Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Você sabe o que é a Neuropatia Diabética?

 

Nesta semana, um pequeno intervalo na publicação do livro para esclarecer uma complicação comum do paciente com diabetes.

 

Com certeza você já viu ou soube de pessoas que tiveram que amputar o pé ou a perna devido ao diabetes. Mas você sabe porque isso acontece? 

 

           Talvez você até tenha ouvido alguém falar que foi devido a neuropatia diabética… Mas, você sabe como isto ocorre?

         Bom, vamos lá. Começando pelo conceito de diabetes, que já conversamos em outro artigo, vamos lembrar que a glicose (ou seja, o açúcar) é uma fonte de energia rápida para o organismo. Exatamente como o combustível para o carro, e da mesma forma, ela deve estar armazenada num “tanque” chamado célula. Sempre que a glicose estiver acima dos valores normais no sangue, ela vai “queimar” os locais por onde passar. E o sangue só não passa pelos cabelos e unhas, ou seja, todo o corpo sofre processos de “queimaduras” pela diabetes descompensada. Quando este sangue com alto índice de açúcar passa pelas artérias dos olhos causa a retinopatia diabética (que faz a visão ficar turva e pode levar a cegueira no estágio final), nas artérias do coração pode levar a lesão e ao infarto do miocárdio, e assim por diante.

        Mas voltando a neuropatia, imagine que os nossos nervos são como fios de energia elétrica. E a central fica no cérebro. Sempre que você for mexer o dedo da mão, vem uma ordem do cérebro, que caminha pelo nervo até o seu dedo e faz com que ele se mova. Exatamente como um interruptor de luz, que você aciona na parede ao seu lado e a lâmpada acende em outro local. Então, você pode imaginar que nossos nervos são semelhantes ao fio de luz, e exatamente como ele, possuem uma capa protetora para que não “dê choque”.

     No diabetes descompensado, o excesso de açúcar no sangue vai “corroendo” esta capa protetora, também conhecida como bainha de mielina, e com isto o nervo vai ficando exposto. E, como na fiação elétrica da casa da gente, quando um fio está desencapado primeiro ocorrem pequenos curtos, até que por fim o fio para de funcionar. No nosso corpo, o nervo “desencapado” causa primeiro um excesso de sensibilidade, que é quando a pessoa sente muitas dores no membro (principalmente nas pernas), e por fim a dor desaparece e é substituída por uma insensibilidade (porque o nervo parou de funcionar). Esta fase final é a mais grave, porque o paciente pode se machucar e não perceber, e a ferida acabar evoluindo até que seja necessária a amputação do membro.

    Por isso duas coisas são fundamentais para os diabéticos: controlar rigorosamente a glicemia a fim de evitar estas complicações e examinar diariamente os pés, que são os mais acometidos na neuropatia diabética. Dicas importantes a observar no cuidado com os pés em diabéticos:

  • cortar as unhas rentes a ponta do dedo e retas;
  • não retirar as cutículas;
  • não fazer escalda-pés;
  • não passar creme entre os dedos;
  • secar bem entre os dedos;
  • não caminhar descalço nem usar calçados abertos;
  • procurar seu médico ao notar qualquer alteração.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 15/07/2017 às 12h20 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - continuação

                  Naquela tarde, a nutricionista veio conversar com eles. Simpática, Patrícia começou com um bate papo gostoso, perguntando sobre o que Beatriz gostava de fazer, onde estudava, em que ano, essas coisas. Depois, questionou como era feito o lanche na escola, se a escola fornecia, se ela levava de casa, se costumava comprar... Propôs, então, um teste de memória, onde Beatriz teria que dizer tudo o que comeu nos últimos três dias, em todas as refeições.

                Beatriz achou tudo divertido, pois a nutricionista tinha um jeito especial para lidar com crianças e colher as informações necessárias para o tratamento. Assim, quando Patrícia pediu a ela que a acompanhasse à sala de nutrição para pesar e medir, ela nem reclamou. Aliás, dar uma voltinha fora do quarto parecia ser uma ótima ideia, conhecer um pouquinho daquele ambiente que ela nem tinha notado no dia anterior, quando internara.

                Na sala da nutricionista, Beatriz se encantou com quantidade de alimentos de silicone, tão bem feitos que pareciam de verdade. As frutas, tão lindas que até dava vontade de comer! Patrícia pegou um gráfico e começou a anotar os dados: peso, altura... Explicou que este tipo de avaliação seria frequente, já que a menina estava em fase de crescimento, e qualquer alteração do crescimento também poderia indicar necessidade de melhor controle da glicemia.

 

                Com sono, Beatriz voltou para o quarto enquanto Cauê ficou para receber a orientação nutricional.

A criança é como uma casa em construção, necessita de todos os nutrientes na medida certa para poder crescer. É necessário o fornecimento de energia, proteínas, gorduras essenciais, sais minerais e vitaminas para que se atinja esse objetivo. Por isso, a insulina deve ser adequada à alimentação e não se deve fazer dietas restritas em calorias ou carboidratos, explicou a nutricionista. Por isso, a necessidade de um inquérito alimentar como Patrícia havia feito, de três dias, a fim de poder verificar os hábitos e preferências alimentares dos pacientes.

                Nestes casos, o ideal é que a dieta contenha cerca de 50% de carboidratos (preferencialmente complexos: integrais, in natura), 30% de gorduras (saturada, monoinsaturada e poli-insaturada) e 15 a 20% de proteínas. De forma ideal, recomenda-se seis refeições diárias: quatro principais e duas menores (colação e ceia), a fim de evitar o jejum prolongado e a consequente ingesta abusiva na refeição seguinte.

                Explicou também que existe uma opção de dieta que é a contagem de carboidratos, mas que teria que ter um controle mais rigoroso da glicemia, com o uso de insulina de ação ultrarrápida ou rápida, ou mesmo o uso de bombas de infusão contínua de insulina. Claro que isso daria maior flexibilidade na dieta, mas também haveria o risco da obesidade e da dislipidemia (descontrole nos níveis de colesterol e triglicerídeos) no caso de algum descuido na dieta ou na dose de insulina. Além disso, o acompanhamento de uma nutricionista seria mais rigoroso.

                No entanto, o mais importante é que a alimentação não poderia aprisionar a criança, privando-a de ter uma vida social, ir a festinhas de aniversário, por exemplo. Cuidados deveriam ser tomados, verificando os níveis de açúcar antes e após as festas para correção, mas a vida deveria seguir dentro da rotina normal tanto quanto possível.

                Patrícia alertou também para cuidar com o exagero no uso dos produtos dietéticos, que muitas vezes não contem açúcar, mas são ricos em gorduras, por exemplo, ou contém quantidades excessivas de edulcorantes (adoçantes artificiais).

 

... continua na próxima semana.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 15/07/2017 às 10h58 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - continuação do capítulo 2

                    Naquela tarde, a nutricionista veio conversar com eles. Simpática, Patrícia começou com um bate papo gostoso, perguntando sobre o que Beatriz gostava de fazer, onde estudava, em que ano, essas coisas. Depois, questionou como era feito o lanche na escola, se a escola fornecia, se ela levava de casa, se costumava comprar... Propôs, então, um teste de memória, onde Beatriz teria que dizer tudo o que comeu nos últimos três dias, em todas as refeições.

                   Beatriz achou tudo divertido, pois a nutricionista tinha um jeito especial para lidar com crianças e colher as informações necessárias para o tratamento. Assim, quando Patrícia pediu a ela que a acompanhasse à sala de nutrição para pesar e medir, ela nem reclamou. Aliás, dar uma voltinha fora do quarto parecia ser uma ótima ideia, conhecer um pouquinho daquele ambiente que ela nem tinha notado no dia anterior, quando internara.

                  Na sala da nutricionista, Beatriz se encantou com quantidade de alimentos de silicone, tão bem feitos que pareciam de verdade. As frutas, tão lindas que até dava vontade de comer! Patrícia pegou um gráfico e começou a anotar os dados: peso, altura... Explicou que este tipo de avaliação seria frequente, já que a menina estava em fase de crescimento, e qualquer alteração do crescimento também poderia indicar necessidade de melhor controle da glicemia.

                 Com sono, Beatriz voltou para o quarto enquanto Cauê ficou para receber a orientação nutricional.

 

                A criança é como uma casa em construção, necessita de todos os nutrientes na medida certa para poder crescer. É necessário o fornecimento de energia, proteínas, gorduras essenciais, sais minerais e vitaminas para que se atinja esse objetivo. Por isso, a insulina deve ser adequada à alimentação e não se deve fazer dietas restritas em calorias ou carboidratos, explicou a nutricionista. Por isso, a necessidade de um inquérito alimentar como Patrícia havia feito, de três dias, a fim de poder verificar os hábitos e preferências alimentares dos pacientes.

               Nestes casos, o ideal é que a dieta contenha cerca de 50% de carboidratos (preferencialmente complexos: integrais, in natura), 30% de gorduras (saturada, monoinsaturada e poli-insaturada) e 15 a 20% de proteínas. De forma ideal, recomenda-se seis refeições diárias: quatro principais e duas menores (colação e ceia), a fim de evitar o jejum prolongado e a consequente ingesta abusiva na refeição seguinte.

               Explicou também que existe uma opção de dieta que é a contagem de carboidratos, mas que teria que ter um controle mais rigoroso da glicemia, com o uso de insulina de ação ultrarrápida ou rápida, ou mesmo o uso de bombas de infusão contínua de insulina. Claro que isso daria maior flexibilidade na dieta, mas também haveria o risco da obesidade e da dislipidemia (descontrole nos níveis de colesterol e triglicerídeos) no caso de algum descuido na dieta ou na dose de insulina. Além disso, o acompanhamento de uma nutricionista seria mais rigoroso.

             No entanto, o mais importante é que a alimentação não poderia aprisionar a criança, privando-a de ter uma vida social, ir a festinhas de aniversário, por exemplo. Cuidados deveriam ser tomados, verificando os níveis de açúcar antes e após as festas para correção, mas a vida deveria seguir dentro da rotina normal tanto quanto possível.

             Patrícia alertou também para cuidar com o exagero no uso dos produtos dietéticos, que muitas vezes não contem açúcar, mas são ricos em gorduras, por exemplo, ou contém quantidades excessivas de edulcorantes (adoçantes artificiais).

 

            Cauê saiu meio tonto... era muita informação de uma única vez. Ficou pensando... lembrou do que o Dr. Marcoti tinha dito, que a incidência de diabetes em crianças estava aumentando muito, e que a participação da família era fundamental. Todos os cuidados exigiriam supervisão, e as consultas com os membros da equipe (médico, nutricionista, enfermeira, psicóloga), seriam uma rotina no tratamento.

             Parou, pensou, e seus olhos se encheram de lágrimas. Lidar com a perda da esposa tinha sido difícil. Criar Beatriz sozinho todos estes anos também. Embora tivesse uma ajudante em casa, sabia que a mãe fazia falta na vida da filha. Seu trabalho como advogado por um lado lhe dava flexibilidade com os horários; por outro, raramente chegava em casa antes das 20 horas, devido às audiências.

            Morar com Fernanda, como a mãe havia sugerido, também não estava nos seus planos. Não queria que a vida da filha fosse alterada desta maneira. Talvez a solução fosse encontrar alguém para trabalhar em casa em período integral. E essa pessoa teria que aprender também os cuidados com Beatriz...

          Abrindo a porta do quarto silenciosamente, Cauê viu a filha dormindo relaxada. Suas bochechas estavam rosadas, e seus lábios estavam úmidos. Sinais de que o diabetes estava controlado. Ao lado da cama, na mesinha, uma cestinha de flores do campo com uma bonequinha, presente de Fernanda para a única neta.

         Sorriu ao pensar na mãe. Imaginou o sofrimento dela vendo o filho criando a neta sozinho. Imaginou a angústia que ela devia estar sentindo agora, sabendo o que o aguardava e ao mesmo tempo, respeitando seu tempo para tomar as decisões. Com certeza, não teria conseguido chegar até aqui sem a ajuda dela. Quantas vezes havia ligado para a mãe no meio da noite para pedir alguma orientação sobre uma febre ou uma dor da filha?

         Fernanda sempre estava disposta. Sempre tinha uma palavra certa. Mãe 24 horas por dia, avó umas 48 horas por dia... Mesmo assim, seu sorriso deixava entrever uma nota de preocupação. Como se Cauê não a conhecesse!

 

 

Continua na próxima semana...

Escrito por Céres Fabiana Felski, 14/07/2017 às 23h23 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - continuação do capítulo 2

                       

 

                       Como Fernanda já estava durante o dia com a neta, ele disse que passaria a noite com ela. Fernanda ainda questionou se ele não queria ir para casa descansar, e voltar pela manhã, já que nada seria feito durante a noite.

                   Cauê negou e preferiu ficar com Beatriz, já que ela faria vários testes durante a noite e ele sabia que ela ficava mais tranquila na presença do pai. Hesitante, Fernanda foi embora, prometendo que voltaria pela manhã para que o filho pudesse descansar um pouco.

                   Realmente, as picadinhas do glicosímetro (aparelho que mede os níveis de glicose no sangue), foram realizadas praticamente a noite toda. Cansada, Beatriz nem reclamava, apenas esticava a mãozinha cada vez que a enfermeira entrava.

                   Numa das vezes, Cauê pediu para medir a dele também, até para saber se doía a picada. Beatriz olhou para o pai quando ele esticou o dedo e disse a ele para ficar tranquilo, que não doía nada. Realmente, a picada era insignificante. Ficou mais tranquilo, então.

                  Como cada vez que o teste estava alto era aplicada insulina (que Beatriz disse também não doer), ela praticamente não levantou para urinar e, não fossem as picadas, teria tido um sono absolutamente tranquilo. Aliás, a face dela já parecia estar diferente, voltando ao tom rosado que tinha antes. Ao beijar mais uma vez o rosto da filha, Cauê notou que até seu hálito havia mudado.

 

 

                   Quando Dr. Marcoti chegou, pela manhã, encontrou uma Beatriz mais parecida com a que ele conhecia, sorrindo. Reclamou apenas do café da manhã, com pão integral e com adoçante. E cadê a geleia? Um docinho pelo menos? Vou ter que comer ISTO todo dia?

                  O médico sorriu, era essa a menina que ele conhecia, espontânea, ativa. Olhou os resultados dos testes feitos durante a noite, e calculou a quantidade de insulina que ela começaria a tomar todas as manhãs. Sem perder tempo, Beatriz imediatamente perguntou se, tomando as injeções, poderia voltar a comer tudo o que gostava.

                 Cauê sentiu um aperto no peito. Ela era jovem demais para absorver o que estava acontecendo. Para entender que sua vida iria mudar. Que a vida de todos que a amavam iria mudar. Para sempre. Explicou à filha que não era bem assim, que teria que fazer as injeções para não passar mal de novo. Mas que se comesse tudo o que queria, teria que tomar cada vez mais insulina.

                 Triste, ela olhou para Dr. Marcoti buscando consolo nos olhos do médico, que apenas confirmou o que o pai tinha dito. Mas disse a ela que existiam vários produtos diet que ela poderia consumir.

-- Diet? Mas eu não sou gorda, e já emagreci bastante... – choramingou a menina.

                Dr. Marcoti então explicou que diet é um produto do qual foi retirado totalmente um nutriente, por exemplo, no caso, o açúcar. E que poderia comer brigadeiro feito com adoçante, bolos com adoçante, etc. Claro que tudo isso sem exagero, de qualquer forma. E, embora pareça, nada disto tem gosto ruim.

                Nesta hora, Cauê disse a ela que iria comprar alguns produtos para que ela pudesse sentir o sabor. Conversou então com o médico e disse que havia notado a melhora importante da filha, até mesmo no hálito, que havia mudado.

               Quando ele mencionou o hálito, Dr. Marcoti falou que este é um sintoma de diabetes descompensado, quando o odor fica “frutado”, um cheiro de fruta mesmo. Quando isto acontece, deve-se procurar o médico o mais breve possível.

              Cauê perguntou quanto tempo ainda ficariam no hospital, e o médico disse que o tempo necessário para definir a dose de insulina, ou seja, mais um ou dois dias. Neste período, teriam também que aprender a aplicar a insulina corretamente e sozinhos. Além disso, seria necessário fazer a consulta com a nutricionista, e mudar o estilo de vida, aumentando as atividades físicas.

 

 

 

 

Continua na próxima semana...

Escrito por Céres Fabiana Felski, 29/06/2017 às 23h16 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - continuação

              Quando Bia acordou, encontrou a lembrança que a avó tinha deixado ao seu lado. Sorriu e pegou a boneca com carinho. Adorava brincar com bonecas, e esta estava vestida de enfermeira, como ela vinha querendo há algum tempo. Brincou um pouco com a boneca, mas logo a largou de lado.

             A soneca tinha sido gostosa, mas tinha feito com que perdesse o lanche da tarde, então, acordou com fome, e pediu ao pai algo para comer.

            Num primeiro instinto, o pai perguntou o que ela queria. Em seguida, lembrou que estavam no hospital, e que agora a nutricionista que diria o que ela poderia comer. Pegou o telefone e ligou para a copa pedindo que trouxessem algo para a filha comer.

            Depois de alguns instantes, a copeira entrou no quarto com uma maçã envolvida num guardanapo. Explicou que o jantar seria servido às 17 horas, e que às 19 horas viria a ceia. Como Beatriz havia dormido, não comera o lanche da tarde, o que não era recomendado, já que ela poderia vir a fazer hipoglicemia. Ainda bem que faltava pouquinho tempo para o jantar!

           O jantar veio pouco depois, na forma de uma sopa de legumes. Bia olhou para ela desanimada. Não gostava de sopa. Nunca tinha gostado. Junto, um pacotinho com duas torradas integrais. Fez uma carinha meio de choro, que quase desmontou o pai. Então, para animar a menina, Cauê pegou uma torrada e passou manteiga. Colocou um pouco de sopa no prato e provou um pouquinho: deliciosa! Olhou para a filha e disse que se ela não comesse, quem ia comer era ele, que estava morrendo de fome. E ela sabia que se perdesse outra refeição poderia até passar mal...

           E, assim, a contragosto, colocou uma colherada de sopa na boca. Depois outra, depois uma mordida na torrada, mais outra colherada... e quando viu, tinha tomado o prato todo! E, para sua surpresa, teve de admitir que a sopa não era ruim!

           A noite passou tranquila, com melhora dos exames e menor necessidade de agulhadas de insulina. Bia já estava entendendo como funcionava o esquema de testes e correção conforme o teste. A enfermeira do plantão trouxe a ela um caderninho para anotar o valor que dava no teste e a quantidade de insulina que tinha que tomar conforme o valor. Assim, cada vez que fazia o teste, Bia já dizia ela mesma se precisava e quanto de insulina. Isso claro, com a ajuda do pai, já que a menina estava começando a aprender a ler.

           Pela manhã, Dr. Marcoti passou e explicou que havia uma melhora importante, e que logo poderiam ir para casa. Falou que viria uma enfermeira conversar com eles e explicar como seria feita a aplicação da insulina. De início, ela iria aplicar somente pela manhã uma dose de insulina de ação lenta, a insulina NPH, e, depois, conforme os resultados dos testes, tomaria insulina de ação rápida. Os testes já estavam conhecidos de Beatriz, e não a assustavam mais, então, saber que teria que fazer quatro vezes ao dia era até bom, considerando que quando internou fez testes de hora em hora.

             De acordo com a idade de Bia, os testes deveriam ficar em torno de 80 a 150 em jejum, menor que 190 duas horas após as refeições, entre 100 a 180 antes de deitar, e maior que 100 às 3 horas da manhã. É importante fazer o teste na madrugada porque na criança é mais difícil ver os sintomas de hipoglicemia (glicose baixa), e ela pode causar danos neurológicos irreversíveis se não for corrigida rapidamente.

            A enfermeira Janete mostrou para a menina e o pai a quantidade de insulina que seria aplicada todas as manhãs, e pediu ao pai que fizesse a picada simulando uma aplicação. Cauê tremeu. Nunca havia segurado uma seringa antes. Olhou então nos olhos da filha, que estava esperando ansiosa pela atitude dele, e tentando disfarçar a dor no peito, aplicou a picada conforme a enfermeira orientara.

           Filho é incrível. Quando a gente acha que não tem mais forças para nada, eles nos levantam de um jeito que ninguém mais conseguiria. Bia olhou para o pai e disse que estava orgulhosa que ele já sabia aplicar injeção, e que a dele tinha sido mais legal que a da outra enfermeira.

           Cauê sorriu com os olhos marejados... beijou a filha com amor, e agradeceu a Deus por ter este presente ao seu lado. Tudo valia a pena para ter este sorriso lindo de volta, para que ela pudesse voltar a ser a menina alegre e disposta que sempre fora.

Continua na próxima semana...

Escrito por Céres Fabiana Felski, 23/06/2017 às 23h30 | cereshmrc@gmail.com

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É como se fosse doce - capítulo 2

                              Embora respeitassem a vontade do filho de criar Beatriz sozinho, Fernanda e o marido não conseguiram deixar de se preocupar. Discutiram em casa o assunto e foram estudar as formas de tratamento. Questionaram se não havia possibilidade do diagnóstico estar errado, conversaram com amigos e foram procurar na internet.

                              Tudo apontava para o diagnóstico dado. Principalmente o fato dos sintomas terem surgido rapidamente, como eles mesmos tinham reparado. Acharam que o problema era mudança de escola, mas não era. Por algum motivo desconhecido, o sistema imunológico dela, aquele que deveria justamente defender seu corpo das agressões externas, havia destruido parte das células beta no pâncreas, que são as produtoras de insulina.

                              Ainda meio hesitante, sem querer invadir o espaço de Cauê, Fernanda ligou para o filho e se dispôs a ficar com Beatriz no hospital para que ele pudesse trabalhar. Cauê não queria sair de perto da filha, mas acabou concordando com a mãe que deveria ir ao trabalho, até para deixar tudo organizado, já que não sabia quando poderia voltar. O medo de perder a filha era maior que tudo, e ele não ficaria longe dela de jeito nenhum.

                               Cauê foi junto com a mãe fazer a internação de Beatriz, e, depois de ter certeza que estava tudo bem e que a filha estava tranquila, como seria apenas feita a coleta de novos exames, foi até o trabalho.

                               No seu escritório de advocacia, vários processos aguardavam por ele. Olhou desanimado para a pilha que só crescia em sua mesa. Olhou ao redor, viu seus títulos pendurados nas paredes. Nada daquilo fazia sentido naquele momento. Já havia perdido a esposa, não poderia correr o risco de perder a filha. Tudo o que fazia era pensando nela, buscando dar a ela o melhor que pudesse. Embora seus amigos procurassem convencê-lo a sair, a se divertir e quem sabe até conhecer alguém, Cauê não se achava pronto ainda para isso. Não enquanto Beatriz não fosse grande o suficiente. Não enquanto ela não tivesse sua própria vida.

                              Depois de alguns minutos só, chamou seu assessor e começou a encaminhar as diligências mais urgentes. Pediu então que seu sócio viesse à sua sala e, a portas fechadas, explicou o que estava acontecendo. Discutiu os casos que estavam em andamento, e solicitou que ele assumisse enquanto ele se dedicava a cuidar da filha. Disse que permaneceria com o celular ligado, e que qualquer coisa era só ligar para ele.

                             Ligou também para os clientes e explicou a situação, que teria que se afastar por alguns dias para cuidar da filha, mas que seu sócio assumiria seus casos por enquanto. Deu a eles a garantia de estar monitorando o andamento dos processos de qualquer forma.

                             Tudo resolvido, voltou para o  hospital. Beatriz estava deitada na cama, com um frasco de soro pendurado ao lado e que escorria por um cano até entrar por uma agulha em seu braço. Fernanda explicou que os exames tinham sido colhidos, e que ela havia feito exame através da picada de uma agulha bem pequena no dedo, que fornecia uma gota de sangue para o cálculo imediato da glicemia.

                             Conforme o Dr Marcoti tinha dito, este exame seria realizado várias vezes ao dia, para determinar a quantidade de insulina que seria necessária para ela. Este exame também diria em que horário, preferencialmente, a insulina seria aplicada.

                             Cauê sentou-se ao lado da filha, acariciou sua face cansada, e mais uma vez notou como ela havia emagrecido. Seu sorriso estava pálido, triste. Pensou em tudo que a filha gostava e que não poderia mais comer. Pensou nas festinhas infantis, nos brigadeiros, docinhos, sorvetes...

Continua na próxima semana!

Escrito por Céres Fabiana Felski, 23/06/2017 às 22h11 | cereshmrc@gmail.com

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Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)
















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