Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

É como se fosse doce - continuação

                  De acordo com a idade de Bia, os testes deveriam ficar em torno de 80 a 150 em jejum, menor que 190 duas horas após as refeições, entre 100 a 180 antes de deitar, e maior que 100 às 3 horas da manhã. É importante fazer o teste na madrugada porque na criança é mais difícil ver os sintomas de hipoglicemia (glicose baixa), e ela pode causar danos neurológicos irreversíveis se não for corrigida rapidamente.

                A enfermeira Janete mostrou para a menina e o pai a quantidade de insulina que seria aplicada todas as manhãs, e pediu ao pai que fizesse a picada simulando uma aplicação. Cauê tremeu. Nunca havia segurado uma seringa antes. Olhou então nos olhos da filha, que estava esperando ansiosa pela atitude dele, e tentando disfarçar a dor no peito, aplicou a picada conforme a enfermeira orientara.

               Filho é incrível. Quando a gente acha que não tem mais forças para nada, eles nos levantam de um jeito que ninguém mais conseguiria. Bia olhou para o pai e disse que estava orgulhosa que ele já sabia aplicar injeção, e que a dele tinha sido mais legal que a da outra enfermeira.

                Cauê sorriu com os olhos marejados... beijou a filha com amor, e agradeceu a Deus por ter este presente ao seu lado. Tudo valia a pena para ter este sorriso lindo de volta, para que ela pudesse voltar a ser a menina alegre e disposta que sempre fora.

 

                Fernanda chegou para ficar com a neta e viu que tinha algo diferente no ar. Viu um ar de cumplicidade entre pai e filha, aquele jeitinho de quem anda aprontando algo. Não resistiu e perguntou o que tinha de novidade.

                Beatriz pulou na cama e disse que ia para casa, mas que a outra novidade ela não ia contar. Fernanda fez cara triste, disse que não ia contar para ninguém, mas não adiantou. A menina fechou a boca e só sorria.

                Cauê então explicou. Tinha vencido seu medo de seringas e aplicado a insulina na filha. Já tinha aprendido a fazer o teste da glicose e já estava corrigindo com insulina rápida quando era necessário. Por isso podiam ir embora, estavam apenas aguardando o Dr. Marcoti chegar.

                Fernanda sorriu feliz. Era um verdadeiro alívio ver que a neta estava indo para casa bem, feliz, e que o filho estava tranquilo. Com certeza eles tinham muito mais força do que ela imaginava, e iriam superar mais este obstáculo unidos.  Aliás, cada vez mais unidos.

                Começou então a ajudar o filho a arrumar as coisas de Beatriz para irem para casa.  Pegou a neta no colo para levar ao banheiro, e notou que ela tinha ganho peso. Deu um abraço apertado na menina, que resmungou feliz. Ajudou a neta no banho, e pegou um vestido leve para que ela vestisse. Não pode deixar de notar as marcas de soro no bracinho, e nem as marquinhas das picadas nos dedinhos para ver a glicose.

                Daria tudo para passar por mais este sofrimento por eles, mas sabia que isso não era possível, e que só restava a ela estar ao lado, apoiar. E disso não abria mão. Cuidaria do filho e da neta até quando pudesse.

             

... continua na próxima semana.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 04/08/2017 às 08h09 | cereshmrc@gmail.com

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Céres Fabiana Felski

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Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)
















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