai e filha, aquele jeitinho de quem anda aprontando algo. Não resistiu e perguntou o que tinha de novidade.

                Beatriz pulou na cama e disse que ia para casa, mas que a outra novidade ela não ia contar. Fernanda fez cara triste, disse que não ia contar para ninguém, mas não adiantou. A menina fechou a boca e só sorria.

                Cauê então explicou. Tinha vencido seu medo de seringas e aplicado a insulina na filha. Já tinha aprendido a fazer o teste da glicose e já estava corrigindo com insulina rápida quando era necessário. Por isso podiam ir embora, estavam apenas aguardando o Dr. Marcoti chegar.

                Fernanda sorriu feliz. Era um verdadeiro alívio ver que a neta estava indo para casa bem, feliz, e que o filho estava tranquilo. Com certeza eles tinham muito mais força do que ela imaginava, e iriam superar mais este obstáculo unidos.  Aliás, cada vez mais unidos.

                Começou então a ajudar o filho a arrumar as coisas de Beatriz para irem para casa.  Pegou a neta no colo para levar ao banheiro, e notou que ela tinha ganho peso. Deu um abraço apertado na menina, que resmungou feliz. Ajudou a neta no banho, e pegou um vestido leve para que ela vestisse. Não pode deixar de notar as marcas de soro no bracinho, e nem as marquinhas das picadas nos dedinhos para ver a glicose.

                Daria tudo para passar por mais este sofrimento por eles, mas sabia que isso não era possível, e que só restava a ela estar ao lado, apoiar. E disso não abria mão. Cuidaria do filho e da neta até quando pudesse.

             

... continua na próxima semana.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 04/08/2017 às 08h09 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - continuação

Quando Bia acordou, encontrou a lembrança que a avó tinha deixado ao seu lado. Sorriu e pegou a boneca com carinho. Adorava brincar com bonecas, e esta estava vestida de enfermeira, como ela vinha querendo há algum tempo. Brincou um pouco com a boneca, mas logo a largou de lado. A soneca tinha sido gostosa, mas tinha feito com que perdesse o lanche da tarde, então, acordou com fome, e pediu ao pai algo para comer.

Num primeiro instinto, o pai perguntou o que ela queria. Em seguida, lembrou que estavam no hospital, e que agora a nutricionista que diria o que ela poderia comer. Pegou o telefone e ligou para a copa pedindo que trouxessem algo para a filha comer.

Depois de alguns instantes, a copeira entrou no quarto com uma maçã envolvida num guardanapo. Explicou que o jantar seria servido às 7 horas, e que às 19 horas viria a ceia.  Como Beatriz havia dormido, não comera o lanche da tarde, o que não era recomendado, já que ela poderia vir a fazer hipoglicemia. Ainda bem que faltava pouquinho tempo para o jantar!

O jantar veio pouco depois, na forma de uma sopa de legumes. Bia olhou para ela desanimada. Não gostava de sopa. Nunca tinha gostado. Junto, um pacotinho com duas torradas integrais.  Fez uma carinha meio de choro, que quase desmontou o pai. Então, para animar a menina, Cauê pegou uma torrada e passou manteiga. Colocou um pouco de sopa no prato e provou um pouquinho: deliciosa! Olhou para a filha e disse que se ela não comesse, quem ia comer era ele, que estava morrendo de fome. E ela sabia que se perdesse outra refeição poderia até passar mal...

E, assim, a contragosto, colocou uma colherada de sopa na boca. Depois outra, depois uma mordida na torrada, mais outra colherada... e quando viu, tinha tomado o prato todo! E, para sua surpresa, teve de admitir que a sopa não era ruim!

A noite passou tranquila, com melhora dos exames e menor necessidade de agulhadas de insulina. Bia já estava entendendo como funcionava o esquema de testes e correção conforme o teste. A enfermeira do plantão trouxe a ela um caderninho para anotar o valor que dava no teste e a quantidade de insulina que tinha que tomar conforme o valor. Assim, cada vez que fazia o teste, Bia já dizia ela mesma se precisava e quanto de insulina. Isso claro, com a ajuda do pai, já que a menina estava começando a aprender a ler.

Pela manhã, Dr. Marcoti passou e explicou que havia uma melhora importante, e que logo poderiam ir para casa. Falou que viria uma enfermeira conversar com eles e explicar como seria feita a aplicação da insulina. De início, ela iria aplicar somente pela manhã uma dose de insulina de ação lenta, a insulina NPH, e, depois, conforme os resultados dos testes, tomaria insulina de ação rápida. Os testes já estavam conhecidos de Beatriz, e não a assustavam mais, então, saber que teria que fazer quatro vezes ao dia era até bom, considerando que quando internou fez testes de hora em hora.

... continua na próxima semana.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 01/08/2017 às 08h05 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - continuação

 

             Cauê saiu meio tonto... era muita informação de uma única vez. Ficou pensando... lembrou do que o Dr. Marcoti tinha dito, que a incidência de diabetes em crianças estava aumentando muito, e que a participação da família era fundamental. Todos os cuidados exigiriam supervisão, e as consultas com os membros da equipe (médico, nutricionista, enfermeira, psicóloga), seriam uma rotina no tratamento.

                Parou, pensou, e seus olhos se encheram de lágrimas. Lidar com a perda da esposa tinha sido difícil. Criar Beatriz sozinho todos estes anos também. Embora tivesse uma ajudante em casa, sabia que a mãe fazia falta na vida da filha. Seu trabalho como advogado por um lado lhe dava flexibilidade com os horários; por outro, raramente chegava em casa antes das 20 horas, devido às audiências.

                Morar com Fernanda, como a mãe havia sugerido, também não estava nos seus planos. Não queria que a vida da filha fosse alterada desta maneira. Talvez a solução fosse encontrar alguém para trabalhar em casa em período integral. E essa pessoa teria que aprender também os cuidados com Beatriz...

               Abrindo a porta do quarto silenciosamente, Cauê viu a filha dormindo relaxada. Suas bochechas estavam rosadas, e seus lábios estavam úmidos. Sinais de que o diabetes estava controlado. Ao lado da cama, na mesinha, uma cestinha de flores do campo com uma bonequinha, presente de Fernanda para a única neta.

                Sorriu ao pensar na mãe. Imaginou o sofrimento dela vendo o filho criando a neta sozinho. Imaginou a angústia que ela devia estar sentindo agora, sabendo o que o aguardava e ao mesmo tempo, respeitando seu tempo para tomar as decisões. Com certeza, não teria conseguido chegar até aqui sem a ajuda dela. Quantas vezes havia ligado para a mãe no meio da noite para pedir alguma orientação sobre uma febre ou uma dor da filha?

                Fernanda sempre estava disposta. Sempre tinha uma palavra certa. Mãe 24 horas por dia, avó umas 48 horas por dia... Mesmo assim, seu sorriso deixava entrever uma nota de preocupação. Como se Cauê não a conhecesse!

 

... continua na próxima semana! 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 21/07/2017 às 11h01 | cereshmrc@gmail.com

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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)
















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